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The Guardian: patrimônio dos 85 mais ricos é igual ao da metade da população mundial

Em janeiro deste ano (20), a Folha republicava uma notícia de Graeme Wearden, do The Guardian. Trata-se da divulgação de um relatório da Oxfam dando conta que as 85 pessoas mais ricas do mundo detém um patrimônio combinado de um trilhão de libras, montante semelhante ao patrimônio combinado dos 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do planeta

Pois é amigos, de fato o Capitalismo realmente funciona (ao menos para 85 das mais de 6 bilhões de pessoas que habitam o planeta).

Abaixo a repercussão na íntegra da notícia publicada na Folha de S. Paulo.

PATRIMÔNIO DOS 85 MAIS RICOS É IGUAL AO DA METADE DA POPULAÇÃO MUNDIAL

As pessoas mais ricas do mundo não são conhecidas por andarem de ônibus, mas se decidissem variar um pouco suas rotinas, as 85 pessoas mais ricas do planeta – que juntas controlam riqueza equivalente à de metade da população mundial – caberiam, com algum aperto, em um ônibus de dois andares.

O acúmulo de porção tão grande da riqueza do planeta nas mãos de um punhado de integrantes da dita “elite mundial” foi exposta segunda-feira (20) em um novo relatório da Oxfam. A organização de caridade informou que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm patrimônio combinado de um trilhão de libras, montante semelhante ao patrimônio combinado dos 3,5 bilhões de pessoas mais pobres do planeta.

O patrimônio do 1% mais rico da população mundial atinge os US$ 110 trilhões, ou 65 vezes mais que o patrimônio da metade mais pobre da população do planeta, acrescentou a organização, que teme que essa concentração de recursos econômicos esteja ameaçando a estabilidade política e agravando as tensões sociais.

DESIGUALDADE

É um lembrete perturbador sobre a profunda desigualdade de riqueza que existe no planeta, no momento em que líderes políticos e empresariais se encaminham aos picos nevados de Davos para o Fórum Econômico Mundial, esta semana.

Poucos deles, se algum, chegarão em um veículo comum como um ônibus, e jatinhos e helicópteros particulares serão colocados em serviço para atender a muitas das pessoas mais poderosas do planeta, que se reunirão para discutir o estado da economia mundial em quatro dias frenéticos de reuniões, seminários e festas no exclusivo centro suíço de esqui.

Winnie Byanyima, diretora executiva da Oxfam, participará das reuniões em Davos e disse que “é inaceitável que, no século 21, metade da população do planeta – estou falando de 3,5 bilhões de pessoas – não tenha mais propriedades que uma minúscula elite que caberia perfeitamente em um ônibus de dois andares”.

A Oxfam também argumenta que isso não acontece por acidente, e afirma que a crescente desigualdade foi propelida por uma “jogada de poder” das elites endinheiras, que cooptaram o processo político a fim de manipular em seu favor as regras do sistema econômico.

No relatório, intitulado “Working for the Few” [trabalhando para poucos], a Oxfam adverte que a luta contra a pobreza não poderá ser vencida até que a desigualdade de riqueza seja enfrentada.

“Ampliar a desigualdade está criando um círculo vicioso em resultado do qual a riqueza e o poder se concentram cada vez mais nas mãos de alguns poucos, deixando ao resto de nós a luta pelas migalhas que caem da mesa dos poderosos”, disse Byanyima.

A Oxfam apelou aos participantes do Fórum Econômico Mundial deste ano que assumam o compromisso pessoal de enfrentar o problema, evitando manobras que reduzam seus impostos e o uso de sua riqueza para buscar favores políticos.

Além de ser moralmente dúbia, a desigualdade econômica também pode exacerbar outros problemas sociais, como a desigualdade entre os sexos, alertou a Oxfam. Davos mesmo enfrenta dificuldades quanto a isso, já que o número de mulheres participantes caiu de 17% do total em 2013 a 15% este ano.

INFLUÊNCIA

As pesquisas para o relatório da Oxfam constataram que as pessoas em países de todo o mundo – incluindo dois terços dos entrevistados no Reino Unido – acreditavam que os ricos têm influência demais sobre a direção que seus países estão tomando.

Byanyima explica: “Nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, igualmente, estamos cada vez mais vivendo em um mundo no qual as alíquotas mais baixas de impostos, os melhores serviços de saúde, a educação e as oportunidades de influenciar estão sendo dadas não só aos ricos mas também aos seus filhos”.

