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Sobre o fascismo, os neofascismos e Bolsonaro

por Henrique Soares Carneiro
publicado originalmente em seu perfil do Facebook em 26 set. 2018.

Precisamos Falar Sobre Fascismo

O fascismo é um fenômeno histórico e geográfico localizado. Nasceu com esse nome na Itália, na década de 1920, e levou Mussolini ao poder.

Na Alemanha, na mesma época, crescia o partido nazista. O golpe de Franco, na Espanha, em 1936, impôs um regime que levou o nome do ditador.

Após a derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, praticamente nenhum partido com importância e posições de poder reivindicou abertamente o fascismo e o nazismo.

Na América Latina dos anos de 1970, houve ditaduras militares brutais, mas nenhuma se assumia abertamente como de ideologia fascista. Mesmo Pinochet, talvez o pior de todas estes ditadores, não se dizia um fascista, porque aplicava o projeto neoliberal da escola de Chicago, e, em política econômica, é sabido que o nazi-fascismo foi intervencionista estatal em muitos setores, tendo Hitler chegado mesmo a nacionalizar o sistema bancário.

Ou seja, o fascismo estrito senso é algo bem diferente dos híbridos contemporâneos neofascistas. À exceção de neonazis abertos que, felizmente, ainda são ultraminoritários, ninguém está por aí com cartazes de Hitler ou Mussolini.

Isso quer dizer que não existe mais o fascismo?

Não, pelo contrário!

O que ocorreu foi uma adaptação dos neofascismos a novas identidades, mas o programa permanece o mesmo, e pode ser resumido em:

  1. Política de ódio e ameaça de extermínio dos adversários políticos, da esquerda em geral e dos movimentos sindicais e sociais.
  2. Defesa extremada do mercado e da propriedade privada contra qualquer apelo social de reforma ou diminuição de desigualdades.
  3. Escolha de grupos para serem objeto de campanhas de ódio e preconceito, estigmatizando setores sociais como bodes expiatórios.

O elemento imperialista e belicoso do fascismo europeu não se repete da mesma forma em países periféricos em que governos ditatoriais são expressões claramente fascistas, mas não deixam de existir. Vide as aventuras militares e invasões ocorridas de Suharto, na Indonésia, à Pinochet, no Chile, contra vizinhos.

Disse tudo isso para afirmar que o projeto atual da extrema-direita no Brasil unificado sob o deputado capitão, que conta com uma dezena de generais em seu staff, é sim de natureza fascista, em seu programa e em sua ameaça de violência.

A misoginia, a homofobia, o racismo, o horror à cultura, o anti-intelectualismo e o irracionalismo são marcas centrais desse híbrido ideológico pouco consistente e orgânico, mas não são o que define o seu programa econômico e político que consiste em aplicar o mais brutal plano antissocial pelos meios mais violentos, impiedosos e repressivos.

CARNEIRO Henrique SoaresHenrique Soares Carneiro é professor de História Moderna no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Arquivado em Internet, Universidade, USP

A negação do Holocausto laureada na USP

Publicado originalmente na Revista Carta Maior, por MiriamL, em 13 de Novembro de 2012.


Sean Purdy é professor no Departamento de História da USP

Mesmo que Antonio Caleari não esteja sujeito às leis contra racismo ou as normas éticas da USP, seu livro constitui uma forma de fraude acadêmica e intelectual que nunca deveria ter sido aprovada como Tese de Láurea sem falar de ganhar nota de 10 e ser indicado a um prêmio. Não adere aos padrões básicos e honestos de investigação racional e usa o prestígio e a legitimidade da Faculdade de Direito da USP para avançar uma agenda disfarçada de ódio e racismo. O artigo é de Sean Purdy.

Não fui surpreendido na sexta-feira passada quando eu vi o e-mail de um Antonio Isoldi Caleari na minha caixa de entrada com o assunto “Doação de obra para vosso acervo pessoal”. Recebo e-mails como esse regularmente de alunos, editoras, empresas, etc. Quando abri a mensagem, porém, duas coisas chamaram minha atenção: o título estranho do livro que estava em anexo: “Malleus Holoficarum: o estatuto jurídico-penal da Revisão Histórica na forma do Jus Puniendi versus Animus Revidere” (Chiado Editora: Lisboa, 2012) e o fato que o autor, Antonio Caleari, era aluno do curso de graduação em Direito da Universidade de São Paulo. Na mensagem, o autor escreve que o livro teve por base sua Tese de Láurea de 2011, recebeu nota máxima de 10 e foi indicado ao “Prêmio Jovem Jurista” do Banco Santander. Ele destaca o fato que a tese foi defendida “na mais tradicional Faculdade de Direito do país, o Largo de São Francisco”.

Normalmente, eu apagaria um e-mail como esse, mas o título “Malles Holoficarum” me interessou e decidi dar uma olhada. Lendo a dedicação na página 5 já entendi do que trata o livro: uma defesa do negacionismo do Holocausto. A dedicação diz na integra: “Dedico esta obra, na qual se efetiva um ato de resistência civil contra a tirania representada pelo Malleus Holoficarum, a todos os inspiradores mártires da Revisão Histórica, cuja luta há de transcender em idealístico e perene legado.”

Confirmei através de pesquisas que realmente a Tese de Láurea desse aluno Antonio Caleari recebeu a nota máxima de 10 e foi indicado ao prêmio de Santander pelo orientador, Professor Doutor Pierpaulo Cruz Bottini, mas não ganhou. Fiz mais pesquisas sobre Antonio Caleari e descobri que ele também é moderador e um dos principais autores do blog http://www.inacreditavel.com.br.

No lado do título do blog, há citações destacadas que mudam periodicamente. Nos últimos dias já vi duas citações de Adolf Hitler, uma de Mussolini e uma da Bíblia. O primeiro post no blog no dia 13 de novembro, postado no dia anterior, é intitulado “A Luta de S.E. Castan contra a Mentira do Século”, ou seja, o holocausto, e consiste de um transcrição de uma conferência ministrada em Porto Alegre em 1991 pelo Seigfried Ellwanger Castan, editor e distribuidor na época de livros negacionistas. Em 2001, Castan foi condenado para atos contra a “dignidade humana” pelo Superior Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, uma decisão confirmada pelo STF em 2003.

