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ANPUH-SP emite nota de repúdio a declarações do ministro da educação e do presidente da República

O Hum Historiador repercute a nota de repúdio divulgada ontem (26) pela página da ANPUH-SP nas redes sociais.

NOTA DE REPÚDIO A DECLARAÇÕES DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO E DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA SOBRE AS FACULDADES DE HUMANIDADES, NOMEADAMENTE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA

A Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF) e associações abaixo mencionadas repudiam veementemente as falas recentes do atual presidente da república e de seu ministro da educação sobre o ensino e a pesquisa na área de humanidades, especificamente em filosofia e sociologia.

As declarações do ministro e do presidente revelam ignorância sobre os estudos na área, sobre sua relevância, seus custos, seu público e ainda sobre a natureza da universidade. Esta ignorância, relevável no público em geral, é inadmissível em pessoas que ocupam por um tempo determinado funções públicas tão importantes para a formação escolar e universitária, para a pesquisa acadêmica em geral e para o futuro de nosso país.

O ministro Abraham Weintraub afirmou que retirará recursos das faculdades de Filosofia e de Sociologia, que seriam cursos “para pessoas já muito ricas, de elite”, para investir “em faculdades que geram retorno de fato: enfermagem, veterinária, engenharia e medicina”. O ministro apoia sua declaração na informação de que o Japão estaria fazendo um movimento desta natureza.

De fato, em junho de 2015 o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão enviou carta às universidades japonesas recomendando que fossem priorizadas áreas estratégicas e que fossem cortados investimentos nas áreas de humanidades e ciências sociais.

Após forte reação das principais universidades do país, incluindo as de Tóquio e de Kyoto (as únicas do país entre as cem melhores do mundo), e também da Keidanren (a Federação das Indústrias do Japão) – que defendeu que “estudantes universitários devem adquirir um entendimento especializado no seu campo de conhecimento e, de forma igualmente importante, cultivar um entendimento da diversidade social e cultural através de aprendizados e experiências de diferentes tipos” – o governo recuou e afirmou que foi mal interpretado.

A proposta foi inteiramente abandonada quando o ministro da educação teve de renunciar ao cargo, ainda em 2015, por suspeita de corrupção. Da forma como o ministro Abraham Weintraub apresenta o caso trata-se, portanto, de uma notícia falsa.

O ministro foi seguido pelo presidente, que mencionou que o governo “descentralizará investimentos em faculdades de filosofia”, sem especificar o que isto significaria, mas deixando claro que se trata de abandonar o suporte público a cursos da área de humanidades, nomeadamente os de Filosofia e de Sociologia. O presidente indica que investimentos nestes cursos são um desrespeito ao dinheiro do contribuinte e, ao contrário do que pensa a Federação das Indústrias do Japão, afirma que a função da formação é ensinar a ler, escrever, fazer conta e aprender um ofício que gere renda.

O ministro e o presidente ignoram a natureza dos conhecimentos da área de humanidades e exibem uma visão tacanha de formação ao supor que enfermeiros, médicos veterinários, engenheiros e médicos não tenham de aprender sobre seu próprio contexto social nem sobre ética, por exemplo, para tomar decisões adequadas e moralmente justificadas em seu campo de atuação. Ignoram que os estudantes das universidades públicas, e principalmente na área de humanidades, são predominantemente provenientes das camadas de mais baixa renda da população. Ignoram, por fim, a autonomia universitária, garantida constitucionalmente, quando sugerem o fechamento arbitrário de cursos de graduação.

Uma das maiores contribuições dos cursos de humanidades é justamente o combate sistemático a visões tacanhas da realidade, provocando para a reflexão e para a pluralidade de perspectivas, indispensáveis ao desenvolvimento cultural e social e à construção de sociedades mais justas e criativas.

Seguiremos combatendo diuturnamente os ataques à universidade pública e aos cursos de humanidades movidos pelo ressentimento, pela ignorância e pelo obscurantismo, também porque julgamos que esta é uma contribuição maiúscula da área de humanidades para o melhoramento da sociedade à nossa volta.

Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR)
Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE)
Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE)
Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd)
Associação Brasileira de Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias (ESOCITE)
União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil)
Associação Nacional de História (ANPUH)
Centro de Investigaciones Filosóficas (CIF/Argentina)
Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP)
Fórum Nacional de Diretores de Faculdades, Centros de Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas Brasileiras (FORUMDIR)
ODARA – Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade
Associação Brasileira de Antropologia (ABA)
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde – Cebes
Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC)
Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR)
Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR)
Asociación Costarricense de Filosofía (Acofi)
Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP)
Sociedade Brasileira de Ensino de Química (SBEnQ)
Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope)
Associação dos Professores da UDESC (Aprudesc – ANDES-SN)
Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (FORPIBID)
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM)
Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP)

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Entrevista com Giorgio Agamben: Deus não morreu, transformou-se em dinheiro

O Blog da Editora Boitempo disponibilizou a íntegra da tradução de uma entrevista do filósofo italiano Giorgio Agamben (concedida a um veículo italiano [Ragusa News] em 16.08.2012) no qual ele fala sobre o capitalismo, as crises na Europa e sobre História.

Segundo o blog da Boitempo, “Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.”

O Hum Historiador traz a íntegra dessa excelente entrevista, por acreditar que sua leitura é fundamental para quem quer compreender um pouco melhor as ideias de Agamben sobre o funcionamento do capitalismo, sobre as crises na Europa e tomar contato com o pensamento deste filósofo.

A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo].

Giorgio Agamben (2009)

***

O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável?

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

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Sobre o autor

Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav), afastando-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política. Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer (2005), Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008) e O reino e a glória (2011), os quatro últimos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.

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A dádiva da ignorância: a realidade pode ser fabricada?

Plena manhã de outono de um sábado de sol que brilha num céu sem nuvens, mas que não tem força para tirar aquela sensação de friozinho gostoso do outono. Você está em sua bela e espaçosa casa, apoiado na sacada, distraído com uma folha que se desprendeu da mangueira que há anos enfeita a praça em frente ao seu edifício. Como que hipnotizado, você vai acompanhando a queda caótica da folha que, levada pela brisa, vai serpenteando no ar, seguindo suavemente seu rumo até o chão. Aquela mesma brisa que empurrou a folha, também sopra em sua face e movimenta seus cabelos. De repente, você se vê agradavelmente surpreendido com uma música que um dos seus vizinhos está ouvindo e que você gosta muito: “DREAM ON, DREAM ON, DREAM ON, DREAM YOURSELF A DREAM COME TRUE” e só tem sua atenção desviada, pelo aroma do café que sua bela esposa está preparando na cozinha. Que excelente modo de começar um fim de semana, não? Exceto pelo fato de você não ser casado e não possuir uma casa espaçosa de frente a uma pracinha arborizada. Infelizmente, você se dá conta que toda essa bela manhã não passou de um sonho, muito coerente, mas que você só percebeu no momento em que surgiram essas inconsistências. Que pena! Parecia uma vida bastante agradável aquela do sonho: uma bela mulher, uma casa espaçosa, boa música, tranqüilidade. De sonhos assim, nem dá vontade de acordar e muitas vezes uma pessoa pode até mesmo chegar a questionar por que não continuar vivendo neste sonho, não é?

Dentre outros filmes mais recentes que tratam dessa temática, talvez o mais emblemático tenha sido Matrix, dos irmãos Wachowsky, lançado em 1999. No filme há uma cena clássica e provocante na qual Cypher, traindo o grupo rebelde, está reunido com os agentes da Matrix em um restaurante e, ao saborear um pedaço suculento de seu bife diz:“Ah! A ignorância é uma dádiva”. Essa é uma daquelas frases do cinema que são inesquecíveis. Com ela, Cypher diz que embora ele saiba que aquele bife não seja real, ele prefere ignorar a realidade da vida dura que levava na nave Nabucodonossor e continuar vivendo alienado, como todos os outros humanos imersos em suas ilusões projetadas pela Matrix. Neste caso específico, ele sabe distinguir sonho de realidade pois viveu fora da Matrix. Mas e você? Já teve um sonho tão real no qual você não saberia dizer se era sonho ou realidade? Mesmo agora, neste momento em que está diante do computador, você poderia me dizer se o que está vivendo neste momento é real?

Matrix brincou muito com este tema e tornou popular uma velha discussão filosófica que vem quebrando a cabeça de nossos melhores pensadores há séculos: O que é real? Como distinguir os limites entre sonho e realidade? Não por acaso, estas são as mesmas perguntas que Morpheus (personagem interpretado por Lawrence Fishburn, batizado com o nome do deus grego dos sonhos), faz a Neo quando eles entram a primeira vez no programa de simulação de realidade. “(…) se você está falando do que pode sentir, cheirar, saborear ou ver, então real são simplesmente sinais elétricos interpretados por seu cérebro.”

