Arquivo da tag: Marco Antônio Villa

A historietografia de Marco Antônio Villa: um negacionismo à brasileira

por Demian Melo | para o blog CONVERGÊNCIA em 07.fev.2014

Desde que publicou sua biografia do ex-presidente João Goulart,[1] Marco Antonio Villa vem defendendo a tese de que aquele presidente também pretendia “um golpe” em 1964.[2]Sendo assim os eventos de 31 de março/2 de abril daquele ano seriam uma espécie de “contra-golpe preventivo” – uma tese, aliás, que nada mais é do que o argumento dos verdadeiros golpistas. Do mesmo modo, o celebrado jornalista Elio Gaspari, em seu livro A ditadura envergonhada defende a mesma “tese”.[3] A questão é: mas o quê os dois apresentam como prova do suposto “golpismo” de Jango? Simplesmente um memorando do Embaixador Lincoln Gordon, onde este relatou à Washington os supostos intentos de Jango em “conseguir poderes ditatoriais”, além de informações retiradas de um livro comprometido com a ditadura, A história das revoluções brasileiras, de Glauco Carneiro. [4]A crítica ao trabalho de Gaspari já foi feita de forma eficiente pelo historiador Mario Maestri e o pelo jornalista Mario Augusto Jacobskind,[5] e essa nossa contribuição que segue irá se ater a Villa, que acaba de lançar outro livro.

Ditadura à brasileira é o que podemos definir como negacionismo, termo usado contra aqueles que nos anos 1980 difundiram a ideia de que o “Holocausto foi um mito”, autores classificados por Pierre Vidal-Naquet de “assassinos da memória”. A tese básica de Ditadura à brasileira apareceu há alguns anos em um artigo na Folha, que vale contextualizar.

Em 2009, quando um editorial do jornal Folha de São Paulo resolveu amenizar a ditadura brasileira através do termo “ditabranda”,[6] Villa não demorou muito para comparecer nas páginas do mesmo periódico paulistano propondo uma leitura ainda mais amenizadora sobre aquele período: a ideia de que no Brasil só houve mesmo ditadura entre o AI-5 de dezembro de 1968, e 1979. Com a “certeza da impunidade”, escreveu:

“Não é possível chamar de ditadura o período 1964-1968 (até o AI-5), com toda a movimentação político-cultural. Muito menos os anos 1979-1985, com a aprovação da Lei de Anistia e as eleições para os governos estaduais em 1982.”[7]

Em suma, se fosse possível levar a sério essas palavras do autor, as milhares de pessoas nas ruas em 1968 na passeata dos 100 mil contra a Ditadura deveriam ser praticamente taxadas de loucas; tal como seriam insanos os milhões de cidadãos que ocuparam as praças e avenidas do Brasil na campanha pelas Diretas já em 1984.

Mas voltemos a 1964 e pensemos em Gregório Bezerra, líder camponês e comunista, já idoso e arrastado pelas ruas do Recife amarrado a um jipe no dia do golpe; pensemos nos presos políticos, nas lideranças políticas banidas do país e nas denúncias de tortura já nos primeiros dias da ditadura;[8] nos Atos Institucionais e na Constituição de 1967. Poderíamos ficar aqui arrolando uma lista interminável de aspectos daquele regime, que obviamente sofreu uma radicalização a partir do AI-5.

Em breves palavras o filósofo Paulo Arantes sintetizou o espírito dessa operação revisionista:

“Pelas novas lentes revisionistas, a dita cuja só teria sido deflagrada para valer em dezembro de 1968, com o Ato Institucional no5 (AI-5) – retardada, ao que parece, por motivo de “efervescência” cultural tolerada – e encerrada precocemente em agosto de 1979, graças à autoabsolvição dos implicados em toda a cadeia de comando da matança. O que vem por ai? Negacionismo à brasileira? Quem sabe alguma variante local do esquema tortuoso de Ernest Nolte, que desencadeou o debate dos historiadores alemães nos anos 1980 acerca dos campos da morte.[9] Por essa via, a paranoia exterminista da ditadura ainda será reinterpretada como o efeito do pânico preventivo disparado pela marcha apavorante de um Gulag vindo em nossa direção.” [10]

Como intelectual de bolso dos talibãs do neoliberalismo, presença constante  como comentarista político – não, certamente, por algum mérito como pesquisador –, da TV Cultura à Globo News, da VEJA à blogosfera direitista, que Villa cumpra esse papel não deve espantar nenhuma pessoa bem informada. Sua Ditadura à brasileira não é um livro que precise ser lido; assim como os intragáveis Guias politicamente incorretos “disso e daquilo” não precisam de qualquer consulta atenta para se saber o tipo de literatura temos pela frente: mera manipulação ideológica.

