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Revista Fórum: estudantes da FEA entram armados na faculdade e anunciam o início de nova era

O Hum Historiador abre espaço para repercutir uma matéria bastante preocupante divulgada no portal da Revista Fórum nessa segunda-feira (29), apenas um dia após o anúncio da eleição de Jair Bolsonaro.

A matéria denuncia que alunos da FEA entraram armados na faculdade, trajando uniformes militares, anunciando o início de uma “nova era”, na qual as “petistas safadas” devem temer.

Uma das fotos que circulou nas redes sociais difundindo a ação desses “estudantes da FEA” mostra quatro indivíduos, dois deles portando armas, um com camiseta do presidente estadunidense Donald Trump e, ao fundo, um carregando uma bandeira usada por movimentos fascistas, neonazistas, pela Ku Klux Klan e pela Supremacia Branca. Na frente, sobre a mesa, pequenos pedaços de papéis onde se lê “está com medo petista safada?” e “a nova era está chegando”. No quadro branco, atrás da bandeira se lê as inscrições “nova era” e ” B17″.

Abaixo segue o texto do jornalista Lucas Vasques na íntegra, tal como publicado na revista:

ESTUDANTES DA FEA ENTRAM ARMADOS NA FACULDADE E ANUNCIAM O INÍCIO DE NOVA ERA

por Lucas Vasques
para Revista Fórum – Publicado originalmente em 29/out/2018

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Estudantes da FEA posam para foto em uma sala de aula com uniformes militares e de armas em punho, ameaçando “petistas safadas” e anunciando uma “nova era”.  Foto: Reprodução

Estimulados pelo clima político atual e pela vitória de Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições presidenciais, um grupo de alunos da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) ingressou nas dependências da instituição armado. Estavam vestidos com roupa militar e camisetas em que se lia Trump, fotografaram salas de aula, fizeram uma espécie de performance, anunciando a chegada da “nova era” e fazendo ameaças: “As petistas safadas vão ter de tomar cuidado”.

A foto dos alunos circulou entre grupos de WhatsApp e pelas redes sociais e causou uma rápida reação tanto dos estudantes como da direção. Ainda na noite desta segunda-feira (29), uma reunião de alunos foi realizada para debater a questão.

“O caso é grave. A direção da faculdade e o Centro Acadêmico Visconde de Cairu divulgaram notas de repúdio e a direção se comprometeu a abrir sindicância para apurar os fatos. Além disso, vamos realizar nos próximos dias uma plenária entre estudantes, professores e e funcionários, com o objetivo de centralizar forças contra a violência. As manifestações de ideias divergentes podem ocorrer, mas sempre preservando o debate democrático, sem violência”, afirmou Rodrigo Toneto, estudante de mestrado de Economia e integrante do DCE Livre da USP.

Nota de repúdio do CAVC FEA-USP

A Gestão Delta do Centro Acadêmico Visconde de Cairu vem por meio desta nota mostrar sua indignação perante as demonstrações fascistas que têm ocorrido em nossa Universidade.

Na manhã desta segunda-feira (29), após o resultado das eleições presidenciais, uma foto bastante preocupante circulou pelos grupos de WhatsApp da comunidade FEAna. Na imagem, um conjunto de alunos em sala de aula da faculdade segura armas e cartazes com os dizeres “está com medo, petista safada?”; além disso, a imagem acompanha frases como “nova era” e “B17”, comemorando a vitória do candidato Jair Bolsonaro. Apesar do cunho eleitoral, não se trata de uma simples manifestação política: é um retrato misógino e violento, de caráter fascista, que ameaça os direitos democráticos da coletividade dos estudantes.

A foto faz parte de uma onda de extremismo e práticas violentas por todo país. Só em nossa Universidade, observamos também suásticas sendo pintadas na porta de residências estudantis e apologia à violência dentro dos campi. Diante deste cenário, é preciso que nós tenhamos posicionamento em nome da democracia e pela paz. Entendemos que a Universidade deve permitir a livre expressão e a militância política de seus associados, entretanto, posições contra os direitos humanos ou que propaguem o medo e a violência não devem, de forma alguma, ser toleradas. Devemos nos colocar por um país onde a manifestação política e o engajamento seja livre, e não motivo de ameaça e medo. Por um país onde pobres, mulheres, LGBTs, nordestinos, negros e negras e qualquer outra pessoa não se sintam ameaçadas dentro de seu próprio ambiente de ensino por pensarem de forma contrária ao governo. Devemos nos posicionar contra qualquer manifestação de cunho fascista que ponha em risco as liberdades democráticas.

Demonstrações de ódio como a presente na imagem são inadmissíveis em quaisquer contextos, principalmente dentro de uma sala de aula universitária. Nesse sentido, repudiamos a prática e aqueles responsáveis, e saudamos o posicionamento da instituição diante do ocorrido. Esperamos que o caso seja encaminhado com a seriedade devida.

Não podemos ficar calados diante de uma ameaça como esta.

Nós, estudantes, resistimos!

Nota de repúdio da direção da FEA-USP

A direção da FEA vem a público para repudiar as ações de incitação à violência que estão ocorrendo dentro do ambiente da USP e, particularmente, da FEA.

