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Tese destaque USP: unidos pela escravidão

A página do Ciência USP lançou uma série de quatro vídeos buscando resumir uma das melhores teses da USP defendidas em 2016: a do doutor Tâmis Peixoto Parron, intitulada “A política da escravidão na era da liberdade: Estados Unidos, Brasil e Cuba, 1787-1846”. Como descrito na página, a tese mostra que esses países usaram laços comerciais para sustentar a política escravocrata, apesar de o século XIX ser marcado pela aspiração à liberdade.

Repercuto aqui os vídeos, sobretudo, por ver dia após dia inúmeros equívocos de interpretação sobre a escravidão africana e o escravismo sendo divulgados na Internet, alimentando pessoas que tentam minimizar os efeitos da escravidão na formação das sociedades americanas sob o argumento de que “eram os próprios africanos quem capturavam, escravizavam e vendiam os negros para os europeus”.

Portanto, recomendo vivamente a todos que dispuserem de alguns minutos para assistirem a esses vídeos, que o façam e reflitam sobre tudo o que têm ouvido por aí na Internet.

DICA: Lembrem-se, em primeiro lugar, que a “escravidão africana” não é um fenômeno homogêneo, isto é, diferentes períodos trazem particularidades que não permitem compreender o escravismo praticado nos séculos XV e XVI da mesma forma que aquele praticado no século XIX. Os vídeos aqui compartilhados tratam, sobretudo, do período final, que se estende de 1787 a 1846.

VÍDEO 1: Cuba, Estados Unidos, Brasil: unidos pela escravidão.

VÍDEO 2: Unidos pela escravidão: a crise do Misouri

VÍDEO 3: A crise da nulificação

VÍDEO 4: História Total: uma inovação na produção acadêmica

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Novas tentativas de relativizar os efeitos da escravidão africana na formação de sociedades contemporâneas da América

Tenho constatado com muita preocupação o aparecimento de muitas pessoas que, tomando como base péssimos livros de “história”, opiniões de Olavo de Carvalho e outros tantos vídeos mal intencionados divulgados pela Internet, buscam minimizar os efeitos nefastos que a escravidão africana legou à formação de sociedades contemporâneas na América. Para isso, utilizam basicamente três argumentos:

  1. Já havia escravidão na África antes da chegada dos europeus;
  2. Os próprios africanos eram os que entravam no interior do continente para capturar outros africanos e vendê-los aos europeus;
  3. Europeus também foram escravizados por africanos entre os séculos XVI e XVIII.

O objetivo de quem usa esse tipo de argumentação é claro, buscam, sobretudo, deslegitimar políticas de ações afirmativas movidas pelo Estado que visam corrigir desigualdades atuais cujas raízes remontam ao sistema escravista europeu. Ao fim de suas argumentações, quase sempre concluem acusando os afrodescendentes de serem “vitimistas” ou “coitadistas” que buscam tirar vantagens a partir da história de sofrimento de seus antepassados.

Pois bem, para não cairmos nessas falácias e argumentações rasas, considero que seja bastante importante dar um pouco mais de atenção a este assunto por aqui, pois percebi que ainda hoje há uma série de pessoas com muitas dúvidas na cabeça em relação ao tema.

Em primeiro lugar, e acho que nem precisaria dizer isso aqui, mas há quem questione quando não vê isso explícito em meus textos. Não estou discutindo a moralidade da escravidão, isto é, se a escravidão negra foi moralmente pior do que a branca ou vice-versa, nem tentando argumentar qual foi mais repugnante que a outra. Não se trata disso. Do ponto de vista moral e, sobretudo, por eu ser um homem da virada do século XX para o XXI, é evidente que eu julgo qualquer tipo de escravidão condenável. No entanto, a discussão a seguir é sobre os efeitos que o histórico da escravidão africana legou à conformação de sociedades americanas tais como o Brasil e os Estados Unidos, por exemplo, e não qual escravidão é pior ou melhor que outra.