“Sem um esforço coordenado para enfrentar a desigualdade, a transferência de privilégios e de desvantagens continuará gerações afora. Logo estaremos vivendo em um mundo no qual a igualdade de oportunidade será apenas um sonho. Em países demais o crescimento econômico já representa pouco mais que um jogo no qual os mais ricos levam todos os ganhos.”

O relatório da Oxfam constatou que, ao longo das últimas décadas, os ricos exercitaram com sucesso a sua influência política a fim de influenciar as normas em seu favor quanto a questões que variam da desregulamentação financeira, paraísos tributários, táticas de negócios prejudiciais à competição, alíquotas menores de impostos para as pessoas de alta renda e cortes de serviços sociais para a maioria.

OPORTUNIDADES

Do final dos anos 70 para cá, as alíquotas de impostos das pessoas mais ricas caíram em 29 dos 30 países para os quais há dados disponíveis, o relatório afirma.

Essa “captura de oportunidades” pelos ricos à custa dos pobres e da classe média resultou em uma situação na qual 70% da população mundial vive em países nos quais a desigualdade avançou, dos anos 80 para cá, e 1% das famílias controlam 46% da riqueza mundial – quase 70 trilhões de libras.

Pesquisas de opinião pública na Espanha. Brasil, Índia, África do Sul, Estados Unidos, Reino Unido e Holanda constataram que a maioria dos cidadãos em cada um desses países acredita que as pessoas ricas exercem influência demais. A preocupação é mais forte na Espanha, seguida pelo Brasil e Índia; a Holanda registra a menor preocupação quanto a isso.

No Reino Unido, 67% dos entrevistados concordam em que “os ricos têm influência demais sobre a orientação do país” – e 37% afirmam concordar “fortemente” com a afirmação -, ante apenas 10% de pessoas que discordam, 2% das quais fortemente.

O relatório “Riscos Mundiais”, do Fórum Econômico Mundial, recentemente identificou a disparidade de renda crescente como uma das maiores ameaças à comunidade mundial.

A Oxfam está apelando aos participantes do fórum de Davos que assumam o compromisso de apoiar a tributação progressiva e de não usar recursos que permitam que reduzam seus impostos; que se recusem a usar sua riqueza de forma a obter favores políticos que solapem a vontade democrática de seus concidadãos; que tornem públicos seus investimentos em companhias e fundos dos quais sejam os principais proprietários e beneficiários; que desafiem os governos a usar a arrecadação tributária para fornecer serviços universais de saúde, educação e proteção social; que exijam salários justos nas empresas que possuem ou controlam; e que desafiem os demais membros da elite econômica a acompanhá-los nessas promessas.

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Reflexões sobre a matança e a destruição na Palestina promovida pelo Estado de Israel

Excelentes as reflexões propostas pelos textos do prof. Vladimir Safatle (Direito de Matar), e por Aldo Cordeiro Sauda e Márcia Camargos na seção Tendências/Debates (Bienal da Destruição), ambos publicados na Folha dessa última terça (22). Especialmente porque rebatem ideias propostas por textos de colunistas e opinadores reacionários dessa mesma Folha, como João Pereira Coutinho (David e Golias), Luiz Felipe Pondé (Marketing Geopolítico) e Flávio Flores da Cunha Bierrenbach (Palestina), que infestam as redes sociais fornecendo respostas prontas à boa parte de quem jamais dedicou uma hora sequer para se informar sobre o assunto e, ainda assim, por viverem em um mundo que demanda opiniões sobre tudo, ainda que superficiais, desejam expressar seus achismos fiando-se em fragmentos de Pondés, Coutinhos e Bierrenbachs, podres de nascença.

Os textos que serão repercutidos aqui, portanto, discutem pontos levantados por esses “pensadores conservadores” tais como: a pretensa cultura do martírio, o uso dos palestinos como escudos humanos, a operação de naturalização da morte dos palestinos, a realidade de milhões de palestinos que vivem como um povo apátrida e sem direitos, o extermínio simbólico dos palestinos e, desde 2006, o efetivo.

Por posicionar-se de modo análogo a Safatle, Sauda e Camargos, o Hum Historiador repercute a íntegra dos textos abaixo no intuito de promover uma discussão sobre.