Mais produtivo do que esquadrinhar o festival de bobagens escritos dessa vez pelo autor será observar como manipulações dessa natureza não são incomuns. Ao contrário, sempre ganham repercussão na ocasião de efemérides, como a dos 50 anos do golpe de 1964, como foi no bicentenário da Revolução Francesa,[11] ou, pior, nos 80 anos da Revolução Russa (1997), quando, além do Livro negro do comunismo, teve lugar também o filme Anastásia, da Disney, cuja função precípua era reabilitar o czarismo. Um exemplo recente é bem ilustrativo.

A “historietografia” espanhola

Desde o início dos anos 2000 as livrarias do Estado Espanhol têm sido invadidas por um tipo de literatura muito similar. Capitaneada por um ex-maoísta, Pío Moa,[12] e muito apoio midiático, agora se diz que a Guerra Civil dos anos 1930 foi uma “guerra patriótica contra a invasão vermelha”.[13] Enquanto isso o jornalista César Vidal, em publicações que são best-sellers, defende a tese de que o massacre de Guernica, imortalizado na tela de Picasso, não teria passado de um “mito vermelho”.[14]

Outra peça de propaganda desse revisionismo espanhol está expresso no Diccionario Biográfico Español, feito sob os auspícios da Real Academia de la Historia de España. No  verbete dedicado  a Franco, por exemplo, deixado a cargo do historiador medievalista Luis Suarez – nada menos que o presidente da Fundación Francisco Franco –, o caudilho aparece como um político “moderado” e “prudente” que encabeçou um “regime autoritário”, não uma “ditadura”, muito menos uma “ditadura fascista”. É evidente que não há consenso na historiografia sobre o enquadramento do franquismo como uma experiência fascista, mas deve-se observar que o propósito desta absolvição não opera a partir de uma rígida elaboração conceitual, mas com flagrante propósito apologético.

Em resposta, En el combate por la historia. La república, la guerra civil, el franquismo (Contradiccionario),[15] editado por Ángel Viñas e que conta com 45 capítulos temáticos e 12 verbetes biográficos  escritos por especialistas de três gerações, como veteranos do porte de Paul Preston, Julia Casanova, Julio Aróstegui, Alberto Reig Tapia, além de Josep Fontana. Com um título que rememora o clássico livro Combats pour l’Histoire (1952) de Lucien Febvre (1878-1956), o propósito do Contradiccionario é o de combater o que os autores denominam de “historietografia”, e também apresentar o resultado da investigação histórica dos últimos 30 anos sobre a evolução da sociedade espanhola no período compreendido entre 1931 até 1975.

Em sua Introdução, Ángel Viñas confessa que relutou algumas vezes antes de aceitar a ideia de organizar uma obra de resposta a essa manipulação neo-franquista da história, mas que acabou convencido por entender o problema ético de fundo que significava a popularização desse tipo de literatura no grande público. Isso por que, ao contrário do que pensam muitos profissionais da Clio, o tipo de atividade que exercem tem profundas implicações nas disputas políticas contemporâneas.

Normalizar um passado ditatorial pode ser uma arma eficiente na construção do consenso em torno ao desmonte do Estado Social – que o Brasil nunca conheceu, diga-se de passagem – e a instituição de um Estado Policial. Não se trata de um debate sobre o passado, mas sobre o aqui e o agora, seja no Sul da Europa dos pacotes de austeridade, seja no país da Copa e dos Megaeventos.