A Universidade existe como um campo de debate de inúmeros temas, inclusive o político, e a nossa tradição é pacífica. E queremos que assim continue, para todos, num ambiente em que a pluralidade seja uma prática real, politica, religiosa, de gênero ou outra perspectiva.

O período eleitoral foi tenso e as expectativas oscilaram com muita radicalização. Uma vez terminado o processo eleitoral, imagina-se que as acomodações ocorram e os ânimos sejam acalmados. Afinal a vida segue.

Em algumas situações algo que pode ser pensado como “brincadeira” pode ser o estopim para aumento da agressividade e mesmo ameaças. Isso é inaceitável pois queremos um ambiente em que a comunidade possa pensar, discutir, aprender e crescer. Truculência não faz parte desse cardápio seja qual for a sua forma de exteriorização.

Além de todos os esforços para manter integridade e paz no ambiente da FEA, ações que intimidem, ofendam e causem reações e danos serão rigorosamente coibidas e punidas.

Fábio Frezatti
Diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP

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Sobre o fascismo, os neofascismos e Bolsonaro

por Henrique Soares Carneiro
publicado originalmente em seu perfil do Facebook em 26 set. 2018.

Precisamos Falar Sobre Fascismo

O fascismo é um fenômeno histórico e geográfico localizado. Nasceu com esse nome na Itália, na década de 1920, e levou Mussolini ao poder.

Na Alemanha, na mesma época, crescia o partido nazista. O golpe de Franco, na Espanha, em 1936, impôs um regime que levou o nome do ditador.

Após a derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, praticamente nenhum partido com importância e posições de poder reivindicou abertamente o fascismo e o nazismo.

Na América Latina dos anos de 1970, houve ditaduras militares brutais, mas nenhuma se assumia abertamente como de ideologia fascista. Mesmo Pinochet, talvez o pior de todas estes ditadores, não se dizia um fascista, porque aplicava o projeto neoliberal da escola de Chicago, e, em política econômica, é sabido que o nazi-fascismo foi intervencionista estatal em muitos setores, tendo Hitler chegado mesmo a nacionalizar o sistema bancário.

Ou seja, o fascismo estrito senso é algo bem diferente dos híbridos contemporâneos neofascistas. À exceção de neonazis abertos que, felizmente, ainda são ultraminoritários, ninguém está por aí com cartazes de Hitler ou Mussolini.

Isso quer dizer que não existe mais o fascismo?

Não, pelo contrário!

O que ocorreu foi uma adaptação dos neofascismos a novas identidades, mas o programa permanece o mesmo, e pode ser resumido em:

  1. Política de ódio e ameaça de extermínio dos adversários políticos, da esquerda em geral e dos movimentos sindicais e sociais.
  2. Defesa extremada do mercado e da propriedade privada contra qualquer apelo social de reforma ou diminuição de desigualdades.
  3. Escolha de grupos para serem objeto de campanhas de ódio e preconceito, estigmatizando setores sociais como bodes expiatórios.

O elemento imperialista e belicoso do fascismo europeu não se repete da mesma forma em países periféricos em que governos ditatoriais são expressões claramente fascistas, mas não deixam de existir. Vide as aventuras militares e invasões ocorridas de Suharto, na Indonésia, à Pinochet, no Chile, contra vizinhos.

Disse tudo isso para afirmar que o projeto atual da extrema-direita no Brasil unificado sob o deputado capitão, que conta com uma dezena de generais em seu staff, é sim de natureza fascista, em seu programa e em sua ameaça de violência.

A misoginia, a homofobia, o racismo, o horror à cultura, o anti-intelectualismo e o irracionalismo são marcas centrais desse híbrido ideológico pouco consistente e orgânico, mas não são o que define o seu programa econômico e político que consiste em aplicar o mais brutal plano antissocial pelos meios mais violentos, impiedosos e repressivos.

CARNEIRO Henrique SoaresHenrique Soares Carneiro é professor de História Moderna no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Carta do professor Renato Ortiz após cartaz fascista ameaçar alunos, professores e funcionários do IFCH

Alunos, professores e funcionários do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, em Campinas, foram ameaçados por um cartaz afixado ao lado de uma das escadas do prédio, trazendo os seguintes dizeres: “Morte aos comunistas do IFCH da Unicamp, seus parasitas, vão trabalhar”.

Morte Comunistas UNICAMP

Cartaz fascista afixado no IFCH, UNICAMP. Fonte: Carta Campinas.

Em resposta à mais esta ameaça, um dos professores do Instituto, Ricardo Ortiz, escreveu uma carta aos colegas, que foi publicada em rede social.

Abaixo segue a transcrição, na íntegra, da carta escrita pelo professor Renato Ortiz aos seus colegas do IFCH.

CARTA AOS COLEGAS DO INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
por Renato Ortiz

“Morte aos comunistas do IFCH”. A frase estava escrita na parede de entrada do prédio da direção do Instituto de Filosofia. O lugar escolhido era estratégico, ao subir as escadas a mensagem podia ser vista no seu brilho ofuscante. Minha reação foi de espanto, permaneci imóvel diante do texto, nunca havia visto algo assim em minha vida universitária. No dia seguinte, ao chegar no Instituto, os dizeres tinham sido apagados.

