Arquivo da tag: Moradia

Pinheirinho, um ano depois

Como já tive oportunidade de dizer aqui, faço parte da equipe de produção de um projeto de documentário que irá tratar o tema da habitação/moradia no Brasil através da história de algumas famílias que foram violentamente retiradas de suas casas após a malfadada operação de reintegração de posse da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos.

O objetivo deste post é divulgar o lançamento do blog do projeto onde o visitante encontrará informações sobre o que é o projeto, quais são seus objetivos e metas, além de como a equipe de produção pretende levantar os fundos para a execução do projeto.

Desde já, é importante destacar que precisaremos muito da colaboração dos amigos da Internet e das Redes Sociais, já que a estratégia que adotamos para financiar o documentário é através de uma plataforma de Crowd Funding conhecida como Catarse.

Abaixo destacamos alguns detalhes que extraímos da página SOBRE do blog do projeto. Dê uma conferida e saiba como você poderá colaborar com este documentário.


Pinheirinho, um ano depois é um projeto de documentário que tem o objetivo de registrar como vivem as famílias que moravam na antiga comunidade do Pinheirinho um ano após a violenta reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo, em 22 de janeiro de 2012.

Através desse registro documental, queremos dar voz  às pessoas que viveram o trauma da desocupação para que contem suas histórias e relembrem à sociedade que elas seguem vivendo sob o risco de retornarem à condição de desabrigadas com o fim do aluguel-social, além de permanecerem sem nenhuma perspectiva de solução definitiva para o seu problema de habitação.

O filme tem como foco central os ex-moradores da comunidade do Pinheirinho e seus depoimentos de como tem vivido desde que foram retirados de suas casas. Contudo, para darmos uma ideia mais aprofundada sobre o que ocorreu logo após a desocupação e as oportunidades de resolução definitiva do acesso à moradia adequada, o projeto também pretende dar voz a outros atores que participaram ativamente de todo o processo de desocupação, como os políticos envolvidos nas negociações que antecederam a reintegração de posse, os intelectuais e estudiosos da questão da habitação e moradia no Brasil, representantes de órgãos de proteção aos Direitos Humanos, líderes comunitários, advogados, juízes, defensoria pública, promotores de justiça, representantes da Procuradoria Geral do Estado, representantes das três esferas de poder envolvidas na questão (municipal, estadual e federal), além do proprietário do terreno em questão ou seus representantes.

Para custear as despesas mínimas de execução desse projeto, adotamos a ideia do sistema de financiamento colaborativo, também conhecido como crowd funding. No Brasil, o site Catarse tem se destacado no financiamento de projetos colaborativos de cinema e vídeo e, justamente por isso, optamos por este sistema. Tal estratégia nos possibilitará que a distribuição do documentário se dê livremente, em plataforma Creative Commons, pela Internet.

METAS DA CAMPANHA DE FINANCIAMENTO COLABORATIVO

O custo mínimo orçado para o projeto é de R$ 10.000,00, que inclui as viagens a São José dos Campos nos próximos seis meses, estadias, recompensas oferecidas como contrapartida, taxas cobradas pelo Catarse e pelos meios de pagamento .

Este é o valor mínimo e caso não seja atingido esse montante ao final do período da campanha de arrecadação no Catarse, não receberemos nada, o dinheiro de todos os que colaboraram será devolvido em forma de crédito e não poderemos realizar as gravações e produção do documentário.

Contudo, se conseguirmos atingir não só o mínimo de 10.000,00, mas ultrapassarmos este valor, temos objetivos extras a realizar que agregariam ainda mais valor ao documentário. Para mais informações sobre esse assunto, veja os nossos “Objetivos Extras”.

RECOMPENSAS AOS COLABORADORES

Sabemos que o maior prêmio aos colaboradores é participar de uma ação que ajude a dar visibilidade a pessoas de uma comunidade que luta por seu direito à moradia digna depois de um violento processo de desocupação. Certamente, ajudar a contar a história destas pessoas a partir da perspectiva delas é algo que não tem preço e, aos que ajudarem a realizar esse projeto, agradecemos imensamente.