Em seguida, é preciso lembrar que a escravidão existe desde a antiguidade, podendo ser observada na formação das diferentes sociedades do mundo antigo como os hititas, os babilônios, os egípcios, os gregos e os romanos, por exemplo. No entanto, a forma de escravização do mundo antigo estava relacionada com as guerras e batalhas que essas sociedades moviam umas contra as outras. Os indivíduos que fossem capturados em batalha, bem como mulheres e crianças presos após uma guerra, eram escravizados pelos vencedores. Não havia, por assim dizer, uma busca continuada por escravos em um determinado lugar para oferecê-los em um mercado e comercializá-los para servirem de mão-de-obra em outro.

Portanto, assim como existia no mundo antigo na Europa e no Oriente Médio, a escravidão também existia na África e na América mesmo antes dos europeus haverem chegado nesses continentes. Populações desses locais também moviam guerras contra seus inimigos e, aqueles que fossem capturados em batalhas, eram escravizados e obrigados a realizar trabalhos forçados, quando não fossem sacrificados em algum ritual religioso.

No entanto, com a chegada do europeu nos continentes africano e americano no decorrer do século XV, a escravidão mudará completamente de feição. Tanto que os historiadores passam a denominá-la de escravidão moderna para diferenciá-la do modelo antigo de escravidão praticado antes dela.

Com a descoberta de ouro e prata na América e o início da colonização europeia no continente, que trouxe consigo as grandes plantações de cana-de-açúcar, tabaco e outros produtos para abastecer o mercado europeu, logo se viu que seria necessário o emprego de grande número de mão-de-obra. Embora alguns nativos do continente americano tenham trabalhado, compulsoriamente ou não, nesses empreendimentos europeus, a demanda pelos produtos americanos eram tão grandes, sobretudo a de ouro e prata, que exigia o emprego cada vez maior de mão-de-obra. Como se sabe, a solução encontrada foi o emprego de escravos que, aprisionados na África, eram transplantados para a América a fim de trabalharem nas minas e plantações. A seguir, o mapa com as principais rotas do tráfico negreiro entre os séculos XVI e XIX.

Rotas do trafico negreiro

Principais rotas do tráfico negreiro entre séculos XVI e XIX.

Aqui é importante lembrar que a Igreja Católica teve um papel fundamental na determinação de que o escravo empregado nos trabalhos na América fossem africanos, uma vez que ela proibia a escravização de indígenas por considerar que esses grupos ainda não conheciam o cristianismo e deveriam ter a oportunidade de se catequizar. Por outro lado, a escravização dos africanos era justificada pela Igreja como um castigo divino, uma vez que os diversos povos daquele continente já havia travado contato com o cristianismo e, ainda assim, preferiam manter suas religiões politeístas ou o islamismo.

Vê-se, desta forma, que a escravidão moderna tinha três aspectos que lhe são bastante característicos:

  1. O escravo era uma mercadoria que podia ser comercializada e herdada;
  2. A existência de um mercado de escravos transatlântico;
  3. A racialização da escravidão.

Analisadas em conjunto essas características revelam a existência de um verdadeiro sistema escravista que nos permite compreender a razão de mais de 12 milhões de africanos terem sido violentamente aprisionados, escravizados e trasladados para outros continentes: o acúmulo de riquezas na Europa. A escravidão moderna, portanto, é apenas uma engrenagem de um sistema muito mais amplo cujo principal fim era garantir o enriquecimento das monarquias europeias e dos muitos envolvidos nas atividades de exploração e colonização do continente americano.

Com isso em mente, podemos voltar à questão que deu origem a este post, isto é, o fato de algumas pessoas pretenderem minimizar os efeitos da escravidão africana na conformação de sociedades contemporâneas, tais como o Brasil e os Estados Unidos, por exemplo, argumentando que já havia escravidão na África muito antes de os europeus chegarem ao continente; que mesmo durante os séculos XV e XIX eram os próprios africanos quem aprisionavam os escravos para comercializá-los aos europeus e, por fim, que norte-africanos também escravizaram europeus por séculos, fazendo-os trabalhar compulsoriamente no norte da África.

Ora, como vimos, a escravidão antiga difere grandemente da escravidão moderna, de modo que alegar que já havia escravidão na África antes de os europeus chegarem ao continente, não diminui o fato de que o sistema escravista criado pelos europeus a partir do século XV foi o responsável pela transposição dos milhões de africanos para o continente africano e, em decorrência disso, pelas consequências do escravismo na formação das distintas sociedades americanas onde houve uso em grande escala de mão-de-obra africana. Mesmo a escravidão promovida pela expansão muçulmana sobre a Península Ibérica, por exemplo, pode ser classificada como uma escravidão de tipo antigo, uma vez que os europeus escravizados eram os indivíduos capturados após terem sido derrotados em batalhas, para não mencionar a existência de um mercado escravista.

