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Baixe livros gratuitamente direto da Biblioteca Digital do Senado Federal

Livro_Senado_FederalO Senado Federal disponibilizou para download gratuito os livros das coleções “Edições do Senado Federal”, bem como os da “Biblioteca Básica Brasileira”. Ambas coleções contém títulos clássicos do pensamento brasileiro, além de contribuições recentes de pensadores contemporâneos. Na coleção é possível encontrar nomes como Raimundo de Farias Brito (1862-1917), Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), Francisco José de Oliveira Viana (1883-1951), Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), dentre outros.

Os títulos da coleção podem ser adquiridos no Portal de Publicações da Biblioteca do Senado. No entanto, alguns deles estão disponíveis para download grátis na biblioteca digital do Senado. Na lista abaixo se encontram os títulos gratuitamente disponibilizados:

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Antônio Cândido e a difícil arte de indicar dez livros [mais um] para se conhecer o Brasil

Republicado recentemente no Blog da Boitempo, em 17/05/2013, abaixo segue um artigo retirado da revista Teoria & Debate, no já longínquo ano 2000. Nele o sociólogo, crítico literário e ensaísta Antônio Cândido justifica sua escolha para a elaboração de uma lista de dez livros necessários para quem deseja conhecer o Brasil e, de modo bastante suave, burla a encomenda que lhe foi feita, nos presenteando com bem mais do que os dez livros da proposta original.

ANTÔNIO CÂNDIDO INDICA DEZ LIVROS [ou mais] PARA CONHECER O BRASIL

por Antônio Cândido*

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler também Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) e O movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império (1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) é Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

Antonio Cândido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.

Resumo das indicações de Antônio Cândido:

  1. O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro;
  2. Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda;
  3. História dos Índios do Brasil (1992), de Manuela Carneiro da Cunha;
  4. Ser escravo no Brasil (1982), de Kátia de Queirós Mattoso;
  5. Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre;
  6. Formação do Brasil contemporâneo, colônia (1942), de Caio Prado Júnior;
  7. A América Latina, males de origem (1905), de Manuel Bonfim;
  8. Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda;
  9. Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha;
  10. Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal;
  11. A revolução burguesa no Brasil (1974), de Florestan Fernandes.

Outras obras sugeridas à revelia do limite proposto:

  1. O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco;
  2. A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes;
  3. A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart;
  4. D. João VI no Brasil (1909), de Oliveira Lima;
  5. O movimento da Independência (1922), de Oliveira Lima;
  6. Um estadista do Império (1897, de Joaquim Nabuco;
  7. A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems;
  8. Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni;
  9. Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento.

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Coleção História Geral da África

Depois de ter falado tanto sobre cotas raciais, o papel e a posição do negro na sociedade brasileira hoje e também sobre as particularidades do processo histórico de formação do povo brasileiro, especialmente da miscigenação deste com as populações de africanos que aqui foram introduzidos, entendo ser de grande valia a divulgação da excelente iniciativa que a Representação da UNESCO no Brasil tomou em disponibilizar gratuitamente para download a Coleção História Geral da África.


Em sua página na Internet, a Representação da UNESCO no Brasil disponibilizou links para que o usuário possa baixar a coleção completa de História Geral da África em língua portuguesa. A coleção é composta por oito volumes e além de ter sido publicada em nossa língua, ela também já havia sido vertida para o árabe, o inglês e o francês, em sua versão completa,  e para o inglês, o francês e várias outras línguas, como hausa, peul e swahili em uma versão condensada.

Segundo informações do próprio site da UNESCO, este é um dos projetos editoriais mais importantes da instituição nos últimos trinta anos, sendo um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, já que permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos.

Abaixo seguem os links para download direto do site da Representação da UNESCO no Brasil:

HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA. Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.