Um negacionismo à brasileira

Definitivamente, Marco Antonio Villa está longe de ser um historiador que a comunidade acadêmica tem levado a sério. Embora esteja vinculado ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, é só mais um exemplar daqueles escribas da ordem apresentados na TV como “especialistas”, como o sociólogo Demétrio Magnoli e tantos outros ex-esquerdistas que, como Villa, estão sempre à disposição para vocalizar os interesses da oposição de direita ao governo do PT.

Alguns colegas, sérios pesquisadores por sinal, acreditam que infelizmente trabalhos como o de Villa vendem, e vendem muito. E é muito provável que tenham razão. Tal como literatura de aeroporto, é muito possível que Ditadura à brasileira encontre seu lugar entre os best-sellers na categoria dos livros de não-ficção, o que ironicamente só revela o lado decadente  de amplas parcelas semiletradas da classe média brasileira, mais afeitas a churrascarias do que  a bibliotecas.[16] Pois é propriamente o tipo de livro que interessa a gente que adora uma boa justificativa para não ler mais nada.


[1] VILLA, Marco Antonio. Jango, um perfil (1945-1964). São Paulo: Globo, 2004.

[2] Idem, p.9.

[3] GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.51.

[4] VILLA, op. cit., p.191. GASPARI, op. cit., p.79.

[5] Cf. MAESTRI, Mário & JAKOBSKIND, Mário Augusto. “A historiografia envergonhada” Revista História & Luta de Classes. Ano 1, nº 1, p. 125-131, 2005. Disponível emhttp://www.espacoacademico.com.br/024/24res_gaspari.htm

[6] Editorial do jornal Folha de São Paulo, de 17 de fevereiro de 2009, p.2.

[7] VILLA, M. A. “Ditadura à brasileira.” Folha de São Paulo, 5 de março de 2009, p.3.

[8][8] Tortura como uma prática estrutural do novo regime, já que num país de passado escravista como o Brasil sua origem é imemorial.

[9] Sobre o revisionismo de Nolte, remeto o leitor à nossa contribuição: MELO, Demian Bezerra de. “Revisão e revisionismo historiográfico: as disputas pelo passado e os embates políticos contemporâneos.” Marx e o Marxismo, Niterói, v.1, n.1, p.49-74 jul/dez 2013. Disponível emhttp://www.marxeomarxismo.uff.br/index.php/MM/article/view/11

[10] ARANTES, Paulo. “1964, o ano que não terminou.” In. TELES, Edson & SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010, p.209.

[11] Para o qual existe o incontornável livro de HOBSBAWM, Eric. Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

[12] Pío Moa pertenceu à organização de extrema-esquerda Grupo de Resistência Antifascista Primero de Octubre (GRAPO), fundada em 1975, o braço armado do maoísta Partido Comunista de España (reconstituído).

[13] MOA, Pío. Los mitos de la Guerra Civil. Madrid: La esfera de los libros, 2003.

[14] VIDAL, César. Paracuellos-Katyn. Un ensayo sobre el genocídio de la izquierda. Madrid: Libros libres, 2005.

[15] VIÑAS, Ángel (ed.). En el combate por la historia. La república, la guerra, el franquismo. Barcelona: Pasado & Presente, 2012.

[16] Classe média essa que adora recomendar aos jovens de periferia que  façam seus “rolezinhos” em bibliotecas.

1 comentário

Arquivado em Blogs, Política

Histórico do Salário Mínimo brasileiro revela diferenças entre governo FHC e Lula e desmentem historiador da “década perdida”.

Ontem, enquanto navegava pelas redes sociais, recebi uma mensagem que trazia uma planilha com o histórico do valor do Salário Mínimo entre os anos de 1995 a 2012. Como a mesma continha apenas o Ano, o Valor e o Percentual de Aumento em relação ao ano anterior, achei que, para fazer uma análise mais apurada, seria interessante complementá-la incluindo as colunas Governo, Inflação (IPCA), Aumento Real, Cesta Básica (SP), Aumento da Cesta, PIB e o Valor equivalente em dólar.