Quanto à segunda argumentação, o fato dos próprios africanos irem ao interior do continente para aprisionar e, posteriormente, comercializar os prisioneiros como escravos aos europeus, ela apenas indica mais um agravante do sistema escravista criado pelos europeus que, ao entrar em vigor, transformou o modo de escravidão antiga que existia na África, para atender suas demandas e interesses. É a existência do mercado transatlântico de escravos que demanda a necessidade crescente de mão-de-obra e, por conseguinte, a busca de novos escravos no interior do continente africano. Se antes da chegada do europeu os escravos eram apenas aqueles que eram capturados nas batalhas constantes entre os diversos grupos que viviam na região, agora a captura de pessoas buscava, sobretudo, atender ao mercado negreiro.

Por fim, quanto a última argumentação, a de que norte-africanos muçulmanos escravizaram europeus por cerca de três séculos, uma vez mais se faz necessário comparar os modelos de escravidão empregados pelos norte-africanos e pelos europeus. No caso dos primeiros, trata-se de corsários que capturavam embarcações no Mar Mediterrâneo e aprisionavam suas tripulações, levando-as como escravos para trabalharem onde atualmente se encontram o Marrocos, a Líbia, a Tunísia e a Argélia. Outra forma de se obter escravos eram os ataques surpresas movidos a cidades europeias localizadas nas costas do Mediterrâneo ou do Atlântico, capturando centenas de pessoas que tinham o mesmo destino das anteriores.  Recentemente, Robert Davis, um historiador que estuda o tema levantou uma estimativa, bastante incerta, de que cerca de um milhão de europeus possam ter sido escravizados por norte-africanos entre os séculos XVI e XVIII (ver matéria sobre o assunto publicado na Folha e no The Guardian). No entanto, esses corsários não atacavam apenas europeus, mas também eslavos e africanos da costa oeste, o que torna os números reais de europeus ocidentais escravizados bastante controverso. Independentemente disso, deve-se considerar que no caso da escravidão promovida por norte-africanos:

  1. Os escravos eram capturados em ataques promovidos pelos corsários em mar ou na terra;
  2. Não havia um mercado de escravos;
  3. A escravidão não era racializada.

Tais características acabaram por determinar não apenas um número bastante menor de escravos europeus levados para o norte da África, mas também não teve consequências significativas para a formação de sociedades contemporâneas quer na África, quer na Europa Ocidental, ao contrário do que ocorreu no caso África – América. Assim, quando argumentar que os africanos escravizaram europeus buscando minimizar os efeitos da escravidão africana em sociedades contemporâneas na América você sempre poderá contestar perguntado:

  1. Há, ainda hoje, algum efeito perceptível da escravidão promovida por africanos a europeus nas sociedades americanas onde a força de trabalho desses escravos foi empregada?
  2. Nas sociedades americanas atuais, há descendentes desses europeus que foram escravizados por africanos que sejam discriminados em decorrência desse passado escravista?

As respostas a essas perguntas, evidentemente, serão dois “nãos”, o que nos ajuda a concluir facilmente que erra quem pretende minimizar os efeitos da escravidão africana em sociedades americanas contemporâneas argumentando que os africanos escravizaram europeus, já que os modelos de escravidão empregados por europeus e norte-africanos eram bem distintos e, como não podia deixar de ser, os efeitos da escravidão promovida por estes últimos é pouco significativa se comparada aos efeitos da escravização europeia que, ainda hoje, marcam profundamente a vida de afrodescendentes nascidos na América.

Espero que esse post possa ter contribuído para esclarecer algumas dúvidas em relação aos modelos de escravidão empregados na antiguidade e na época moderna, bem como possa ajudar a refletir quando alguém pretender minimizar os efeitos da escravidão africana na formação de sociedades americanas contemporâneas argumentando a ocorrência de escravidão de europeus e que eram os próprios africanos que escravizavam os africanos. Como disse o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva, em entrevista à BBC Brasil, penso que…

(Foto: Guilherme Gonçalves/ABL)

“o importante não é que haja cota na universidade. Acho que tem de haver cota em tudo. Se você vai se candidatar a um cargo de atendente de hotel de primeira classe, se você for negro, você tem dificuldade. O preconceito é discriminatório. Ele não impede você de usar o mesmo banheiro, o mesmo bebedouro, mas dificulta o acesso (do negro) às camadas das classes média e alta”.