Contudo, pensamos que além do agradecimento, poderíamos oferecer uma lembrança especial do apoio a esse projeto. Assim, abaixo segue uma lista de recompensas aos colaboradores desse projeto:

  • Para contribuições de R$ 10,00, seu nome estará entre os apoiadores do projeto em nosso site e nas redes sociais.
  • Para contribuições de R$ 25,00, além de aparecer no site e nas redes sociais, seu nome também estará entre os apoiadores do projeto nos créditos de agradecimento do documentário.
  • Para contribuições de R$ 50,00, além das recompensas anteriores, você também receberá uma camiseta exclusiva do filme “Pinheirinho, um ano depois”.
  • Para contribuições de R$ 75,00, além de todas as recompensas anteriores, você também receberá um DVD exclusivo do documentário, contendo uma versão estendida e videos extras, antes mesmo da data de lançamento do documentário.
  • Para contribuições de R$ 150,00 ou mais, além de todas as recompensas anteriores, você também receberá um convite para a pré-estréia do filme a ser realizada no dia do lançamento.

Contamos com sua colaboração, ajude a dar visibilidade à luta e resistência dos ex-moradores do Pinheirinho por seu direito à moradia adequada.

OUTRAS MÍDIAS

Para entrar em contato, saber mais ou acompanhar o projeto, seguem abaixo os nossos contatos.

1 comentário

Arquivado em Filmes, Política, Sites

PINHEIRINHO: seis meses depois…

Mal bem o dia amanhecia e lá estava eu, enfrentando o frio de uma manhã de inverno para voltar a colocar os pés na estrada rumo a São José dos Campos, onde iria rever o povo lutador do Pinheirinho. Reencontro que, só de imaginar como seria, fez com que eu perdesse a noite de sono. Era impossível dormir com as lembranças dos dias em que fui voluntário no mutirão do CONDEPE para colher as inúmeras denúncias de violações de Direitos Humanos sofridos por estes homens e mulheres na violenta operação de reintegração de posse executada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, sob comando do governador Geraldo Alckmin.

A primeira parada seria no centro velho de São Paulo, onde encontraria o amigo Lucas, companheiro de uma viagem que, além de servir para dar nosso total apoio ao pessoal do Pinheirinho, também serviu para marcar o princípio de um projeto bastante audacioso do qual tomamos parte e tocaremos de modo independente. Foi justamente por isso que, depois de um breve café da manhã, partimos bastante ansiosos a São José dos Campos.

Ainda na estrada que liga São Paulo a São José, entre um e outro dos três pedágios tucanos em trecho de 90km, fizemos um breve vídeo amador para falar dos objetivos do dia e dar a notícia do projeto que apenas começávamos a trabalhar e já queríamos ver pronto o mais rápido possível.

Como disse no vídeo, a ideia é fazer um documentário de 25 a 30 minutos contando a história da reintegração de posse do Pinheirinho, mas sobretudo, destacando o que ocorreu um ano depois de toda a truculência policial que vitimou crianças, mulheres, idosos e homens pobres que simplesmente defendiam seu direito à moradia.

Para realização do projeto, a ajuda de todos os amigos e pessoal da Internet será fundamental. Trabalharemos com muito esforço e dedicação, colaborando voluntariamente e colocando dinheiro de nossos próprios bolsos para ver esse projeto frutificar, mas por enquanto ainda não posso falar muito. Em breve maiores detalhes, aguardem!!!

A ATO DE APOIO DOS SEIS MESES DEPOIS DA DESOCUPAÇÃO DO PINHEIRINHO

Quando chegamos à Câmara Municipal de São José dos Campos o ato já havia começado e o companheiro Marrom, líder comunitário, falava sobre as inúmeras dificuldades que eles estão enfrentando para encontrar uma nova localidade para realojar o pessoal do Pinheirinho. Todos temem o prazo final do benefício do Aluguel Social, que termina em dezembro. A grande maioria dos moradores não tem condições de pagar aluguel sem este benefício e, desta maneira, voltariam a ficar na rua, vivendo com seus filhos em condições precárias.