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Histórias Apócrifas

Que boa surpresa esse Histórias Apócrifas de Karel Capek. Recomendo-o fortemente para qualquer um que queira ter enorme prazer e diversão na leitura. Logo no começo, o conto “Sobre a decadência dos tempos”, já nos faz dar boas risadas ao imaginarmos um velho casal da idade das pedras lamentando a decadência das novas gerações e a falta de perspectiva da humanidade; pouco depois, vem Tersites, conto que destaca os comentários maldosos de soldados gregos durante o cerco de Troia; mais adiante ainda, tem o conto “Sobre cinco pães”, que narra a opinião de um esforçado padeiro sobre os milagres de multiplacação de pães de Jesus. Há outros bastante interessantes e que são igualmente recomendáveis. Estou me divertindo muito com essa leitura.

Abaixo, um pequeno trecho extraído das páginas 26-27 do conto Tersites, que é uma ótima sacada do Capek. Neste conto, Capek narra o descontentamento de soldados gregos, acampados em frente a Tróia, antes de nova onda de ataque. Tersites é um dos soldados que reclamam e lamentam a sorte dos gregos nos dez anos de guerra contra Tróia, dando suas explicações das possíveis razões porque ainda a guerra não foi liquidada.

Curtam o trechinho que selecionei.


(…) Dizem que Aquiles se ofendeu  terrivelmente, porque Agamêmnon devolveu aos pais aquela escrava, como é mesmo o nome dela? Briseis, Kriseis, uma coisa assim… Ele tomou isso como uma afronta, mas parece que estava mesmo apaixonado pela moça… Olha, rapaz, que isso não é nenhuma comédia.

– Para mim vens dizer isso? – Perguntou Tersites. – Sei muito bem como tudo aconteceu! Agamêmnon simplesmente tomou-lhe a escrava, entendes? Mas para ele isso não é problema, porque se apossou de tantas jóias que nem sabe o que fazer com elas, e não pode ver um rabo de saia, que… Mas chega de mulheres! Afinal, foi por causa daquela tal de Helena que a coisa toda começou, e agora essa outra… Não ouvistes? Parece que a Helena agora está arrastando a asa para o Heitor. Essa aí já foi possuída por tod mundo em Troia, até pelo Príamo, que está com um pé na cova. E nós, agora, vamos passar pela necessidade e lutar por causa de uma fulaninha dessas? Muito obrigado, mas para mim chega!

– Dizem – observou Laomedon, meio envergonhado – que Helena é muito bonita.

– Dizem, dizem – respondeu Tersites, com desprezo. – Mas já está meio passada, e além disso é uma rameira de marca. Eu não daria por ela nem um prato de feijão. Sabeis rapazes, que é que eu desejo para o tonto do Menelau? Que ganhemos esta guerra de uma vez para ele receber a mulher de volta. A beleza de Helena não passa de lenda, impostura e um pouco de pó de arroz.

– Então nós, gregos, estamos lutando por uma simples lenda? É isso, Tersites?! – perguntou Hipodamos.

– Meu caro Hipodamos – respondeu Tersites -, percebo que não enxergas a essência das coisas. Nós, gregos, lutamos, primeiro, para que a raposa velha do Agamêmnon possa encher as burras com nosso butim; segundo, para que o janotinha do Aquiles possa saciar sua imensa sede de glória; terceiro, para que o vigarista do Odisseu possa nos escorchar fornecendo o armamento; por fim, lutamos para que um bardo vulgar e corrupto, o tal de Homero, ou lá como se chame, possa glorificar, por uns trocados sujos, os maiores traidores da nação grega e, ao mesmo tempo, vilipendiar ou ignorar os verdadeiros, modestos e abnegados heróis da Acaia, heróis como vós. É isso, Hipodamos. (…)

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Boicotar a Festa do Livro da USP

Panfleto Original da Festa do Livro

Depois de doze anos de sucesso sendo realizada no prédio de História e Geografia da FFLCH-USP, a tradicional festa do livro deste ano não será realizada no mês de novembro naquele prédio. Segundo o grupo organizador da festa, que enviou e-mail a toda comunidade uspiana, o evento teve que ser adiado em razão de um problema de “LOGÍSTICA” e seria reagendado para uma nova data a ser confirmada. O tal problema de logística ao qual se referem os organizadores, foi a GREVE DE ESTUDANTES decretada logo depois da desastrada reintegração de posse realizada pela Polícia Militar que, após ser autorizada pelo reitor, invadiu o campus universitário prendendo 73 alunos que ocupavam a reitoria.