“Morte aos comunistas”. A segunda parte da frase é genérica não tem intenção de ser precisa. Dificilmente, após o colapso da União Soviética, ela poderia dirigir-se àqueles que se consideram “comunistas”. Não, o termo possui uma conotação polissêmica: “esquerda”, “canalha”, “safado”, “petista”, “corrupto”. A denominação deve ser suficientemente ampla para dar a impressão que a pessoa que escreve situa-se na condição fictícia de que é possível falar “contra todos”.

Ela estaria indefesa, ameaçada pelas forças estranhas que a rodeiam. A primeira parte da sentença é, no entanto, clara, límpida, lembra a palavra de ordem do fascismo: morte. Não há nenhuma dubiedade no que é dito: os adversários devem ser aniquilados.

Creio que foi precipitado apagar o grafitti. Ele deveria, temporariamente, permanecer no muro, vestígio e testemunho da estupidez que nos cerca. Temos a ilusão que a universidade, um lugar de liberdade e debate, estaria ao abrigo dessas coisas. Engano. As fissuras sociais nos atingem diretamente.

Existe atualmente na sociedade brasileira um clima explícito de cretinice, ela não se envergonha de si mesmo, orgulhosa, torna-se pública, revelando sua face distorcida. Pior, não se contenta em circunscrever-se aos espaços dos partidos ou dos movimentos políticos, invade o quotidiano, as conversas, amizades, relações de trabalho.

A intolerância sente-se confortável, à vontade para se apresentar como um código moral duvidoso. “Morte”, “Comunista”. As palavras não nos machucam diretamente, mas contém uma potencialidade inquietante, a passagem da intenção ao ato, da agressão verbal à violência física. Resta-nos a indignação, dizer não a esta deriva autoritária, expor sua arrogância e falsidade.

A indignação é um sentimento de repulsa, retira-nos da passividade, recorda-nos que o presente é frágil e as conquistas que conhecemos nada têm de perenes, permanentes.

Renato Ortiz

10 setembro de 2015

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Golpistas em ação: as manifestações de 15 de março

Quem fizer uma breve consulta no Google Images por fotos tiradas durante as manifestações realizadas em várias cidades neste último domingo (15), facilmente encontrará imagens de muitas pessoas que saíram às ruas para pedir a derrubada de um governo legitimamente eleito através de uma intervenção militar.

Uma das imagens que circulou amplamente pela rede mundial de computadores, pedia às Forças Armadas que libertassem o Brasil ou o mundo iria sangrar (???). Tal faixa, como se pode ver abaixo, trazia uma suástica de um lado e, do outro, a foice e o martelo dentro do tradicional símbolo de proibição. Uma segunda frase, escrita em inglês, alertava ao perigo que a “União das Repúblicas Socialistas da América Latina” (URSAL) representam para a paz mundial (???).

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Imagem capturada a partir da cobertura do canal Globo News de participantes da manifestação no Rio de Janeiro neste último domingo, 15 de março.

Ora, ainda que ao portar tal faixa os manifestantes estivessem buscando associar o nazismo ao socialismo, como já me apontaram pelas redes sociais, parece que a junção de tais elementos não foi a melhor estratégia para comunicar esta ideia. Na verdade, se essa era mesmo a intenção, o tiro parece ter saído pela culatra, uma vez que a imagem está sendo bastante explorada no sentido de relacionar tais manifestantes a grupos simpatizantes às ideias nazistas. Ainda mais quando se vê, na mesma faixa, uma suástica, seguida da defesa de intervenções militares para destruir governos latino-americanos eleitos democraticamente e um símbolo indicando a proibição de governos socialistas.

Outras imagens que chamaram bastante minha atenção, pela recorrência dos cartazes e gritos de ordem que ecoaram por diversas capitais do país, foram as que apareceram em cartazes lembrando que a bandeira do Brasil não é vermelha, mas verde e amarela, na tentativa de associar o atual governo a ditaduras comunistas. Para os indivíduos que portavam estes cartazes (e muitos dos presentes nas manifestações), tal associação seria razão suficiente para uma intervenção militar no país, uma vez que é preferível um governo militar do que a presente “ditadura comunista” em que vivemos.

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Cartaz exibido durante manifestações realizadas em São Paulo, 15 de março.

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Rapaz envolto na bandeira brasileira segura cartaz durante manifestações realizadas em São Paulo, 15 de março.

Fora o “erro” grosseiro ao interpretar os últimos governos petistas como “ditaduras comunistas”, vê-se que estamos diante de indivíduos que se dizem apolíticos, que teriam sido impulsionados às ruas por um sentimento nacionalista em defesa de uma pátria que estaria sob o risco de se desmantelar pela ação de um governo dito comunista. No entanto, quem vem acompanhando a conjuntura política do país desde as campanhas eleitorais de 2014, percebe que as manifestações não foram promovidas por grupos apolíticos, que tais grupos estão em defesa da pátria ou, tampouco, que o país corre risco de se desmantelar em razão de uma ditadura comunista. Tal construção é tão falsa quanto uma nota de R$ 3,00. Tais ideias (grupos apolíticos, nacionalismo, combate ao comunismo) são utilizadas como instrumentos para que o intuito golpista penetre amplamente na sociedade, conquistando corações e mentes. Como já disseram alhures, o nacionalismo é, de fato, o esconderijo preferido de golpistas e fascistas.

