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Eu, mulher, feminista, sua mãe, sua filha, já fui estuprada

Por Flávia Cláudia, historiadora.
Publicado originalmente no Palavra Dita | 27.mai.2016

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil e, diferente de pegar catapora, ter sido estuprada uma vez não faz de ninguém imune à possibilidade de ser estuprada novamente. Essa semana no mesmo dia em que um estuprador confesso foi recebido pelo Ministério da Educação com a proposta de combater a chamada ideologia de gênero nas escolas viralizou na internet o vídeo de uma garota de 17 anos sendo estuprada por vários homens, mais de trinta, em meio a risos, piadas e toda sorte de crueldades. Desacordada, machucada, humilhada, levada a categoria de uma coisa, um trapo humano.

Pessoalmente não tenho palavras que possam expressar o que sinto pelo fato de que, dos 30 homens, nenhum tenha posto a mão na consciência e dado um fim àquela monstruosidade, de que dos 30 nenhum tenha nem mesmo se recusado a participar da violência. Não é novidade que o estupro, que nós feministas não nos cansamos de afirmar que não é sobre sexo, é sobre poder, sobre opressão, está entranhado no nosso cotidiano na cultura do estupro, ainda posta em dúvida e negada. No entanto, cada vez que um caso com tamanha brutalidade ganha repercussão, o debate retorna aos mesmos pontos, a culpabilização da vítima, a suposição de que não tenha havido estupro e a espantosa subnotificação, hoje avaliada por meio de estatísticas como algo em torno de 10% dos casos. Também enquanto militante, já tive muitas discussões no interior do movimento devido ao discurso de que “denunciar não dá em nada” que penso, desestimula as mulheres a denunciarem seus estupradores e procurarem ajuda, o que pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Por mais que doa (e sempre dói) me expor publicamente e falar sobre o estupro como algo que aconteceu comigo, penso hoje que o primeiro movimento para romper a barreira da baixíssima taxa de denúncias desse crime desumanizante seja acabar com o silêncio. Não vejo outra saída senão toda e cada mulher que já passou por isso expor o seu caso. Toda vez que o assunto do estupro vem à tona, alguém traz o comentário de que “e se fosse com a sua irmã, a sua filha…”. Colocar as coisas nesses termos está errado, porque desconhece a mulher como um ser humano que merece empatia por si só. No entanto, esse é o único modo de sensibilizar algumas pessoas para o fato de que aconteceu com uma pessoa e pouco importa se é um dos seus entes queridos ou não. De qualquer modo o caso é que é sim, com as mulheres que estão à sua volta, sua tia, sua irmã, sua prima, só que você não sabe porque ela não contou para ninguém.

No dia do meu aniversário de 29 anos comecei a viver o que seria sem dúvida o pior ano da minha vida, passei meses vivendo no inferno, um ano em que por diversos momentos pensei que não sairia viva, naquele dia fui estuprada e agredida por um homem enquanto a mulher dele me xingava e filmava com o celular, o medo de tudo aquilo ir parar na internet, a minha mãe saber, a imagem dele me segurando pelos cabelos, todas essas imagens e outras piores ficarão escarificadas na minha memória até o fim dos meus dias, um homem. E penso, TRINTA HOMENS, trinta… E uma garota de 17 anos.

Eu já havia passado por abuso sexual na infância, mas era uma lembrança longínqua, do passado, agora eu era uma mulher feita, militante e sabia dentro de mim o que devia ser feito, denunciar. Assim que estive de volta em posse do meu celular (que ele obviamente havia me tomado) liguei para a polícia e todo o processo de denúncia começou. E é sobre isso que eu pretendo falar, sobre a denúncia, porque como sempre digo, a minha militância é sobre as minas, com as minas e para as minas. Esse texto pode e deve ser lido por toda e qualquer pessoa, mas é principalmente para quem já passou ou pode ainda passar por isso e para aquelas pessoas que ainda acham que o estupro é um crime abstrato, que acontece em uma realidade distante, com mulheres que não sabemos quem são. É com as mulheres que vocês e lidam todos os dias, vocês talvez só não saibam. Não raramente nem elas mesmas sabem que aquele dia, aquela vez, aquele cara, aquele “não” que ele fingiu que não ouviu, aquele sexo dormindo que ela pensou que era melhor deixar, aquela “tentativa”, aquilo foi um estupro. Em caso de dúvida, existem centenas de relatos em muitos blogs feministas onde as mulheres escrevem contando de suas experiências, ler sobre ajuda a não se sentir tão sozinha, porque você não é a única. Pessoalmente eu sempre indico o Blog da Lola.

Chamei a polícia pelo 190, como acredito que qualquer um teria feito. A viatura veio depois de uns minutos. Mesmo eu estando na portaria do prédio onde tudo aconteceu, os policiais me disseram que não poderiam subir pois a situação não configurava um flagrante e que eu deveria ir a pé à delegacia mais próxima. Óbvio que eles não subiriam em um prédio de classe média, em um bairro de classe média para fazer fazer uma ocorrência de estupro assim, não é mesmo? Fui a pé até a primeira delegacia que por um acaso eu sabia onde ficava, lá não havia um delegado de plantão, pois era um domingo de manhã, me indicaram onde era a delegacia com delegado plantonista e me disseram que fosse sozinha. Infelizmente as delegacias da mulher não funcionam aos finais de semana. Pois bem, no meio do caminho consegui uma carona em uma viatura, caridade, informal, me deixou na esquina da DP, não poderia me deixar na porta porque não era uma ocorrência dele, foi assim, uma cortesia para me ajudar. Desde o primeiro instante, o trâmite é feito de maneira que a vítima desista, desista por todos os motivos, por que está cansada, porque quer ir para casa esquecer o que aconteceu, porque sente medo de “o que será que vai acontecer agora”, porque não sabe, dependendo de onde o crime aconteceu, ir até a delegacia sozinha, porque não conhece a região ou porque está confusa ou porque precisa de apoio. Mas não desista, não vá para casa. 