Para concluir gostaria de deixar um vídeo que preparei como material complementar às minhas aulas de escravidão africana no ensino fundamental e médio. Já havia preparado um post sobre este material aqui, mas entendo ser pertinente deixar o vídeo aqui também.

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A escravidão através dos olhos de uma parisiense em viagem pelo Brasil

Memórias, diários e relatos de viagens são fontes importantes que frequentemente são utilizadas por historiadores em suas pesquisas. Após a chegada da Corte portuguesa no Brasil, em 1808, e a consequente abertura dos portos às nações amigas, muitos viajantes vieram ao país e registraram suas impressões sobre a sociedade brasileira. Temas como a riqueza da fauna e da flora, do tamanho do país, a vida social nas principais cidades e no campo e, em especial, o tema da escravidão foram recorrentes  na literatura produzida por estes viajantes quando estes retornaram a seus países de origem. Um desses relatos de viagem, o qual gostaria de compartilhar com vocês, é o de uma francesa que, em viagem ao Brasil com o fim de enriquecer em 10 anos e voltar a França, fez um retrato bastante interessante da escravidão no Brasil em meados do século XIX.

Minha ideia ao publicar esta breve resenha crítica do livro aqui no Hum Historiador é destacar, não apenas o olhar estrangeiro (europeu) sobre a escravidão no Brasil, mas também o olhar feminino. Em pleno século XIX, ainda eram poucas as mulheres que viajavam desacompanhadas de seus maridos da Europa para a América e, além disso, raríssimas eram também as escritoras que, muitas vezes, se escondiam atrás de pseudônimos masculinos para conseguirem publicar. Adèle Toussaint-Samson foi uma dessas mulheres que, não só viajou, mas escreveu. Seu registro é bastante importante e há pesquisadores, como Miriam Lifchitz Moreira Leite, que se dedicam a estudar as Mulheres Viajantes no Século XIX, como objeto de estudo.

Aqui vocês encontrarão apenas uma resenha crítica que preparei logo após a leitura deste livro em 2010, para destacar a visão de uma viajante sobre a escravidão no Brasil e a importância desta verdadeira instituição na construção da nação brasileira. Espero que gostem e que seja útil, de alguma forma.

1. Adèle Toussaint-Samson e seu livro: Uma parisiense no Brasil

Adéle Toussaint-Samson nasceu em Paris no ano de 1826. Filha de Joseph-Isidore Samson, ator, professor de teatro e autor de peças de grande sucesso em Paris, teve seus primeiros textos publicados na França em 1843, aos 17 anos de idade. Por volta dos vinte anos, casou-se com um dançarino de teatro chamado Jules Toussaint que, apesar de ser filho de franceses, havia nascido no Brasil.

Segundo Maria Ines Turazzi, historiadora que prefacia a segunda edição brasileira do livro de Mme. Samson, Adèle e Jules teriam vindo ao Brasil por volta dos anos de 1849 e 1850, tendo deixando a França em um período conturbado da história daquele país, já que haviam acabado de passar pela revolução de 1848 e por uma grave epidemia de cólera, em 1849, que fez com que o público do teatro, do qual o casal se sustentava, rareasse. O principal objetivo do casal ao vir para o Brasil era ganhar a vida e fazer fortuna, tal como um tio que eles tinham por aqui e que já tinha ganhado bastante dinheiro. Segundo a própria autora, logo no início do seu livro, “em dez anos, diziam-nos, devíamos estar ricos[1].

Em pouco tempo Jules e Adèle se estabeleceram na capital do Império. Ele como professor de dança e ela como professora de francês e italiano. Em 1856, Jules é contratado como professor de dança da família imperial, sendo tão bem remunerado que chega a comprar um amplo lote de terra entre as praias do Flamengo e do Catete, no Rio. Essa nova posição de Jules, além de prestígio, permitia a família Toussaint-Samson ter acesso à corte imperial. Segundo Turazzi, foi através desse acesso que Adèle travou conhecimento com a Condessa de Barral, aia das princesas Isabel e Leopoldina, e a senhorita Templier, institutrice francesa encarregada de completar a educação das princesas[2].