Outros artigos recentes no blog versam sobre as ameaças ao direito de liberdade de expressão, as habilidades teóricas no pensamento econômico de Adolf Hitler, clipes de Youtube do compositor Wagner e numerosos artigos de negacionistas brasileiros e internacionais questionando a existência do Holocausto como fato histórico. Até tem um artigo dos moderadores sobre uma reclamação de racismo contra o blog que foi arquivado pelo Ministério Público de São Paulo em 2009. No post de 29 de fevereiro de 2012 divulgando a publicação de “Malleus Holoficarum…” entre os mais de 70 comentários elogiando o autor, Caleari comentou que ele teve que apagar vários comentários críticos, adicionando que ”Aos talmudistas de plantão: seus dias aqui acabaram”.

Conforme com uma ampla literatura sobre negacionismo, os negacionistas desse blog são cuidadosos na sua linguagem, não ferindo as leis diretamente, mas, intelectualmente e politicamente alimentando racismo, antissemitismo e ódio. O Ministério Público pode não achar que o blog incita preconceito de raça ou credo, mas qualquer pessoa compromissada com a luta contra racismo sabe muito bem do que se trata nesse blog de alguém que se apresenta orgulhosamente como aluno da Universidade de São Paulo.

No livro, Caleari nunca enfrenta a exaustiva evidência do Holocausto. A estratégia dele é argumentar que as opiniões dos negacionistas são igualmente legítimas quanto as dos historiadores profissionais que não negam o Holocausto: “Revisionismo do Holocausto é tão legítimo como o revisionismo de qualquer outro período da História. Trata- se de um debate que ocupa tão somente o plano intelectual e que não preenche os requisitos para pautar a política criminal do estado.” (p.129)

Ele faz esse “argumento” na seguinte maneira: 1) por uma breve análise da historiografia contemporânea (pp.117-132) enfatizando que a própria profissão aceita que existem versões diferentes sobre história.

2) através de uma análise de historiadores críticos (na maioria brasileiros e alguns estrangeiros traduzidos para o português) de negacionismo e dos apoiadores do Projeto de Lei Federal nº 987 que criminalizaria negacionismo do Holocausto (pp.133-173). Aqui ele não confronta a evidência do Holocausto, mas acusa os críticos de negacionismo de terem opiniões diferentes sobre as causas, natureza, consequências, importância e simbolismo do Holocausto, concluindo que se existem tantas divergências entre historiadores, portanto negacionismo é também intelectualmente legítimo.

3) Caleari junta autores diversos (da esquerda, direita, sionistas, antissionistas, judeus, religiosos cristãos, etc.) sobre assuntos diversos como liberdade de expressão, racismo e sionismo, argumentando novamente que a diversidade de opiniões sobre vários aspectos “relacionados” ao Holocausto significa que negacionismo é somente mais uma opinião legítima dentro de um debate intelectual amplo.

A “lógica” dele aqui é a seguinte: se um judeu pode criticar o estado de Israel por suas políticas em relação aos palestinos, uma pessoa pode negar que o Holocausto aconteceu. Então, autores como Rosa Luxemburgo sobre direito de liberdade de expressão e Norman Finkelstein e outros judeus da esquerda sobre a “indústria de Holocausto”, são juntados para mostrar que negacionismo é somente mais um argumento autêntico. (pp.208-211)

Caleari chama negacionismo, o termo usado por historiadores profissionais, de Revisão Histórica e seus proponentes, revisionistas. Suas críticas, historiadores legítimos, ele chama de afirmacionistas ou antirevisionistas. A escolha dessas palavras não é por acaso: os negacionistas não gostam da palavra negacionismo, preferindo usar Revisão Histórica pois eles defendem negacionismo como a legítima prática de revisionismo histórico.

Dentro de historiografia, existe uma legítima prática de revisão histórica. Basta mencionar novas interpretações de Canudos ou da decisão de lançar a bomba atômica contra Japão em 1945. Que historiadores estão constantemente envolvidos em revisão histórica é correto. Mas a revisão histórica legítima não é preocupada com a existência de fatos e eventos, mas sim com suas causas, natureza e consequências. O próprio Holocausto pode ser legitimamente reinterpretado por novas gerações em relação às suas causas, natureza e consequências. Historiadores legítimos debatem, por exemplo, o papel individual de Hitler no Holocausto, as responsas da comunidade judaica e outras comunidades à persecução e a relação entre racismo e capitalismo. O que historiadores legítimos do Holocausto não fazem é negar os fatos do Holocausto, um dos eventos mais documentados e comprovados na história do século XX. Negacionismo se baseia na ideia de que o Holocausto não aconteceu, de que não houve um plano sistemático de exterminar os judeus de Europa e de que muito menos de seis milhões de judeus (além de milhões de outros) foram mortos pelos nazistas nos anos 1930-1940.

Caleari fere claramente os padrões de uso de evidência e argumentação da análise racional acadêmica não só da profissão de história, mas também de análise social científica e jurídica. Apesar de todas as fontes utilizadas de “todos os lados”, ele nunca confronta os erros, contradições, afirmações inconsistentes e mentiras de negacionismo do Holocausto, distorcendo fatos e argumentos para conformar com uma ideologia e agenda política que ele mais abertamente mostra no seu blog não- acadêmico. E negar o Holocausto é justificar o extermínio em massa de judeus durante o Holocausto, alimentando racismo hoje em dia. Como o historiador Pierre Vidal-Naquet escreve, negacionistas são “assassinos de memória”.

Mesmo que Caleari não esteja sujeito às leis contra racismo ou as normas éticas da USP, seu livro constitui uma forma de fraude acadêmica e intelectual que nunca deveria ter sido aprovada como Tese de Láurea sem falar de ganhar nota de 10 e ser indicado a um prêmio. Não adere aos padrões básicos e honestos de investigação racional e usa o prestígio e a legitimidade da Faculdade de Direito da USP para avançar uma agenda disfarçada de ódio e racismo.


Poucos dias depois, ao ler o texto elaborado pelo professor Sean Purdy e publicado tanto na Carta Capital, quanto no blog de Luís Nassif, Antônio Isoldi Caleari preparou uma resposta às críticas feitas pelo professor, publicando-as em seu blog.

Abaixo segue a resposta na íntegra.

Resposta às críticas do Profº Sean Purdy

por Antonio Caleari

Inicio este contraditório às acusações e críticas recebidas do Profº Sean Purdy, o qual fez  veicular sua opinião sobre meu recém-lançado livro, “Malleus Holoficarum”, no renomado portal de notícias Carta Maior, primeiramente, esclarecendo algo fundamental sobre a minha Tese de Láurea, a qual deu origem ao trabalho publicado ora em evidência. Tal pressuposto ao polêmico debate sobre uma determinada cadeia de eventos fulcrais à História Contemporânea é estabelecido na clara demarcação do objeto científico de análise e a proposta metodológica que foram por mim referenciados no desenvolvimento de todo o processo redacional.