DIREITO DE MATAR
por Vladimir Safatle para a Folha de S. Paulo | 22.jul.2014

Jake Tapper é jornalista da CNN norte-americana.

Ao entrevistar um representante da Autoridade Palestina, não lhe veio ideia melhor à cabeça do que acusar os palestinos que morrem atualmente em Gaza de serem possuídos por uma “cultura do martírio”, expressa por eles pretensamente se deixarem matar enquanto suas cidades são devastadas [refuta também ideias divulgadas no texto de Luiz Felipe Pondé].

Sim, Jake, você deve ter razão, palestinos não passam de fanáticos irracionais, cuja única razão de existência é obrigar perversamente os ocidentais a saciarem seu estranho desejo de martírio.

Enquanto Jake desfilava seu racismo sem complexos, o governo francês impedia sua população de se manifestar contra a mais recente ação de punição coletiva do governo israelense contra os palestinos. O argumento é que a última manifestação teve confrontes em frente a uma sinagoga envolvendo manifestantes e uma autonomeada Frente de Defesa Judaica (FDJ).

Difícil, neste caso, não lembrar de outra proibição, ocorrida na Inglaterra anos atrás.

Na ocasião, a BBC resolveu produzir uma campanha pedindo donativos para as vítimas de Gaza. No entanto, a mobilização foi vetada. Certamente porque, para a cúpula da emissora, ter compaixão por palestinos já é ser cúmplice do terrorismo internacional. Manifestar-se contra ações militares em um território transformado, segundo o próprio primeiro-ministro britânico, David Cameron, em “campo de concentração”, deve ser algo da mesma natureza.

Tudo isto demonstra como os palestinos são o verdadeiro sintoma da hipocrisia internacional. Já temos mais de 400 mortos, quase um quarto de crianças, e preferimos não apelar ao “direito de ingerência humanitária”, que permite ignorar soberanias nacionais em caso de catástrofes humanitárias ou lutar por campanhas de boicotes econômicos contra o governo israelense.

Talvez porque os palestinos já foram há muito retirados de sua humanidade. Para uma certa opinião internacional, eles morrerem é algo tão natural quanto as marés. Outros choram lágrimas de silicone ao afirmar que os dois lados estão envoltos em uma “espiral de violência”.

No entanto, não há simetria alguma nessa situação.

Os palestinos tem seu território invadido há décadas em flagrante violação de direito internacional. Hoje sua condição é de milhões de apátridas, desprovidos de qualquer direitos, segregados, vivendo em bantustãs sem cidadania ou sequer um reles passaporte.

Mas, afinal, como dizem alguns que escreveram nesta Folha, os palestinos sequer seriam um povo [referência a texto do juiz aposentado Flávio Flores da Cunha Bierrenbach]. Ou seja, eles já foram exterminados simbolicamente. Só falta exterminá-los efetivamente.


VLADIMIR SAFATLE é professor livre-docente do departamento de filosofia da USP.

BIENAL DA DESTRUIÇÃO
por Aldo Cordeiro Sauda e Márcia Camargos para a Folha de S. Paulo | 22.jul.2014

A punição à desobediência eleitoral palestina não se limita à sufocar Gaza. A cada dois anos, Israel bombardeia e invade o máximo possível.

Jogar bola na praia é algo que todos já fizemos. Brincadeira saudável, atrai qualquer criança. Mas não será assim que as peladas à beira- -mar serão lembradas pela família Bakr. Foi em meio a uma delas que os irmãos Zakaria e Ahed, além de dois primos chamados Mohamed, morreram após um bombardeio de navios de guerra israelenses à costa da faixa de Gaza na última quarta-feira (16). Os meninos tinham entre 9 e 11 anos. Somam-se aos mais de 500 mortos da atual agressão orquestrada por Israel.

A verdade é que a vida em Gaza nunca foi fácil, mas desde que os palestinos da região elegeram o Hamas, em 2006, o cotidiano tornou-se impossível. Assistimos à terceira guerra de Tel Aviv contra a faixa de Gaza, em meio a um cerco por ar, terra e mar que sufoca os palestinos há sete anos.

Muito se fala sobre as ditaduras do Oriente Médio. Porém, quando experiências democráticas produzem governos antipáticos a Israel, passa a prevalecer a tese da “guerra ao terrorismo”, que justifica qualquer ação, até mesmo uma campanha consciente de destruição por completo de uma sociedade.

