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Novas tentativas de relativizar os efeitos da escravidão africana na formação de sociedades contemporâneas da América

Tenho constatado com muita preocupação o aparecimento de muitas pessoas que, tomando como base péssimos livros de “história”, opiniões de Olavo de Carvalho e outros tantos vídeos mal intencionados divulgados pela Internet, buscam minimizar os efeitos nefastos que a escravidão africana legou à formação de sociedades contemporâneas na América. Para isso, utilizam basicamente três argumentos:

  1. Já havia escravidão na África antes da chegada dos europeus;
  2. Os próprios africanos eram os que entravam no interior do continente para capturar outros africanos e vendê-los aos europeus;
  3. Europeus também foram escravizados por africanos entre os séculos XVI e XVIII.

O objetivo de quem usa esse tipo de argumentação é claro, buscam, sobretudo, deslegitimar políticas de ações afirmativas movidas pelo Estado que visam corrigir desigualdades atuais cujas raízes remontam ao sistema escravista europeu. Ao fim de suas argumentações, quase sempre concluem acusando os afrodescendentes de serem “vitimistas” ou “coitadistas” que buscam tirar vantagens a partir da história de sofrimento de seus antepassados.

Pois bem, para não cairmos nessas falácias e argumentações rasas, considero que seja bastante importante dar um pouco mais de atenção a este assunto por aqui, pois percebi que ainda hoje há uma série de pessoas com muitas dúvidas na cabeça em relação ao tema.

Em primeiro lugar, e acho que nem precisaria dizer isso aqui, mas há quem questione quando não vê isso explícito em meus textos. Não estou discutindo a moralidade da escravidão, isto é, se a escravidão negra foi moralmente pior do que a branca ou vice-versa, nem tentando argumentar qual foi mais repugnante que a outra. Não se trata disso. Do ponto de vista moral e, sobretudo, por eu ser um homem da virada do século XX para o XXI, é evidente que eu julgo qualquer tipo de escravidão condenável. No entanto, a discussão a seguir é sobre os efeitos que o histórico da escravidão africana legou à conformação de sociedades americanas tais como o Brasil e os Estados Unidos, por exemplo, e não qual escravidão é pior ou melhor que outra.

Em seguida, é preciso lembrar que a escravidão existe desde a antiguidade, podendo ser observada na formação das diferentes sociedades do mundo antigo como os hititas, os babilônios, os egípcios, os gregos e os romanos, por exemplo. No entanto, a forma de escravização do mundo antigo estava relacionada com as guerras e batalhas que essas sociedades moviam umas contra as outras. Os indivíduos que fossem capturados em batalha, bem como mulheres e crianças presos após uma guerra, eram escravizados pelos vencedores. Não havia, por assim dizer, uma busca continuada por escravos em um determinado lugar para oferecê-los em um mercado e comercializá-los para servirem de mão-de-obra em outro.

Portanto, assim como existia no mundo antigo na Europa e no Oriente Médio, a escravidão também existia na África e na América mesmo antes dos europeus haverem chegado nesses continentes. Populações desses locais também moviam guerras contra seus inimigos e, aqueles que fossem capturados em batalhas, eram escravizados e obrigados a realizar trabalhos forçados, quando não fossem sacrificados em algum ritual religioso.

No entanto, com a chegada do europeu nos continentes africano e americano no decorrer do século XV, a escravidão mudará completamente de feição. Tanto que os historiadores passam a denominá-la de escravidão moderna para diferenciá-la do modelo antigo de escravidão praticado antes dela.

Com a descoberta de ouro e prata na América e o início da colonização europeia no continente, que trouxe consigo as grandes plantações de cana-de-açúcar, tabaco e outros produtos para abastecer o mercado europeu, logo se viu que seria necessário o emprego de grande número de mão-de-obra. Embora alguns nativos do continente americano tenham trabalhado, compulsoriamente ou não, nesses empreendimentos europeus, a demanda pelos produtos americanos eram tão grandes, sobretudo a de ouro e prata, que exigia o emprego cada vez maior de mão-de-obra. Como se sabe, a solução encontrada foi o emprego de escravos que, aprisionados na África, eram transplantados para a América a fim de trabalharem nas minas e plantações. A seguir, o mapa com as principais rotas do tráfico negreiro entre os séculos XVI e XIX.

Rotas do trafico negreiro

Principais rotas do tráfico negreiro entre séculos XVI e XIX.

Aqui é importante lembrar que a Igreja Católica teve um papel fundamental na determinação de que o escravo empregado nos trabalhos na América fossem africanos, uma vez que ela proibia a escravização de indígenas por considerar que esses grupos ainda não conheciam o cristianismo e deveriam ter a oportunidade de se catequizar. Por outro lado, a escravização dos africanos era justificada pela Igreja como um castigo divino, uma vez que os diversos povos daquele continente já havia travado contato com o cristianismo e, ainda assim, preferiam manter suas religiões politeístas ou o islamismo.

Vê-se, desta forma, que a escravidão moderna tinha três aspectos que lhe são bastante característicos:

  1. O escravo era uma mercadoria que podia ser comercializada e herdada;
  2. A existência de um mercado de escravos transatlântico;
  3. A racialização da escravidão.

Analisadas em conjunto essas características revelam a existência de um verdadeiro sistema escravista que nos permite compreender a razão de mais de 12 milhões de africanos terem sido violentamente aprisionados, escravizados e trasladados para outros continentes: o acúmulo de riquezas na Europa. A escravidão moderna, portanto, é apenas uma engrenagem de um sistema muito mais amplo cujo principal fim era garantir o enriquecimento das monarquias europeias e dos muitos envolvidos nas atividades de exploração e colonização do continente americano.

Com isso em mente, podemos voltar à questão que deu origem a este post, isto é, o fato de algumas pessoas pretenderem minimizar os efeitos da escravidão africana na conformação de sociedades contemporâneas, tais como o Brasil e os Estados Unidos, por exemplo, argumentando que já havia escravidão na África muito antes de os europeus chegarem ao continente; que mesmo durante os séculos XV e XIX eram os próprios africanos quem aprisionavam os escravos para comercializá-los aos europeus e, por fim, que norte-africanos também escravizaram europeus por séculos, fazendo-os trabalhar compulsoriamente no norte da África.

Ora, como vimos, a escravidão antiga difere grandemente da escravidão moderna, de modo que alegar que já havia escravidão na África antes de os europeus chegarem ao continente, não diminui o fato de que o sistema escravista criado pelos europeus a partir do século XV foi o responsável pela transposição dos milhões de africanos para o continente africano e, em decorrência disso, pelas consequências do escravismo na formação das distintas sociedades americanas onde houve uso em grande escala de mão-de-obra africana. Mesmo a escravidão promovida pela expansão muçulmana sobre a Península Ibérica, por exemplo, pode ser classificada como uma escravidão de tipo antigo, uma vez que os europeus escravizados eram os indivíduos capturados após terem sido derrotados em batalhas, para não mencionar a existência de um mercado escravista.

