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Nós vamos invadir seu shopping

por José Guilherme Zago especialmente para o Hum Historiador

Jovens marcam encontro pelas redes sociais e invadem o Shopping Itaquera no último sábado (7)

Uma semana após uma massa de adolescentes uniformizados de Hollister e oakley ocuparem o shopping Itaquera, desta vez foi o Shopping Internacional de Guarulhos que recebeu neste sábado  (14/12) o evento intitulado nas redes sociais de “rolezinho”, ou seja, um encontro de adolescentes  que propõem um “fleneur” pelos centros de consumo paulistanos.

“QUEM FAZ O FLUXO SOMOS NÓS” diz o evento do Shopping Itaquera, atordoando o público tradicional dos shoppings que ficam incrédulos ao ver  os protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) cantando seu “tchu-tcha”.  Não, não se trata do “grito dos excluídos” que há dez anos respirava o ar da Anti-globalização e levava o MST a almoçar pão com mortadela na frente de vitrines de Rollex.  Por mais que tais eventos ainda existam os membros deste “fluxo” estão incluídos no ethos do consumo e ostentação caminhando e cantando ao som do funk paulistano. Só que desta vez trata de um “occupy” de um território onde impera o liberalismo por excelência: Um território sem conflitos, homogêneo onde a relação primordial não é entre humanos, mas entre cartões de crédito e mercadorias.

Não é de hoje que o medo que a “plebe” invada os espaços restritos a uma parcela da população paira sobre mundo burguês,  o hoje reacionário Roger do Ultraje a Rigor fazia sucesso ao narrar no hit “Nós vamos invadir sua praia” a descida ao litoral da plebe farofeira. Danuza Leão que o diga: “Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?”.

Qual é a lição disso tudo? Estes jovens nascidos em 1998 entraram para a vida de consumo no exato momento que esta se tornou a alavanca de crescimento do governo de Lula em 2008, aprendendo muito bem que uma pessoa de “status”, uma pessoa de sucesso é alguém que se enquadra na estética do consumo, entretanto eles cobram maior participação nos espaços onde os mesmos são tradicionalmente excluídos.

Ironicamente, o final do “rolezinho” encerra com a participação do braço tradicional do Estado que mais se relaciona com a plebe, a polícia é chamada para proteger os antigos frequentadores e coibir arrastões nem sempre confirmados.

Em tempo: Essa disputa pelo espaço urbano ainda vai longe: o “rolezinho de Itaquera” começou após a proibição dos bailes Funk’s na região. http://www.cbnfoz.com.br/editorial/brasil/15122013-60789-rolezinho-do-shopping-traz-medo-e-panico-a-sociedade


José Guilherme Zago é historiador e leciona História em escolas da rede pública e privada de São Paulo.

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[THE GUARDIAN] Pre-para… nova polêmica sobre racismo e preconceito é reacendida pelo fenômeno Anitta

Neste último domingo (08) o jornal britânico The Guardian trouxe uma matéria assinada pelo correspondente latino-americano do jornal, Jonathan Watts, na qual discute o ressurgimento do debate à respeito do clareamento de pele artificial e do racismo no país após uma publicação ter mostrado fotos da nova estrela do funk, Anitta, antes e depois do sucesso.

O Hum Historiador fez uma tradução livre da matéria tal como publicada no The Guardian visando repercutir a discussão proposta pelo jornal aqui no Brasil, ao atingir um maior número de leitores que não dominam o idioma inglês.

Abaixo, a íntegra do texto de Jonathan Watts tal como publicado no jornal britânico.

ESTRELA DO FUNK BRASILEIRO, ANITTA, ACENDE NOVO DEBATE SOBRE CLAREAMENTO DE PELE E RAÇA
por Jonathan Watts para o THE GUARDIAN | 08/09/2013

Anitta Antes e Depois_The Guardian

Anitta fotografada quando era relativamente desconhecida e no palco no Brasil no último mês. Foto: Mauricio Santana/Corbis

A última sensação do funk brasileiro, Anitta, ganhou milhões de fãs ao levar o som da favela ao mainstream, mas ela está agora à frente e no centro de um debate sobre cor de pele.

Autores de campanhas anti-discriminação e comentaristas sociais dizem que a mais rápida estrela ascendente da música industrial teve que sacrificar sua origem negra para ser bem sucedida na classe média predominantemente branca do mercado.

A polêmica foi motivada pela publicação then-and-now photographs (fotografias antes e depois) que mostra um clareamento dramático no tom de pele de Anita desde que ela assinou um contrato com a Warner.

Na primeira, quando Anitta era relativamente desconhecida, ela parecia mais escura. Na segunda – uma foto de marketing após ela ter ficado famosa – ela aparece mais pálida. Quer isso tenha sido resultado de produtos de clareamento de pele e cirurgias cosméticas ou – mais provável – ajustes no Photoshop, o contraste reacendeu a discussão sobre o quanto você necessita ser branco para se dar bem no Brasil.