Já  no subtítulo da obra (notadamente o delimitado  estatuto jurídico-penal), aliado a incontáveis outras passagens (no corpo do texto, badana e contracapa, em que faço questão de frisar exaustivamente o caráter da minha pesquisa), pode-se, de plano, afastar a validade do ponto no qual afirma o docente que eu “nunca enfrento e confronto a exaustiva evidência do Holocausto”. Não o faço, no livro, obviamente – e não imaginaria ter de reiterar aspecto tamanho manifesto –, porque o caminho trilhado (uma vez observado o fenômeno social revisionista) se circunscreveu à estrita parcela juridicamente relevante dos acirrados debates sobre este tema que suscita as mais acaloradas paixões.

Em outras palavras, propus-me não a confrontar os argumentos propriamente historiográficos  acerca do mérito factual sobre a ocorrência (ou não) de um Holocausto Judeu, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Coube ao projeto acadêmico apresentado, aceito e executado, tão somente avaliar, sob a ótica do Direito (especialmente da disciplina juscriminal), se é legítima a ordenação de um delito opinião, com base em um dado período da história recente.  Daí a oposição entre o direito de punir do Estado (Jus Puniendi) e o intuito revisionista (Animus Revidere).

Tratou-se de, a partir daquilo que concebi como  metadiscussão,  ou seja, o exame prévio e independente do mérito da causa (a discussão voltada para sua própria legitimidade discursal), pautar uma questão de extrema relevância  atualmente, e que envolve certa intersecção entre a História e as Ciências Jurídicas: a pretensão de que a versão sobre um fato histórico seja tutelada pelo arcabouço legal do Estado.

Com base nessa questão inicial pude abalizar teoricamente o trabalho, no âmbito dos princípios garantistas norteadores do Direito Penal (o conceito material de delito; aquilo que justifica a intervenção da  ultima ratio estatal na sociedade, para além do conceito formal de delito). Seguiu-se à formulação do problema de forma aplicada ao Projeto de Lei Federal  nº  987/07 e à legislação internacional correlata (Direito Comparado). Neste específico ponto do trabalho, tratei ainda de descrever a principal teoria  aceita pela Doutrina para a conformação de uma referência à legitimação da intervenção penal: a teoria do bem jurídico-penal.

Metodologicamente, após o compêndio da literatura antirrevisionista e o exame de seus  específicos  argumentos à incriminação do “negacionismo”,  estabeleci quatro hipóteses de bens jurídico-penais tutelados (hipóteses de trabalho), pertencentes ao conceito material do delito de negação do Holocausto. Ato contínuo, submeti essas hipóteses à sua verificação de compatibilidade com os princípios constitucionais precípuos à orientação da atividade legislativa  (a crítica propriamente dita à legitimidade da criminalização da negação do Holocausto). Terminei, então, por analisar um noticiado e mui emblemático caso de nossa jurisprudência recente: o “caso Ellwanger” (HC 82.424, julgado pelo STF).

A chancela acadêmica que recebi na FD-USP (Largo de São Francisco) se deveu unicamente à minha criteriosa observância dos parâmetros científicos que derivaram em argumentos jurídicos, dos quais me utilizei para criticar a criminalização da negação do Holocausto, sob a já citada proposta metadiscursiva, e jamais tendo ocorrido uma falseada laureação ao mérito da teoria revisionista (ao contrário da espalhafatosa manchete no site de Luiz Nassif: “A negação do Holocausto laureada na USP”). O resultado foi a avaliação de meu trabalho com nota máxima e posterior indicação ao “Prêmio Jovem Jurista”, apenas cuja premiação é feita pelo Santander, diferentemente do que  fora  maliciosamente colocado, pois a seleção final dos premiados é feita por uma banca de professores da faculdade, e a indicação ao certame pelo professor-orientador.

Feitas estas elucidações  preliminares  sobre o  real  objeto da minha pesquisa, passo à refutação das demais críticas promovidas pelo referido docente (que, infelizmente, não dedicou uma linha sequer à abordagem do real objeto da pesquisa: a legitimidade das leis criadas para aprisionar os revisionistas).

No que tange às alegações constantes no item numerado 3º em seu artigo, cumpre informar que parte considerável dos “autores diversos” elencados no subcapítulo 4.6 do meu livro (item “Esquerda, direita e o peculiar fenômeno  ‘self hating’”) não  é composta apenas dos críticos de “aspectos relacionados ao Holocausto”, senão alguns deles exemplos cabais de que o “negacionismo” não é e nunca foi um discurso exclusivo da ignóbil “extrema-direita nazifascista”, muito pelo contrário.

Paul Rassinier, citado nesse contexto, fora um  notório comunista membro da resistência antinazista francesa e ele próprio tivera uma experiência como interno nos campos de concentração de Buchenwald e Dora. Passada a guerra, ele, que também ocupara uma cadeira no parlamento de seu país, inaugurou  – por assim dizer  – o movimento revisionista na  Europa, contestando vários dos testemunhos de outros sobreviventes dos campos de concentração e, especialmente, a alegação do emprego de câmaras de gás como arma do suposto crime de extermínio planejado. É autor dos primeiros livros revisionistas de maior expressão e, por sua resoluta militância “negacionista”, sendo proveniente de grupos políticos de esquerda e um dos fundadores desse movimento, Rassinier é uma das maiores evidências de improcedência da exclusiva ligação feita entre o Revisionismo e a “extrema direita”.

Cito ainda outros nomes, como os judeus revisionistas do Holocausto, Roger Dommergue Polacco de Menasce, David Cole, Joseph G. Burg, Jacob Assouz, Gabor Tamas Rittersporn, Jacob “Coby” Lubliner,  Jean-Gabriel Cohn-Bendit,  Claude Karnoouh e Bezalel Chaim. A  lista de revisionistas inclui, ainda,  demais comunistas (como Pierre Guillaume, Roger Garaudy, J. Myrdal e Anders Mathisen),  “anarco-marxistas”, “nacional-anarquistas”, liberais, políticos libertários, outros próprios ex-internos de campos de concentração, e por aí vai. Tudo devidamente omitido e distorcido pelo Profº Sean Purdy, a fim de que parecesse existir um meio heterogêneo apenas no que compete à exclusiva crítica ao Estado de Israel, e não igualmente no seio revisionista do Holocausto. Seriam  os supracitados, paradoxalmente,  esquerdistas  e  judeus  “nazistas”, por também eles  negarem a ocorrência do Holocausto, nos exatos termos que nos são informados?