Quanto à segunda argumentação, o fato dos próprios africanos irem ao interior do continente para aprisionar e, posteriormente, comercializar os prisioneiros como escravos aos europeus, ela apenas indica mais um agravante do sistema escravista criado pelos europeus que, ao entrar em vigor, transformou o modo de escravidão antiga que existia na África, para atender suas demandas e interesses. É a existência do mercado transatlântico de escravos que demanda a necessidade crescente de mão-de-obra e, por conseguinte, a busca de novos escravos no interior do continente africano. Se antes da chegada do europeu os escravos eram apenas aqueles que eram capturados nas batalhas constantes entre os diversos grupos que viviam na região, agora a captura de pessoas buscava, sobretudo, atender ao mercado negreiro.

Por fim, quanto a última argumentação, a de que norte-africanos muçulmanos escravizaram europeus por cerca de três séculos, uma vez mais se faz necessário comparar os modelos de escravidão empregados pelos norte-africanos e pelos europeus. No caso dos primeiros, trata-se de corsários que capturavam embarcações no Mar Mediterrâneo e aprisionavam suas tripulações, levando-as como escravos para trabalharem onde atualmente se encontram o Marrocos, a Líbia, a Tunísia e a Argélia. Outra forma de se obter escravos eram os ataques surpresas movidos a cidades europeias localizadas nas costas do Mediterrâneo ou do Atlântico, capturando centenas de pessoas que tinham o mesmo destino das anteriores.  Recentemente, Robert Davis, um historiador que estuda o tema levantou uma estimativa, bastante incerta, de que cerca de um milhão de europeus possam ter sido escravizados por norte-africanos entre os séculos XVI e XVIII (ver matéria sobre o assunto publicado na Folha e no The Guardian). No entanto, esses corsários não atacavam apenas europeus, mas também eslavos e africanos da costa oeste, o que torna os números reais de europeus ocidentais escravizados bastante controverso. Independentemente disso, deve-se considerar que no caso da escravidão promovida por norte-africanos:

  1. Os escravos eram capturados em ataques promovidos pelos corsários em mar ou na terra;
  2. Não havia um mercado de escravos;
  3. A escravidão não era racializada.

Tais características acabaram por determinar não apenas um número bastante menor de escravos europeus levados para o norte da África, mas também não teve consequências significativas para a formação de sociedades contemporâneas quer na África, quer na Europa Ocidental, ao contrário do que ocorreu no caso África – América. Assim, quando argumentar que os africanos escravizaram europeus buscando minimizar os efeitos da escravidão africana em sociedades contemporâneas na América você sempre poderá contestar perguntado:

  1. Há, ainda hoje, algum efeito perceptível da escravidão promovida por africanos a europeus nas sociedades americanas onde a força de trabalho desses escravos foi empregada?
  2. Nas sociedades americanas atuais, há descendentes desses europeus que foram escravizados por africanos que sejam discriminados em decorrência desse passado escravista?

As respostas a essas perguntas, evidentemente, serão dois “nãos”, o que nos ajuda a concluir facilmente que erra quem pretende minimizar os efeitos da escravidão africana em sociedades americanas contemporâneas argumentando que os africanos escravizaram europeus, já que os modelos de escravidão empregados por europeus e norte-africanos eram bem distintos e, como não podia deixar de ser, os efeitos da escravidão promovida por estes últimos é pouco significativa se comparada aos efeitos da escravização europeia que, ainda hoje, marcam profundamente a vida de afrodescendentes nascidos na América.

Espero que esse post possa ter contribuído para esclarecer algumas dúvidas em relação aos modelos de escravidão empregados na antiguidade e na época moderna, bem como possa ajudar a refletir quando alguém pretender minimizar os efeitos da escravidão africana na formação de sociedades americanas contemporâneas argumentando a ocorrência de escravidão de europeus e que eram os próprios africanos que escravizavam os africanos. Como disse o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva, em entrevista à BBC Brasil, penso que…

(Foto: Guilherme Gonçalves/ABL)

“o importante não é que haja cota na universidade. Acho que tem de haver cota em tudo. Se você vai se candidatar a um cargo de atendente de hotel de primeira classe, se você for negro, você tem dificuldade. O preconceito é discriminatório. Ele não impede você de usar o mesmo banheiro, o mesmo bebedouro, mas dificulta o acesso (do negro) às camadas das classes média e alta”.

Para concluir gostaria de deixar um vídeo que preparei como material complementar às minhas aulas de escravidão africana no ensino fundamental e médio. Já havia preparado um post sobre este material aqui, mas entendo ser pertinente deixar o vídeo aqui também.

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Batalha se aproximando na Europa

Pedro o Eremita em Cruzada

Iluminura francesa, ca. 1120. O monge Pedro, o Eremita, em cruzada montado em um burro.Imagem: Wikicommons.

O texto a seguir é de autoria de John Feffer e foi publicado originalmente nesta última quarta-feira (14), no portal Foreign Policy in Focus. A missão deste site é divulgar e conectar os textos e ações de mais de 600 acadêmicos e ativistas espalhados pelo mundo. Na sexta-feira (16), Vinicius Gomes traduziu e a Revista Fórum publicou a versão em português que o Hum Historiador repercute aqui, na íntegra, para seus leitores.

UMA NOVA CRUZADA NA EUROPA?
Por John Feffer, em Foreign Policy in Focus | Tradução: Vinicius Gomes

Uma batalha se aproxima pela alma da Europa e a extrema-direita está marchando como se estivesse em 1099. Por isso é necessário resistir chamar de “combatentes” os assassinos de Paris e de “defensores da civilização ocidental” os cartunistas da Charlie Hebdo.

Na primeira Cruzada, a caminho da luta contra os infiéis muçulmanos em Jerusalém, os peregrinos armados fizeram entre si uma pergunta provocativa: por que devemos rumar tão longe para matar pessoas que mal conhecemos, quando nós podemos simplesmente massacrar infiéis mais próximos de casa.

E assim os cruzados do século XI entraram em alguns dos primeiros pogroms na Europa contra os judeus. Esses ataques de fúria antisemitas no coração do continente contavam com a vantagem de ajudar no financiamento da primeira Cruzada, uma vez que os peregrinos se apropriavam da riqueza dos judeus que eles matavam.