Usando como fonte os dados fornecidos no site do IBGE (Inflação IPCA) e do DIEESE (valor da cesta básica), além do histórico do PIB publicado na página da Revista Exame (http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/a-evolucao-do-pib-brasileiro), consegui montar uma tabela que permite fazer uma comparação de indicadores econômicos que afetam diretamente a maior parte da população brasileira, que sobrevive a base do Salário Mínimo. Vejam tabela abaixo:

Historico Salario Minimo 1995 a 2012

Evolução do Salário Mínimo no Brasil entre os anos 1995-2012. Fonte: IBGE (Inflação IPCA), DIEESE (Cesta Básica), Revista Exame (PIB).

Observando a tabela é possível perceber que durante o governo FHC, nos anos de 1999 e 2002, se descontarmos a inflação do período, o Salário Mínimo não só não aumentou, como perdeu seu valor: –4,32% e –1,42% respectivamente. Fato que não se repetiria durante os oito anos de governo Lula, e nem nos dois primeiros anos do governo Dilma.

Outra análise possível é observar que no ano em que Fernando Henrique Cardoso assume seu mandato (1995), o Salário Mínimo valia R$ 100,00 e, no ano de sua saída (2002), o mesmo valia R$200,00, o que demonstra um crescimento de 100% no período, sendo que desse aumento, se descontarmos a inflação dos oito anos, averiguamos um aumento real de 21,89% no Salário. Por sua vez, Lula assume o mandato em 2003 com o Salário Mínimo valendo os R$ 200,00 deixados por FHC. No ano de sua saída (2010), o mesmo salário valia R$ 510,00, caracterizando portanto um aumento de 155% em relação ao valor do início de seu mandato, e 53,6% de aumento real, descontando-se a inflação. Já nos dois primeiros anos do mandato de Dilma Rousseff, o Salário Mínimo passou de R$510,00, deixado pelo governo Lulapara R$622,00 no ano de 2012, o que representou um aumento de 22% em dois anos de governo, dos quais 8,61% de aumento real.

Relação Salario Minimo x Cesta Basica

Se compararmos o valor do Salário Mínimo em relação a cesta básica, por exemplo, veremos que durante o governo FHC, um Salário Mínimo comprava 1,15 cesta básica no primeiro ano de seu governo (1995) e 1,54 no último ano (2002), o que caracterizou um aumento de 34,37% de aumento do poder de compra do trabalhador em relação a cesta básica. Durante o governo de Lula, um Salário Mínimo comprava 1,47 cesta básica no primeiro ano (2003), e 2,27 cestas no último ano de seu governo (2010), aumento de 53,73% no poder de compra em relação a cesta básica. Já no governo de Dilma, nesses dois primeiros anos observa-se uma pequena retração em relação ao período Lula, sendo que um Salário Mínimo comprava 2,09 cestas básicas no primeiro ano (2011) e 2,18 cestas no segundo ano (2012), como demonstra a tabela ao lado.

Além disso, durante os oito anos do governo FHC, o Salário Mínimo teve um crescimento real pouco superior ao crescimento do PIB brasileiro no período. A soma dos índices mostram que houve 21,89% de aumento real do Salário Mínimo, enquanto o PIB cresceu 18,4% (diferença de 3,49%). Já durante os oito anos do governo Lula, o Salário Mínimo tem um aumento de 53,60%, enquanto o PIB no mesmo período cresceu 32,5% (diferença de 21,1%). Como não poderia deixar de ser, Dilma segue o caminho traçado por Lula, sendo que nos dois primeiros anos de seu governo o Salário Mínimo teve um aumento real de 8,61%, enquanto o PIB no período cresceu 3,7% (diferença de 4,91% pró Salário Mínimo), conforme demonstra o gráfico abaixo.

Grafico Relação PIB x Aumento Salario Minimo

Gráfico comparando o crescimento do Salário Mínimo em relação ao PIB durante os governos FHC, Lula e Dilma – por José Rogério Beier. *Os números do governo Dilma são relativo apenas aos dois primeiros anos de seu mandato (2011-2012).

A comparação realizada no gráfico acima, permite perceber que durante o governo Lula, o Salário Mínimo, além de ter um significativo aumento real em seu valor (53,60%), também teve um crescimento relevante em relação ao PIB brasileiro (32,5%). Tal observação demonstra cabalmente o modo pelo qual o governo de Lula conseguiu içar da linha da miséria dezenas de milhões de brasileiros. Além disso, o gráfico também demonstra uma melhor distribuição de renda no Brasil durante o governo Lula e a continuação dessa política no governo Dilma (que em apenas dois anos de governo, já fez com que o Salário Mínimo crescesse 4,9% a mais do que o PIB do período. Marca superior aos oito anos da gestão FHC).