Esqueceu-se de dizer o Profº Sean Purdy que, dentre os mártires revisionistas aos quais dediquei a obra  – sem qualquer infundado constrangimento – se encontravam personalidades dos mais variados perfis pessoais (conforme já visto e  de forma mais detalhada constante no livro). O mesmo vale, igualmente, às frases cirurgicamente extraídas do banco de citações do portal revisionista com o qual eu colaboro (sendo um dos membros da equipe e não respondendo pela íntegra do que lá está contido): sim, há citações de Hitler, Mussolini e da Bíblia. Mas  há também  citações de Monteiro Lobato, Orwell,  Nietzsche, Ludwig von Mises, Merleau-Ponty, John Kenneth Galbraith, Abraham Lincoln, Schopenhauer, Galileu Galilei, Albert Einstein, Dalai Lama e até Tim Maia! Isso, é claro, não foi mencionado.

Outros dois paradoxos  “afirmacionistas” típicos, em que incidiu o Profº Sean Purdy, eu já havia previamente adiantado e descrito no “Malleus Holoficarum”, em subcapítulo reservado para isso. O primeiro deles é “o paradoxo da exceção de ilegimidade”, quando alega existir “uma legítima prática de revisão histórica”,  casuisticamente excepcionada quando o assunto é o Holocausto Judeu (em consonância ao que já havia defendido Elie Wiesel, para o qual deveria constar na Constituição estadunidense uma exceção à norma que garante a liberdade de expressão: “Sou um grande admirador da Primeira Emenda, mas acho que ela deveria comportar uma exceção em relação ao holocausto” – em entrevista para a revista Veja, edição 2.112, 13 de maio de 2009).

O segundo deles é o “paradoxo de equiparação da negação do Holocausto à sua justificação”,  à medida que afirma que “negar o Holocausto é justificar o extermínio em massa de judeus durante o Holocausto”. Questão de natureza lógica muito óbvia (contudo desvirtuada) é que tais pessoas imbuídas da perspectiva revisionista não endossam a suposta ocorrência desses fatos, simplesmente porque estão convencidas de outra versão histórica totalmente oposta àquela majoritariamente difundida. Não se pode, por meio de uma irrazoável presunção absoluta de má-fé (e por mais que suas teorias possam ser disparates e  estivessem de fato erradas), acusar os revisionistas de absurdamente defenderem  aquilo que eles sequer acreditam ter acontecido, sob  panorama histórico diametralmente oposto à  difundida  imagem de barbárie associada  à história “oficial”, propagandeada no pós-45.

Concomitantemente à veiculação de seu artigo crítico ao meu livro, o Profº Sean Purdy também fez circular, pela rede social Facebook, uma nota de indignação com o e-mail em que eu, em termos absolutamente cordiais, havia enviado a ele e a outros professores, no qual fiz a doação de um exemplar digital da obra, dentro de minha franca perspectiva em submeter a pesquisa à crítica (impessoal) da comunidade acadêmica.

Qual não foi a minha surpresa quando, além de inúmeras injúrias e calúnias difamatórias (fraude acadêmica e racismo)  – as quais, muito em breve, dar-lhe-ei a possibilidade de comprovar em sede das instâncias judiciais Cível e Criminal –, veicula informações pessoais minhas, absolutamente irrelevantes no caso em tela, com o único fim plausível de fomentar alguma medida repreensiva em meu ambiente de trabalho,  o qual fora por ele  risivelmente identificado como Câmera (SIC) Municipal de São Paulo (não sabendo, pois, diferenciar uma máquina fotográfica do Poder  Legislativo paulistano). É a falácia do  argumentum ad hominem levado às suas últimas consequências de incitação pessoal contra quem ousou se levantar contra a ditadura do “politicamente correto”.

A história do  Revisionismo, nas últimas décadas, têm nos mostrado que são inúmeros os casos de representantes desse movimento que são coagidos de todas as formas possíveis, chegando mesmo ao ponto das ameaças pessoais, perseguições  no meio profissional, agressões físicas e  inclusive o assassinato (vide Robert Faurrison e  François Duprat, por exemplo).

Ao Profº Sean Purdy, como para quaisquer outros que acreditam poder me intimidar com toscas insinuações ou mesmo ameaças diretas, fica o alerta: eu não tenho medo de expor as minhas ideias! E, além do mais, faço registrar neste espaço, em alto e bom tom, um desafio público a qualquer interessado em participar de um debate aberto sobre o tema, seja no plano da metadiscussão jurídica sobre o Revisionismo, objeto da minha pesquisa materializada no livro “Malleus Holoficarum”, ou mesmo o aprofundamento sobre o mérito factual intrínseco ao objeto histórico que conhecemos como Holocausto Judeu.

Não é de todo inexplicável, porém, que se erija um “bloqueio mental” impenetrável à razão e até mesmo uma agressiva postura, quando o que está em questão é um momento bastante sensível do passado recente,  e  do qual estamos todos temporalmente  ainda muito próximos, além de ideologicamente determinados pelos seus desdobramentos. O Revisionismo, em muitos dos casos, desconstrói noções de “bem e mal” já consolidadas e inculcadas pelo atual Sistema dominante; e isso naturalmente há de resultar em uma miríade de inconformismos. O próprio professor reconhece “já ter entendido do que trata o livro” pela mera leitura de sua dedicatória; aquilo que eu já tinha anteriormente definido como “desvalor em função do resultado” (i.e., a condenação apriorística, com base nas projetadas conclusões, sem passar pelo desenvolvimento da ideia).

Termina  aquela nota o professor dizendo que “está enviando as informações para o DCE, Adusp, e Sintusp”, como se uma tese acadêmica reconhecida cientificamente inconspurcável pudesse ser “derrubada” na base da pressão dos indignados.

Mas,  afinal, que relação possuem  tais instituições de  classe e representação estudantil com o  julgamento do  mérito acadêmico de uma publicação já submetida à avaliação das pessoas competentes, na própria USP? Estaria sugerindo o Profº Sean Purdy que deva existir uma “instância superior controladora” que, a despeito da competência originária dos professores da Faculdade de Direito, tenha a prerrogativa de intervir quando alguma pesquisa contrariar o pensamento majoritário e afrontar a sacrossanta “verdade oficial”?