Por fim, uma faixa vergonhosa, novamente escrita em inglês e português, pede socorro às forças armadas sob a justificativa de que uma “verdadeira reforma política” apenas poderia ser feita pelas mãos dos militares.

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Faixa exibida nas manifestações de março de 2015 em defesa de reformas políticas, contudo, através dos militares.

Ora, vê-se novamente o paradoxo de pessoas que saem às ruas em um ato democrático, nutrindo total desprezo pela democracia. Pelo que demonstram, ao invés de lutarem por maior participação política, de juntarem forças aos movimentos sociais e clamarem por lideranças coletivas, desejam ver implantado regimes baseados em lideranças individuais e fortes, que imponham a ordem com armas na mão. Como se isso não fosse suficiente, a faixa ainda apela ao uso de imagens desrespeitosas, tal como a mão com quatro dedos dentro do círculo de proibição para fazer referência ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Fica claro, uma vez mais, que parte do problema é o ódio que uma porção da sociedade nutre em relação a este homem. Mais do que isso, o terror que sentem ante a possibilidade de Lula vir a assumir novo mandato presidencial em 3 anos e meio, colocando em xeque o pretenso apolitismo do movimento. Se não for possível derrubar agora, o objetivo é o enfraquecimento do partido de Lula, o quanto for possível, de modo que até mesmo uma candidatura seja inviável no pleito de 2018.

Imagens como são constrangedoras. Confesso que não imaginava ver uma parte significativa da população brasileira saindo às ruas, apenas 30 anos após a derrocada do regime militar, clamando por uma intervenção militar. Ao contrário do que uma das faixas propunha no último domingo, penso que a Reforma Política deve ser feita pelo povo de modo a reforçar as instituições e não enfraquecê-las ou destruí-las. Precisamos urgentemente dessas reformas, mas não para limitar ainda mais o poder popular. Parece estranho ter que vir aqui defender o óbvio.

Tudo isso me entristece muito, pois vejo que no fundo do problema, como sempre, está a ignorância da população, sendo utilizada como instrumento pelas poucas pessoas que sempre estiveram no poder. Portanto, a conclusão a que chego é que nossa luta, em boa medida, ainda é contra a ignorância. Foi por isso, aliás, que passei a dedicar minha vida à docência. No entanto, a maneira como a educação vem sendo encaminhada no Brasil (e no resto do mundo), não oferece muitas perspectivas para uma mudança significativa em direção a uma sociedade mais crítica e com maior participação na vida política. Muito pelo contrário, cada vez mais os jovens são estimulados a deixarem a vida política nas mãos de quem ela sempre esteve.

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Drauzio Varella: Pró-vida faz lobby contra projeto que visa atender vítimas de estupro

Neste último sábado (27) o dr. Drauzio Varella publicou em sua coluna na Folha texto sobre projeto aprovado em plenário pela Câmara e pelo Senado que prevê o atendimento emergencial e multidisciplinar as vítimas de violência sexual em todos os hospitais públicos.

Em seu texto, Varella chama atenção para o fato de padres e leigos ligados ao movimento Pró-Vida – contrários ao projeto por considerá-lo favorável ao aborto – terem sido recebidos em audiência pelo secretário-geral da Presidência da República. O dr. Drauzio destaca que durante a reunião, o vice-presidente do Pró-Vida deixou nas mãos do secretário-geral um documento para ser entregue a presidenta no qual pode-se ver uma clara ameaça a Dilma: “as consequências chegarão à militância pró-vida causando grande atrito e desgaste para Vossa Excelência”.

Abaixo segue a íntegra da coluna de Drauzio Varella na Folha de S. Paulo de 27/07/2013.

FASCISMO EM NOME DE DEUS
por Drauzio Varella para a Folha de S. Paulo

Drauzio Varella

Drauzio Varella é medico cancerologista.

Há manhãs em que fico revoltado ao ler os jornais.

Aconteceu segunda-feira passada quando vi a manchete de “O Globo”: “Pressão religiosa”, com o subtítulo: “À espera do papa, Dilma enfrenta lobby para vetar o projeto para vítimas de estupro que Igreja associa a aborto”.

Esse projeto de lei, que tramita desde 1999, acaba de ser aprovado em plenário pela Câmara e pelo Senado e encaminhado à Presidência da República, que tem até 1º de agosto para sancioná-lo.

Se não houver veto, todos os hospitais públicos serão obrigados a atender em caráter emergencial e multidisciplinar as vítimas de violência sexual.

Na verdade, o direito à assistência em casos de estupro está previsto na Constituição. O SUS dispõe de protocolos aprovados pelo Ministério da Saúde especificamente para esse tipo de crime, que recomendam antibióticos para evitar doenças sexualmente transmissíveis, antivirais contra o HIV, cuidados ginecológicos e assistência psicológica e social.