Uma das coisas que me deram mais força para seguir adiante foi o fato de que se daquela vez havia sido comigo, sabe deus com quantas outras mulheres ele já tinha feito aquilo e com quantas outras ainda faria, não era só sobre mim, é sobre todas as mulheres que cruzarem o caminho dele também. Na delegacia prestei o meu depoimento no saguão, sem sala privativa, sem um copo de água, em pé, falando em voz alta por quais orifícios do meu corpo tinha sido invadida e se havia bebido ou não, se trabalhava ou não, em que era formada, o que eu tinha ido fazer ali, o de sempre, enquanto pessoas entravam e saiam, passando por mim e ouvindo detalhes sórdidos de algo que eu mesma ainda estava tentando entender, enquanto reconstituía os detalhes que o escrivão digitava. É horrível. Sim, é horrível. O tratamento dado está errado? Completamente errado, o tratamento adequado é que seja dado à vítima privacidade, respeito, confiança.

Ainda assim, quanto mais eu via que todo o processo estava sendo feito completamente errado mais forças eu tirava para levar adiante aquela denúncia. Discuti com o policial, perguntei se beber era ilegal, se não estar trabalhando era ilegal, ou se isso desqualificava a minha denúncia, ele bufou e retomou o seu trabalho. Mesmo que ele repetisse para mim mais de uma vez “Tem certeza que você vai fazer isso? Essa é uma denúncia muito séria…”. Prossegui, uma assistente social veio me levar ao hospital, para fazer o corpo de delito e tomar a medicação. Sim, a sensação é de que está todo mundo olhando para você, provavelmente algumas daquelas pessoas até ouviram mesmo parte do que você falou. Se você passar por isso, prossiga, não se importe com os olhares, você está fazendo a coisa certa. Ele fez a errada. Estatísticas apontam que, com muita frequência, os estupros são cometidos por pessoas do convívio da vítima, o que obviamente torna todo o processo da denúncia ainda mais complicado e inseguro. Da minha parte, cabe a nós militantes tornar o ambiente seguro para que as vítimas possam denunciar.

No hospital a vítima, no caso eu, é encaminhada para o exame de corpo de delito. Atenção: você não é legalmente obrigada a fazer o exame de corpo de delito em nenhuma hipótese. No meu caso, achei por bem fazer porque senti que precisava de todas as provas que eu conseguisse de que aquilo realmente havia acontecido, de que eu não era uma bêbada maluca que inventou uma história absurda para manchar a imagem de um homem de respeito e de sua esposa. Foi deprimente sim, foi doloroso inclusive, e muito, mas muito constrangedor. São tiradas fotografias e é coletado material da região genital. Acho importante, o estupro é um crime dificílimo de ser comprovado, é a sua palavra contra a palavra do agressor. Resista, erga a cabeça, e tenha certeza de que, de todas as dores que você já passou, as que envolvem a denúncia e o tratamento preventivo são as únicas necessárias.

No calvário das dores ainda haverá injeções de antibióticos, pílula do dia seguinte e medicação preventiva para HIV. Esse é o momento em que a você vai se proteger de consequências ainda piores, cuidar de você. Tome. Os dias seguintes dessa medicação serão horríveis, mas você vai ser assistida com todos os remédios que precisar para passar por isso da melhor forma possível. Em São Paulo o hospital que cuida dessa parte é o hospital Pérola Byington, que é um hospital especializado em saúde da mulher e esse tipo de violência. O atendimento existe e funciona, custeado pelo SUS, há ginecologistas que farão uma bateria de exames, todos, assistentes sociais que ouvirão o seu caso e psicólogos que poderão atendê-la caso você ache necessário.

Não é preciso fazer o boletim de ocorrência para ser atendida no hospital, as assistentes sociais estão orientadas a oferecer tratamento e acompanhamento mesmo nos casos em que não há BO. Há profissionais preparadas para atender as vítimas de violência sexual. Tanto pelos médicos, quanto pelas assistentes sociais e psicólogos, em todo momento fui tratada com respeito, paciência e discrição. O atendimento é rápido, o agendamento de consultas relativamente ao tempo geral que se leva para atendimento no SUS é rápido também.

Além do acompanhamento psicológico que fiz no AVS, o núcleo de atenção à mulher em situação de violência sexual do Pérola também fiz acompanhamento psiquiátrico no Programa para vítimas de violência do departamento de psiquiatria da Unifesp.

Tenho duas amigas que após terem sido estupradas tentaram suicídio e ficaram internadas por meses em hospitais psiquiátricos, estupro é coisa séria, não tenha medo de pedir ajuda, caso ache que precisa, você passou por uma situação horrível e que pode ter consequências devastadoras, não deixe que uma monstruosidade acabe com a sua vida ou com a sua sanidade. Você pode e você terá a sua vida de volta. Esses dois programas eu mesma usei e posso garantir que funcionam, com suas dificuldades, mas funcionam. Se você foi vítima de violência, os procure. Não acredite em quem disser que a denúncia não vai dar em nada, que não existe atendimento para a vítima de violência sexual, que a única coisa que você vai conseguir é ser julgada e condenada por todo mundo. vai ser difícil, vai ser horrível, mas tem muita gente que está disposta a ajudar. Não se esconda, não deixe que a violência prossiga ou acabe com a sua vida.

Há muitos coletivos feministas que podem amparar e orientar você nesse momento. Pessoas a quem você poderá contar e que irão ampará-la. Conte a quem ache que deve contar e não conte para quem possa humilhá-la ou tentar fazê-la desistir de ir a diante com a queixa. também sofri pressão para retirar a queixa e não retirei. Repeti para mim mesma que, independentemente do quanto fosse doloroso ou complicado eu não deixaria que ele seguisse pensando que o que ele fez foi certo.