Que autoridade acadêmica detém o Profº Sean Purdy, na seara jurídica, pra vir dizer, por meio de uma crítica superficial, tecnicamente  desqualificada e com conclusões precipitadas, que o meu trabalho foi bem avaliado, “por mais incrível que pareça”, “nunca deveria ter sido aprovado” e que “supostamente se trata de uma obra jurídica”? Alguém que solta pérolas como “Superior Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul” (SIC), “reclamação arquivada pelo  Ministério Público” (a decisão de arquivamento é pronunciada  pelo juízo competente, e não pelo MP, que sequer tem este poder, ex officio), além de impropriedades básicas no domínio do vernáculo, resultando em um texto de uma precariedade ímpar.Falseia, além disso,  descaradamente,  uma passagem na qual eu teria dito que tive de “apagar vários comentários críticos”, quando, naquela circunstância muito específica, na verdade (consta registrado), declarei que iria apagar os “comentários tão somente agressivos e improdutivos”, marcados por “palavrões e provocações baratas” (alguns que inclusive continham ameaças à minha integridade física).

Aditivamente, alega o professor que a dita “revisão histórica legítima não é preocupada com a existência de fatos e eventos”. Ora, que tremenda insensatez! Na própria historiografia do Holocausto houve contradição interna entre autores, v.g., sobre a existência de câmaras de gás no território do Altreich (Martin Broszat e Simon Wiesenthal versus Eugen Kogon, Adalbert Rückerl e Hermann Langbein), diferença esta que põe em questionamento inúmeros testemunhos (até mesmo utilizados no Tribunal de Nuremberg) que são desmentidos, hoje em dia, pela própria administração do campo de Dachau, onde já se reconhece oficialmente que não houve gaseamento naquele sítio.

Uma vez que surjam provas e evidências adicionais de que um fato possa não ter ocorrido, é obrigação de o historiador considerar o novo cenário e revisar o atual estágio do conhecimento sobre dada matéria.  E este é o espírito científico, de uma forma geral, nas mais diversas áreas. Quantas não foram as verdades de ontem, que hoje  não são mais aceitas?

Em última análise, vale destacar que a grande controvérsia, de proporções internacionais, decorrente da crítica à legitimidade da criminalização da negação do Holocausto, é uma pauta que não pode ser menosprezada ou mesmo reprimida, tendo em vista sua enorme pertinência na atualidade e a demanda  latente de que este conjunto temático seja passado à limpo, sem dogmatismos e inapropriadas intervenções inquisitoriais na livre circulação de ideias. O que está em jogo aqui não é esta ou aquela agenda política, e sim um verdadeiro marco na política criminal brasileira: a possibilidade de exercício da jurisdição  na forma de uma instância formal  de controle metodológico e de mérito acadêmico (a apropriação da História pelo Direito).

E vale aqui  ressaltar: a despeito do enfoque temático circunstancial (a que conceituei Revisionismo  stricto sensu,  concentrado na discussão da  Shoá), não  são comprometidas as possibilidades futuras (e presentes), muito mais amplas (Revisionismo lato sensu) do que aparenta a limitada oposição entre “negadores”  versus defensores da memória do fato em destaque. É dizer que, hoje, a altercação corresponde à alegada política genocida, e amanhã poderá ser qualquer outra “verdade histórica”, consagrada com a insígnia dogmática e proibitiva de sua revisão (adaptação analógica com o Direito Processual a que conceituei “trânsito em julgado de fatos históricos”).

Vale lembrar a legislação da Turquia que  – absurda antinomia internacional  –criminaliza a opinião pela ocorrência do genocídio armênio, de forma justamente oposta ao ordenamento da França, onde  a  negação do  mesmo caracteriza  o delito de opinião.Ironicamente, o historiador britânico Bernard Lewis, filho de pais judeus, fora condenado nopaís  gaulês  pela  contestação  da história do genocídio armênio, sem o pretextodiscriminatório no elemento subjetivo do tipo penal.

Compreendem estágios distintos as críticas ao pejorativamente classificado “negacionismo”. Alguém que possa anuir com a liberdade de manifestação das ideias revisoras do Holocausto Judeu não necessariamente está referendando o conteúdo expresso nessas teses. Conforme cada caso – quadro gradativo, assim sendo – pode-se estritamente admitir o direito de publicização das mesmas.  Vide, por exemplo, Noam Chomsky e o brasileiro Dennison de Oliveira, além de inúmeros outros, que defendem a liberdade de expressão do Revisionismo, sem serem revisionistas.

Deveras apropriado,  neste momento,  aquele notório aforismo de Voltaire: “posso não concordar com nenhuma das palavras  que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

É passada a hora de que os juristas e historiadores profissionais, sem prejuízo da sociedade como um todo, tomem parte nesta discussão principiológica, que vai para muito além do presente embate situado em um foro muito restrito.  Nesse sentido, vejo como muito positiva a implicação da presente contenda, que vai fortalecer a participação cívica no trâmite do PL 987/07.

Nada mais ideal do que se possam formar os respectivos juízos autônomos, com base na consulta direta às fontes de informação, sem que se deixe levar por intermediários,ditos “formadores de opinião”, pouco comprometidos com a honestidade intelectual e que apenas pretendem, a priori, desqualificar qualquer coisa que afronte o establishment.

P.S.: vergonhosamente, os dois principais veículos de mídia (Carta Maior e Luis Nassif) que deram vazão às impropriedades do Profº Sean  Purdy, não tiveram a ética jornalística de divulgar o presente contraditório, sob argumentos pífios e/ou o puro silêncio. A Carta Maior, por meio de seu Editor Chefe, Marco Weissheimer, entrou em contato comigo, num primeiro momento, pedindo que eu enviasse meu texto, implicitamente, pois, reconhecendo o direito de resposta. Após a “análise” do mesmo, decidiram não publicá-lo, restando aí comprovada a hipocrisia: pelo teor da nota divulgada, depreende-se que já não iriam me dar espaço, de um jeito ou de outro. Mas, se esperaram primeiro receber o conteúdo dessa resposta, para depois soltar a nota, resta evidente  que  o crivo não foi o fato de eu tê-la redigido e, por isso, não “abrir seu espaço” para o outro lado, e sim porque verificaram a profunda contundência dos meus argumentos, deixando-os (os editores) numa situação bastante complicada (senão não haveria por que terem simulado um canal de diálogo, num primeiro momento).

Fizeram um cálculo apostando que o teor da resposta ser-lhes-ia favorável, no final das contas, mas surpreenderam-se com a qualidade da mesma, optando por voltar atrás. Tratouse de mera minimização dos danos, controle sobre a repercussão de um tema polêmico que deveria, agora, ser abafado a todo custo, sepultando-se todas as novas indagações que suscitei. Limitaram as dimensões do debate às habituais superficialidades e injúrias, também conhecidas como “porretes linguísticos” (antissemitismo, neonazismo, etc).