Imagem elaborada para representar a Primeira Cruzada.

A Europa está mais uma vez testemunhando o efeito colateral dos conflitos no Oriente Médio. Extremistas que estão envolvidos em modernas cruzadas na região – ou se frustraram em fazer a jornada ao Iraque e à Síria – fizeram a si mesmos uma pergunta muito similar àquela de suas contrapartes do século XI: por que não matar infiéis que estão logo ali do que um infiel tão distante?

A questão é tão horrenda hoje quanto foi mais de 900 anos atrás – assim como o é sua resposta, como o mundo testemunhou semana passada na redação da revista Charlie Hebdo e do mercado kosher em Paris.

Em ambos os casos, os cruzados acreditam que suas ações eram de importância mundial e histórica. No século XI, foi o papa Urbano II que fez o chamado às armas, transformando sedentários cristãos em predadores globais. Hoje, são tipos como Estado Islâmico e al-Qaeda que estão pedindo que seus seguidores matem os hereges. Mas, assim como os pogroms iniciais, assim como o massacre de 2011 por Anders Breivik na Noruega ou os assassinatos étnicos em série de turcos na Alemanha, por neonazistas entre 2000 e 2007, as recentes atrocidades na França não são nada além de atos criminosos.

Isso não é, em outras palavras, um duelo entre as forças da iluminação e as forças da barbárie. Precisa-se resistir à tentação de conferir o status de combatentes aos assassinos, assim como o status de defensores da civilização ao Charlie Hebdo.

A verdadeira batalha

Essas matanças podem não constituir uma guerra, mas elas apontam um profundo conflito dentro da Europa. Esse conflito não é sobre qual religião é a única e verdadeira religião. É sobre a própria identidade do continente.

No século XI, o que animou os cruzados não foi apenas o status de Jerusálem, mas também o temor de que o islã desembarcasse nas praias da Europa – na realidade, os muçulmanos já tinham um pé firme na península ibérica. Hoje, um medo semelhante anima os islamofóbicos e os detratores da imigração na Europa. Eles temem que sua velha visão de uma Europa cristã predominantemente branca – com fronteiras claras definindo quem é francês, quem é alemão e que não pertence à aconchegante cultura da “civilização ocidental” – esteja rapidamente desaparecendo. Eles desaprovam tanto a eliminação das fronteiras internas para maior integração europeia, assim como as transformações demográficas por conta da imigração. Eles lutam desesperadamente para preservar a herança cristã do continente.

Mas a Europa de seus sonhos, considerando que ela alguma vez sequer existiu de verdade, já virou passado. A imigração na Europa não é nada novo, claro, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial. As conexões coloniais diversificaram o continente com indonésios indo para a Holanda, argelinos para a França e caribenhos para o Reino Unido. Durante a falta de mão-de-obra nas décadas de 1960 e 70, trabalhadores de fora vindo dos Bálcãs, Turquia e Norte da África choviam em países como Alemanha e Suíça, que possuíam pouca ou nenhuma conexão colonial. Muitos desses trabalhadores voltaram para seus países, mas alguns ficaram, começaram famílias e criaram um multiculturalismo ao pé da letra.

Essas mudanças deram ignição à primeira onda do sentimento anti-imigração. Em 1968, Enoch Powell realizou seu discurso infame sobre “rios de sangue” aos conservadores britânicos, onde ele previu um futuro de violência por conta do fluxo de imigrantes vindos das antigas colônias. A Frente Nacional começou a mobilizar esse sentimento na França no começo da década de 1970, assim como o xenofóbico Partido Republicano na Alemanha, em 1983. Apesar de os “rios de sangue” de Powell não terem vingado, a semente de anti-imigração na política europeia foi crescendo cada vez mais virulenta e a Europa continuou a mudar. As guerras na era pós-Guerra Fria – na Bósnia, Kosovo, Norte da África e no Oriente Médio – levaram para dentro do continente refugiados e migrantes, assim como as perspectivas de uma Europa unificada atraíram pessoas do mundo inteiro.

As mudanças demográficas na Europa na última década têm sido dramáticas: de acordo com o censo populacional da ONU, entre 2005 e 2013, a população imigrante na Suíça saltou de 22,9% para 28,9%; na Espanha foi de 10,7% para 13,8%; na Itália, 4,2% para 9,8%; na Suécia, 12,3% para 15,9%; na Dinamarca, 7,2% para 9,9%; na Finlândia, 2,9% para 5,4%; e no Reino Unido, de 8,9% para 12,4%.

Tais aumentos tão rápidos e em tão curtos períodos de tempo criaram uma ansiedade em populações que não consideram que seus países sejam “sociedades imigrantes”, como Estados Unidos ou Austrália.

Uma islamofobia de conveniência

No interior da Alemanha, a organização Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente (Pediga, sigla em alemão) provou-se ser enormemente popular e um constrangimento para os políticos alemães no alto escalão.

Essa semana, os organizadores do Pegida realizaram uma marcha em Dresden, na esteira das mortes em Paris, e atraíram 25 mil pessoas apesar dos pedidos da chanceler alemã Angela Merkel e outras figuras políticas para que as pessoas ficassem em casa. Apesar de uma contra-demonstração contra o Pegida, também em Dresden, ter atraído 35 mil pessoas, a organização xenofóbica está ganhando força com mais marchas planejadas em outras cidades da Alemanha e até mesmo em outros países.

Sem surpresa alguma, dada sua mensagem anti-imigração e anti-muçulmana, o grupo atraiu um grupo hardcore de extremistas associados a clubes de futebol e gangues de motoqueiros, mas não se engane: o sentimento anti-imigração e islamofóbico é muito popular até mesmo entre os elementos pretensamente respeitáveis na Alemanha.

Na Inglaterra, enquanto isso, o fervor anti-imigração catapultou o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip, sigla em inglês) para o terceiro lugar nas últimas eleições. Na esteira das tragédias na França, o líder da sigla, Nigel Farage, falou de uma “quinta coluna” dentro dos países europeus “que tem nossos passaportes, [mas] nos odeiam” – um sentimento que aumentou e muito sua popularidade. Obviamente, Farage é sempre justo em sua xenofobia: no ano passado, quando novas regulações trabalhistas foram aprovadas, dando o direito aos cidadãos da Romênia de trabalhar em qualquer lugar na União Europeia, ele disse que “qualquer pessoa normal e razoável teria perfeitamente o direito de ficar preocupado se um grupo de romenos se mudar para a casa ao lado”.

Mas a organização que melhor se posicionou para surfar na onda islamofóbica que está engolindo a França é a Frente Nacional.