Pessoalmente acho que perdemos tempo demais convencendo homens de que o estupro existe e pessoas de que é errado (Convenhamos, se tem uma coisa que os conservadores sabem fazer é se apropriar do discurso de combate ao estupro quando lhes convém falar em redução da maioridade penal, castração química ou a liberação do porte de armas) e a maior parte do tempo esquecemos que há vítimas que precisam de ajuda, mulheres que não têm a menor ideia de por onde começar. Perdemos um tempo crucial repetindo que denunciar estupros não dá em nada, perdemos tempo compartilhando vídeos de violência sexual, até ingenuamente em vez de simplesmente denunciar o conteúdo e acolher a vítima.

Da minha parte já se passaram dois anos, o processo segue em segredo de justiça, mas o Ministério Público avaliou que há indícios e materialidade de provas, acolheu a denúncia.

Minha vida seguiu.

Por fim, seguem links de denúncia para conteúdo criminoso na internet, não compartilhem, denunciem e só.

Link 1

Link 2

Link 3

Para todos os outros mimimis compartilho a sequência de links que recebi no Facebook, reflitam:

“Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!”
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores

“Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília

“Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!”
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte

“Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!”
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho

“Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria!”
“Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia”

“Se ela fosse mais família isso não aconteceria!”
Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR

“Se ela fosse menos ‘puta’ isso não aconteceria!”
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada

“Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo

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Preconceitos e ódio: os pilares da direita brasileira

por Célia Regina da Silva e Rogério Beier

Recentemente, como parte de uma “experiência antropológica”, entrei em um grupo de discussão política em uma rede social. O grupo diz preconizar a discussão de ideias, não de pessoas, entretanto, quando se começa a participar das discussões o que se vê é justamente o contrário.

Bastou fazer alguns comentários e como primeiras respostas logo vieram simpatizantes do deputado Jair Messias Bolsonaro insultando-me de gordo, reparando na minha camiseta comunista, chamando-me de merda, escroto, comedor de hamburguer do McDonnalds, dentre outros qualificativos, como se pode ver abaixo:

Leonardo Hatake e Kaio_001

Rui de Salles Oliveira_001

Samuel Gomes_001

Johann_004

Rafael Neves_001

Este último comentário veio em resposta a uma imagem que faz comparativo entre as ideias do historiador Eric Hobsbawm e o economista Ludwig von Mises.

Não satisfeitos em responderem o post que eu havia compartilhado no grupo criticando minha aparência, partiram para ataques homofóbicos, como se percebe no comentário deste militante do Bosonaro para quem eu sou socialista por ele achar que eu gosto de sexo anal:

Vinicius Ramos_004

Claro que depois das primeiras ofensas, passei a responder àqueles que me atacavam. Não baixei tanto o nível, como alguns que ofenderam minha mãe, sugerindo que ela estivesse fazendo sexo oral com eles, mas tentava fazê-los ver o quanto são imbecis.

Entretanto, o pior ainda estava por vir. Célia Regina da Silva, outra participante do grupo começou a fazer posts provocativos que defendiam ideais da esquerda. Desde o primeiro post ela foi insultada e humilhada diversas vezes. Vou postar aqui apenas os comentários raivosos de um dos posts mais comentados que ela fez, só para que vocês tenham ideia da quantidade de preconceitos (de todos os tipos) e ódio que circula nas redes sociais.

O “post bomba” foi este:

Celia_Che

Logo de princípio, gratuitamente, ela teve respostas como estas:

Ana Paula Santos_001

Ana Paula Santos_002

Alexandre Limberger_001

Alexandre Limberger_002

Para um dos integrantes do grupo, esquerdistas como a Célia, além de serem pobres de espírito e de caráter, não são seres humanos de verdade, como se vê no comentário abaixo:

Cris Orlando_001

Já para outro membro, que foi atrás do perfil de Célia e viu que ela é professora, a desonestidade faz parte do caráter dela. Para chegar a esta conclusão, bastou o post e umas respostas que ela deu àqueles que a atacavam.

Johann_001

Outro membro do grupo, após observar alguns erros cometidos por Célia durante a digitação de suas respostas, não a poupou de críticas, taxando-a de analfabeta funcional:

Mauro Neto_001

Já outro integrante, um dos principais agressores de Célia, aponta que os posts dela se devem a pagamentos que ela supostamente estaria recebendo do PT ou do governo, não poupando-a de comentários depreciativos, inclusive utilizando-se de calão, como se pode ver abaixo:

Mauro Halpern_001

Mauro Halpern_002

Mauro Halpern_003

Mauro Halpern_004

Outro agressor contumaz de Célia, um senhor mais idoso, mesmo sem conhecê-la ou sequer haver conversado com ela, diz ter segurança de que Célia era má professora, analfabeta política, idiota útil, imbecil e canalha.

Nicolau Piragino_002

Nicolau Piragino_005

Nicolau Piragino_001

Nicolau Piragino_003

Este último comentário, pasmem, ele fez após Célia ter chamado atenção para o fato de a Revolução Francesa ser uma Revolução Burguesa.

Por seu lado, o militante do Bolsonaro para quem eu sou socialista porque supostamente gosto de sexo anal, não deixou por menos. Quando contestado no grupo por outros participantes, também partiu para a agressão pessoal:

Vinicius Ramos_003

Vinicius Ramos_002

Vinicius Ramos_001

No entanto, muito surpreendeu uma integrante feminina do grupo, estudante de medicina e de quem se esperava um pouco mais de sororidade para com Célia. Ao contrário disso, manteve a sequência de ofensas chamando-a de Doente e Louca em razão do post que ela havia compartilhado, além de algumas respostas que Célia havia dado a seus detratores. Detalhe: ela agiu de modo covarde, destilando seu veneno apenas após ter recebido notícia de seus colegas assegurando que Célia havia deixado o grupo.