Claro que todos ficamos desapontados e sem entender o motivo do adiamento, uma vez que a greve, em si só, não era uma razão para adiar a realização da Festa do Livro. Vários outros eventos, como seminários, foram realizados nos prédios de História e Geografia da USP durante a greve sem nenhum problema de “segurança”, que era o principal receio dos organizadores.

Passamos a entender melhor a razão por trás do adiamento da Festa algumas semanas depois do aviso de adiamento. A reitoria da Universidade de São Paulo, através do grupo que organiza a festa do livro e de sua maneira tão característica, isto é, sem conversar com a comunidade, decidiu transferir o local de realização da tradicional Festa de Livros para os prédios da Mecânica e da Civil da Escola Politécnica da USP. Essa medida foi tomada claramente como forma de retaliação a greve dos estudantes e chega às raias do caricato por esta festa ser, em sua grande maioria, um evento que vende LIVROS DE HUMANIDADES com grandes descontos e se há um local onde esta festa deve ocorrer é nos prédios da FFLCH e não nos da POLI. Prova de que a reitoria está disposta a provocar e retaliar seus estudantes que ousaram reivindicar por mais democracia dentro da Universidade é o próprio panfleto divulgando a nova data e local da Festa, que traz em grande destaque a frase AGORA NA POLI. Não por acaso, a Poli foi uma das unidades da USP que não aderiu à greve dos estudantes logo depois da invasão da PM e a prisão de nossos colegas.

Assim, conclamo a todos que pretendiam ir à festa do livro a BOICOTAR o evento deste ano por acreditar que a Universidade não deve utilizar este evento da maneira política como está utilizando. Entendo perfeitamente que esta é uma oportunidade para que muitos estudantes comprem, pela metade do preço, aqueles livros caríssimos que ficam pegando nas bibliotecas o ano todo, mas é inadmissível que este evento seja utilizado pela reitoria CONTRA OS ESTUDANTES que reivindicam melhorias estrutura de poder da Universidade. O tom provocativo é óbvio e os estudantes devem responder esta provocação com BOICOTE. Espalhem a notícia, não vamos aceitar mais essa decisão arbitrária e provocativa do nosso magnífico reitor. BOICOTE JÁ.

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História do Brasil Nação

Em entrevista concedida ao programa EntreLinhas da TV Cultura, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz fala sobre a nova coleção de História do Brasil que ela está dirigindo e será lançada pela Editora Objetiva.

Na entrevista ela revela que a coleção foi encomendada por uma instituição espanhola com o objetivo de incentivar uma história comparativa das nações da América Latina e menciona, como exemplo, o fato de a mestiçagem também ter sido um fator importante para a composição da identidade dos povos de outros países latinoamericanos, tais como o México, Cuba e Colômbia e não apenas o Brasil como é comum pensar.

A coleção será composta por seis volumes, sendo que o primeiro deles, coordenado por Alberto da Costa e Silva (1808-1830), já foi lançado. Durante a entrevista Schwarcz pontua que o lançamento desta coleção é uma resposta ao fenômeno do grande sucesso editorial que livros de História vem tendo no país. Segundo a antropóloga, o grande diferencial desta coleção é que os livros são escritos por historiadores e, portanto, não se trata apenas de uma compilação de dados já publicados em outras obras, mas da produção de conhecimento através das pesquisas dos historiadores especializados na área e em linguagem que permite uma ampla divulgação.

A entrevista é concluída com uma pergunta sobre como a literatura vai surgir nos volumes da coleção e Lilia Schwarcz aponta, na opinião dela, qual é o papel que a literatura ocupa na formação da nacionalidade brasileira. Enfim, se você ficou curioso e quiser acompanhar a entrevista na íntegra, abaixo segue o video disponibilizado pelo canal CMAIS da TV Cultura no YouTube. Bom proveito a todos.

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