“Mas isso é só um filme”, você poderia responder, “feito para divertir e entreter as pessoas. Nada daquilo é real, vivemos no século XXI e não há nenhuma realidade diferente da nossa. Nós não vivemos em um software de simulação e você sabe muito bem disso!”, continuaria, já um pouco nervoso. Realmente, muito do que foi colocado no filme é pura ficção, feito para entreter os amantes de filmes de ação como as cenas de luta e violência extrema. Mas ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, o filme não propõem nenhum absurdo ao dizer que os humanos são escravos e enganados por seus sentidos que os fazem crer nessa realidade coletiva em que vivemos. Grandes filósofos dedicaram-se ao estudo deste tema e, ainda hoje, há pensadores que afirmam haver grandes chances de estarmos vivendo, neste exato momento, dentro de um software de simulação exatamente igual no filme Matrix. Provocante, não?

Entremos um pouco mais no assunto e vamos relembrar essas idéias instigantes e antigas sobre as quais o filme está apoiado. Platão (c. 428-c. 347), em seu livro A República, já se questionava há quase 2400 anos, sobre o que é  real e como atingir a verdadeira realidade. Para resolver suas inquietações, ele propôs um diálogo que é, hoje, um de seus mais famosos textos: O Mito da Caverna ou A Alegoria da Caverna, que tem inspirado muitas pesquisas, livros há mais de dois mil anos.

Neste diálogo Platão propõem que imaginemos pessoas que vivam presas em uma caverna, de costas para a entrada e de tal forma que elas não consigam se virar. Ficam ali todos os dias, vendo as sombras das pessoas ao passar pela estrada diante da entrada da caverna e refletidas na parede do fundo, julgando que a realidade são as sombras que viram durante toda sua vida naquela condição.

Para estes prisioneiros, o mundo é mesmo aquele monte de sombras, isto é, sua percepção da realidade está ligado ao conjunto das coisas puderam experimentar em suas vidas. Mesmo se um deles conseguisse sair e a muito custo resistir o impacto da luminosidade ferindo seus olhos, a dor lancinante das pernas atrofiadas e toda a falta de costume causada pelas privações da caverna, ainda assim, a maioria dos que conseguissem sair teriam dificuldades em aceitar aquele mundo novo sob seus olhos. Voltariam para a caverna e tentariam esquecer tudo o que viram lá fora. Alguns até poderiam se adaptar à difícil vida fora da caverna e, apiedando-se dos que ficaram na caverna, retornariam com o objetivo de avisá-los que o mundo que eles acreditam ser real não é nada além de uma ínfima parte da realidade. Se assim o fizessem, estes seriam motivos de risos e considerados verdadeiros lunáticos, tentando desvirtuar todo o conhecimento que aquele grupo formou após anos e anos vivendo na caverna.

De acordo com Platão, boa parte da humanidade vive na caverna, isto é, no mundo das coisas sensíveis, presos pelas amarras das aparências que não refletem a verdadeira realidade do mundo, que se encontra no mundo das ideias, de modo que, para ele, a maioria da humanidade vive na ignorância. Para solucionar essa questão, Platão propôs que somente através do conhecimento filosófico e da educação é que o ser humano pode superar sua condição de ignorância e atingir a realidade verdadeira do mundo, ou o mundo das ideias. Com este pensamento, contribuiu para criar aquilo que hoje conhecemos como Ciência.

Além de Platão, outra fonte ainda mais evidente para os irmãos Wachowsky, foi a de René Descartes (1594-1660). Em seu livro de 1641, Meditações Concernentes à primeira Filosofia, Descartes já escrevia que “tudo aquilo que, até o momento, aceitei como imbuído da mais alta verdade e certeza eu aprendi pelos sentidos ou por meio dos sentidos”. Neste momento ele se perguntou se o que os sentidos lhe transmitiam eram seguramente isentos de qualquer dúvida, e chegou à conclusão que não. “Às vezes os sentidos enganam, podemos sempre confiar neles totalmente? Além do mais, um sonho com plena coerência pode parecer perfeitamente real. Será que eu posso estar sempre sonhando quando eu acho que estou sempre acordado?”. Vemos essas mesmas inquietações na boca de Morpheus que, logo após dar a Neo a pílula vermelha, provoca-o: “Já teve um sonho, Neo, de que você não tinha certeza de ser real. (…) E se você não conseguisse acordar desse sonho, Neo, como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o mundo real?”. Descartes puro!