Jarid Arraes, estudante de psicologia e blogueiro, escreveu um post criticando a discriminação latente na mídia e marketing que ela sentiu ter representado a mudança da imagem de Anitta. “As pessoas se negam a aceitar que são racistas e que vivem em uma democracia multirracial, mas as estatísticas mostram que isso está longe da verdade. O clareamento nos mostra uma sociedade profundamente intolerante que não suporta a diversidade… branco é a imagem do rico, do legal, do bem sucedido, do bom, enquanto as pessoas enxergam o preto como o oposto de tudo isso”.

Nascida Larissa de Macedo Machado, a pretendente a diva foi uma corista de igreja em sua infância. Durante a adolescência, fez o nome por si mesma no cenário do baile funk carioca como uma cantora e dançarina curvilínea, “mexedora de bunda”.

Esse ano ela explodiu no conhecimento do público com um álbum e um enorme single de sucesso, Show das Poderosas, que liderou as paradas e atraiu 52 milhões de visitas no YouTube.

Apesar de ter sido adorada inicialmente como ídolo pop com uma mensagem forte e algumas melodias cativantes, seus apoiadores a projetam como uma ponte cultural entre as favelas predominantemente habitadas por pretos e mestiços nas encostas dos morros do Rio e os bairros mais ricos e brancos localizados morro abaixo.

Ela amenizou a dança sugestiva [sexo], referência gangsta e letras explícitas do baile funk e intensificou o R&B transglobal em vários vídeos promocionais mais suaves, inclusive um para Meiga e Abusada no qual ela janta com uma família branca.

Agora, contudo, questões estão sendo feitas se ela – ou seu time de marketing – foi tão longe ao reconstruir sua imagem para atrair uma demografia mais lucrativa. “Se eles tem cabelos crespos, vão se sentir coagidos a alisá-lo. Se eles tem um nariz grande, serão coagidos a fazer uma rinoplastia“, disse Arraes. “Isso cria um círculo vicioso de auto-estima”.

Este é um tema sensível nessa nação grande e altamente mestiça. Brasil – um dos últimos grandes países do mundo a banir a escravidão – tem a maior população de descendentes de africanos fora da África, mas raça e descendência são menos importante aqui do que cor. E apesar do objetivo declarado da nação de ser uma democracia multirracial, há uma relação clara entre o tom da pele e a desigualdade.

Nas cidades brasileiras, trabalhadores brancos ganham quase o dobro do que os descendentes de africanos. Até 2011, estudantes pretos ou mestiços também passavam dois anos a menos nas escolas do que a média dos estudantes.

O governo diz que essa diferença está diminuindo graças ao sistema de cotas raciais para bancos universitários e outras formas de ações afirmativas. Mas o abismo permanece flagrantemente aparente. A vasta maioria dos executivos de negócio e do governo são brancos, enquanto a maior parte dos empregos mais braçais são feitos por pretos e mestiços. Caminhe por Ipanema, Gávea ou outros bairros de luxo na Zona Sul do Rio e você estará mais propenso a ver babás pretas empurrando carrinhos com bebês brancos do que o contrário.

Definir cor é complexo. Pessoas que se autodefinem como brancas estão em minoria pela primeira vez no censo mais recente realizado em 2010. entre os 197 milhões de pessoas que vivem no Brasil, 82 milhões disseram que eram pardos, 15 milhões pretos, dois milhões asiáticos e 0,5% indígenas.

Sylvio Ferreira, professor de psicologia na Universidade Federal de Pernambuco, acredita que Anitta conquistou o coração da classe média por ter tirado um som de rebeldia e tornando-o mais domesticado e mais palatável a todos os estratos sociais.

“Isso foi conquistado a partir do clareamento racial? Não”, diz ele. “O que ocorreu foi uma mudança do espaço social onde Anitta produziu sua arte: da periferia para o centro”.

Outros concordam que que a questão da cor da pele foi exagerada. Maycon de Mattos Batista, um analista financeiro que trabalhou com Anitta quando ela era uma estagiária na Vale, disse que houve uma grande transformação na imagem de Anitta, mas não de sua cor.

“Eu não acredito que se trate de clareamento; é mais a maneira como ela está sendo produzida com a maquiagem, estilistas de cabelo e o modo como se veste”, ele disse. “Eu não acho que foi por causa de pressão que colocaram nela. Ela sempre gostou de se mostrar, cantar e dançar. Isso é algo natural para ela. Eu acredito que é por conta de sua naturalidade que ela é o que é hoje em dia”.

Leandro Silva de Souza, um ativista por igualdade racial na cidade nordestina de Salvador, disse que o preconceito reside não na sociedade mas nos produtores musicais e executivos de mídia. O público, diz ele, provou que está interessado na música em si após ter escolhido Oléria – uma lésbica negra – como a mais recente vencedora do The Voice Brasil, um show similar ao Pop Idol.

Anitta ainda tem de ser ouvida à respeito desse debate e o The Guardian não conseguiu contatá-la para ouvir seus comentários. Contudo, em uma entrevista recente publicada no Folha blog, ela descreveu a necessidade por identidade para ser bem definida.

“Toda poderosa é uma mulher que não precisa de ser bonita, mas tem tanta atitude que é maravilhosa, é poderosa”, diz Anitta à apresentadora Sabrina Sato. “O que tento passar no meu trabalho para todo mundo é que nós podemos ser quem desejamos”.

Com reportagem adicional por Anna Kaiser.

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