Vale ainda observar que, embora alguns setores tenham amargado um encolhimento nesse período, grande número da população, que vive a base do Salário Mínimo, viu seu rendimento crescer substancialmente durante o governo Lula. Em 2009, por exemplo, enquanto o PIB brasileiro amargou uma queda de 0,3% em função da crise que assolou Estados Unidos e Europa, o Salário Mínimo teve um aumento real de 7,74% . Talvez isso ajude a explicar um pouco do ódio que boa parte da classe média nutre contra o Lula e seu partido.

Diferentemente do que ocorrou com outros historiadores, quando eu olho para números como estes, constato como o Brasil mudou na última década. Uma mudança há muito esperada e tantas vezes adiada. Há muito ainda o que melhorar, sem dúvida, mas a direção de combater a miséria e tornar digna a vida de boa parte de nossa população é, sem dúvida alguma, uma decisão acertada de nosso governo. Esses números demonstram cabalmente como, durante a última década, essa batalha vem sendo vencida e, diante deles, jamais poderíamos considerar esta década como perdida. Fazê-lo, além de ser um grande equívoco, é revelar um olhar enviesado, aquele mesmo velho olhar com o qual os primeiros historiadores do IHGB miravam para o Brasil para contar a sua história, ou seja, das caravelas para o litoral ou, se preferirem, da Casa-Grande para a Senzala. Esse olhar, há muito tempo já não cabe para contar a história de qualquer país. Ao que parece, o senhor Marco Antônio Villa se esqueceu disso.

195 Comentários

Arquivado em Política, Sem categoria

2002-2012: uma década perdida pra quem?

Historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, Marco Antonio Villa publicou texto no Estado de S. Paulo, em 31 de dezembro de 2012, considerando que a década decorrida entre 2002 e 2012 foi uma década perdida.

O portal do jornal digital Brasil 247, considerou o texto de Villa, a piada da década, uma vez que foi neste período em que o Brasil reduziu pela metade seu desemprego, emergiu como ator global e consolidou sua democracia. Para o referido portal, Marco Antonio Villa é um dos porta-vozes da oposição no País, chegando a denominá-lo como “historiador-militante”.

Logo de início, o texto apresenta uma marca anti-lulista bem clara, tendo seu autor comparado a eleição de Lula a um conto de fadas e destacado que, até mesmo como operário, Lula poderia ser considerado uma fraude, já que seu tempo de serviço nas fábricas durou apenas dez anos e, depois deste período, ele teria virado um burocrata social travestido de operário e trabalhador sofrido.

Deixando Lula de lado, Villa parte para o ataque ao PT, destacando que parte da própria posse de Lula teria sido paga com recursos do esquema pré-mensalão (utilizando Marcos Valério como fonte). Mais adiante, alega que “O PT transformou o patrimônio nacional, construído durante décadas, em moeda para obter recursos partidários e pessoais” e que, se o partido havia sido considerado a novidade em algum momento de sua história, esta novidade teria dado “vida nova às oligarquias”, afirmando ser “muito difícil encontrar nos últimos 50 anos um período tão longo de poder em que os velhos oligarcas tiveram tanto poder como agora.” Para Villa, o maior obstáculo ao crescimento econômico e ao enfrentamento dos problemas sociais conhecidos dos brasileiros, é o que denominou de “congelamento da política”, promovido pelo PT. 

Sobre os programas sociais promovidos pelo Governo Federal durante a última década, Villa considerou que se tratam de “programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta”.