Antes dos recentes assassinatos em Paris, Marine Le Pen já liderava algumas pesquisas para as eleições presidenciais em 2017, e seu partido estava no topo das intenções de votos para eleições locais, agora em março. Le Pen clamou por uma reinstituição de controle de fronteiras e da pena de morte, o que faria a França destoar do resto da Europa. Ela é o rosto do novo extremismo: suficientemente liberal em alguns tópicos (divorciada, pró-aborto), mas tão agressivamente intolerante quanto seus predecessores, como método para encantar sua base.

A islamofobia desses movimentos de extrema-direita é, por muitos motivos, acidental. Eles trafegam em um sentimento anti-islâmico porque é popular e mais palatável do que, por exemplo, o racismo e a xenofobia. É temporada de caça e intolerância aos muçulmanos, porém, essa islamofobia é apenas a ponta da lança – o verdadeiro desejo da extrema-direita é manter fora da Europa todo e qualquer tipo de imigrante.

Evitando os rios de sangue

A primeira Cruzada “libertou” Jerusalém em 1099 em um grande banho de sangue, com os cruzados trucidando tanto muçulmanos quanto judeus, na cidade sagrada. Foi a primeira de meia dúzia de cruzadas que atravessou a Europa e os próximos dois séculos. As vítimas dos últimos cruzados incluíram pagãos, cristãos ortodoxos, hereges albigenses e, até mesmo, durante a quarta Cruzada, a população católica de Zara, onde hoje é a Croácia.

O ciclo de violência iniciada pelo chamado religioso às armas do papa Urbano II ceifou vidas de todos os credos e produziu também grande parte da violência de europeus contra europeus. Extremistas de todos os lados adorariam ver o retorno das Cruzadas. O Estado Islâmico e fragmentos da al-Qaeda gostariam de ver rios de sangue nas ruas da Europa, e a extrema-direita acredita que uma guerra ampla e sem fim contra um inimigo como esse é um caminho para o poder político – uma vez no poder, eles irão ter o seu próprio 11 de Setembro para assim acabar com a integração europeia, levantar um enorme muro ao redor do continente e começar as deportações.

Esqueça essa falsa propaganda de Ocidente versus Islamismo. Isso é historicamente e conceitualmente incorreto. Os dois estão basicamente do mesmo lado contra os crimes do radicalismo. A verdadeira batalha é pela alma da Europa e a extrema-direita está marchando como se estivesse em 1099.


John Feffer é co-diretor do Foreign Policy In Focus no Instituto de Estudos Políticos. Autor de vários livros e numerosos artigos. Já há algum tempo é Writing Fellow na Biblioteca Provisions em Washington, DC e também PanTech fellow em Estudos Coreanos na Universidade de Stanford. Também foi editor associado do World Policy Journal e vem trabalhando como representante de assuntos internacionais na Europa Oriental e Ásia Oriental para o American Friends Service Committee.

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OTAN derruba regimes na África e no Oriente Médio para ter o Mediterrâneo sob seu total controle

A notícia é velha, mas ainda é muito importante que todos tenham em mente. Mais além do que as causas noticiadas que buscam explicar as quedas de regimes ocorridas no norte da África e no Oriente Médio nos últimos anos, há também os muitos interesses econômicos e geopolítico de diferentes agentes nessa região (OTAN, EUA, França, Reino Unido), coisa que muito pouca gente menciona ao se referir às quedas dos regimes de Hosni Mubarack, no Egito, Muammar Gaddafi, na Líbia, ou de tudo o que ainda está ocorrendo para que o ditador Basshar al-Assad deixe o poder na Síria.

Não se trata de concordar ou não com o regime desses ditadores enquanto estavam/estão no poder, mas sim de deixar claro outros interesses que movem forças da OTAN/EUA para auxiliar a queda desses governos na região.

Sobre esse assunto, decidi repercutir por aqui a notícia abaixo, que foi publicada originalmente em 24 de novembro de 2011 no Asia Times Online (em inglês), por Pepe Escobar, dias depois republicada no Blog do Sorrentino sob o título “O Mediterrâneo será um Lago da OTAN” (em português).

A ESTRADA PEDREGOSA PARA DAMASCO
por Pepe Escobar, para o Asia Times Online (em Inglês) | publicado originalmente em 24.nov.2011

A pergunta de um trilhão de dólares no “Inverno Árabe” é quem piscará primeiro no roteiro do Ocidente para esgueirar-se até Teerã via Damasco.

Quando examina o tabuleiro regional e o conjunto formidável de forças que se alinham contra eles, o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei e a ditadura militar do mulariato em Teerã veem simultaneamente Washington, a superpotência; os estados-membros e bombardeadores malucos da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN; Israel; todas as monarquias absolutas sunitas árabes; e até a maioria sunita da Turquia secular.

E a República Islâmica só pode contar, a seu favor, com Moscou. Não é tão pouco quanto possa parecer.

A Síria é indiscutível aliada chave do Irã no mundo árabe – e Rússia, junto com China, são seus aliados geopolíticos chaves. A China, até agora, continua a repetir que solução para a Síria, seja qual for, terá de ser negociada.

A única base russa no Mediterrâneo está no porto sírio de Tartus. Não por acaso, a Rússia instalou seu sistema S-300 de defesa – dos melhores sistemas de mísseis terra-ar  de todas as altitudes que há no mundo, comparável ao sistema Patriot dos EUA – em Tartus. E o sistema será atualizado, em breve, para o S-400, ainda mais sofisticado.

Do ponto de vista de Moscou – e também do ponto de vista de Teerã –, mudança de regime em Damasco é caso de não-não. Significaria expulsão de virtualmente todos os navios russos e iranianos, do Mediterrâneo.

Mas o Ocidente está-se movimentando pelas laterais. Diplomatas em Bruxelas confirmaram ao jornal Asia Times Online que os ex-”rebeldes” líbios – hoje empenhados em inventar algum governo com um mínimo de credibilidade – já deram sinal verde para que a OTAN construa uma vasta base militar na Cyrenaica.

A OTAN não tem poder de decisão nesses assuntos. Quem decide é o patrão – o Pentágono –, interessado em reforçar o Africom, em coordenação com a OTAN. Estima-se que nada menos que 20 mil pares de coturnos serão desembarcados em solo líbio – 12 mil dos quais, no mínimo, coturnos europeus. Serão responsáveis pela “segurança interna” da Líbia, mas lá ficarão também de prontidão, para futuras campanhas militares que visem – e que outros alvos haveria? – Síria e Irã.

Derrubar aqueles xiitas

Dado que a mais recente “coalizão de vontades” – a qual, por falar nisso, é repetição do modelo líbio – está contra o regime de Bashar al-Assad na Síria, ela representa também um guerra de cristãos/sunitas contra xiitas, sejam da minoria alawita na Síria ou das maiorias xiitas no Irã, Iraque e Líbano.