Teresa Raposo_001

Teresa Raposo_002

Todavia, alertada por mim, Célia retornou ao grupo e chamou a atenção da dita estudante de medicina por ter feito os comentários naquela condição. Não satisfeita com as agressões iniciais, a estudante volta ao ataque e responde Célia chamando-a de louca.

Teresa Raposo_003

Não bastasse ataques como estes, alguns integrantes do grupo passaram a utilizar fotos de Célia para ofender sua aparência, sem economizar nos palavrões e nos insultos até mesmo à já falecida mãe de Célia, como se pode ver abaixo:

Rodolfo Mello_001

Rodolfo Mello_002

Kaio Klement_001

Mauro Halpern_005

Teve até um oficial da Polícia Militar que fez os seguintes comentários:

Capitão Craveiro_001

Capitão Craveiro_002

Capitão Craveiro_003

Capitão Craveiro_004 (Vaca Profana)

Não satisfeitos, esses mesmos indivíduos que a atacaram, insultaram e humilharam uma pessoa em quase 300 comentários, tentaram covardemente reverter a situação buscando fazer de Célia, vítima dos ataques, a culpada de todas as agressões que sofreu. Vejam, por exemplo, os comentários abaixo:

Johann_002

Johann_003

Johann_006

A estudante de medicina não parou com os insultos e manteve sua sanha ofensiva, chegando a mandar Célia se foder.

Teresa Raposo_004

Teresa Raposo_005

E os homens que vieram após os insultos proferidos pela dita estudante, sentiram-se à vontade para recomendar que Célia resolvesse “seu problema” arranjando um namorado.

Johann_007

Mauro Halpern_006

Eis aqui, caros companheiros, um flagrante preocupante de inúmeros preconceitos e do ódio que encontramos em algumas pessoas que alegam defender os ideais conservadores e de direita. Em seus perfis, muitos ostentam orgulhosamente bandeiras do Brasil, além, é claro, de imagens de Jair Bolsonaro, textos de Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, dentre outros “ícones” responsáveis por formar a opinião de indivíduos como estes que acabam de ser descritos aqui.


ATUALIZAÇÃO

Após termos comunicado aos membros do grupo a publicação deste post com o registro de seus ataques, muitos deles ficaram ainda mais raivosos e continuaram insultando, sobretudo, a Célia. Abaixo seguem os registros dos novos xingamentos:

Fizeram uns poucos ataques a mim, como se vê abaixo:

Eugenio D_001_Ofensas

Vinicius Ramos_Ofensas Pesadas_003

Mas a maioria dos insultos foram novamente dirigidos à Célia.

Alexandre Limberger_003_Ofensas

Teresa Raposo_Ofensas_001

Luiz Alberto Fiori_001

Para esse membro do grupo, além de esquizofrênica, Célia é vitimista por ter exposto os ataques que sofreu no grupo.

Andre Almeida Exposed_001

Houve quem se revoltasse com o post e buscou nas discussões respostas de Célia que pudessem justificar a fúria com que eles a haviam atacado. Esquecem-se que durante quatro dias Célia vinha sofrendo agressões em diferentes posts e tudo o que ela fez havia sido revidar os ataques desferidos contra ela.

Teresa Raposo e Claudia Exposed_001

De qualquer modo, não satisfeitos com os ataques iniciais, continuaram agredindo Célia com ofensas como porca, gorda e outros nomes, como se vê abaixo.

Rafael Neves_003_Ofensas

Rafael Neves_002_Ofensas

Vinicius Ramos_Ofensas Pesadas_002

Mauro Halpern_Ofensa_001

Mauro Halpern_Ofensa_002

Mauro Halpern_Ofensa_003

Depois de toda essa agressão, houve um membro do grupo que até quis fazer uma análise psicológica de Célia, tentando compreender a razão de ela haver respondido os ataques que sofreu.

Mauro Neto_002_Ofensas

Como desfecho final, houve um membro do grupo que, no meio de tanto ódio desferido contra Célia, aproveitou para fazer postagens anti-semitas. O nome desse eu não borrei, pois entendo que deve ser identificado e denunciado, ainda que acredite que o perfil seja falso.

Arthur Alves_Antisemitismo 002

Arthur Alves_Antisemitismo 001

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[PORTAL FÓRUM] Desconstruindo o discurso de Fernando Holiday

Estava por redigir um texto refutando a fraca argumentação apresentada por Fernando Holiday nos vídeos que viralizaram na Internet, mas encontrei este texto de Anna Beatriz Anjos publicado no Portal Fórum, que reproduzo aqui .

Segue a repercussão do texto publicado originalmente no Portal Fórum em 27.mar.2015.

DESCONSTRUINDO O DISCURSO DE FERNANDO HOLIDAY
por Anna Beatriz Anjos

Eliane Oliveira e Silvio de Almeida, estudiosos da questão negra no Brasil, confrontam as declarações dadas pelo estudante em vídeos que repercutiram nas redes.

Os vídeos de Fernando Holiday, integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), espalharam-se pelas redes na última semana. Nas gravações, ele faz críticas intensas a diversas pautas do movimento negro no Brasil, sobretudo, às cotas raciais.

As falas do rapaz, muitas vezes agressivas, geraram polêmica. Enquanto negras e negros tentavam desconstrui-las, inúmeras pessoas brancas as utilizaram para justificar o combate a medidas que tenham como objetivo a igualdade racial.

Ninguém conhece o racismo e as lutas dos negros brasileiros como eles próprios. São, consequentemente, os únicos que podem ser protagonistas na discussão dessas questões. Por isso, Fórum entrevistou dois negros estudiosos do tema, que avaliaram o discurso de Fernando em um de seus vídeos mais assistidos (veja abaixo).