A data em que Adèle Toussaint-Samson deixou o Brasil não é bem certa. Maria Ines Turazzi nos diz que essa dúvida deve-se ao fato de Jules haver solicitado autorização ao imperador D. Pedro II de residir na França no ano de 1864, porém, seu nome e serviços continuaram sendo promovidos pelo Almanaque Laemmert até o ano de 1869. Tentando dirimir essa dúvida, Turazzi recorre a uma autobiografia de Isidore-Samson, pai de Adèle, organizada e lançada pela filha, em Paris, anos depois de seu retorno. Ali ela relata que ela e Jules teriam voltado a residir em Paris em 1870, o que poderia dar cabo a essa dúvida.

Embora Adèle tenha relatado em Uma parisiense no Brasil ter vivido doze anos no Brasil, sabemos pelas pesquisas de Turazzi que esse período em que ela viveu por aqui não se deu em anos sucessivos, mas sim, que ela teria ido e vindo, pelo menos umas cinco vezes, do Brasil a França, entre os anos de 1850 e 1870[3]. Tal fato é importante mencionar, pois embora ela tenha vivido doze anos no país, sua experiência se estende por um período maior, de duas décadas. Tal extensão permite que a autora teça considerações mais agudas quanto à situação política e social do Brasil, uma vez que entre o período vivido por ela na capital do Império e o período em que ela escreve suas memórias, muitas transformações, tanto políticas quanto sociais haviam ocorrido no país, inclusive uma guerra de grandes proporções com ampla participação da população afro-descendente. Se levarmos em conta que Adèle levou ainda alguns anos após o seu retorno definitivo a França, em 1870, para escrever suas memórias, concluiremos que sua perspectiva histórica se amplia para além dos vinte anos que mencionamos acima.

Uma parisiense no Brasil foi publicado em 1883 na forma de folhetim pelo jornal Le Figaro (França) e, no mesmo ano, no Jornal do Commercio (Brasil). Nesse mesmo ano, também ganhou uma publicação em forma de livro, tanto na França como no Brasil. Um dos fatos que talvez tenha levado Adèle a publicar o livro por essa época teria sido a morte de seu marido Jules, que segundo a hipótese de Turazzi, teria servido de estímulo para que a autora desse publicidade àquelas memórias dos tempos vividos com o Jules no Brasil. Contudo, um fato importante para motivar a publicação do livro, certamente, foi a segunda viagem do imperador D. Pedro II a Europa, no ano de 1877. Turazzi nos explica que, como essa viagem fora amplamente divulgada pelos jornais franceses da época, a presença do imperador teria estimulado os leitores europeus a saberem mais notícias sobre o Brasil, o que seria uma “oportunidade que ela [Adèle] não podia perder para a publicação de suas memórias[4].

Adèle morre em Paris, em 12 de outubro de 1911, aos 85 anos de idade, vítima de um trágico acidente, quando as brasas de sua lareira atearam fogo a sua roupa e acabaram queimando-a viva.

Depois da primeira edição em português, de 1883, o livro somente voltou a ser publicado no país 120 anos depois, saindo pela editora Capivara em 2003. Tal fato talvez justifique a pouca quantidade de trabalhos acadêmicos encontrados tanto tendo o texto de Mme. Samson como objeto central de estudo quanto como fonte para outros temas, uma vez que até o lançamento desta nova edição, o livro de 1883 era item raro mesmo nas melhores bibliotecas.

Segundo o levantamento de Maria Ines Turazzi, no Brasil apenas a professora Miriam L. Moreira Leite e a professora Zahidé Lupinacci Muzart, ambas com trabalhos ligados ao estudo da história das mulheres no Brasil no século XIX, vinham se dedicando ao estudo dessa memória de Adèle Toussaint-Samson quando do lançamento da edição de 2003[5].