Tudo isso é parte e item da “oportunidade estratégica” identificada pelo poderoso lobby israelense em Washington: se atacarmos o elo Damasco-Teerã, aplicaremos golpe mortal ao Hezbollah no Líbano. Isso, creem os ideólogos, pode agora ser vendido à opinião pública sob a máscara da ex-Primavera Árabe – agora já “Inverno Árabe”, depois da metamorfose, antes “Verão Árabe”, e já completamente contrarrevolução árabe.

Do ponto de vista de Teerã, o que está acontecendo na Síria é cobertura “humanitária” para uma complexa operação antixiita e anti-Irã.

O mapa do caminho já está claro. Um fraco, dividido, não representativo Conselho Nacional Sírio – ao estilo líbio – já está criado. E já há uma guerrilha (“insurgência”) sunita, pesadamente armada, operando dos dois lados da fronteira entre Líbano e Turquia. A sanções já pesam duramente sobre a classe média síria. Incansável campanha internacional de propaganda de demonização do regime de Assad também já está em campo. E abundam ações de guerra “psicológica”, para estimular deserções do exército sírio (que não estão funcionando).

Relatório de pesquisador baseado no Qatar para o International Institute for Strategic Studies (IISS)[1] chega bem perto de admitir que o autodesignado “Exército Síria Livre” [em inglês Free Syria Army] nada é além de um bando de islamistas linha-dura, uns poucos desertores do exército genuíno e a maioria são ‘irmãos’ superrradicais da Fraternidade Muçulmana pagos e armados por EUA, Israel, monarquias do Golfo e Turquia. Nada há de “pró-democracia” nesse pessoal – como a imprensa-empresa ocidental e a mídia de propriedade dos sunitas não se cansam de repetir que haveria.

Quanto ao Conselho Nacional Sírio, sediado em Washington e Londres e salpicado como sempre de vários exilados sinistros, o  seu programa de governo promete governar a Síria tão militarmente como sempre foi o governo sírio – variação da junta militar que governa o Egito – especialista em bombardear cidadãos que protestem. O que obriga a pensar que a única solução sensível é o povo sírio derrubar o estado policial do regime Assad, e pôr-se veementemente contra o sinistro Conselho Nacional Sírio.

O modelo de ditador dessa temporada

E há, como sempre, o ocidente desorientado e mal informado, que acredita que a Liga Árabe – agora nada além de fantoche da política exterior dos EUA – estaria alinhada a alguma das aspirações democráticas do povo sírio. O blogueiro As’ad Abu Khalil (“The Angry Arab News Service” http://angryarab.blogspot.com/) acerta quando diz que, depois da queda do presidente Hosni Mubarak no Egito, “a Liga Árabe é hoje uma extensão do Conselho de Cooperação do Golfo [CCG]”.

Esse CCG é, de fato, o Clube Contrarrevolucionário do Golfo. Seu esporte preferido é privilegiar ditadores “modelo” – a começar por eles mesmos, mas incluindo Ali Abdullah Saleh no Iêmen e os reizinhos da Jordânia e do Marrocos, que serão anexados ao CCG porque, por mais que adorassem estar no Golfo Persa, não estão (geograficamente falando). Por outro lado, o CCG odeia ditadores “errados” – como o já detonado Muammar Gaddafi e Assad, os quais, não por acaso, estão associados a repúblicas seculares.

A Casa de Saud, a Jordânia e o ascendente Qatar estão mais do que confortabilíssimos, fazendo o jogo de EUA e Israel. A Casa de Saud – cão alfa do CCG – invadiu o Bahrain com 1.500 soldados para esmagar protestos pró-democracia em tudo semelhantes aos do Egito e Síria. A Casa de Saud ajudou a dinastia sunita al-Khalifa, que reina no Bahrain, a disseminar a tortura contra os xiitas, que são 70% da população; os bahrainis confirmam que todos os torturados sempre eram forçados a confessar laços diretos com Teerã, “o mal”.

No Egito, a Casa de Saud apoiou Mubarak até depois de deposto. Hoje apoia – até agora com mais de US$4 bilhões de dólares – uma junta militar que, basicamente, quer manter o poder, sem qualquer tipo de fiscalização ou transparência, sob fachada “democrática”.

A Casa de Saud de modo algum poderia conviver com qualquer tipo de democracia egípcia bem sucedida. Quem acredite que a Casa de Saud algum dia defendeu ou defenderá direitos humanos e democracia no Oriente Médio deve autointernar-se no manicômio mais próximo.

A Liga Árabe – também uma extensão da Casa de Saud – deu carta branca à OTAN para bombardear estado-membro. Suspendeu a Síria dia 12 de novembro – o mesmo que fez com a Líbia, dia 22 de fevereiro –, porque, diferente do que aconteceu no caso da Líbia, as ordens que EUA e países europeus deram ao Conselho de Segurança da ONU foram devidamente vetadas por Rússia e China.

Bem-vindos a uma “nova” Liga Árabe na qual, se você não se ajoelha ante o altar do CCG, você é automaticamente condenado a “mudança de regime”.

Mas ajoelhar-se e cultuar o CCG não se compara a ajoelhar-se e cultuar o Pentágono e a OTAN. Jordânia e Marrocos são membros do Diálogo Mediterrâneo da OTAN; e o Qatar e os Emirados Árabes Unidos são membros da Iniciativa de Cooperação de Istambul da OTAN. Além disso, Jordânia e Emirados Árabes Unidos são as duas nações árabes que fornecem soldados para a OTAN no Afeganistão.

Ivo Daalder, embaixador do governo Obama à OTAN, já ordenou que a Líbia seja incluída no Diálogo Mediterrâneo, com Marrocos, Jordânia, Egito, Tunísia, Argélia, Mauritania e Israel. E, no início de novembro, deu ao Conselho do Atlântico a receita completa para atacar a Síria: uma “urgente necessidade” (por exemplo, criar a impressão de que Assad massacrará os civis de Homs); um “relatório regional” (que virá à velocidade da luz, do CCG/Liga Árabe); e um mandado da ONU (Rússia e China já disseram que não, não haverá mandado da ONU).

Eis, portanto, o que se pode esperar dessa “coalizão de vontades”: muita violência e ataques de agentes secretos atribuídos ao regime Assad; apoio imediato do CCG/Liga Árabe à democracia; e, provavelmente, ataque unilateral (porque, dessa vez, não haverá Conselho de Segurança da ONU que autorize a intervenção).