Depois de muito refletir, Descartes chegou à conclusão deste enigma em sua famosa frase “Penso, logo existo”, na qual encerra o pensamento de que é impossível duvidar da própria experiência consciente – e que ninguém pode duvidar de sua existência como ser pensante. Quanto aos enganos que os sentidos podem nos pregar, conclui que eles podem enganar o quanto quiser, contudo nunca poderá obrigar a ser nada, desde que eu pense que sou alguma coisa. Para cada um de nós, a consciência é indubitavelmente real, seja qual for a realidade externa que ela pareça nos apresentar. Mas longe de ser uma unanimidade, as ideias de Descartes não são aceitas por todos e até hoje reina a dúvida quanto à pergunta “Como saber se vivemos no sonho ou na realidade?”

Alguns pensadores e cientistas modernos garantem que vivemos no mundo da ilusão. Em entrevista à Super Interessante de Maio de 2003, o psicólogo Victor S. Johnston da Universidade do Novo México (EUA) diz que “nossa consciência evoluiu para impor uma interpretação específica das energias que estão à nossa volta”. Segundo ele, nada no universo é vermelho ou verde, por exemplo. O que existem são ondas eletromagnéticas de determinadas frequências que são captadas pelos nossos olhos e interpretadas de modo a facilitar a identificação. Assim, os objetos que emitem determinadas ondas são chamados de vermelhos e outros, com ondas quase nada menores, são chamados de verde. Para Johnston, “Não existem cores, cheiros, gostos ou emoções sem um cérebro consciente. O mundo da nossa consciência é uma grande ilusão”.

Assim, de acordo com essa visão, somos escravos de nossa consciência da mesma forma como os humanos são escravos da Matrix no filme. Isso é perigoso porque nossa consciência pode ser, ou melhor, é moldada de acordo com as conveniências de quem detém o poder. Portanto, controlar o processo de formação das consciências é fundamental para os donos do poder. Nesse sentido, como interpretar o processo de educação dos seres humanos segundo essa perspectiva? Se analisarmos bem, talvez não estejamos vivendo em um mundo tão distinto daquele proposto no filme dos irmãos Wachowsky.

Há ainda, a intrigante teoria de Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que diz que há 25% de chances de que nossa realidade seja, de fato, um programa de simulação por computador. Em um artigo publicado na revista Philosophical Quarterly, ele estima haver apenas três futuros possíveis para a humanidade: 1) nós seremos extintos antes de construir esses programas, por azar ou porque eles são impossíveis; 2) mesmo que possamos faze-los, não haverá interesse da humanidade em inventa-los, por problemas éticos. 3) nós, um dia, inventaremos essas consciências simuladas e Universos virtuais inteiros para que elas tenham onde viver. Nesses casos, a chance de alguém já ter feito isso antes são muito grandes, e nós talvez fôssemos uma dessas simulações.

Pois bem, façam suas apostas em qual desses três futuros possíveis da humanidade, propostos por Nick Bostron, nós nos encontramos. Para o próprio Bostron, a segunda hipótese é a mais cabível, isto é, de que os humanos poderão criar as tais consciências artificiais, mas por questões éticas não o farão, com medo de extinguir todo o mundo como conhecemos. A meu ver, esta segunda hipótese não deixa de ser tão provocante e perturbadora quanto a outra pois, se a humanidade tem a capacidade de produzir tal tecnologia, acredito que ela jamais deixará de faze-lo por questões éticas. Pode ser proibido por lei, mas sempre haverá pessoas com conhecimento dispostas a burlarem as leis e regras da ética a um certo preço. E se isso for possível, não há quem possa negar que já foi feito e que a realidade em que vivemos não seja apenas uma simulação de computador.

Viver em uma realidade virtual não implicaria necessariamente viver uma vida ruim, uma vez que a presumida “realidade verdadeira” pudesse não ser tão distinta assim da “realidade virtual” na qual estaríamos vivemos, segundo a crença de termos sido criado à imagem e semelhança do Arquiteto. Por outro lado, a situação poderia ser ainda pior se imaginarmos que, conforme proposto no filme 13 Andar, o mundo de nosso Arquiteto também pode ser uma simulação feita por outro Arquiteto e aí, talvez jamais chegaremos à conclusão alguma quanto a origem desses mundos e seus criadores.