Segundo a Anistia Internacional, o bloqueio não somente impede a maioria da população de Gaza de sair ou exportar mercadorias, como permite apenas a importação bastante restrita de itens básicos. Não por acaso, materiais como cimento, madeira, canos, vidro, barras de aço, alumínio e peças de reposição são extremamente raros ou indisponíveis. Mas a par de insumos para a construção civil, a lista de proibições israelenses barra produtos tão perigosos quanto grão-de-bico, chá, macarrão, geleia, biscoitos, molho de tomate, quebra-cabeça, lápis e canetinhas de colorir.

A punição à desobediência eleitoral palestina não se limita à política de sufocar Gaza, que se tornou um campo de concentração a céu aberto. De dois em dois anos, Israel bombardeia, invade e destrói o máximo possível da faixa. De acordo com o relatório Goldstone, produzido a pedido da Assembleia Geral da ONU, e de documentos de organizações internacionais de direitos humanos como a Human Rights Watch, destruir Gaza parece ter-se convertido em um dos objetivos preferenciais de Tel Aviv.

Ao longo da incursão israelense de 2009, além de mais de 1.400 mortos e de dezenas de milhares de feridos, Israel destruiu ou danificou 58 mil casas, 280 escolas e creches (18 das quais foram inteiramente pulverizadas junto de seis prédios universitários), 1.500 fábricas e oficinas, as principais instalações de água e esgoto, 80% dos grãos armazenados e quase um quinto da terra cultivável. Os bombardeios israelenses resultaram em 600 mil toneladas de entulho, US$ 900 milhões em destruição e aproximadamente US$ 3,5 bilhões de prejuízo aos palestinos, segundo a Unctad, braço da Organização das Nações Unidas para o desenvolvimento [contra os argumentos de João Pereira Coutinho].

Já em Israel, cuja destruição física em seu território custou em torno de US$ 15 milhões, segundo documento divulgado pelo Estado de Israel, os foguetes do Hamas danificaram “diversas casas de civis e outras estruturas, uma foi quase inteiramente destruída”, conforme a Anistia Internacional.

Ainda segundo a entidade, “ao contrário das afirmações dos representantes israelenses sobre a utilização de escudos humanos’, […]não foram encontradas provas de que o Hamas ou que outros grupos armados locais utilizaram-se de civis para proteger objetivos militares dos ataques”.

O problema, explica o relatório, é que neste território de 360 km2, com 1,8 milhões de habitantes, caracterizando uma das mais densas concentrações humanas do planeta, as instalações do Hamas e os guerrilheiros palestinos misturam-se naturalmente aos civis [contra a pobre argumentação de Luiz Felipe Pondé em seu texto sobre o marketing geopolítico].

A nova aventura israelense em Gaza certamente seguirá seus padrões de destruição bienal, a despeito das críticas que ecoam de todo o mundo. Resta saber se a repetida estratégia vai ter sucesso em minar a independência e a autodeterminação palestinas.


ALDO CORDEIRO SAUDA é cientista político e MÁRCIA CAMARGOS, jornalista e escritora, tem pós-doutorado pela USP.

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Os outros são um inferno

por Liana Machado especialmente para o Hum Historiador

Recentemente um casal de amigos passou por uma situação lastimável. De repente seu filhinho, de apenas 9 anos, passou de bonzinho a extremamente agressivo. Por um tempo ficou deprimido, sem querer falar com ninguém. Depois de muita insistência ele disse à mãe que vinha sofrendo bullying por causa de sua orelha. Eu, sinceramente, nunca havia reparado, mas as crianças não deixam passar nada. Orientados pela psicóloga, resolveram fazer uma cirurgia corretiva a fim de minimizar o problema. Nem vou entrar no mérito de repensar o papel dessa profissional, que ao invés de nos ajudar a lidar com nossas frustrações e nos fazer compreender que jamais seremos como o mundo quer que a gente seja, nos orienta a mudar nosso corpo para  nos adaptarmos. Que mundo maluco  é esse onde uma criança de 9 anos está  a tal ponto preocupada com sua aparência e com um desejo enorme de se enquadrar, que faz com que ela se submeta a uma cirurgia para mudar o corpo?  A cirurgia em si é simples, mas em termos psicológicos e simbólicos o impacto é enorme. À ele foi dito: “sim menininho, você tem um problema”, e sim, “você é o culpado por ele”. O que mais me irritou nessa história é que o garoto mudou o corpo, mas e seus agressores? Me irrita o fato de saber que contra eles, contra os verdadeiros culpados, nada foi feito, e saíram ilesos como Deuses do Olimpo de corpos perfeitos. Achei um absurdo na hora, mas ruminei depois.