O sonho do Grande Oriente Médio

Não surpreende que mentes lúcidas em Damasco, perscrutando o futuro nas folhas de chá, tenham decidido agir. Damasco enviou mensageiros secretos para sondar o estado de ânimo de Washington. O preço de Damasco ser deixada em paz: cortar todos os laços com Teerã. O regime Assad ficou com o problema de descobrir o que lhe seria dado em troca.

Os alawitas, menos de 12% da população e toda a elite dirigente, não abandonarão o regime Assad. Cristãos e druzos só podem esperar o pior de uma nova ordem muito possivelmente dominada pela Fraternidade Muçulmana mais linha dura. Vale o mesmo para um vizinho crucialmente importante: o governo de Nuri al-Maliki em Bagdá.

A Rússia sabe que, se o modelo atualmente implantado na Líbia for reproduzido na Síria – e com o Líbano, hoje, já sob bloqueio de facto pela OTAN –, o Mediterrâneo será aquele sonho afinal concretizado, “um lago da OTAN”, que é o mesmo que dizer que o Mediterrâneo estará sob total controle dos EUA.

Moscou também sabe que, no Grande Oriente Médio concebido pelos EUA – da Mauritânia ao Cazaquistão – os únicos países que não estão ligados à OTAN por miríades de “parcerias” são, além da Síria: o Líbano, a Eritréia, o Sudão e o Irã.

Quanto ao Pentágono, o nome do jogo é “reposicionamento”. Porque, se você sai do Iraque, você tem de ir para outro ponto qualquer no “arco de instabilidade”, de preferência no Golfo. Já há 40 mil soldados dos EUA no Golfo, 23 mil dos quais no Kuwait. Um exército secreto “extra”, para o Pentágono e a CIA, está sendo treinado pela ex-Blackwater, já “reposicionada” como Xe, nos Emirados Árabes Unidos. Está nascendo uma OTAN do Golfo. Talvez… OTANCCG, ou CCGOTAN?

Quando os neoconservadores dos EUA governavam o universo – há apenas poucos anos – o motto era “Homens de verdade vão para Teerã”. É hora de melhorar isso. A coisa hoje está mais para “homens de verdade vão para Teerã via Damasco, mas só se tiverem colhões para encarar Moscou”.

Pepe Escobar, nascido no Brasil, é o correspondente itinerante do Asia Times, portal de notícias baseado em Hong Kong/Tailândia. Também é analista do portal de notícias baseado em Toronto/Washington, The Real News.

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Membros do Parlamento Europeu clamam por apoio projeto de Renda Básica Incondicional

Um amigo alemão (Peter) chamou minha atenção para uma iniciativa que está rolando na União Europeia desde o ano passado e que já conseguiu o apoio de 34 membros do Parlamento. Trata-se da Renda Básica Incondicional, aqui também conhecida como Renda de Cidadania ou Renda Básica Cidadã, que ficou conhecida pelos esforços do Senador Eduardo Supplicy (PT/SP) em implantá-la, ainda que em caráter experimental, em algumas localidades do Brasil.

Fui ler o site do grupo que promove a iniciativa, e vi que há uma petição que visa colher 1 milhão de assinaturas para que a Comissão Europeia possa avaliar o projeto e colocá-lo em discussão.

Embora seja favorável a projeto de programas de renda de cidadania, como essa proposta pela iniciativa europeia, não posso deixar de preocupar-me com o fato de que, para receber a renda, o indivíduo precisa ser um cidadão europeu legalizado para receber o benefício. Tais programas, portanto, tendem a distribuir melhor a renda, é verdade, mas certamente deverá aumentar o controle sobre os imigrantes não europeus que vivem clandestinamente em algum dos países da União Europeia. Não cabe dúvida, ao menos para mim, que o programa pode abrir espaço para o agravamento de práticas xenofóbicas, especialmente em países onde as taxas de desempregos estão altas.

Cabe destacar, também, a maioria esmagadora de parlamentares ligado aos Partidos Verdes através da Europa, e a quase ausência de parlamentares da esquerda, em especial, na França e no Reino Unido. Vou pesquisar para verificar a posição desses partidos em relação à iniciativa dos Cidadãos Europeus. 

Abaixo, o Hum Historiador preparou uma tradução livre de um dos textos publicados na página do portal da Iniciativa de Cidadãos Europeus pela Renda Básica Incondicional dando conta do apoio que o projeto recebeu de membros do Parlamento Europeu.

34 MEMBROS DO PARLAMENTO EUROPEU APELAM POR APOIO AO PROJETO DA INICIATIVA DE CIDADÃOS EUROPEUS PELA RENDA BÁSICA INCONDICIONAL
por Stanislas Jourdan, em 28 de novembro de 2013.

No último dia 28 de novembro, 29 membros do Parlamento Europeu, originários de 12 países diferentes, lançaram uma declaração conjunta (pdf em inglês) expressando seu apoio à Iniciativa de Cidadãos Europeus (ICE) pela Renda Básica Incondicional (RBI). Essa declaração apela à Comissão Europeia que avalie a ideia de reformar o regime de seguridade social nacional atual para uma renda básica incondicional.

Atualização: Até o dia 25 de dezembro, 34 membros do parlamento europeu já tinham assinado a declaração de apoio.

A RBI é um pagamento regular e universal a todos sem necessidade de satisfazer um critério de renda ou qualquer condição de trabalho. O valor deve ser alto o suficiente para garantir a todos uma existência digna. Ele possibilitaria que as pessoas fizessem escolhas sobre o quê fazer da vida sem temerem a pobreza. Ele serviria como uma reserva para o número crescente de pessoas que trabalham por contatos de curta duração ou aqueles que estão começando seus negócios.

Muitos esquemas de financiamento tem sido elaborado através dos anos em diferentes países. A Iniciativa Européia pela Renda Básica Incondicional está solicitando novos estudos para que se iniciem financiamentos que atendam toda a Zona do Euro.

Membros do Parlamento Europeu solicitam a todos os europeus que apoiem essa iniciativa. Todos os cidadãos europeus aptos a votar podem apoiar esse projeto tanto pela internet (http://sign.basicincome2013.eu) como em papel. Um milhão de assinaturas são necessárias até o dia 14 de janeiro de 2014 para garantir que ele chegue até a mesa da Comissão Europeia.

Os atuais sistemas de seguridade social são humilhantes e inadequados para resolver as raizes da pobreza, enfatizam os Membros do Parlamento europeu.

“Renda Básica Incondicional transformaria a seguridade social de um sistema compensatório em um sistema de emancipação, no qual confia às pessoas a fazerem suas próprias escolhas, sem estigmatizá-las em função de suas circunstâncias”, revela a declaração conjunta.