Em poucas palavras, é de se lamentar que o historiador Marco Antonio Villa tenha optado em fazer uma análise crítica da última década vivida no Brasil a partir da crítica pessoal a Lula e ao seu partido o PT, em sua maior parte. Independente do conteúdo da crítica, para um historiador experiente cujo ofício, no caso em questão, seria o de reconstruir aspectos da vida social do país a partir de um conjunto de fontes confiáveis e levando em conta todos os agentes sociais no período recortado, desconsiderar os avanços sociais e o relevante crescimento econômico das classes mais desfavorecidas do país, especialmente durante a meia década em que Europa e Estados Unidos estiveram afundados em uma crise profunda, parece um erro bastante básico que encontraria uma justificação plausível na crítica que destacamos previamente feita pelo portal Brasil 247, isto é, Marco Antonio Villa escreve atendendo a uma agenda política específica.

Em sua defesa, Villa poderia alegar que “toda história é escolha”, conforme texto famoso de Lucien Febvre. Contudo, não se deve confundir seleção de fontes com seleção daquelas que corroboram com nossa hipótese. Mesmo não historiadores devem saber que, ao selecionar suas fontes, um historiador não deve eleger apenas aquelas que corroboram com sua hipótese levantada a priori, ao contrário, deve fazer a crítica de todas as fontes levantadas e, a partir de sua interpretação delas, chegar a uma conclusão que pode ser favorável ou desfavorável a ideia que se fazia antes de partir para a pesquisa. No caso de as fontes não corroborarem com a hipótese inicial, um intelectual honesto jamais desconsideraria tais fontes em sua pesquisa, para dar preferência apenas àquelas que corroboram sua hipótese inicial, no caso de Villa, a tal década perdida. Embora no método que adotou, Villa tenha optado por desconsiderar qualquer tipo de contextualização e por não fazer menção às fontes dos números que ilustram seu artigo, ele acaba mencionando algumas fontes que embasariam suas conclusões: o empresário Marcos Valério, o ex-ministro José Dirceu e o ministro do STF Celso de Mello. Não se vê, por exemplo, menção ao fato de que na década em questão, 35 milhões de pessoas entraram na classe média e que a perspectiva é de que no fim de 2012, 53% da população (mais de 100 milhões de brasileiros) faça parte dessa classe, em contraste com os 38% da população em 2002, tal como informa o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. ou ainda, menção a um estudo como o BRICS: desigualdades sociais em países emergentes, realizado pelo Observatório das Desigualdades, onde há uma série de indicadores mostrando o avanço no combate as desigualdades sociais não apenas na área da pobreza e do desenvolvimento econômico (que parece ser apenas o que importa a Villa), mas também educação e oportunidades, vida saúde e morte e mulheres e desigualdade.

Para finalizar, deixo abaixo a íntegra do texto de Marco Antonio Villa, conforme publicado no Estado de S. Paulo e no próprio blog do historiador, para a consideração dos leitores do Hum Historiador.

A DÉCADA PERDIDA por Marco Antônio Villa
publicado originalmente em O Estado de S. Paulo – 31/12/2012

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 foi recebida como um conto de fadas. O país estaria pagando uma dívida social. E o recebedor era um operário.

Operário que tinha somente uma década de trabalho fabril, pois aos 28 anos de idade deu adeus, para sempre, à fábrica. Virou um burocrata sindical. Mesmo assim, de 1972 a 2002 ─ entre a entrada na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e a eleição presidencial ─, portanto, durante 30 anos, usou e abusou do figurino do operário, trabalhador, sofrido. E pior, encontrou respaldo e legitimação por parte da intelectualidade tupiniquim, sempre com um sentimento de culpa não resolvido.

A posse ─ parte dos gastos paga pelo esquema do pré-mensalão, de acordo com depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público ─ foi uma consagração. Logo a fantasia cedeu lugar à realidade. A mediocridade da gestão era visível. Como a proposta de governo ─ chamar de projeto seria um exagero ─ era inexequível, resolveram manter a economia no mesmo rumo, o que foi reforçado no momento da alta internacional no preço das commodities.

Quando veio a crise internacional, no final de 2008, sem capacidade gerencial e criatividade econômica, abriram o baú da História, procurando encontrar soluções do século 20 para questões do século 21. O velho Estado reapareceu e distribuiu prebendas aos seus favoritos, a sempre voraz burguesia de rapina, tão brasileira como a jabuticaba. Evidentemente que só poderia dar errado. Errado se pensarmos no futuro do país. Quando se esgotou o ciclo de crescimento mundial ─ como em tantas outras vezes nos últimos três séculos ─, o governo ficou, como está até hoje, buscando desesperadamente algum caminho. Sem perder de vista, claro, a eleição de 2014, pois tudo gira em torno da permanência no poder por mais um longo tempo, como profetizou recentemente o sentenciado José Dirceu.