Entre o dano à sua imagem em censurar o meu texto, e o dano muito maior à estrutura de seus dogmatismos, preferiu o “Portal da Esquerda” a primeira opção.

Hoje,dia 18 de dezembro de 2012, um grupo de alunos da Faculdade de Direito da USP, preparou um Ofício, a ser protocolado junto a dita faculdade, solicitando que “a Tese de Láurea do graduando Antonio Isoldi Caleari seja temporariamente impugnada, até que uma comissão composta por docentes e discentes e especialmente constituída para analisar o assunto emita seu parecer sobre o conteúdo do trabalho acadêmico e sobre a eventual utilização indevida dos nomes e reputações desta Faculdade e da Universidade de São Paulo para a disseminação de ideias contrárias aos seus valores, suspendendo-se, consequentemente, a colação de grau do graduando marcada para o próximo dia 19 de dezembro de 2012, sem prejuízo de outras medidas educativas e pedagógicas a serem adotadas”.

Abaixo segue o ofício na íntegra.

Exmos. Senhores Diretor Antônio Magalhães Gomes Filho, Professor Associado e Presidente da Comissão de Graduação Heleno Taveira Torres, e Professor Titular e Chefe do Departamento de Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia Miguel Reale Junior,

Há poucas semanas, as comunidades acadêmicas da Universidade de São Paulo e da Faculdade de Direito foram surpreendidas com a notícia veiculada pelo jornalista Luis Nassif (Anexo I) de que a Tese de Láurea do graduando Antonio Isoldi Caleari (nº USP 6487234), protocolada junto ao Departamento de Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia desta Faculdade, possuiria conteúdo contrário a alguns dos valores mais basilares e defendidos ao longo da história desta Faculdade. Embora referida Tese de Láurea tenha se proposto a analisar o debate acerca da criminalização da negação da ocorrência do Holocausto pretendida pelo Projeto de Lei Federal nº 987/07 em trâmite na Câmara dos Deputados, acredita-se que determinados trechos do trabalho acadêmico em questão, notadamente o seu prefácio e dedicatória, contenham afirmações preconceituosas, discriminatórias, incitadoras do ódio contra judeus e negacionistas à ocorrência do Holocausto. As suspeitas de que tal Tese de Láurea possua o mencionado conteúdo condenável não são sem fundamento, tendo em vista que publicações do graduando Antonio Isoldi Caleari em resposta ao Luis Nassif (Anexo II), em artigo previamente publicado na internet (Anexo III) e, em especial, em seu blog (Anexo IV), contêm referências extremamente nefastas e discriminatórias com relação a judeus, ao mesmo tempo simpáticas ao nazismo e a Adolf Hitler. Nesse sentido, imbuídos dos valores mais elementares defendidos e perseguidos por aqueles que já passaram pelos bancos desta Faculdade, na certeza de que nenhuma forma de preconceito e discriminação jamais poderá emergir desta academia e em observância aos princípios da “promoção humanística”, do “pluralismo” e da “cidadania” que devem pautar as atividades das universidades públicas no Brasil, solicitamos que a Tese de Láurea do graduando Antonio Isoldi Caleari seja temporariamente impugnada, até que uma comissão composta por docentes e discentes e especialmente constituída para analisar o assunto emita seu parecer sobre o conteúdo do trabalho acadêmico e sobre a eventual utilização indevida dos nomes e reputações desta Faculdade e da Universidade de São Paulo para a disseminação de ideias contrárias aos seus valores, suspendendo-se, consequentemente, a colação de grau do graduando marcada para o próximo dia 19 de dezembro de 2012, sem prejuízo de outras medidas educativas e pedagógicas a serem adotadas. Ademais, solicita-se que cópias da Tese de Láurea do aluno Antonio Isoldi Caleari protocolada junto ao Departamento de Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia desta Faculdade sejam disponibilizadas a quaisquer interessados, em vias impressas e eletrônicas, no prazo máximo de vinte e quatro horas.

Arcadas, 18 de dezembro de 2012.

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O Integralismo e a introdução de estratégias inovadoras de mobilização doutrinária (1932-1937)

“A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. (…) Compreender a era nazista da história alemã e enquadrá-la em seu contexto histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar:  o difícil é compreender.”

Eric J. Hobsbawn
A Era dos Extremos: o breve Século XX (1914-1991)

INTRODUÇÃO

Em tempo de campanha eleitoral para os cargos eletivos municipais, sabemos que os principais partidos políticos vão mobilizar mundos e fundos (legais ou não) para veicular a imagem de seus candidatos nos principais meios de comunicação, tais como jornais, revistas, rádio, cinema, televisão e internet. Isso para não mencionar as tradicionais exibições de logos, camisetas, bandeiras e toda espécie de publicidade em obras públicas, hospitais, eventos esportivos, musicais e, até mesmo, cerimônias religiosas.

Assim, depois de falarmos sobre o crescimento da extrema direita na Europa e das políticas xenófobas e racistas de certos partidos políticos daquele continente, o Hum Historiador traz um breve ensaio que tem como objeto a Ação Integralista Brasileira e o uso de estratégias inovadoras de mobilização doutrinária introduzidas por este grupo na corrida eleitoral para a campanha presidencial de 1937, que pretendia, via eleitoral, colocar no poder seu “chefe máximo”, Plínio Salgado (1895-1975).

No Brasil, a utilização de tais estratégias de propaganda política começa logo após a Revolução de 30, que acabou por desbancar a República Velha, dominada pelas elites paulista e mineira, e colocou em seu lugar o gaúcho Getúlio Vargas. Foi justamente neste contexto que surgiu a Ação Integralista Brasileira (A.I.B), um grande partido de massa, de cunho nacionalista, autoritário e totalitário que introduziu estratégias inovadoras na mobilização doutrinária de sua militância através dos veículos de comunicação da época em questão.

É importante deixar claro que o texto a seguir não pretende entrar no mérito se o Integralismo é, de fato, um movimento de tipo fascista extra-europeu ou mero mimetismo ideológico. Busca apresentar a utilização de novas formas de mobilização doutrinária, tornadas possíveis a partir da revolução tecnológica – em especial a dos meios de comunicação – e influenciada por movimentos autoritários/totalitários surgidos na Europa no período entreguerras (1918-1939).

OS NOVOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DA POLÍTICA EM ESPETÁCULO

A Primeira Guerra Mundial está sendo reinterpretada por seus estudiosos que passaram a destacar a grande expansão do operariado industrial em função da revolução científico-tecnológica. Tais interpretações também destacam o desenvolvimento de várias formas de associação, organização, conscientização e construção de plataformas políticas radicais e projetos de transformação de toda a ordem social e econômica modelada pelas desigualdades, pela exploração e pelas injustiças do sistema capitalista.