O problema é que os hospitais públicos e muitos de meus colegas, médicos, simplesmente se omitem nesses casos, de forma que o atendimento acaba restrito às unidades especializadas, quase nunca acessíveis às mulheres pobres.

O Hospital Pérola Byington é uma das poucas unidades da Secretaria da Saúde de São Paulo encarregadas dessa função. Lá, desde a fundação do Ambulatório de Violência Sexual, em 1994, foram admitidas 27 mil crianças, adolescentes e mulheres adultas.

Em média, procuram o hospital diariamente 15 vítimas de estupro, número que provavelmente representa 10% do total de ocorrências, porque antes há que enfrentar as humilhações das delegacias para lavrar o boletim de ocorrência.

As que não desistem ainda precisam passar pelo Instituto Médico Legal, para só então chegar ao ambulatório do SUS, calvário que em quase todas as cidades exige percorrer dezenas de quilômetros, porque faltam serviços especializados mesmo em municípios grandes. No Pérola Byington, no Estado mais rico da federação, mais da metade das pacientes vem da Grande São Paulo e de municípios do interior.

Em entrevista à jornalista Juliana Conte, o médico Jefferson Drezzet, coordenador desse ambulatório, afirmou: “Mesmo estando claro que o atendimento imediato é medida legítima, na prática ele não acontece. Criar uma lei que garanta às mulheres um direito já adquirido é apenas reconhecer que, embora as normas do SUS já existam, o acesso a elas só será assegurado por meio de uma força maior. Precisar de lei que obrigue os serviços de saúde a cumprir suas funções é uma tristeza”.

Agora, vamos ao ponto crucial: um dos artigos do projeto determina que a rede pública precisa garantir, além do tratamento de lesões físicas e o apoio psicológico, também a “profilaxia da gravidez”. Segundo a deputada Iara Bernardi, autora do projeto de lei, essa expressão significa assegurar acesso a medicamentos como a pílula do dia seguinte. A palavra aborto sequer é mencionada.

Na semana passada, o secretário-geral da Presidência recebeu em audiência um grupo de padres e leigos de um movimento intitulado Pró-Vida, que se opõe ao projeto por considerá-lo favorável ao aborto.

Pró-Vida é o movimento que teve mais de 19 milhões de panfletos apreendidos pela Polícia Federal, na eleição de 2010, por associar à aprovação do aborto a então candidata Dilma Rousseff.

Na audiência, o documento entregue pelo vice-presidente do movimento foi enfático: “As consequências chegarão à militância pró-vida causando grande atrito e desgaste para Vossa Excelência, senhora presidente, que prometeu em sua campanha eleitoral nada fazer para instaurar o aborto em nosso país”.

Quem são, e quantos são, esses arautos da moral e dos bons costumes? De onde lhes vem a autoridade para ameaçar em público a presidente da República?

Um Estado laico tem direito de submeter a sociedade inteira a uma minoria de fanáticos decididos a impor suas idiossincrasias e intolerâncias em nome de Deus? Em que documento está registrada a palavra do Criador que os nomeia detentores exclusivos da verdade? Quanto sofrimento humano será necessário para aplacar-lhes a insensibilidade social e a sanha punitiva?

O Hum Historiador, é claro, posiciona-se frontalmente favorável ao projeto e, mais do que isso, à legalização das interrupções voluntárias de gravidez em hospitais da rede pública.

Com relação a este tema, vale repercutir notícia divulgada no portal Pragmatismo Político. No Uruguai, o subsecretário do Ministério da Saúde Pública, Leonel Brizzo, apresentou dados oficiais sobre interrupções voluntárias de gravidez dos primeiros seis meses desde a legalização no país. Segundo a notícia:

Entre dezembro de 2012 e maio de 2013, não foi registrada a morte de nenhuma mulher que abortou de forma regulamentada no Uruguai. (…) Foram realizados 2.550 abortos legais, aproximadamente 426 por mês.

Ainda segundo a reportagem, a política pública do governo tem o objetivo de diminuir a prática de abortos voluntários a partir da descriminalização, da educação sexual e reprodutiva, do planejamento familiar e uso de métodos anticoncepcionais, assim como serviços de atendimento integral de saúde sexual e reprodutiva. Segundo esses dados, o Ministério da Saúde Pública atesta que 10 em cada mil mulheres entre 15 e 44 anos abortam no Uruguai atualmente. Esses números situam o país entre um dos que têm menores indicadores, ao lado dos estados da Europa Ocidental.

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O Integralismo e a introdução de estratégias inovadoras de mobilização doutrinária (1932-1937)

“A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. (…) Compreender a era nazista da história alemã e enquadrá-la em seu contexto histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar:  o difícil é compreender.”