Mas no final, o que tudo isso importa para nossa vida cotidiana? Tomar consciência de que talvez estejamos vivendo em uma realidade virtual modificaria nossa forma de viver? Faz tanta diferença assim ser uma criatura divina ou produto de uma realidade virtual? Veja como essas perguntas tem o potencial de abalar os principais fundamentos da vida de boa parte da humanidade e, só o exercício de pensar nas possibilidades decorrentes de múltiplas realidades, importa para questionarmos justamente esses fundamentos que são as bases de nossa vida. Basta imaginar se lhe fosse dado a oportunidade de tomar a pílula azul ou a vermelha, isto é, se tal como Neo, você pudesse optar por saber ou não se vive dentro de uma realidade virtual (Matrix), qual pílula você escolheria? Não me resta dúvidas que boa parte da humanidade optaria por seguir vivendo no mundo das sombras, pois as implicações das descobertas seriam tão grandes, que poderiam tornar impossível continuar vivendo com tal conhecimento. Nessas condições, é até natural que muitas pessoas concordem com Cypher e concluam que para seguirem vivendo tranquilas, de fato, “A ignorância é uma dádiva!”

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[Textos Clássicos] A Ideologia Alemã

Atendendo a sugestão da amiga e também historiadora Célia Regina, estou inaugurando uma nova página no blog que é a de TEXTOS. A ideia é publicar neste espaço alguns textos clássicos da historiografia cuja leitura foi recomendada pelos professores do curso de História da FFLCH-USP.

A IDEOLOGIA ALEMÃ

Em homenagem ao 129º ano do falecimento de Karl Marx, ocorrida em 14/03/1883, o texto de estréia da página é extraído da obra A ideologia alemã, escrita em parceria com seu amigo Friedrich Engels.

Filósofo alemão, Karl Marx nasceu em Trier em 5 de Maio de 1818 e morreu em Londres a 14 de março de 1883. Estudou Direito nas universidades de Bonn e Berlim, mas dedicou-se principalmente a filosofia hegeliana, tendo se formado em 1841, com a tese Sobre as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro.

O livro A ideologia alemã, foi escrito nos anos de 1845-46 e, censurado, não foi publicado em uma edição completa até o ano de 1932.

Segundo o site da Boitempo Editorial, que recentemente publicou uma edição integral do livro, A ideologia alemã:

(…) é considerada por muitos estudiosos a obra de filosofia mais importante de Marx e Engels. Representa a primeira exposição estruturada da concepção materialista da história e é o texto central dos autores acerca da religião. Nela eles concluem um acerto de contas com a filosofia de seu tempo – tanto com a obra de Hegel como com os chamados “hegelianos de esquerda”, entre os quais Ludwig Feuerbach. Esse ajuste passou antes pelos Manuscritos econômico-filosóficos, por A sagrada família, por A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, para alcançar em A Ideologia Alemã sua primeira formulação articulada como método próprio de análise. 

A crítica – quase toda em tom sarcástico – dos dois filósofos ridiculariza o idealismo alemão e articula as categorias essenciais da dialética marxista (como trabalho, modo de produção, forças produtivas, alienação, consciência), constituindo assim um novo corpo teórico.  

FONTE: Boitempo Editorial

O trecho selecionado é apenas um aperitivo, já que tratam-se apenas de algumas poucas páginas do primeiro capítulo no qual Marx & Engels  fazem a crítica ao filósofo alemão Feuerbach, estabelecendo uma oposição entre as concepções materialista e idealista.

Como não poderia deixar de ser, como se pode supor pelo nome deste blog, destaco aqui um pequeno trecho, que foi riscado no manuscrito original, no qual Marx fala da história como ciência:

1. A ideologia em geral, e a filosofia alemã em especial

Conhecemos apenas uma ciência, a ciência da história. A história pode ser examinada sob dois aspectos. Pode ser dividida em história da natureza e história dos homens. Os dois aspectos, entretanto, são inseparáveis; enquanto existirem os homens, sua história e a da natureza se condicionaram reciprocamente. A história da natureza, que designamos como ciência da natureza, não nos interessa aqui; em compensação, teremos que nos ocupar pormenorizadamente da história dos homens; com efeito, quase toda a ideologia ou se reduz a uma concepção falsa dessa história, ou procura fazer dela total abstracção. A própria ideologia não passa de um dos aspectos dessa história.

Espero que gostem desta novidade e que os textos ali disponíveis possam ser de proveito não apenas para quem estuda História, mas para todos que se interessem por boa leitura.

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