“O rapaz reproduz um discurso racista porque, no fim das contas, ele é uma vítima do racismo. Sua própria visibilidade é o resultado de uma sociedade racista e que só dá espaço para jovens negros que estejam dispostos a ratificar o pensamento dominante e se comportar de acordo com certas expectativas”, explica o advogado Silvio de Almeida, professor das universidades Presbiteriana Mackenzie e São Judas Tadeu e presidente do Instituto Luiz Gama.

Para Eliane Oliveira, mestre em Ciências Sociais e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros (NEIAB) da Universidade Estadual de Maringá (UEM), há contraponto para as opiniões de Holiday:

“Em tempos passados, provavelmente seria de fato um problema, mas os espaços acadêmicos estão cada vez mais pretos, ou seja, pessoas com esse tipo de discurso irão encontrar pela frente alguns opositores. Ele ganha visibilidade, mas nossa luta também, é no embate que mostramos nossas armas, escancaramos para a sociedade a ferida aberta que é o racismo brasileiro”.

Eliane Oliveira

Cotas 

“O governo se demonstra preconceituoso no momento que institui as cotas raciais, porque está admitindo que eu, por ter um pouco mais de melanina, preciso roubar vagas dos outros. Isso não é justo. Não preciso roubar vaga de ninguém!”, aponta Fernando Holiday no vídeo em questão. Este é um dos principais argumentos que emprega para defender que cotas seriam desnecessárias.

“É um argumento que parte de uma premissa mentirosa, pois só se ‘rouba’ de alguém que é proprietário. Ninguém é dono de uma vaga em universidade pública porque é branco ou  ‘bem nascido’”, diz Silvio de Almeida. “É uma falácia que desconsidera o fato de que, quando nos referimos às vagas em universidades, estamos falando de algo que é público, mas que historicamente tem sido apropriado por critérios raciais e de renda. Isso é antirrepublicano, e o mais engraçado é que no fundo também é um discurso antiliberal, porque defende a perpetuação de privilégios.”

“As cotas são políticas públicas que visam a justamente romper os privilégios raciais que nitidamente pautam o acesso ao ensino superior e a todas as instâncias de poder. Portanto, o que foi dito nem chega a ser um argumento; não passa de uma bobagem”, adiciona.

Na mesma linha argumenta Eliane Oliveira. “Não é tirar vaga de ninguém, é dar aos sujeitos que ficaram por anos fora desse espaço a possibilidade de acesso. Democratizar o ensino superior é buscar a equidade entre os sujeitos”, explica.

Como muitos críticos da política de cotas, Holiday questiona seu viés racial, defendendo que ela deveria adotar, na verdade, um critério que levasse em conta as classes sociais. “Por que negro pobre precisa de mais benefício do que branco pobre? Ah, entendi. O governo está falando que o preto é mais burro do que o branco”, declara no vídeo. Por que essa afirmação é equivocada?

“Não precisa ser nenhum pesquisador para perceber essa necessidade [de que cotas tenham viés racial], basta fazer o teste e olhar para os lados. Um país onde pouco mais da metade da população se autodeclara negra, mas vemos os negros, em maior número, em funções socialmente degradadas exige essa reparação histórico-social”, pontua Oliveira. “Nossa sociedade é profundamente racista, o mito da democracia racial só existe nos textos acadêmicos. Quando eu entrar numa sala de aulas e metade dos estudantes for negra, aí vou considerar que as cotas[raciais] não são necessárias.”

Meritocracia

Ainda em relação às cotas raciais, Holiday apela à questão da meritocracia para deslegitimá-las. “O negro não precisa roubar vaga de ninguém, a gente consegue entrar por mérito”, considera.

“Meritocracia é um discurso que visa justificar privilégios raciais e de classe. Não há ‘mérito’ possível num contexto de profunda desigualdade. A meritocracia nada mais é do que um discurso racista para colocar negros e negras como responsáveis pelas injustiças que sofrem”, assinala Silvio de Almeida.

“O que é espantoso nesse discurso é que ele retira qualquer perspectiva histórica dos problemas. Há algumas décadas um jovem negro, por mais brilhante que fosse, jamais poderia estudar numa universidade simplesmente pelo fato de ser negro, independente do mérito que pudesse ter. Foi a luta do movimento negro que abriu espaço para que os negros pudessem estudar. Se há ‘mérito’ a ser avaliado é porque antes houve luta de milhares de negros e negras que ficaram pelo caminho”, relembra o advogado.

Na avaliação de Oliveira, “uma concepção que fomenta a competição entre desiguais irá beneficiar aquele sujeito cujo capital cultural e financeiro está em superioridade em relação a muitos outros que não tiveram as mesmas oportunidades na vida. Não é medindo o esforço individual, numa sociedade desigual, que devemos avaliar o acesso ao ensino superior”.

O advogado Silvio de Almeida (Reprodução/Youtube)

Zumbi dos Pamares x Adolf Hitler

Uma das declarações que mais chocou no discurso de Fernando Holiday é a analogia entre Zumbi dos Palmares, um dos maiores símbolos da resistência negra no Brasil, e Adolf Hitler, o ditador alemão que exterminou cerca de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. “Um dia da Consciência Negra para homenagear Zumbi é a mesma coisa que criar um dia da ‘Consciência Branca’ para homenagear Hitler”, diz.

“Zumbi e Hitler no mesmo patamar é algo que não consigo conceber na fala de qualquer pessoa, independente da cor da pele. Contextos históricos e políticos distintos. Um negro não considerar Zumbi um mártir, tudo bem, mas daí a colocá-lo no mesmo pé de igualdade com as atrocidades cometidas por Hitler, não sei se considero falta de conhecimento, ingenuidade ou má fé”, aponta Oliveira. “Existem grandes historiadores que relatam a atuação de Zumbi, um pouco de interesse leva a boas leituras.”