Assim, em texto intitulado “O Renascimento modernista de São Paulo na década de 20”, Nicolau Sevcenko salienta a articulação de dois tipos de movimentos:

  • O movimento operário, que acabou se articulando para além das fronteiras e compondo programas de ação coordenada cujas tônicas eram a fraternidade, o internacionalismo, o pacifismo e o socialismo.
  • A direita conservadora, que respondeu financiando agitadores e partidos integristas, sustentando pela ação direta e repressiva o nacionalismo agressivo, o militarismo, o centralismo, o anti-socialismo e o anti-semitismo.

Dessa forma, a Primeira Guerra Mundial ganha uma utilidade, segundo a visão dos partidos emergentes após o seu término:

“Se a guerra servira para alguma coisa, proclamavam as novas lideranças dos partidos emergentes, foi para enterrar de vez a velha Europa liberal. Sobre as cinzas da guerra se haveria de construir a ‘Nova Ordem’: integrista, centralista, militarista, nacionalista e intolerante[1].”

Com as novas técnicas de comunicação de massa, a política se transforma em espetáculo e há, em contrapartida, a politização da estética:

“A versatilidade e a capacidade de sedução dos novos meios de comunicação social, associados às técnicas publicitárias, transformariam a política em espetáculo e politizariam a estética. A celebração da nova civilização industrial pelas formas do art-decó e pela linguagem truncada da cacofonia publicitária selariam a preponderância da nova ortodoxia do pós-guerra: o modernismo[2].”

Segundo Hobsbawn, “o velho liberalismo estava morto, ou parecia condenado. Três opções competiam agora pela hegemonia intelectual-política[3].”

  • Comunismo marxista;
  • Capitalismo reformado, sem a crença na otimização de livres mercados e ligado a social democracia não comunista;
  • Fascismo, que havia sido transformado pela grande depressão em movimento mundial.

A A.I.B. COMO REAÇÃO DA ELITE PAULISTA

A reação da elite vem através de “um grande processo de investimento, numa compensação simbólica, na forma de grandes superproduções no Teatro Municipal, envolvendo as principais famílias como patronos e até como artistas que participavam das encenações[4].”

Dentro desta reação, a própria Semana de Arte Moderna, realizada em 1922 no Teatro Municipal, está ligada a este contexto de tensão entre a elite paulista e as organizações do movimento operário, de um lado, e a ameaça dos empresários e industriais estrangeiros de outro. Sevcenko relembra que a Semana foi propiciada pelos esforços combinados de Washington Luís (governador do Estado) e Paulo Prado (filho do mais rico cafeicultor paulista).

Deste clima de instabilidade social do pós-guerra, emerge “uma ideologia nacionalista conservadora e autoritária disposta a bloquear quaisquer ameaças de mudança social[5].”

Abaixo esquematizamos em poucos tópicos o contexto econômico e ideológico que propiciaram a ascensão da A.I.B. justamente no período entreguerras:

Domínio estrangeiro da economia paulista:

No pólo industrial:

  • Expansão do operariado
  • Grandes greves em 1917, 1918 e 1919
  • Nova camada de industriais (catálogo da 1ª Grande Exposição Industrial de São Paulo)

No pólo agrícola

  • Nova camada emergente de imigrantes estrangeiros passam a dominar a agricultura.
  • Donos das áreas mais prósperas/férteis do Estado no extremo oeste paulista.

Plano econômico

  • Esgotamento da economia primário-exportadora apoiada na cafeicultura.
  • Processos de urbanização e industrialização afetam a composição social
  • Ampliação da classe operária
  • Diversificação da classe média

Plano ideológico

  • Erupção do nacionalismo cultural e econômico.
  • Revolução estética (modernismo).
  • Exaltação do civismo (Liga da Defesa Nacional).
  • Renovação na Igreja Católica (integrismo).

Assim, como bem nos lembra Hélgio Trindade, famoso estudioso da Ação Integralista Brasileira:

 “Num contexto histórico de mudanças econômicas e sociais significativas, emerge um processo de crise ideológica que está na origem do movimento integralista[6].”

A IMPRENSA INTEGRALISTA: NOVAS ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DOS MILITANTES

Rosa Maria Feiteiro Cavalari, em seu livro sobre a ideologia e a organização da A.I.B. nos informa como os integralistas faziam uso do livro e dos periódicos para transmitir a doutrina do partido:

 “O livro veiculava as idéias produzidas pelos teóricos do partido e o jornal as popularizava. A doutrina mantinha-se viva para o integralista graças a sua materialização através do jornal[7].”

Segundo Cavalari, a função dos periódicos integralistas eram:

  • Periódico tinha função de atualização e popularização do “corpus teórico” integralista junto ao militante.
  • Transmitir a doutrina de modo uniforme
  • Não basta veicular as idéias integralistas, mas que esta veiculação ocorresse da mesma maneira em todos os periódicos.
  • Conteúdo & Forma.

Eis a visão de Plínio Salgado sobre as publicações do partido e a sua função quanto a doutrina integralista, emitida em um periódico local que repetia as diretrizes publicadas no Órgão Oficial do partido:

“O Integralista não obedece a um programa seu. Não se afastará nunca dos postulados da Ação Integralista Brasileira, que, de fato, dá um sentido único a todas as suas publicações.” O Integralista – Órgão da A.I.B. (Província do Paraná). Ano I, n. 1, Curitiba, 16 de agosto de 1934.

COMO SE ORGANIZAVA A A.I.B. PARA A TRANSMISSÃO DE SUA DOUTRINA

A estratégia de unificação e controle da A.I.B. tinha nas comunicações em massa um fator importante não apenas para atingir seus militantes instruindo-os quanto a doutrina e quais as posições que deveriam ter, mas também uma maneira de fazer proselitismo atraindo para si um número cada vez maior de militantes. Era a primeira vez que uma estratégia que abarcava meios de comunicação de massa como rádio e jornais era utilizado para atrair militantes políticos. Abaixo um esquema da estratégia adotada pela A.I.B. de unificação e controle:

Sigma-Jornais Reunidos

  • Compreendia um conjunto de 88 jornais em circulação em todo o território nacional
  • Função de padronização e orientação doutrinária.

Secretaria Nacional de Imprensa (S.N.I)

  • Função de orientar os periódicos.
  • Também acumulava função punitiva.

Comissões de Imprensa

  • Censurar e selecionar toda matéria de caráter doutrinário ou partidário a ser publicada.