Logo depois, a palavra foi dada a Renato Simões, do CONDEPE, que deu notícias sobre o relatório final do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos a respeito das inúmeras violações ocorridas na reintegração de posse. Informou que o relatório foi concluído e que, nos próximos 15 dias, deverão ser amplamente divulgados, contendo a tipificação e o detalhe dos crimes cometidos pela Polícia, sendo considerados culpados o governador Geraldo Alckmin, o prefeito de São José dos Campos Eduardo Cury, o comandante da Polícia Militar responsável pela operação, a juíza Márcia Faria Mathey Loreiro, dentre outros.

Na sequência, depoimentos de moradores falando das dificuldades de adaptação às novas casas, os traumas deixados pela operação de reintegração nas crianças, as perdas dos móveis, eletrodomésticos e materiais de construção e o mais doloroso, a perda de objetos com valores sentimentais. A mãe de um jovem fez um depoimento emocionado de que não teve tempo para salvar o único DVD que lhe restava do filho que havia morrido antes da desocupação da comunidade. Aquela era a única lembrança que restava de seu filho morto e agora está perdido para sempre. Que preço se pode estipular para uma perda como essa?

Elisângela, outra moradora que fez uso da palavra, lembrou da importância das mulheres se manterem unidas e seguirem na luta. Deu notícia da criação de um grupo denominado MÃES DO PINHEIRINHO, que passará a fazer reuniões regulares daqui por diante. O objetivo do grupo é organizar a resistência pela luta do direito à moradia de todos, mas em especial das mulheres que, em grande parte são mães e cuidam de seus filhos e filhas com muita batalha, em boa parte das vezes, sozinhas. Por isso conclamou a todas a não sumirem das reuniões de bairro e assembleias, comparecerem e permanecerem unidas.

Muitos outros depoimentos de moradores e falas de autoridades seguiram no plenário da Câmara e, novamente, o coração foi ficando pesado de tantas e tantas violações aos direitos humanos mais básicos e dificuldades pelas quais estão passando essas pessoas. Depois de mais alguns minutos, o ato foi dado como encerrado e passamos então a fazer o contato com as pessoas que poderão nos ajudar nos próximos meses na realização de nossos objetivos com o documentário. Tivemos grande êxito e todos nos felicitaram pela iniciativa e se propuseram a ajudar com o que puderem. Em pouco tempo concluímos nossas atividades e nos despedimos de todos. Por volta das 15h deixamos a Câmara em busca do merecido almoço.

Contudo, antes de sairmos do prédio, fomos procurados por uma moradora que, que ao saber do blog e do projeto do documentário, quis dar seu depoimento pessoal e, dessa maneira, acabou por se transformar em nossa primeira entrevistada do projeto de documentário. Carmem de Jesus, 55 anos, moradora do Pinheirinho praticamente desde o princípio, em 2005, falou das agressões que sofreu, das dificuldades de agendar tratamento médico e dos mal tratos vividos nos quase 20 dias em que passou no abrigo da prefeitura com seu neto até que conseguisse alugar uma casa com o dinheiro do aluguel social. Lembrou que a dificuldade em encontrar a casa se deu porque assim que houve a desocupação do Pinheirinho, os valores dos aluguéis em São José tiveram um aumento, uma vez que os moradores passariam a contar com o dinheiro do aluguel social e mais dinheiro estaria circulando na cidade. Além disso, havia um enorme preconceito por parte de quem iria alugar que, se desconfiasse que os futuros inquilinos fossem ex-moradores do Pinheirinho, simplesmente desistiam do contrato de aluguel.

Carmem vive sozinha, não tem marido. Também não tem um emprego formal e ganhava a vida vendendo as coisas que plantava em seu quintal, quando morava no Pinheirinho. Se desespera com a ideia de que o benefício será cortado em dezembro, pois não tem condições de pagar aluguel na cidade de São José dos Campos nos atuais preços. Lembra que mesmo com o benefício do aluguel social, ainda precisa complementar com dinheiro do próprio bolso para manter as contas da casa em dia. Fala que o neto pergunta todos os dias quando voltarão para Pinheirinho, e que ainda treme de medo quando escuta um helicóptero ou vê um policial.