Já para Almeida, a afirmação do estudante tem intenção evidente. “Fica claro que o único objetivo da comparação é ofender negros e negras atacando o símbolo máximo da resistência contra o sistema escravista, que é Zumbi dos Palmares”, destaca. “Não passa, portanto, de uma formulação grosseira, mal educada e pouco inteligente, diga-se.”

Machismo

No vídeo, Holiday vai além do debate sobre racismo, cotas e o papel do negro na sociedade, do qual é protagonista. Quis tratar também sobre mulheres, desrespeitando os limites de seu lugar de fala. O resultado foi uma série de colocações misóginas e ofensivas. “Se é assim, então vamos fazer cotas para ‘gostosa’, porque existe na sociedade o preconceito de que toda ‘gostosa’ é burra. Então vamos fazer cotas para ‘gostosa’, porque tem muito lugar aí que está faltando. A FFLCH[Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP] que o diga: se fosse assim, não seria aquele zoológico, aquele pulgueiro.”

Eliane Oliveira, também feminista, vai no ponto ao analisar o discurso machista do rapaz. “Se a pessoa não problematiza o racismo, sendo o negro, não irá dimensionar a problemática do machismo. Problematizar racismo e machismo é mais que ponderar privilégios, é colocar em prática a alteridade. Colocar-se no lugar do outro só é possível quando você conhece a si mesmo. Neste caso, diante do discurso apresentado, acredito não ser possível tal exercício”, assinala.

Fórum entrou em contato com Fernando Holiday, mas não obteve resposta.

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Maria do Rosário afirma ter sido agredida como mulher, como parlamentar e como mãe, após ofensas de Jair Bolsonaro no plenário da Câmara

Deputada Maria do Rosário (PT-RS) informa que irá processar criminalmente o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que disse ontem em discurso na Câmara que só não a estupraria porque ela “não merece”; “Chego em casa e tenho que explicar isso para a minha filha”, disse a petista; “Vou processá-lo criminalmente”.

Publicado originalmente no portal Brasil 247

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), agredida verbalmente pelo deputado Jair Bolsonaro ontem na Câmara, afirmou que pretende processá-lo criminalmente por sua declaração.

Bolsonaro subiu à tribuna logo após um discurso da petista sobre direitos humanos. Ela então deixou o plenário.

“Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir”, disse, aos gritos, o parlamentar.

“Fui agredida como mulher, como parlamentar, como mãe. Chego em casa e tenho que explicar isso para a minha filha”, declarou a ex-ministra dos Direitos Humanos, em entrevista à Rádio Gaúcha. “Vou processá-lo criminalmente”, anunciou.

Em seguida, ela se emocionou e disse não estar em condições de continuar a entrevista. “Não quero meu nome na voz de alguém que tem uma atitude como esta. Vocês me desculpem, fiquei bastante emocionada. Vou seguir meu trabalho. Não tenho mais condições de seguir a entrevista. Sugiro que as mulheres que tenham força e dignidade para seguir esta luta”, concluiu

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Aborto de homem

por Liana Machado especialmente para o Hum Historiador

Milhares de homens fazem aborto diariamente nesse nosso planetinha azul. Todos os dias esses homens escolhem entre o dever de ser pai e assumir uma responsabilidade enorme ou viver a sua vida, investindo na sua carreira, na sua vida pessoal ou no simples no direito de ir e vir quando der vontade.

Porém, os homens que fazem aborto têm a sorte de não ter de carregar em seu corpo aquela celulazinha incomoda que não para de se multiplicar. Um homem quando faz aborto não precisa passar por um procedimento cirúrgico de alto risco, nem mesmo desembolsar um tostão.  Ao homem que faz aborto basta pegar um ônibus, um taxi, quem sabe um avião para a Europa. Dar um tempo por aí até que as coisas se acalmem. E se quando ele voltar o aborto não tiver sido realizado de fato, isso não é problema do homem que faz aborto, porque afinal, ele fez.

O homem que faz aborto não terá (ele acha) sangue em suas mãos, porque aquela celulazinha não se aloja em seu corpo. Ao homem que faz aborto todas as condolências. Sua mãe lhe passará a mão na cabeça e lhe reconfortará dizendo que ele não estava preparado. Que talvez isso tenha sido um plano daquela golpista descuidada. Afinal toda mulher sabe que homens fazem aborto num piscar de olhos. Seus amigos lhe entenderão e dirão que isso acontece com muitos homens e que eles igualmente fizeram abortos. Uma nova namorada se colocará inquestionavelmente a seu favor.

As igrejas, sejam elas quais forem, não têm uma palavra a dizer ao homem que faz aborto. Porque quando um homem faz aborto, ele não impede a vida. Aliás, nem a do feto, nem a dele. Então, por que recriminá-lo? Nunca, jamais, ouvi um padre, um pastor, um político atacando o homem que faz aborto. Ninguém o chama de facínora, assassino de bebês ou insensível cruel.

Ahhh, mas o homem que faz aborto não se abstém de condenar a mulher que faz aborto. “Feche as pernas, tome pílulas, use camisinha. Qualquer coisa, mas engravidou tem que parir.” Mas o homem que faz aborto, assim como todos aqueles prontos para atirar pedras, simplesmente esquece que assim como uma vagina se deixou penetrar sem camisinha, um pênis adentrou uma vagina sem camisinha. Aliás, anticoncepcional masculino??? Faz é rir, para que isso se o aborto é tão mais rápido?

Ao homem que faz aborto uma viagem, uma promoção, uma nota A, um novo romance (porque mulher sempre perdoa os abortos de seus homens), uma música, um poema, um sorriso, um copo de whisky, uma tarde com os amigos, uma praia, um beijo, um carinho, uma festinha.  À mulher que faz aborto, cadeia.