Segundo Plínio Salgado, no Órgão Oficial da A.I.B.:

 “O século XIX foi o século do jornal disponível à praça pública onde se erguiam as vozes de todas as opiniões; mas este século, cheio de angústias, é o século do jornal doutrinário, porque o povo quer se orientar.” (SALGADO, Plínio. In: Monitor Integralista, ano V, n. 17, 20 de fevereiro de 1937, p. 14.)

ALGUNS NÚMEROS DA IMPRENSA INTEGRALISTA

  • 8 grandes diários
  • 105 hebdomanários e quinzenários espalhados por todas as Províncias;
  • 3 revistas ilustradas: Anauê! e Brasil Feminino no RJ e Sigma em Niterói.
  • Uma revista de alta-cultura: Panorama em São Paulo.
  • O Monitor Integralista, jornal oficial da A.I.B.
  • Cerca de 3.000 boletins, semanais e quinzenais, impressos ou mimeografados, referentes ao serviço de cada núcleo.

FONTE: Monitor Integralista, n. 22, 7 de outubro de 1937, p. 7. Apud. CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 87.

PERFIL DA REVISTA PANORAMA

Para exemplificar o que viemos destacando até o momento, vou utilizar a Revista Panorama, a qual obtive acesso à coleção completa entre os anos de 2007/2008, o que me permitiu traçar um breve perfil para contextualizar os exemplos que virão mais adiante neste texto.

Tida pelos integralistas como uma revista de “alta cultura”, a Panorama:

  • Revista mensal publicada pela A.I.B., em São Paulo, sob a direção de Miguel Reale
  • Circulou entre Jan/36 a Out/37
  • Jan/1936 – Marcada pela tentativa de golpe impetrada pelos comunistas em Nov/1935
  • Out/1937 – Fim marcado pelo golpe de Getúlio Vargas, em Nov/1937, e instauração do Estado Novo.
  • Destinada a um público mais intelectualizado.
  • Segundo Plínio Salgado, Panorama era uma “Revista de alta cultura”.
  • Seus principais objetivos era:
  1. Veicular idéias e teorias defendidas por teóricos e dirigentes do partido.
  2. Formar os quadros dirigentes da A.I.B.

Capa da primeira edição da revista Panorama pertencente ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DO MILITANTE

Ao buscar persuadir o militante para aderir a Ação Integralista Brasileira, o partido fazia uso de estratégias que podem ser verificadas em praticamente todos os seus periódicos. Abaixo algumas das estratégias mais utilizadas nos periódicos que analisamos:

Repetição

  • Repetição constante de determinadas idéias no mesmo jornal ou em jornais diferentes.

Transcrição

  • Transcrição ipsis litteris de determinados artigos, matérias e colunas de outros periódicos e/ou capítulos de livros.

Lembretes

  • Uso constante de lembretes para fixar determinadas idéias

Propaganda comercial aliada à doutrina

  • Aliar o movimento ou a doutrina integralista a propaganda comercial
  • A marca do produto lembrava a existência do movimento. (Café Anauê, Cigarros Sigma, etc.)
  • Recomendação do produto lembra ao militante algum aspecto da doutrina.
  • É comum nos depararmos, em diferentes periódicos, com os mesmos artigos ou capítulos dos livros de Plínio Salgado, Gustavo Barroso, Miguel Reale e outros líderes do movimento.
  • Esses lembretes, que obedeciam os mesmos dispositivos tipográficos, eram publicados em destaque em jornais das mais diferentes localidades.
  • Integralistas, a pátria precisa de homens vigorosos e fortes! Força e Vigor só se obtém bebendo quino ferrol palomone. Cumpra o seu dever usando-o com frequencia.

EXEMPLOS DAS ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DO MILITANTE ENCONTRADOS NOS PERIÓDICOS

Abaixo seguem exemplos de algumas das estratégias as quais nos referimos para a persuadir o militante: repetições e lembretes presentes na Revista Panorama.

EXEMPLOS DE PRODUTOS CUJAS MARCAS LEMBRAVAM A EXISTÊNCIA DO MOVIMENTO E ASPECTOS DA DOUTRINA.

Muito comum encontrarmos nos periódicos integralistas comerciais de produtos que utilizavam palavras ou lemas do integralismo, revertendo dinheiro para o partido e as marcas ganhando a fidelidade dos partidários da A.I.B. Abaixo alguns exemplos:

Outra forma de produtos se associarem a A.I.B. era simplesmente através da veiculação de seus produtos nos periódicos integralistas. Não eram produtos do partido, não adotavam os nomes de lemas ou palavras de ordem, mas, por outro lado, permitiam que o partido veiculasse mensagens que incentivassem os seus seguidores a comprar o produto. Abaixo alguns exemplos dessa modalidade:

OUTRAS ESTRATÉGIAS INOVADORAS NA PERSUASÃO DO MILITANTE

Ao analisarmos fotos da época em periódicos ou na bibliografia sobre o assunto, verificamos que o Integralismo estava presente em toda a vida do militante: desde o nascimento, participando com seus símbolos, uniformes e rituais em batizados, casamentos e funerais.

Batizados:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 74.

Casamentos:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 178.

Funerais:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 180.

Vida Cotidiana:

Abaixo vemos um jogo de café, utilizado durante as reuniões dos militantes. Não conhecemos outro partido político que havia se utilizado de tais estratégias de comunicação de massa com seus militantes durante a década de 30.

Acervo Plínio Salgado. Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro/São Paulo

Abaixo vemos integrantes do partido vergando seus uniformes juntamente com enfermeiras devidamente trajadas com o distintivo integralista, além de adesivos colados nas balanças de lactário financiado pela Ação Integralista Brasileira. O partido se preocupava sempre em divulgar a foto de sua presença em todos os setores da vida do brasileiro em seus periódicos de circulação local, regional e nacional.

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 74.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: Edusc, 1999.
  • HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  • PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2007.
  • SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento Modernista de São Paulo na década de 1920. In: BUENO, Eduardo (org.). Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
  • TRINDADE, Hélgio. O Nazi-fascismo na América Latina: mito e realidade. Porto Alegre: UFRGS, 2004.

[1]  SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento Modernista de São Paulo na década de 1920. In: BUENO, Eduardo (org.). Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp. 197.

[2]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 198.

[3]  HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[4]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 200-201.

[5]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 203.

[6]  TRINDADE, Hélgio. O Nazi-fascismo na América Latina: mito e realidade. Porto Alegre: UFRGS, 2004, pp. 61.

[7]  CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: Edusc, 1999, pp. 79.

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