Outro fato. Na eminência de ataques a grupos de minorias na “democrática” Augusta, a Folha orientou a gays que não fossem gays (veja a imagem aqui https://www.facebook.com/photo.php?fbid=435333726596918&set=a.116175281846099.19107.100003608837206&type=1&theater). O conselho foi para que não dessem pinta. Esse jornaleco de quinta perdeu (mais uma vez) a oportunidade de enfrentar o problema do preconceito de frente. De novo a vitima potencial se esconde para não ser agredida. Esqueceu a Folha de todos os anos de luta que os grupos LGBTTTs passaram tentando dar visibilidade a causa? Talvez a passeata Gay seja hoje motivo de festa e balada, mas ela já foi o centro irradiador de debate político muito importante contra o preconceito. Então a gente se esconde?

Terceiro, uma vez o Roger e eu discutíamos a implementação de vagões, no metrô do Rio de Janeiro, só para mulheres. O objetivo do governo era diminuir o assédio sexual. Bizarro, não? Ao invés de promover uma campanha veiculada para os homens, para dizer “hei cara, isso não é legal”, “isso não faz de você mais homem”, ou sei lá o que, preferiu-se mais uma vez esconder a vítima. Sem contar que a implementação dos tais vagões pode aumentar o número de assédios, já que se uma mulher não estiver no tal vagão, é porque está querendo… Sim, somos culpadas! Quando ele me perguntou se eu usaria o vagão de mulheres, assim de supetão, eu disse que sim. Claro que repensando depois achei um absurdo ter sequer cogitado isso. Mas meu erro de cálculo tem algo de natural.

Quarto. Ninguém discute a importância da Lei Maria da Penha. Certo? Certo. Mas devemos lembrar que a lei só protege mulheres que dão queixa. Ou seja, quando há agressão, a mulher deve sair de casa levando seus filhos, mudar de vida, mudar de emprego, de grupo social. E quando ela não faz nada disso? Bom então aí ela gosta. Culpadas de novo! Ao homem agressor, que muitas vezes é o provedor e um ótimo pai, nada é dito até que ele responda penalmente. Em termos gerais, tudo depende da vítima.

Todos esses casos são muito lastimáveis. Agonisticamente lastimáveis. Por certo que eu não concordo com a Folha de que as pessoas devam se esconder, nem tão pouco que deva haver vagões para mulheres. Também a Lei Maria da Penha é importantíssima, e levantou o debate. Mas só isso não é suficiente. Não é a vítima que tem mudar, é o agressor! Nosso papel enquanto pensadores, educadores, médicos e políticos é promover uma luta incessante contra o ataque aos direitos humanos, uma luta incessante pelo direito de ser quem somos.

Mas em termos práticos, o que fazer num mundo tão cruel com as diferenças? Como reagir diante de uma situação de preconceito onde você é o agredido? Talvez seja exatamente o motivo pelo qual inicialmente respondi que usaria os vagões “especiais”. Estratégia de sobrevivência? Será que podemos condenar pais que só querem proteger seu filho? Como munir as crianças contra tamanha pressão social? Muito lastimável tudo isso. Porque eu sei que é o agressor que deve pagar, mas no fundo a gente só quer sobreviver…


Liana Machado é historiadora e está concluindo seu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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Brilhante Ustra: sequestrador, torturador e, também, colunista da Folha

Como acredito que contra torturadores sanguinários nunca é demais relembrar à opinião pública dos crimes perpetrados por esses crápulas, bem como o de seus cúmplices e acobertadores, entendo que vale a pena repercutir notícia publicada pelo portal Pragmatismo Político em 30 de maio de 2011, tirada originalmente do Blog do Mello.

Abaixo segue íntegra do post conforme publicado tanto no portal quanto no blog.

O artigo de Ustra na Folha você encontra na edição impressa e nos espaços que defendem os crimes praticados pelo estado sob a ditadura civil-militar, de 1964 a 1985.