Eric J. Hobsbawn
A Era dos Extremos: o breve Século XX (1914-1991)

INTRODUÇÃO

Em tempo de campanha eleitoral para os cargos eletivos municipais, sabemos que os principais partidos políticos vão mobilizar mundos e fundos (legais ou não) para veicular a imagem de seus candidatos nos principais meios de comunicação, tais como jornais, revistas, rádio, cinema, televisão e internet. Isso para não mencionar as tradicionais exibições de logos, camisetas, bandeiras e toda espécie de publicidade em obras públicas, hospitais, eventos esportivos, musicais e, até mesmo, cerimônias religiosas.

Assim, depois de falarmos sobre o crescimento da extrema direita na Europa e das políticas xenófobas e racistas de certos partidos políticos daquele continente, o Hum Historiador traz um breve ensaio que tem como objeto a Ação Integralista Brasileira e o uso de estratégias inovadoras de mobilização doutrinária introduzidas por este grupo na corrida eleitoral para a campanha presidencial de 1937, que pretendia, via eleitoral, colocar no poder seu “chefe máximo”, Plínio Salgado (1895-1975).

No Brasil, a utilização de tais estratégias de propaganda política começa logo após a Revolução de 30, que acabou por desbancar a República Velha, dominada pelas elites paulista e mineira, e colocou em seu lugar o gaúcho Getúlio Vargas. Foi justamente neste contexto que surgiu a Ação Integralista Brasileira (A.I.B), um grande partido de massa, de cunho nacionalista, autoritário e totalitário que introduziu estratégias inovadoras na mobilização doutrinária de sua militância através dos veículos de comunicação da época em questão.

É importante deixar claro que o texto a seguir não pretende entrar no mérito se o Integralismo é, de fato, um movimento de tipo fascista extra-europeu ou mero mimetismo ideológico. Busca apresentar a utilização de novas formas de mobilização doutrinária, tornadas possíveis a partir da revolução tecnológica – em especial a dos meios de comunicação – e influenciada por movimentos autoritários/totalitários surgidos na Europa no período entreguerras (1918-1939).

OS NOVOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DA POLÍTICA EM ESPETÁCULO

A Primeira Guerra Mundial está sendo reinterpretada por seus estudiosos que passaram a destacar a grande expansão do operariado industrial em função da revolução científico-tecnológica. Tais interpretações também destacam o desenvolvimento de várias formas de associação, organização, conscientização e construção de plataformas políticas radicais e projetos de transformação de toda a ordem social e econômica modelada pelas desigualdades, pela exploração e pelas injustiças do sistema capitalista.

Assim, em texto intitulado “O Renascimento modernista de São Paulo na década de 20”, Nicolau Sevcenko salienta a articulação de dois tipos de movimentos:

  • O movimento operário, que acabou se articulando para além das fronteiras e compondo programas de ação coordenada cujas tônicas eram a fraternidade, o internacionalismo, o pacifismo e o socialismo.
  • A direita conservadora, que respondeu financiando agitadores e partidos integristas, sustentando pela ação direta e repressiva o nacionalismo agressivo, o militarismo, o centralismo, o anti-socialismo e o anti-semitismo.

Dessa forma, a Primeira Guerra Mundial ganha uma utilidade, segundo a visão dos partidos emergentes após o seu término:

“Se a guerra servira para alguma coisa, proclamavam as novas lideranças dos partidos emergentes, foi para enterrar de vez a velha Europa liberal. Sobre as cinzas da guerra se haveria de construir a ‘Nova Ordem’: integrista, centralista, militarista, nacionalista e intolerante[1].”

Com as novas técnicas de comunicação de massa, a política se transforma em espetáculo e há, em contrapartida, a politização da estética:

“A versatilidade e a capacidade de sedução dos novos meios de comunicação social, associados às técnicas publicitárias, transformariam a política em espetáculo e politizariam a estética. A celebração da nova civilização industrial pelas formas do art-decó e pela linguagem truncada da cacofonia publicitária selariam a preponderância da nova ortodoxia do pós-guerra: o modernismo[2].”

Segundo Hobsbawn, “o velho liberalismo estava morto, ou parecia condenado. Três opções competiam agora pela hegemonia intelectual-política[3].”

  • Comunismo marxista;
  • Capitalismo reformado, sem a crença na otimização de livres mercados e ligado a social democracia não comunista;
  • Fascismo, que havia sido transformado pela grande depressão em movimento mundial.

A A.I.B. COMO REAÇÃO DA ELITE PAULISTA

A reação da elite vem através de “um grande processo de investimento, numa compensação simbólica, na forma de grandes superproduções no Teatro Municipal, envolvendo as principais famílias como patronos e até como artistas que participavam das encenações[4].”

Dentro desta reação, a própria Semana de Arte Moderna, realizada em 1922 no Teatro Municipal, está ligada a este contexto de tensão entre a elite paulista e as organizações do movimento operário, de um lado, e a ameaça dos empresários e industriais estrangeiros de outro. Sevcenko relembra que a Semana foi propiciada pelos esforços combinados de Washington Luís (governador do Estado) e Paulo Prado (filho do mais rico cafeicultor paulista).

Deste clima de instabilidade social do pós-guerra, emerge “uma ideologia nacionalista conservadora e autoritária disposta a bloquear quaisquer ameaças de mudança social[5].”