Também o homem que faz aborto não morre. Sim, até hoje nenhum homem que fez aborto morreu. Bem, talvez um ou outro pai zeloso tenha matado algum homem que fez aborto, mas hoje em dia? Não! Com a modernidade de nossos tempos nenhum, absolutamente nenhum, homem morre quando faz aborto.

Não é vergonha nenhuma um homem fazer aborto. Não há recriminações, comentários maldosos, julgamentos morais. Nada. Aliás, nem mesmo os homens que fazem aborto de filhos nascidos são chamados a responder perante a sociedade. E não estou falando só de dinheiro. Afinal numa eventual separação o homem que faz aborto precisa seguir adiante. Infelizmente não há lugar na sua vida para essa criaturazinha, que lhe faz lembrar aquela mulher de quem ele (e sua nova mulher) não gosta.

Sim, é preciso muito, muito pouco para que um homem faça um aborto. Talvez ele possa ser um daqueles que ao menos acompanham a mulher que faz aborto. De longe. Talvez sentado em um banco de rodoviária, lendo um gibi enquanto espera. E se a coisa demora mais do que ele quer,  uma insensível mensagem com um “eae filha” apressa o fato. Mas e se ela morre? Ele vai à delegacia, presta depoimento, e volta para o aconchego do seu lar. Sem nenhum arranhão. Ele sai ileso, enquanto ela morre e deixa seus filhos, sua família, seus sonhos destruídos.

Porque homem que faz aborto, pode. Mulher não.


Liana Machado é historiadora e está concluindo seu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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A descriminalização do aborto é uma necessidade premente da sociedade brasileira

Jandira Magdalena dos Santos Cruz, 27 anos, morta após tentativa de realizar aborto em clínica clandestina, teve o corpo carbonizado.

Os recentes casos de morte de Jandira Magdalena dos Santos Cruz (27) e Elizângela Barbosa (32), além da notícia, nesta semana, da quadrilha presa no Rio de Janeiro, por suspeita de praticar abortos clandestinos desde 1972, me faz voltar ao blog com o tema da descriminalização do aborto no Brasil.

É incompreensível que, em pleno século XXI, o aborto continue sendo tratado como uma questão de segurança pública e não de saúde pública. Não há como compreender que nossa sociedade deixe como opção à mulheres que desejam interromper sua gravidez, como eram os casos de Jandira e Elizângela, a clandestinidade e, com ela, o risco de morte ou a exploração econômica.

Por nossa negligência e falta de senso de urgência em exigir mudanças em nossas leis, recai anualmente sobre nossos ombros a culpa pelas mortes de milhares de mulheres, vitimadas por abortos mal sucedidos – realizadas em casa ou em clínicas clandestinas por todo o Brasil – e por esta legislação medieval, que em vez de oferecer apoio a quem se encontra fragilizada e clamando por ajuda, faz justamente o contrário, criminaliza, apontando apenas o caminho da cadeia para quem insistir em interromper uma gravidez.

A vida é sim um valor muito importante e que deve ser preservado. No entanto, não se trata de um valor absoluto e, quando em choque com outros valores, pode ser discutido por toda a sociedade e não ser priorizado em certas condições. A pena de morte e a eutanásia, por exemplo, são alguns casos em que a vida deixou de ter prioridade máxima em relação a outros valores cultivados por uma sociedade.

Além disso, ainda cabe a discussão se um feto de uma, três, doze ou vinte semanas pode ser considerado vida ou não. Não há um consenso sobre esse tema entre os cientistas e, tampouco, entre as diversas religiões. Há os que defendem que a vida surge na concepção, isto é, quando o espematozóide fecunda o óvulo; há outros que defendem que só há vida quando o sistema nervoso central está completamente desenvolvido, por volta da vigésima semana; há ainda os que defendem que a vida só estará configurada quando os pulmões estão desenvolvidos e, portanto, na vigésima quarta semana de gestação. No entanto, o respeito à vida não parece ser o principal critério para que a justiça considere o aborto um crime. Se assim o fosse, não figuraria entre as exceções à regra, a permissão legal do aborto em casos de violência sexual (estupro). Se a vida do feto fosse realmente um valor absoluto para a justiça, esta proibiria o aborto mesmo em caso de estupro, o que não é o caso, já que neste caso o aborto foi permitido, ao que parece, no intuito de impedir que um eventual filho bastardo pudesse herdar o patrimônio familiar do marido de uma mulher casada que teve a infelicidade de ser estuprada.

Deixando um pouco de lado a questão da vida como valor absoluto e passando para a questão da liberdade, veremos que a criminalização do aborto está diretamente ligada ao interesse masculino de manter o controle sobre o corpo feminino. Ora, desde tempos imemoriáveis homens querem controlar a liberdade sexual das mulheres, ou melhor, querem impedir que as mulheres, assim como eles, façam sexo livremente. Ocorre, como todos sabem, que as mulheres engravidam e os homens não. Justamente por esta razão, sociedades patriarcais transformaram a gravidez em um excelente instrumento de controle sobre a sexualidade das mulheres. Sem o risco de engravidar, os homens fazem sexo livremente. As mulheres, ao contrário, no caso de engravidarem, são obrigadas por lei a levarem sua gravidez até o fim, mesmo que não queiram. Assim, é evidente que não gozam da mesma liberdade sexual do homem. Não por acaso, é frequente ouvir daqueles que atacam a descriminalização do aborto argumentos como: “se legalizar o aborto, as mulheres não vão sair dos hospitais. Vão transar descontroladamente, engravidarem e abortarem a todo momento “. Ignoram que em países onde o aborto foi descriminalizado, como o Uruguai, os números de interrupções de gravidez vem diminuindo e, mais importante, mulheres não estão morrendo quando optam por interromper sua gravidez.