Que o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra é sequestrador e torturador não é uma opinião minha, é sentença do juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível de São Paulo, 9 de outubro de 2008. A notícia, que reproduzo em parte abaixo, mostra quem é o que fazia o coronel no período mais infame da ditadura (a tal ditabranda da Folha).

Pois não é que a Folha abriu espaço em sua página 3 de sexta-feira para que Brilhante Ustra dê sua versão sobre acusações que sofre de outro que o acusa de tortura, o ex-presidente do BC no governo FHC Pérsio Arida?

Não foi à toa que a Folha procurou a ficha de Dilma durante a campanha. Se, durante a ditadura, com o empréstimo de seus veículos para que presos fossem transportados para serem torturados pela turma de Brilhante Ustra e com oeditorial de Otávio Frias pai elogiando Médici, o jornal mostrava de que lado estava, agora, com a classificação da ditadura como ditabranda , com a infame (duas vezes a palavra “infame” numa mesma postagem, deve ser recorde – só a Folha…) publicação na primeira página da ficha falsa de Dilma e com a publicação da defesa de um sequestrador e torturador (não sou eu quem diz, mas a sentença de um juiz, até hoje válida), a Folha confirma sua posição – e se ela está ao lado de Médici, da ditabranda e de Ustra, o leitor fica no pau de arara da História.

Leia a notícia da condenação de Brilhante Ustra, conforme publicada na própria Folha em 2008:

Por decisão do juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível de São Paulo, de primeira instância, o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra tornou-se o primeiro oficial condenado na Justiça brasileira em uma ação declaratória por sequestro e tortura durante o regime militar (1964-1985).

A sentença, publicada ontem, é uma resposta ao pedido de cinco pessoas da família Teles que acusaram Ustra, um dos mais destacados agentes dos órgãos de segurança dos anos 70, de sequestro e tortura em 1972 e 1973.

(…) Na decisão de ontem, o juiz Santini argumentou que a anistia refere-se só a crimes, e não a demandas de natureza civil, como é o caso da ação declaratória, que não prevê indenização nem punição, mas o reconhecimento da Justiça de que existe uma relação jurídica entre Ustra e os Teles, relação que nasceu da prática da tortura.

(…) As testemunhas, que estiveram presas junto com os Teles, disseram que Ustra comandava as sessões de tortura com espancamento, choques elétricos e tortura psicológica. Das celas, relatam que ouviam gritos e choros dos presos.

“Não é crível que os presos ouvissem os gritos dos torturados, mas não o réu [Ustra]. Se não o dolo, por condescendência criminosa, ficou caracterizada pelo menos a culpa, por omissão quanto à grave violação dos direitos humanos fundamentais dos autores”, afirmou o magistrado.[Fonte: Folha, para assinantes]

O artigo de Ustra na Folha você encontra lá e nos espaços que defendem os crimes praticados pelo estado sob a ditadura civil-militar, de 1964 a 1985.

Mas, repare como a Folha o apresenta a seus leitores:

CARLOS ALBERTO BRILHANTE USTRA, coronel reformado do Exército, foi comandante do DOI-Codi de 29.set.1970 a 23.jan.1974 e é autor dos livros “Rompendo o Silêncio” (1987) e “A Verdade Sufocada” (2006).

Sobre a sentença, nenhuma palavra.

Publicado originalmente no Blog do Mello em 29 de maio de 2011.

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Rankings universitários e sua manipulação para fins propagandísticos

Na última segunda-feira (3/9) a Folha de S. Paulo lançou um caderno especial onde divulgou um “troço” chamado Ranking Universitário da Folha (RUF), o qual define como “o primeiro ranking sistemático de universidades brasileiras”. Segundo a divulgação feita pelo jornal, tal ranking traz a classificação de 232 instituições de ensino superior brasileiras com foco em pesquisa e autonomia de ensino.