Foram dez minutos de conversa, mas o suficiente para sair da Câmara com o coração apertado e novamente confuso e sem entender por que um governo decide se voltar contra seus próprios cidadãos. Por que atacar de maneira tão impiedosa crianças, idosos, mulheres, jovens e homens que estavam ali reivindicando o seu direito de moradia. Por quê?

Essas são as primeiras fotos que envio ainda de São José dos Campos. No domingo retornamos a São Paulo já com muitos contatos, informações, fotos e precioso depoimento de Carmem. Daremos início formal a nosso projeto e teremos muitas atividades para concretizá-lo até o fim deste ano. Espero mesmo poder contar com a ajuda de todos e que, por volta do Natal, nosso presente seja o trabalho final para o lançamento do documentário. Até lá, vocês vão ouvir falar muito de Pinheirinho por aqui, pois EU NÃO VOU ESQUECER!!!

Gostaria de concluir o post, com a video montagem que preparei duas semanas após a reintegração de posse e logo depois que voltei do meu trabalho como voluntário no CONDEPE, em fevereiro de 2012, quando tomei contato com os moradores do Pinheirinho pela primeira vez. Assim que o relógio der meia noite hoje, haverão se completado seis meses da barbárie ocorrida no Pinheirinho, e muito pouco foi feito para ressarcir essas pessoas, vítimas de um Estado violento e opressor. Não nos calaremos até que os culpados sejam punidos e os moradores sejam devidamente ressarcidos e indenizados por seus prejuízos morais e materiais. SOMOS TODOS PINHEIRINHO!!!

1 comentário

Arquivado em Política

Promoção Cultural Eliana Silva

O Hum Historiador, parceiro da revista digital e do coletivo SobreHistória.org, ajuda a divulgar a Promoção Cultural Eliana Silva lançada pelo coletivo em apoio ao direito a ocupação e moradia das mais de 300 famílias da comunidade Ocupação Eliana Silva que foram de forma ilegal, violenta e autoritária despejadas do terreno que estavam morando desde o dia 21 de abril deste ano.

Para quem não se lembra, ao manifestar seu apoio à ocupação da comunidade Eliana Silva neste último domingo, 13/05/2012, o rapper Emicida acabou sendo preso logo após cantar o rap Dedo na Ferida.

Além da promoção, o coletivo postou textos e vídeos a respeito da Ocupação Eliana Silva explicando detalhadamente os acontecimentos que levaram ao despejo de mais de mil pessoas.

Será sorteado o Kit Cultural entre os leitores do site SobreHistoria.org e todos que participarem da promoção divulgando e apoiando a resistência dessas nobres famílias que lutam pelo seu direito a moradia.

 O KIT

Para participar da promoção é muito simples, basta:

  1. Curtir a página do SobreHistória.org no facebook.
  2. Curtir o álbum Ocupação Eliana Silva divulgando a causa.
  3. Clicar em Quero participar neste link.
  4. Ter endereço de entrega no Brasil.

Obs.1: O sorteio será realizado no  dia 31/05/2012, e o resultado será divulgado no mesmo dia.

Obs.2: O coletivo sorteará somente um ganhador. O sorteado será divulgaddo no facebook e no site. Se não houver resposta em até dois dias úteis contados a partir da data da divulgação, o kit será sorteado novamente.

Obs.3: Perfis fakes ou criados apenas para participar de promoções serão desclassificados.

Deixe um comentário

Arquivado em Cultura, Política, Promoções

Higienização pode estar em andamento na comunidade São Remo

João Grandino Rodas

Reitor da USP, João Grandino Rodas, em cartoon de Carlos Latuff

Uma notícia bastante preocupante foi publicada hoje no caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo sob a manchete USP QUER QUE GOVERNOS REURBANIZEM FAVELAS VIZINHAS A SEU CAMPUS.

Na curta reportagem de FÁBIO TAKAHASHI e JULIANNA GRANJEIA, somos informados de que o reitor João Grandino Rodas, solicitou ao Estado e à prefeitura a reurbanização de favelas no entorno da USP, pois avalia que a instituição tenha que dar atenção às mais de 3.000 famílias que vivem nas favelas São Remo e Carmine Lourenço. Para isso, o reitor teria afirmado que a universidade daria todo o apoio técnico a iniciativa.