Abaixo esquematizamos em poucos tópicos o contexto econômico e ideológico que propiciaram a ascensão da A.I.B. justamente no período entreguerras:

Domínio estrangeiro da economia paulista:

No pólo industrial:

  • Expansão do operariado
  • Grandes greves em 1917, 1918 e 1919
  • Nova camada de industriais (catálogo da 1ª Grande Exposição Industrial de São Paulo)

No pólo agrícola

  • Nova camada emergente de imigrantes estrangeiros passam a dominar a agricultura.
  • Donos das áreas mais prósperas/férteis do Estado no extremo oeste paulista.

Plano econômico

  • Esgotamento da economia primário-exportadora apoiada na cafeicultura.
  • Processos de urbanização e industrialização afetam a composição social
  • Ampliação da classe operária
  • Diversificação da classe média

Plano ideológico

  • Erupção do nacionalismo cultural e econômico.
  • Revolução estética (modernismo).
  • Exaltação do civismo (Liga da Defesa Nacional).
  • Renovação na Igreja Católica (integrismo).

Assim, como bem nos lembra Hélgio Trindade, famoso estudioso da Ação Integralista Brasileira:

 “Num contexto histórico de mudanças econômicas e sociais significativas, emerge um processo de crise ideológica que está na origem do movimento integralista[6].”

A IMPRENSA INTEGRALISTA: NOVAS ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DOS MILITANTES

Rosa Maria Feiteiro Cavalari, em seu livro sobre a ideologia e a organização da A.I.B. nos informa como os integralistas faziam uso do livro e dos periódicos para transmitir a doutrina do partido:

 “O livro veiculava as idéias produzidas pelos teóricos do partido e o jornal as popularizava. A doutrina mantinha-se viva para o integralista graças a sua materialização através do jornal[7].”

Segundo Cavalari, a função dos periódicos integralistas eram:

  • Periódico tinha função de atualização e popularização do “corpus teórico” integralista junto ao militante.
  • Transmitir a doutrina de modo uniforme
  • Não basta veicular as idéias integralistas, mas que esta veiculação ocorresse da mesma maneira em todos os periódicos.
  • Conteúdo & Forma.

Eis a visão de Plínio Salgado sobre as publicações do partido e a sua função quanto a doutrina integralista, emitida em um periódico local que repetia as diretrizes publicadas no Órgão Oficial do partido:

“O Integralista não obedece a um programa seu. Não se afastará nunca dos postulados da Ação Integralista Brasileira, que, de fato, dá um sentido único a todas as suas publicações.” O Integralista – Órgão da A.I.B. (Província do Paraná). Ano I, n. 1, Curitiba, 16 de agosto de 1934.

COMO SE ORGANIZAVA A A.I.B. PARA A TRANSMISSÃO DE SUA DOUTRINA

A estratégia de unificação e controle da A.I.B. tinha nas comunicações em massa um fator importante não apenas para atingir seus militantes instruindo-os quanto a doutrina e quais as posições que deveriam ter, mas também uma maneira de fazer proselitismo atraindo para si um número cada vez maior de militantes. Era a primeira vez que uma estratégia que abarcava meios de comunicação de massa como rádio e jornais era utilizado para atrair militantes políticos. Abaixo um esquema da estratégia adotada pela A.I.B. de unificação e controle:

Sigma-Jornais Reunidos

  • Compreendia um conjunto de 88 jornais em circulação em todo o território nacional
  • Função de padronização e orientação doutrinária.

Secretaria Nacional de Imprensa (S.N.I)

  • Função de orientar os periódicos.
  • Também acumulava função punitiva.

Comissões de Imprensa

  • Censurar e selecionar toda matéria de caráter doutrinário ou partidário a ser publicada.

Segundo Plínio Salgado, no Órgão Oficial da A.I.B.:

 “O século XIX foi o século do jornal disponível à praça pública onde se erguiam as vozes de todas as opiniões; mas este século, cheio de angústias, é o século do jornal doutrinário, porque o povo quer se orientar.” (SALGADO, Plínio. In: Monitor Integralista, ano V, n. 17, 20 de fevereiro de 1937, p. 14.)

ALGUNS NÚMEROS DA IMPRENSA INTEGRALISTA

  • 8 grandes diários
  • 105 hebdomanários e quinzenários espalhados por todas as Províncias;
  • 3 revistas ilustradas: Anauê! e Brasil Feminino no RJ e Sigma em Niterói.
  • Uma revista de alta-cultura: Panorama em São Paulo.
  • O Monitor Integralista, jornal oficial da A.I.B.
  • Cerca de 3.000 boletins, semanais e quinzenais, impressos ou mimeografados, referentes ao serviço de cada núcleo.

FONTE: Monitor Integralista, n. 22, 7 de outubro de 1937, p. 7. Apud. CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 87.

PERFIL DA REVISTA PANORAMA

Para exemplificar o que viemos destacando até o momento, vou utilizar a Revista Panorama, a qual obtive acesso à coleção completa entre os anos de 2007/2008, o que me permitiu traçar um breve perfil para contextualizar os exemplos que virão mais adiante neste texto.