Em texto intitulado “Sobre universidades, campeonatos e reportagem”, veiculado no Observatório da Imprensa, a jornalista e professora da Universidade Federal Fluminense, Sylvia Debossan Moretzsohn, considera que a pesquisa idealizada pelo próprio jornal e realizada ao longo de oito meses, “traz tantas inconsistências que nem deveria ter sido publicada”. Um pouco mais adiante em seu texto, ao tratar do porquê de se criar um ranking universitário, a professora traz trecho de texto do articulista da Folha, Hélio Schwartsman, que embora reconhecendo os problemas metodológicos do RUF, ainda tentava justificar sua criação:

“A ciência e o ensino estão se globalizando. É cada vez mais comum ver jovens estudando no estrangeiro. E, se já é difícil escolher uma universidade no país de origem, muito pior é fazê-lo em lugares a respeito dos quais não se tem muita informação. Os rankings, ao traduzir toneladas de dados num número, ajudam esse estudante. Embora a internacionalização seja ainda incipiente no Brasil, devido a mudanças como o Enem, está aumentando a mobilidade interna dos alunos, para os quais o RUF pode ser de grande auxílio. (…) No mais, uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida.”

Logo de princípio, poderíamos rebater essa “lógica heterônoma” de Schwartsman, na qual “uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida”, lembrando o que diz o professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dmitri Cerboncini Fernandes: “Ora, posso propor, por exemplo, um novo sistema de mensuração de massa corpórea em que um morcego seja considerado mais leve do que uma formiga, se para tanto eu ignorar o sistema vigente e adotar outro em que a capacidade ou altura de voo representar o parâmetro central”. Segue o professor em sua argumentação: “poderia ainda ignorar as divisões assentadas da biologia, entre mamíferos, aves e insetos, e localizar o morcego em uma nova rubrica, junto aos pássaros e demais insetos capazes de voar”.

Mas é a professora Sylvia Moretzsohn quem rebate a argumentação estapafúrdia de Schwartsman, lembrando o que realmente está em jogo com a criação do tal Ranking Universitário da Folha:

Não: números ruins não servem para nada, a não ser para mistificar. Ou – o que dá no mesmo – para serem manipulados para fins de propaganda, como, previsivelmente, ocorreu já no dia seguinte à divulgação do ranking: na terça-feira (4/9), uma instituição ocupava a barra inferior da capa do jornal e uma página interna inteira no primeiro caderno para se anunciar como “a melhor universidade privada do estado de São Paulo”. Na quinta (6), uma concorrente faria o mesmo, e repetiria a dose na segunda-feira (10), dizendo-se “top no mercado de trabalho” de acordo com “os que contratam”, valendo-se do RUF como comprovação.

Se ainda não ficou claro, ou acha exagero, dê uma olhada no uso que a Universidade Paulista (Unip), está fazendo do RUF em sua página da Internet, em jornais, revistas e anúncios na TV.

Imagem promocional da Unip, divulgada no site da instituição, menciona RUF para convencer clientes a se matricularem naquela universidade.

Como bem lembra a professora Moretzsohn, o caderno especial foi complementado por um editorial que, dentre outros absurdos, conclui que “seria útil para o país (…) admitir que prosperem diferentes tipos de universidades”. Útil para o país ou útil para os empresários desse negócio lucrativo que é o ensino superior privado no país? Oras, não devemos esquecer que o Grupo Folha também lucra, e muito com as receitas de propagandas que universidades privadas veiculam nas páginas de seus diários, seja em papel, seja na Internet. Isso para não mencionar o conteúdo que “produz” para este mercado através de empresas como a Publifolha e as articulações do Grupo com os pré-vestibulares.

Charge publicada no Observatório da Imprensa ironizando o Ranking Universitário da Folha, publicado no último dia 03 de setembro.

O professor Cerboncini também levanta em seu texto as questões discutidas acima, isto é, “a que ou a quem serve a classificação proposta pela Folha?”, chegando a conclusão de que, com seu caderno especial, a “Folha de S.Paulo revela seu grandioso propósito de, simplesmente, nortear a política educacional superior do país por meio dos critérios que ela própria, dentro da lógica jornalística, e não científica, estabeleceu”. Posto isto, Cerboncini questiona: “tem-se aqui algo no mínimo temerário: quem outorgou tamanho poder de decisão a um grupo capitalista privado, cujos propósitos, como os de qualquer outro grupo capitalista, são os de lucrar com a venda de mercadorias – no caso, de notícias e de rankings?”.  Como propõe a charge também publicada no Observatório da Imprensa e reproduzida ao lado, cabe à imprensa estipular os critérios que irão mensurar o ensino superior no Brasil?