Conhecendo o magnífico reitor como só os alunos da USP o conhecem, toda essa boa vontade está cheirando muito mal. Some-se a isso as recentes atuações dos governos municipal e estadual na “reurbanização” de algumas áreas da cidade, e logo justifica-se um forte receio da possível retirada de famílias de uma região TÃO VALORIZADA como a do Butantã. Especialmente após a chegada da linha amarela do metrô ao bairro.

Segundo a reportagem, um protocolo de cooperação já foi assinado em dezembro por USP, governo estadual e prefeitura, sendo o objetivo inicial deixar pronto até março de 2012 o levantamento parcial patrimonial e o potencial de ocupação.

Questionado por Takahashi e Granjeia, o coordenador da associação de moradores da comunidade São Remo, Givanildo Santos, demonstrou toda sua preocupação ao deixar para os leitores a seguinte pergunta: “Será que eles não querem tirar as pessoas de um terreno valorizado?”.

Cartoon de Frank ironiza o alvo preferido dos executores da justiça em São Paulo.

Embora João Grandino Rodas negue, é melhor deixarmos nossas barbas de molho, pois Alckmin e Kassab tem dado mostras recorrentes de que estão à serviço da especulação imobiliária em São Paulo. Além disso sabemos que se tiverem uma só oportunidade de retirar essa “gente diferenciada” de bairros valorizados para ganhar muito dinheiro, não hesitarão sequer um minuto.

Portanto, embora São Remo e Carmine Lourenço possam parecer comunidades difíceis de serem expulsas da região onde se encontram, as notícias nos dão indícios claros de que estamos no caminho de mais uma “higienização” em São Paulo.

OUTROS TEXTOS RELACIONADOS:

22 Comentários

Arquivado em Jornais, Política, Universidade

O legado da Copa e das Olimpíadas ao Brasil: sem-tetos

Certamente o maior legado que a Copa do Mundo e as Olimpíadas deixarão para o Brasil será o número exorbitante de famílias sem teto. Como temos acompanhado recentemente, as desapropriações já começaram e o rastro de violência, destruição e morte já se faz perceber. Segundo o Portal Popular da Copa e das Olimpíadas, duas mil pessoas já foram despejadas e estima-se que, até o final do processo, 170 mil pessoas tenham seu direito a moradia atingido.

No caso de Pinheirinho, não é de surpreender que São José dos Campos esteja justamente como uma das paradas obrigatórias na rota prevista para o Trem de Alta Velocidade (TAV), que ligará Campinas e São Paulo ao Rio de Janeiro. Não restam dúvidas de que o projeto do TAV (estimado em R$ 33 bilhões) contribuiu para colocar ainda mais pressão ao supervalorizar um terreno com mais de um milhão de metros quadrados em São José dos Campos.

São José dos Campos, uma das paradas na rota proposta para o TAV que liga Campinas ao RJ

Embora o projeto não deva ser concluído a tempo para as Olimpíadas no Rio de Janeiro, já que teve sua licitação adiada para abril de 2012, todo ele foi proposto, justificado à opinião pública e vendido às autoridades esportivas como um grande esforço do Brasil para melhorar a infraestrutura de transporte para os jogos olímpicos, o que faz com que Pinheirinho seja incluído nessa conta dos 170 mil despejados levantados pelo dossiê nacional de violações dos direitos humanos.

A notícia sobre os despejos já realizados no Brasil chamou atenção para o fato de que para os movimentos populares, a maior ameaça de violação do direito de moradia viria em decorrência de grandes projetos urbanos com impactos econômicos, fundiários, urbanísticos, ambientais e sociais. “Além das obras públicas em si, é esperada a proliferação de condomínios de luxo e centros empresariais”. Não por acaso,  o destino que se pretende dar ao terreno desocupado do Pinheirinho é justamente a criação de uma extensão de um centro empresarial que já existe na região. Como bem apontada a reportagem: “as empresas do setor imobiliário atuam para retirar ou isolar populações pobres na região, ou podem até “atropelar” comunidades para se expandir.”