Os bancos e as empresas estatais foram usados como instrumentos de política partidária, em correias de transmissão, para o que chamou o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, de “projeto criminoso de poder”, quando do julgamento do mensalão. Os cargos de direção foram loteados entre as diferentes tendências do Partido dos Trabalhadores (PT) e o restante foi entregue à saciedade dos partidos da base aliada no Congresso Nacional. O PT transformou o patrimônio nacional, construído durante décadas, em moeda para obter recursos partidários e pessoais, como ficou demonstrado em vários escândalos durante a década.

O PT era considerado uma novidade na política brasileira. A “novidade” deu vida nova às oligarquias. É muito difícil encontrar nos últimos 50 anos um período tão longo de poder em que os velhos oligarcas tiveram tanto poder como agora. Usaram e abusaram dos recursos públicos e transformaram seus Estados em domínios familiares perpétuos. Esse congelamento da política é o maior obstáculo ao crescimento econômico e ao enfrentamento dos problemas sociais tão conhecidos de todos.

Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. Foi criado um sólido bloco de sustentação que ─ enquanto a economia permitir  ─ satisfaz o topo e a base da pirâmide. Na base, com os programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta. No topo, atendendo ao grande capital com uma política de cofres abertos, em que tudo pode, basta ser amigo do rei ─ a rainha é secundária.

A incapacidade da oposição de cumprir o seu papel facilitou em muito o domínio petista. Deu até um grau de eficiência política que o PT nunca teve. E o ano de 2005 foi o ponto de inflexão, quando a oposição, em meio ao escândalo do mensalão, e com a popularidade de Lula atingindo seu nível mais baixo, se omitiu, temendo perturbar a “paz social”. Seu principal líder, Fernando Henrique Cardoso, disse que Lula já estava derrotado e bastaria levá-lo nas cordas até o ano seguinte para vencê-lo facilmente nas urnas. Como de hábito, a análise estava absolutamente equivocada. E a tragédia que vivemos é, em grande parte, devida a esse grave erro de 2005. Mas, apesar da oposição digna de uma ópera-bufa, os eleitores nunca deram ao PT, nas eleições presidenciais, uma vitória no primeiro turno.

O PT não esconde o que deseja. Sua direção partidária já ordenou aos milicianos que devem concentrar os seus ataques na imprensa e no Poder Judiciário. São os únicos obstáculos que ainda encontram pelo caminho. E até com ameaças diretas, como a feita na mensagem natalina ─ natalina, leitores! ─ de Gilberto Carvalho (ex-seminarista, registre-se) de que “o bicho vai pegar”. A tarefa para 2013 é impor na agenda política o controle social da mídia e do Judiciário.

Sabem que não será tarefa fácil, porém a simples ameaça pode-se transformar em instrumento de coação. O PT tem ódio das liberdades democráticas. Sabe que elas são o único obstáculo para o seu “projeto histórico”. E eles não vão perdoar jamais que a direção petista de 2002 esteja hoje condenada à cadeia.

A década petista terminou. E nada melhor para ilustrar o fracasso do que o crescimento do produto interno bruto (PIB) de 1%. Foi uma década perdida. Não para os petistas e seus acólitos, claro. Estes enriqueceram, buscaram algum refinamento material e até ficaram “chiques”, como a Rosemary Nóvoa de Noronha, sua melhor tradução. Mas o Brasil perdeu.

Poderíamos ter avançado melhorando a gestão pública e enfrentado com eficiência os nossos velhos problemas sociais, aqueles que os marqueteiros exploram a cada dois anos nos períodos eleitorais. Quase nada foi feito ─ basta citar a tragédia do saneamento básico ou os milhões de analfabetos.

Mas se estagnamos, outros países avançaram. E o Brasil continua a ser, como dizia Monteiro Lobato, “essa coisa inerme e enorme”.

Deixe um comentário

Arquivado em Cultura, Política