Tida pelos integralistas como uma revista de “alta cultura”, a Panorama:

  • Revista mensal publicada pela A.I.B., em São Paulo, sob a direção de Miguel Reale
  • Circulou entre Jan/36 a Out/37
  • Jan/1936 – Marcada pela tentativa de golpe impetrada pelos comunistas em Nov/1935
  • Out/1937 – Fim marcado pelo golpe de Getúlio Vargas, em Nov/1937, e instauração do Estado Novo.
  • Destinada a um público mais intelectualizado.
  • Segundo Plínio Salgado, Panorama era uma “Revista de alta cultura”.
  • Seus principais objetivos era:
  1. Veicular idéias e teorias defendidas por teóricos e dirigentes do partido.
  2. Formar os quadros dirigentes da A.I.B.

Capa da primeira edição da revista Panorama pertencente ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DO MILITANTE

Ao buscar persuadir o militante para aderir a Ação Integralista Brasileira, o partido fazia uso de estratégias que podem ser verificadas em praticamente todos os seus periódicos. Abaixo algumas das estratégias mais utilizadas nos periódicos que analisamos:

Repetição

  • Repetição constante de determinadas idéias no mesmo jornal ou em jornais diferentes.

Transcrição

  • Transcrição ipsis litteris de determinados artigos, matérias e colunas de outros periódicos e/ou capítulos de livros.

Lembretes

  • Uso constante de lembretes para fixar determinadas idéias

Propaganda comercial aliada à doutrina

  • Aliar o movimento ou a doutrina integralista a propaganda comercial
  • A marca do produto lembrava a existência do movimento. (Café Anauê, Cigarros Sigma, etc.)
  • Recomendação do produto lembra ao militante algum aspecto da doutrina.
  • É comum nos depararmos, em diferentes periódicos, com os mesmos artigos ou capítulos dos livros de Plínio Salgado, Gustavo Barroso, Miguel Reale e outros líderes do movimento.
  • Esses lembretes, que obedeciam os mesmos dispositivos tipográficos, eram publicados em destaque em jornais das mais diferentes localidades.
  • Integralistas, a pátria precisa de homens vigorosos e fortes! Força e Vigor só se obtém bebendo quino ferrol palomone. Cumpra o seu dever usando-o com frequencia.

EXEMPLOS DAS ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DO MILITANTE ENCONTRADOS NOS PERIÓDICOS

Abaixo seguem exemplos de algumas das estratégias as quais nos referimos para a persuadir o militante: repetições e lembretes presentes na Revista Panorama.

EXEMPLOS DE PRODUTOS CUJAS MARCAS LEMBRAVAM A EXISTÊNCIA DO MOVIMENTO E ASPECTOS DA DOUTRINA.

Muito comum encontrarmos nos periódicos integralistas comerciais de produtos que utilizavam palavras ou lemas do integralismo, revertendo dinheiro para o partido e as marcas ganhando a fidelidade dos partidários da A.I.B. Abaixo alguns exemplos:

Outra forma de produtos se associarem a A.I.B. era simplesmente através da veiculação de seus produtos nos periódicos integralistas. Não eram produtos do partido, não adotavam os nomes de lemas ou palavras de ordem, mas, por outro lado, permitiam que o partido veiculasse mensagens que incentivassem os seus seguidores a comprar o produto. Abaixo alguns exemplos dessa modalidade:

OUTRAS ESTRATÉGIAS INOVADORAS NA PERSUASÃO DO MILITANTE

Ao analisarmos fotos da época em periódicos ou na bibliografia sobre o assunto, verificamos que o Integralismo estava presente em toda a vida do militante: desde o nascimento, participando com seus símbolos, uniformes e rituais em batizados, casamentos e funerais.

Batizados:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 74.

Casamentos:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 178.

Funerais:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 180.

Vida Cotidiana:

Abaixo vemos um jogo de café, utilizado durante as reuniões dos militantes. Não conhecemos outro partido político que havia se utilizado de tais estratégias de comunicação de massa com seus militantes durante a década de 30.

Acervo Plínio Salgado. Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro/São Paulo

Abaixo vemos integrantes do partido vergando seus uniformes juntamente com enfermeiras devidamente trajadas com o distintivo integralista, além de adesivos colados nas balanças de lactário financiado pela Ação Integralista Brasileira. O partido se preocupava sempre em divulgar a foto de sua presença em todos os setores da vida do brasileiro em seus periódicos de circulação local, regional e nacional.

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 74.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: Edusc, 1999.
  • HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  • PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2007.
  • SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento Modernista de São Paulo na década de 1920. In: BUENO, Eduardo (org.). Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
  • TRINDADE, Hélgio. O Nazi-fascismo na América Latina: mito e realidade. Porto Alegre: UFRGS, 2004.

[1]  SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento Modernista de São Paulo na década de 1920. In: BUENO, Eduardo (org.). Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp. 197.

[2]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 198.

[3]  HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[4]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 200-201.

[5]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 203.

[6]  TRINDADE, Hélgio. O Nazi-fascismo na América Latina: mito e realidade. Porto Alegre: UFRGS, 2004, pp. 61.

[7]  CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: Edusc, 1999, pp. 79.

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