“Nós acreditamos que uma nova forma de seguridade social é uma necessidade urgente uma vez que sistemas de seguridade social em cada país tornaram-se cada vez mais condicionais e punitivos, minando a dignidade individual, criam barreiras à participação civica e aprofundam divisões na sociedade europeia tando através como dentro das fronteiras nacionais”.

Eles também declararam que essa nova forma de seguridade social é muito mais simples do que os sistemas que existem atualmente (frequentemente caóticos e onerosos), ajudariam a equilibrar as disparidades de renda e poderiam ajudar a mitigar as tensões raciais e sociais ocasionadas pela migração econômica.

O Comitê Organizador da Iniciativa dos Cidadãos Europeus parabeniza os Membros do Parlamento europeu pelo seu compromisso e está ansioso em conseguir mais apoio no parlamento europeu, que sediou uma conferência no último dia  9 de dezembro.

[atualização 29/11] Olga SEHNALOVÁ, Keith TAYLOR, Bart STAES and Yves COCHET também deram seu apoio à iniciativa.
[atualização 30/11] Isabelle DURANT assinou a declaração.
[atualização 05/12] Jean-Paul BESSET e Nicole KIIL-NIELSEN deram seu apoio à iniciativa.
[atualização 17/12] Hélène FLAUTRE e Sirpa PIETIKAÏNEN deram seu apoio à iniciativa.
[atualização 25/12]Tanja FAJON assinou a declaração.

SIGNATÁRIOS/PARTIDO/PAÍS:

Martin EHRENHAUSER, independente (Austria)
Philippe LAMBERTS, Verde (Bélgica)
Isabelle DURANT, Verde (Bélgica)
Bart STAES, Verde (Bélgica)
Nikola VULJANIĆ, Esquerda (Croácia)
Olga SEHNALOVÁ, Social Democrata (República Tcheca)
Tarja CRONBERG, Verde (Finlândia)
Satu HASSI, Verde (Finlândia)
Sirpa Pietikäinen, Democrata Cristão (Finlândia)
Catherine GREZE, Verde (França)
Eva JOLY, Verde (França)
José BOVÉ, Verde (França)
Karima DELLI, Verde (França)
Jean-Paul BESSET, Verde (França)
Nicole KIIL-NIELSEN, Verde (França)
Hélène Flautre, Verde (França)
Yves COCHET, Verde (França)
Malika BENARAB-ATTOU, Verde (França)
Michèle RIVASI, Verde (França)
Gerald HÄFNER, Verde (Alemanha)
Ska KELLER, Verde (Alemanha)
Nikos CHRISOGELOS, Verde (Grécia)
Brian CROWLEY, ALDE (Irlanda)
Emer COSTELLO, Social Democrata (Irlanda)
Liam AYLWARD, ALDE (Irlanda)
Nessa CHILDERS, independente (Irlanda)
Sean KELLY, Democrata Cristão (Irlanda)
Pat the Cope Callagher, ALDE (Irlanda)
Georges BACH, Democrata Cristão (Luxemburgo)
Claude TURMES, Verde (Luxemburgo)
Tanja FAJON, Socialista & Democrata (Eslovênia)
Carl SCHLYTER, Verde (Suécia)
Jean LAMBERT, Verde (Reino Unido)
Keith TAYLOR, Verde (Reino Unido)

MAIS SOBRE O ASSUNTO PUBLICADO EM HUM HISTORIADOR

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Governo brasileiro expressa repúdio ao constrangimento imposto ao presidente Evo Morales

Nesta quarta-feira (3) a presidenta Dilma Rousseff emitiu nota referente ao constrangimento imposto ao presidente da Bolívia, Evo Morales, que teve seu avião presidencial impedido de voar sobre  o espaço aéreo de alguns países europeus.

Presidenta Dilma Rousseff

Segundo a nota, o constrangimento não atinge somente a Bolívia, mas a toda América Latina, comprometendo o diálogo entre os continentes e possíveis negociações entre eles. Dilma ainda afirma que encaminhará iniciativas em todas as instâncias multilaterais para que situações como essa nunca se repitam.

Como noticiou nesta quarta-feira o jornal O Estado de S.Paulo, o chanceler boliviano, David Choquehuanca, afirmou que o avião de Morales foi proibido de aterrissar em Portugal para uma escala e impedido de entrar no espaço aéreo francês em razão da desconfiança de que o ex-agente americano Edward Snowden estivesse a bordo. O incidente ocorreu após Evo declarar, na Rússia, estar disposto a avaliar um pedido de asilo feito pelo fugitivo.

A União de Nações Sul-Americanas (Unasul) deve fazer uma reunião extraordinária nesta quinta-feira, 4, para tratar do assunto.

Abaixo segue a íntegra da nota tal como divulgada pelo Blog do Planalto.

O governo brasileiro expressa sua indignação e repúdio ao constrangimento imposto ao presidente Evo Morales por alguns países europeus, que impediram o sobrevoo do avião presidencial boliviano por seu espaço aéreo, depois de haver autorizado seu trânsito.

O noticiado pretexto dessa atitude inaceitável – a suposta presença de Edward Snowden no avião do Presidente –, além de fantasiosa, é grave desrespeito ao Direito e às práticas internacionais e às normas civilizadas de convivência entre as nações. Acarretou, o que é mais grave, risco de vida para o dirigente boliviano e seus colaboradores.

Causa surpresa e espanto que a postura de certos governos europeus tenha sido adotada ao mesmo momento em que alguns desses mesmos governos denunciavam a espionagem de seus funcionários por parte dos Estados Unidos, chegando a afirmar que essas ações comprometiam um futuro acordo comercial entre este país e a União Europeia.

O constrangimento ao presidente Morales atinge não só à Bolívia, mas a toda América Latina. Compromete o diálogo entre os dois continentes e possíveis negociações entre eles. Exige pronta explicação e correspondentes escusas por parte dos países envolvidos nesta provocação.

O governo brasileiro expressa sua mais ampla solidariedade ao presidente Evo Morales e encaminhará iniciativas em todas instâncias multilaterais, especialmente em nosso continente, para que situações como essa nunca mais se repitam.

Dilma Rousseff
Presidenta da República Federativa do Brasil

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Na contramão: terá a Islândia algo a nos ensinar?

Localizada no norte da Europa, a Islândia é uma ilha de gelo e vulcões, com pouco mais de 320 mil habitantes e que ficou mundialmente conhecida por ser o país de origem da cantora Bjork. Contudo, em 2008, ganhou os holofotes de todo o mundo por seu sistema bancário ter sido o primeiro a entrar em colapso, levando consigo a economia do país e, antes mesmo do fim daquele ano, fazendo com que 6 mil pessoas lotassem a praça do Parlamento, em Reykjavík, para exigir a renúncia do governo. Era o começo da grande crise econômica que assolaria a Europa.