2. A estrutura do livro

A nova edição de Uma parisiense no Brasil contém, além do prefácio de Maria Ines Turazzi, do qual viemos falando até o momento, um Prólogo que havia sido cortado da primeira edição, de 1883. Nesse prólogo a autora narra a verdadeira aventura que foi conseguir a publicação de seu livro de memórias em Paris. Desta parte do livro vale a pena mencionar a verdadeira obsessão da autora em fazer seus leitores crer que tudo aquilo que ela viria a narrar, dali por diante, era a mais pura expressão da verdade, fatos e eventos que haviam sido testemunhados por ela enquanto vivera no Brasil e transcritos no livro sem nenhuma alteração. Tal preocupação revela-nos que Adèle estava em linha com os demais autores que escreviam relatos de viagem durante o século XIX, já que essa era uma preocupação recorrente em todos eles.

Além do prólogo, o livro foi estruturado em quatro partes e um apêndice, onde a autora traduz algumas poesias de autores brasileiros para o público francês. Na primeira parte, intitulada Vida de bordo, a autora descreve como se deu a viagem a bordo do clíper Normandia, que os transportara de Le Havre, na França, ao Rio de Janeiro.

Já a segunda e terceira parte do livro, intituladas respectivamente de Rio de Janeiro e A fazenda, são as mais importantes para captarmos o tema proposto para este trabalho, que é a visão que a autora tinha sobre a escravidão no Brasil e sua importância no processo de formação da nação brasileira.

No capítulo intitulado Rio de Janeiro, a autora descreve como foi sua vida na cidade, as paisagens e a vida cotidiana que levou, fortemente marcada, a cada momento, pela presença dos negros que estavam em todos os cantos da cidade e, sem os quais, esta não funcionava.

Já em A Fazenda [não, não estamos falando do Reality Show], Adèle nos mostra como funcionava uma unidade produtiva no Brasil. Hospedada em uma fazenda com 120 escravos, a autora narra como os negros trabalhavam, como eram as senzalas, as punições, festas, religiosidade, enfim, a vida cotidiana que levavam no duro trabalho das lavouras brasileiras.

A quarta e última parte do livro, intitulada Entre as gentes, traz as observações de Mme. Samson sobre os brasileiros. Seu temperamento, aparência e gostos. Junto com essas observações, vieram também os preconceituosos juízos de valor, tão característicos nos viajantes europeus do século XIX e que acabavam por adjetivar o brasileiro como indolente, feio e desonesto, para ficarmos apenas em alguns exemplos. Foi especialmente sobre esta parte do livro que se debruçaram as pesquisadoras Miriam Moreira Leite e Zahidé Muzart com o propósito de captarem as observações de Adèle sobre as mulheres brasileiras do século XIX. É nesse capítulo também, que a autora descreve como se deu sua despedida do Brasil e o estranhamento que vivenciou ao retornar à França, fazendo observações muito relevantes para quem deseja comparar as diferentes estruturas econômicas, políticas e sociais entre centro e periferia do capitalismo, o que não é o objetivo deste trabalho.

3. A escravidão vista através dos olhos de uma parisiense em viagem pelo Brasil

Adèle Toussaint-Samson nos deixa claro, em várias passagens de seu livro, o horror e repulsa que sentia ao testemunhar a escravidão no Brasil. Relata-nos, por exemplo, a que ponto sua revolta chegara com uma vizinha espanhola que, diariamente, torturava seus escravos, ao dizer-nos que a primeira palavra que aprendera em português fora “carrasco” apenas para poder gritar a esta vizinha no momento em que ela espancava os seus negros. Outra passagem relevante e que destacamos abaixo, é uma em que ela narra o horror que sentia pela escravidão ao testemunhar os leilões de escravos:

“Esse espetáculo da escravidão foi, durante os primeiros anos de minha estada no Brasil, um dos suplícios de minha vida, e não contribuiu pouco para que pensasse morrer de nostalgia. A cada instante minha alma revoltava-se ou sangrava quando eu passava diante de um daqueles leilãos [leilões] em que pobres negros, em cima de uma mesa, eram leiloados e examinados nos dentes e nas pernas como cavalos ou mulas; quando via o lance ser coberto e uma jovem negra ser entregue ao fazendeiro que a reservava ao seu serviço íntimo, enquanto seu negrinho era algumas vezes vendido a um outro senhor. Diante de todas essas cenas de barbárie, meu coração indignava-se, cóleras generosas inflamavam-se em mim e eu era obrigada a conter-me para não gritar a todos aqueles homens que faziam comércio de carne humana: ‘carrascos!’ como gritara a minha vizinha espanhola.[6]