O crescimento econômico brasileiro, no qual a construção civil e propriedade privada desempenham um papel cada vez maior, está por trás de todo esse caso do Pinheirinho, como aponta Rodrigo Nunes em seu artigo para a versão online do jornal britânico The Guardian.  A escolha do Brasil como sede para a Copa do Mundo e Olimpíadas somente acelerou este processo sendo que o Estado brasileiro vem atuando neste processo repassando áreas públicas – inclusive aquelas ocupadas pelos pobres – à iniciativa privada e também concedendo isenções de impostos para financiar boa parte das obras. O estádio do Corinthians, em Itaquera, é só mais um exemplo.

O direito à moradia adequada é sistematicamente violado quando os países se preparam para sediar grandes eventos como Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos. Já havia sido assim em Beijing e também na África do Sul, portanto não seria diferente no Brasil, como reportou às Nações Unidas a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e também relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik. Para ela, na história dos megaeventos esportivos, o propalado legado urbanístico e socioeconômico é a exceção, não a regra. Muito mais frequentes são os casos em que as populações desassistidas se transformam em vítimas de um processo atropelado de remoção e as contas das cidades mergulham no vermelho.

Como relatora da ONU, Rolnik denunciou a violação de direitos humanos ocorrida na reintegração de posse do Pinheirinho e também lançou um “apelo urgente” para que as autoridades interrompam a atuação em São José dos Campos. A relatoria pedirá explicações sobre as ocorrências na região e alertará para violação de direitos humanos ao se usar polícia e confronto na reintegração.

Com a transformação do Brasil em um imenso canteiro de obras, o fato de existirem pessoas vivendo onde se deseja construir acaba se tornando um grande problema, como lembra um post no Blog do Sakamoto. Dessa forma, o autor pondera que para não interromper o caminho do crescimento brasileiro, remove-se, expulsa-se, retira-se sem se importar onde estas pessoas passarão a viver, sendo que a única coisa realmente importante é que elas não atrapalhem a marcha de crescimento do Brasil, seja na construção de casas, escritórios, estradas, hidrelétricas ou estádios de futebol.

Sakamoto lembra bem ao falar que a política higienista no governo de São Paulo, seja na instância municipal ou estadual, não é novidade. Sabemos que empreiteiras e especuladores imobiliários há tempos doam recursos para as campanhas dos políticos, emprestam parentes para cargos públicos, influenciam o cumprimento ou  não de regras como no caso do plano diretor da cidade de São Paulo. Concordo totalmente com ele que a conclusão que podemos chegar a partir disso é que neste país, infelizmente, a Constituição Federal é letra morta, especialmente se levarmos em consideração que a função social da propriedade, conforme descrito na Constituição, não é levada em conta nas decisões judiciais e justamente por isso os direitos das comunidades não são preservados.

O pessoal do Pinheirinho ousou resistir, mesmo sabendo que seriam massacrados, como realmente o foram. O exemplo desta comunidade é paradigmático ao ilustrar muito bem como o Estado vai reagir se alguém se interpor no caminho do Brasil que vai pra frente. Tendo isso em mente, enquanto vejo a apoplexia da maior parte da população brasileira, só posso formular uma pergunta que me deixa extremamente angustiado: quantos Pinheirinhos mais teremos que testemunhar daqui até 2014 e 2016?

Infelizmente, não há como saber quantos haverão, mas sei que muitas desapropriações repletas de violência e morte são certas. Aguardem porque notícias sobre desocupações violentas no Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Natal, Salvador e Manaus são só questão de tempo e quando 2014 chegar, haverão aqueles que ao ouvir o Galvão Bueno se ufanando sobre as qualidades do Brasil e do seu povo, vão estufar o peito e sentir orgulho de ser brasileiro, preferindo ignorar que o verdadeiro legado que estes megaeventos nos deixarão será um número exorbitante de famílias sem-teto e, consequentemente, um enorme rastro de violência, destruição e morte, até mesmo em locais por onde eles não vão passar, como em São José dos Campos.

ARTIGOS, VÍDEOS E SITES RELACIONADOS:

4 Comentários

Arquivado em Esportes, Política