Passados quase quatro anos, em fevereiro de 2012, a Revista Piauí trouxe uma grande reportagem (a ilha-laboratório), assinada por João Moreira Salles, destacando como a Islândia passou a ser considerada um exemplo por economistas e organismos internacionais por ter conseguido sair do colapso financeiro devastador em que esteve através de medidas que contrariavam as recomendações de organismos europeus.

Nos últimos dez meses que separam fevereiro de outubro, mais novidades chegam da Islândia. Desta vez, as notícias são bastante positivas. Hoje, o professor Vladimir Safatle publicou em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo, algumas considerações sobre como o povo desta ilha se organizou a partir da crise de 2008 e, desde então, decidiram tomar o poder em suas mãos, chegando ao extremo de, neste último fim de semana, ter aprovado uma nova Constituição para o país, carta esta que foi escrita por 25 pessoas comuns, tendo sido debatida e comentada através das redes sociais. Vejam a reprodução da coluna do professor Safatle abaixo:

UM PAÍS ESTRANHO
por Vladimir Safatle para a Folha de S. Paulo – 23 de outubro de 2012

A Islândia é uma ilha com pouco mais de 300 mil habitantes que parece decidida a inventar a democracia do futuro.

Por uma razão não totalmente clara, esse país que fora um dos primeiros a quebrar com a crise financeira de 2008 sumiu em larga medida das páginas da imprensa mundial. Coisas estranhas, no entanto, aconteceram por lá.

Primeiro, o presidente da República submeteu a plebiscito propostas de ajuda estatal a bancos falidos. O ex-primeiro-ministro grego George Papandreou foi posto para fora do governo quando aventou uma ideia semelhante. O povo islandês, todavia, não se fez de rogado e disse claramente que não pagaria nenhuma dívida de bancos.

Mais do que isso, os executivos dos bancos foram presos e o primeiro-ministro que governava o país à época da crise foi julgado e condenado.

Algo muito diferente do resto da Europa, onde os executivos que quebraram a economia mundial foram para casa levando no bolso “stock options” vindos diretamente das ajudas estatais.

Como se não bastasse, a Islândia resolveu escrever uma nova Constituição. Submetida a sufrágio universal, ela foi aprovada no último fim de semana. A Constituição não foi redigida por membros do Parlamento ou por juristas, mas por 25 “pessoas comuns” escolhidas de maneira direta.

Durante sua redação, qualquer um podia utilizar as redes sociais para enviar sugestões de leis e questionar o projeto. Todas as discussões entre os membros do Conselho Constitucional podiam ser acompanhadas do computador de qualquer cidadão.

O resultado é uma Constituição que estatiza todos os recursos naturais, impede o Estado de ter documentos secretos sobre seus cidadãos e cria as bases de uma democracia direta, onde basta o pedido de 10% da população para que uma lei aprovada pelo Parlamento seja objeto de plebiscito.

Seu preâmbulo não poderia ser mais claro a respeito do espírito de todo o documento: “Nós, o povo da Islândia, queremos criar uma sociedade justa que ofereça as mesmas oportunidades a todos. Nossas diferentes origens são uma riqueza comum e, juntos, somos responsáveis pela herança de gerações”.

Em uma época na qual a Europa afunda na xenofobia e esquece o igualitarismo como valor republicano fundamental, a Constituição islandesa soa estranha. Esse estranho país, contudo, já não está mais em crise econômica.

Cresceu 2,1% no ano passado e deve crescer 2,7% neste ano. Eles fizeram tudo o que Portugal, Espanha, Grécia, Itália e outros não fizeram. Ou seja, eles confiaram na força da soberania popular e resolveram guiar seu destino com as próprias mãos. Algo atualmente muito estranho.

Gostaria de concluir tal como provocou João Moreira Salles em sua excelente reportagem na Piauí, “na iminência da derrocada do projeto Europeu, será mesmo que este país tem alguma coisa a nos ensinar?”

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Balada triste para violoncelo e câmara escura

Na última quinta-feira, dia 05/04, publiquei o post O Emblemático Suicídio de Dimitris Christoulas na Grécia, dando notícia desta triste morte ocasionada pela crise financeira pela qual a Grécia vem passando desde 2008. O post foi bastante visitado desde então e alguns leitores deixaram seus comentários. Sempre fico contente quando um post tem bastante comentários, pois o texto foi bastante lido e tocou algumas pessoas de tal maneira que elas decidiram compartilhar suas opiniões ali.

Um dos comentários deste post acabou sendo bastante especial, para mim, pois veio em forma de poema. A colega Renata Requião, movida pelo suicídio de Dimitris Christoulas, compôs um poema e pediu-me para que o divulgasse por aqui no blog. Eu achei o poema tão bonito e tão pertinente, que aceitei imediatamente.

Então, sem mais delongas, segue o lindo poema de Renata Requião.


Balada triste para violoncelo e câmara escura

.

no futuro imaginado / previsto

ao pé de uma árvore

na Praça Syntagma

[o nome grego Πλατεία Συντάγματος

significa Praça da Constituição]

na zona do euro

no centro de Atenas

[em frente ao Parlamento Helênico

grego parlatório contemporâneo

origem de nossa civilização

– lugar de nossa constituição],

aos olhos de quem passa,

jaz ainda o corpo de um homem.

.

morto aos 77 anos

– suicidado pela sociedade –

com um bilhete no bolso

e uma bala na cabeça:

Dimitris Christoulas,

consagra seu nome

à vida sem sentidos.

“única forma

com um final digno,

já que,

homens, não comemos lixo”,

caligrafa essas palavras num pequeno papel,

o farmacêutico que por anos vendera remédios, quando remédios faziam efeito.

.

Que em Syntagma

(quereria poder desejar:

que mesmo sem palavras,

e que em lugar nenhum!)

não nos habituemos à morte,

não nos habituemos à perda dos sentidos.

.

Μακάρι να μη φφγεις.

Μακάρι να μείνεις

Κι άλλο. Μακάρι.

Μακάρι να.

Μακάρι να.

Macapi va: só vejo o túnel.

Macapi va: tudo é legível.

Aqui faço. Macapi.

Macapi va.

Macapi va.

.

…………………………………………………..

O meu desejo, Macapi, é de que não partissem.

Já que não conseguimos de nada saber.

Macapi va.

Que permaneçamos.

.

renata requião

Laranjal, sul do Brasil, início do outono, em 2012

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