Apesar dessa repulsa pela escravidão, desse sentimento de horror diante dessa barbárie inominável e que chegava a lhe causar uma sensação de nostalgia de seu país, também é possível ver nos relatos de Mme. Samson ela fazer uso de escravos sem o menor pudor, como na passagem que destacamos a seguir, onde ela narrava como a epidemia de febre amarela que atingiu o Rio de Janeiro havia afetado também seu núcleo familiar:

“Naquele dia, a negra que havíamos alugado caiu doente também e tivemos de devolvê-la ao seu senhor[7].”

Ou também nessa outra passagem, onde chega a cair no ridículo ao descrever os malefícios causados pelos dentes dos negros:

“O próprio dente dos negros é muitas vezes perigoso.Vi mais de um exemplo, no Brasil, de senhores europeus (…) que, ao bater em seus negros, haviam sido mordidos por eles, ou se haviam chocado contra seus dentes, e dos quais foi preciso amputar o braço[8]”.

Essa contradição que flagramos nas memórias de Mme. Samson não são exclusivas de uma viajante que passava pelo país, mas é característica de um Brasil que ainda vivia o regime escravista na segunda metade do século XIX, enquanto as nações consideradas mais avançadas da Europa, ou mesmo as recém independentes da América, já haviam deixado-o para trás, adotando o trabalho assalariado.

É possível flagrarmos sentimentos semelhantes aos de Adèle, especialmente após a década de 70 do século XIX, em políticos liberais brasileiros que, muitas vezes, mesmo advogando pela causa abolicionista, mantinham plantéis de escravos em suas fazendas. Algumas explicações para essa contradição, isto é, essa repulsa pela escravidão, mas a falta de ações que culminassem, efetivamente, na abolição desta, a própria autora daria mais adiante em seu livro, quando passa a inocentar o imperador D. Pedro II de manter a escravidão no país e a justificar, apesar do humanismo deste imperador, o regime de escravidão como necessário pela absoluta falta de mão de obra para as lavouras exportadoras brasileiras se a escravidão fosse abolida no Brasil, já que segundo se acreditava, apenas os negros eram capazes de fazer e suportar as duras condições de trabalho na lavoura.

“Não se deve acusar o imperador do Brasil por este estado de coisas [brutalidade dos castigos aos escravos na fazenda]. Ele é, ao contrário, cheio de humanidade, e seus escravos são tratados com muita brandura; mas, ao subir ao trono, encontrara esses usos estabelecidos, e não podia em um dia mudar os costumes do país; precisava fechar os olhos ao tráfico de negros, pois apenas eles eram capazes de suportar o trabalho de cultura sob aquele sol de fogo.[9]

Como dissemos, esse trecho revela uma visão comum da época, a de que a escravidão era um mal necessário, já que nem brasileiros nem imigrantes suportariam as condições de trabalho na agricultura de exportação:

“Haviam sido feito muitos esforços para trazer colonos de todos os países para substituir lentamente os negros; mas os franceses mal resistiam alguns meses; os ingleses, que pretendiam continuar seu regime de gim, logo morriam congestionados; os chineses, raça preguiçosa e deteriorada, não davam nenhum bom resultado (…) A única raça própria à cultura, no Brasil, é sem nenhuma dúvida a raça indígena. Mas, perseguida como foi, rejeitando a sujeitar-se, (…) não se espera poder domá-la tão cedo. Quanto à raça brasileira, mistura de sangue europeu, americano e africana, tem toda a indolência crioula, é fraca, abastardada, muito inteligente e não menos orgulhosa. É evidente que é ao comércio com os negros que se deve em parte a deterioração desta raça.[10]

Mais adiante ainda, ela segue justificando a razão pela qual a escravidão, apesar de brutal, era necessária no Brasil, chegando ao argumento central de sua exposição, que era aquele mesmo da elite governante do país, não importando se fossem conservadores ou liberais:

“Que fazer então? Se a escravidão fosse repentinamente abolida, o país estaria arruinado. (…) A raça brasileira não poderia suportar rudes labores; além disso, despreza todo trabalho manual. Não há brasileiro que jamais consinta em servir; todos querem ser senhores. Portanto, se a escravidão houvesse sido abolida bruscamente, a cultura teria parado: seria a fome a instalar-se. Era preciso preparar lentamente o país e os espíritos para essa grande revolução. Foi o que fez D. Pedro II; e quando, segundo ele, havia chegado a hora, declarou livre todo o filho de escravo a nascer dali em diante.[11]

Dominava, não apenas nos estrangeiros, mas também nessa elite governante e, mesmo nos homens e mulheres livres da época, a idéia de que sem a escravidão o Brasil não existiria. Não haveria quem trabalhasse nas culturas, que era responsável pela quase totalidade da economia brasileira. Mais ainda. Pior do que o medo de o Brasil cair na barbárie pela abolição da escravidão, consentida pela elite governante, era o medo de uma revolução dos negros que conquistasse essa abolição da escravatura à mão armada, tal como ocorrera em São Domingos, no Haiti. Adèle Toussaint-Samson nos deixa uma passagem onde revela claramente esse sentimento que ficou conhecido por “haitianismo” e que, desde a declaração da independência, assombrava a elite governante e justificava a permanência do escravismo no Brasil. Era da opinião da elite nessa época que um Brasil sem escravidão e, portanto, sem mão-de-obra para a lavoura, e ainda por cima com negros votando e sendo votados seria simplesmente ingovernável; máxima representação da barbárie.

“No entanto, este grande número de negros livres é um grande ponto escuro no horizonte brasileiro: seu número já ultrapassa o dos brancos. Seria de temer, talvez, que, quando se houverem contado, tirem uma terrível desforra e o futuro vingue o passado Esperemos, porém, que o Brasil não tenha o seu São Domingos.[12]

Até mesmo para os liberais brasileiros, os ideais da revolução francesa eram perfeitos, mas teriam que se adaptar a realidade do escravismo no Brasil, condição sem a qual não existiria o país.

 4. Considerações finais

Viemos tentando mostrar neste trabalho, como a percepção que uma estrangeira teve do Brasil ao viver no país por doze anos na segunda metade do século XIX, conseguiu captar a importância do papel desempenhado pelos escravos no processo de formação da nação brasileira. Mesmo através das memórias de uma viajante, foi possível perceber o papel central desempenhado pelos escravos na economia e na sociedade brasileira. Papel tão importante que era impossível a todos daquela época imaginar até mesmo a própria existência do país, não fosse através do sistema escravista. Por mais que essa percepção de Adèle e da elite governante brasileira sobre quem deveria ser a mão-de-obra das lavouras fosse equivocada, uma vez que cheia de preconceitos contra brasileiros, chineses e, até mesmo, europeus, ela nos revela a razão pela qual a escravidão persistiu no Brasil desde a sua independência até a abolição, em 1888. Não apenas porque a atividade comercial do tráfico de escravos era lucrativa, em si, até uma determinada época, mas também porque as próprias pessoas que viviam e governavam o país não conseguiam imaginar outra forma tão lucrativa de explorar o trabalho nas lavouras brasileiras. Não conseguiam sequer imaginar que europeus, asiáticos ou mesmo brasileiros assalariados pudessem trabalhar nas lavouras mantendo os níveis de produtividade e lucratividade dos escravos e, por isso, iam postergando o fim da escravidão enquanto temiam por uma revolução negra, a medida que cada vez mais escravos iam ganhando a liberdade com o tempo. Eis o que captou Mme. Samson em suas memórias e que nesse exíguo espaço busquei apontar.


[1] TOUSSAINT-SAMSON, Adèle. Uma parisiense no Brasil. Rio de Janeiro: Capivara, 2003, pp. 53.

[2] TURAZZI, Op. Cit., pp. 21.

[3] TURAZZI, Op. Cit., pp. 22-23.

[4] TURAZZI, Op. Cit., pp. 27.

[5] Ibidem, pp. 38.

[6] TOUSSAINT-SAMSON, Op.Cit., pp. 97-98.

[7] Ibidem, pp. 94-95.

[8] Ibidem, pp. 100-102.

[9] TOUSSAINT-SAMSON, Op. Cit., pp. 99.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem, pp. 100-102.

[12] Ibidem, pp. 102.

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