Marcelo/UnB Agência

No Brasil, como se sabe, embora o aborto seja criminalizado, trata-se de uma prática amplamente realizada por mulheres que não podem ou não querem levar adiante uma gravidez. Segundo números da Pesquisa Nacional sobre o Aborto (PNA), realizada por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), revelou que pelo menos uma a cada cinco mulheres até os quarenta anos de idade fizeram pelo menos um aborto. 88% delas tem religião, 81% tem filhos e 64% são casadas. Portanto, nem a criminalização, nem a religião, pelo que demonstram os dados da pesquisa, são eficazes na tentativa de impedir que as mulheres parem de abortar. Enquanto isso, milhares de mulheres seguem morrendo anualmente na tentativa de praticarem aborto clandestinamente. Pior, as mais vulneráveis são as mulheres pobres que não possuem recursos para buscarem profissionais e locais mais apropriados para as auxiliarem em seu desespero. Por conta disso, recorrem às agulhas de tricô, às sessões de espancamento, às beberagens abortivas e comprimidos como o famigerado Cytotec. Segundo a PNA, 54% das mulheres entrevistadas tinham renda inferior a dois salários mínimos.

Como costumo dizer quando discuto sobre o assunto, se uma mulher chega ao ponto em ter que optar pela traumática decisão de interromper uma gravidez indesejada, é sinal que nós, enquanto sociedade, falhamos miseravelmente em instruí-la, bem como a seu parceiro, em métodos para evitar uma gravidez. Mais que isso, após uma relação na qual ela suspeitasse a possibilidade de engravidar, falhamos em garantir a informação ou o acesso à pílula do dia seguinte e, por último, depois de tantas falhas, erramos uma vez mais ao negar-lhe o direito de interromper uma gravidez indesejada.  Devemos reconhecer que vivemos em uma sociedade machista, conservadora e hipócrita no que tange a educação sexual de suas crianças e adolescentes. Vide o caso da vacinação do HPV.

Ora, descriminalizar o aborto não significa obrigar mulheres que sejam contrárias a tal prática a abortarem. Essas mulheres, caso engravidem, poderão levar sua gravidez adiante sem o menor problema. No entanto, para quem é favorável, descriminalizar o aborto significa garantir que todas as mulheres que desejam interromper sua gravidez recebam apoio do Estado e possam gozar de acompanhamento social, psicológico e médico para que, caso a decisão seja mantida, a interrupção possa se realizar dentro de um hospital público e sem risco de morte para as mulheres.

Até quando vamos negligenciar as milhares de mulheres que morrem tentando realizar abortos em clínicas clandestinas? Até quando vamos deixar que quadrilhas organizadas para explorarem o desespero de mulheres, ganhem milhões e milhões de reais com a prática de abortos clandestinos e, em caso de morte de suas clientes, com a ocultação de cadáveres tal como ocorreu no caso de Jandira Magdalena, encontrada carbonizada? As mulheres devem gozar de total liberdade sexual, tal como os homens e, caso tenham uma gravidez indesejada, deve-se garantir o direito às mulheres de interromperem sua gravidez. As que não quiserem, não interrompem, mas as que quiserem, terão apoio de nosso Estado laico. Não tenho dúvidas que se homens engravidassem, isso sequer seria colocado em discussão.

É simplesmente inaceitável que em um Estado laico, como o Brasil, um grupo com determinadas crenças religiosas estabeleçam leis que determine o que outras pessoas, que não seguem suas determinações, devem fazer (ou não) com seu próprio corpo. A descriminalização do aborto é uma necessidade premente da sociedade brasileira que deveria estar na pauta de todos os políticos que disputaram essas eleições, quer para o legislativo, quer para o executivo. No entanto, poucos deles tiveram a coragem de assumir essa pauta em suas campanhas [e aqui parabenizo Luciana Genro por sua coragem]. No entanto, a grande tragédia para as mulheres brasileiras e para toda nossa sociedade, é que boa parte dos políticos que abordaram o tema da descriminalização do aborto e venceram as eleições para ocuparem os assentos de deputados e senadores nessas eleições, não se comprometeram com ela, ao contrário, se aliaram aos grupos religiosos com a promessa de deixar tudo como está, condenando dezenas de milhares de mulheres à morte nos próximos anos, evitando conceder o apoio que um verdadeiro Estado laico deveria dar para que elas pudessem interromper uma gravidez indesejada. A estas mulheres, cabe apenas o pré-julgamento de uma sociedade hipócrita e a eterna ameaça de serem enviadas às masmorras brasileiras caso insistam nessa insanidade de liberdade sexual.

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Estupro coletivo como punição a uma jovem indiana

E novamente a Índia causa repulsa internacional por crimes praticados pela própria estrutura administrativa de uma região, contra suas mulheres.

Distrito de Subalpur, leste da Índia

Segundo notícia veiculada pela Agência Brasil, uma jovem indiana de vinte anos de idade foi punida por um conselho comunitário em localidade no leste da Índia a ser estuprada por doze, isso mesmo, doze homens. O “crime” cometido que levou a tal infração foi uma relação amorosa que a jovem mantinha com um rapaz de outra comunidade. Segundo a notícia, o conselho local ordenou a punição na noite dessa última terça-feira (21), após terem realizado uma reunião de emergência em Subalpur (Sambalpur em inglês).

Na segunda-feira (20), os pais da jovem alegaram que não podiam arcar com os custos da multa prevista por essa infração. A notícia ainda dá conta de que, na noite em que a punição foi decidida, tanto a jovem quanto seu parceiro foram amarrados a duas árvores em uma praça local.

Apenas mais um exemplo de sociedades cujas próprias estruturas administrativas praticam crimes contra a mulher.

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