Concluímos o post tal como a professora Sylvia Moretzsohn também fechou brilhantemente o seu texto, isto é, explicitando a quem a Folha serve ao criar tal ranking ao lembrar que se o jornal optasse por investir em reportagem sobre a situação do ensino superior no país, “verificaria, por exemplo, como funcionam as instituições privadas na sua disputa alucinada por mais clientes – perdão: alunos –, como essas instituições tratam seu corpo docente, como promovem demissões em massa para a contratação de funcionários mais baratos”. Não é a Folha, ou seus interesses em lucrar com propagandas de universidades privadas, quem deve estabelecer os critérios de avaliação do ensino superior. Como bem lembra a professora, ao invés disso, a Folha poderia

“(…) dedicar-se a estudar e estimular o debate sobre os critérios já existentes estabelecidos pelo governo. Mas para isso teria de abandonar o pressuposto de que a academia – isto é, a universidade pública – é refratária a avaliações. Pois não é disso que se trata: as inúmeras críticas feitas ao longo das últimas décadas aos critérios de avaliação pretendem demonstrar a enorme dificuldade da adoção de instrumentos adequados para medir a relevância do trabalho intelectual. E, mais ainda, que esses instrumentos não podem ser julgados isoladamente, dissociados do contexto político em que são produzidos: no caso, o modelo de universidade que se quer eleger.”

LEIA MAIS SOBRE O RUF:

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Folha Transparência e Wikileaks

Claramente inspirado no Wikileaks, o grupo Folha tem um projeto chamado Folha Transparência que é uma ótima fonte de pesquisa para os historiadores, especialmente aqueles que dedicam-se à História do Brasil Contemporâneo.

Segundo reportagem do próprio jornal, a partir de julho de 2011 o grupo teve acesso a milhares de telegramas confidenciais produzidos pelo corpo diplomático do Itamaraty e selecionou pouco mais de 15 mil páginas para divulgar. Até o momento foram publicados no site do projeto 1964 telegramas sigilosos produzidos entre 1973 e 2001 por representações brasileiras. A Folha define seu projeto como “um conjunto de iniciativas, nas esferas administrativa e judicial, para divulgar documentos e informações de interesse da sociedade sob guarda do poder público.”

Ao entrar no site, além do mecanismo de busca para localizar telegramas de acordo com seu interesse de pesquisa, você também pode navegar por documentos pré-selecionados ou por notícias já publicadas pelos jornais do grupo, como por exemplo, a notícia publicada em 16/10/2011 sob a manchete “Brasil ajudou ‘anjo da morte’ argentino, dizem documentos”.

Apenas para dar um exemplo de como funciona o mecanismo de busca do site, ao digitar a palavra-chave Pinochet, obtivemos como resultado 32 telegramas produzidos, especialmente pela embaixada brasileira no Chile, durante a ditadura do General Augusto Pinochet entre as décadas de 70 e 90. Um dos telegramas que vieram como resultado, foi este, produzido em 1975, com a descrição de que o Brasil defendeu no México os interesses do governo Pinochet. Ao consultar outros telegramas que surgiram na pesquisa, vemos que o México não reconhecia o governo Pinochet, que chegou ao poder após o golpe que depôs Salvador Allende, e o Chile solicitou ajuda do Brasil para intermediar as relações internacionais com o México e buscar o reconhecimento daquele governo. Em troca, o Brasil receberia do governo chileno total apoio a candidatos brasileiros a cargos em organismos internacionais.

Apesar de ser um ótimo instrumento de pesquisa e fonte para produção de conhecimento sobre o período de 1973-2001, não podemos nos abdicar de criticar o projeto da Folha Transparência questionando-os qual foi o critério de seleção das 15266 páginas e da divulgação dos 1964 telegramas. Se o objetivo do projeto é divulgar documentos e informações de interesse da sociedade sob guarda do poder público, como dizem em seu site, então cabe perguntar porque o projeto Folha Transparência não passou adiante TODOS os telegramas a que tiveram acesso e se houve alguma intervenção do governo brasileiro solicitando que não se publicasse alguns dos telegramas a que o projeto teve acesso (leia-se censura). Seguramente, esta relação entre o grupo Folha e o Itamaraty e a seleção de quais documentos podem ser publicados no site sem prejuízo para o Governo é o que difere o projeto Folha Transparência do Wikileaks.  Independentemente disso, tendo consciência dos problemas inerentes desta fonte, ainda podemos aproveitar o potencial de pesquisa que ela tem a nos oferecer.

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