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Blade Runner e a questão da morte

Durante uma breve conversa via Facebook com a amiga e historiadora Célia Regina, estava dizendo que tinha que cumprir uma leitura para uma pesquisa que estou conduzindo, mas que lá pelo fim da noite provavelmente iria pegar um livrinho de ficção científica para dar uma relaxada. A colega, em uma empreitada mais nobre, disse que estava em vias de concluir a leitura da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Falava com ela sobre minha paixão, desde menino, pelo gênero da ficção científica. Gosto muito, pois acho que os autores deste gênero conseguem abordar temas muitas vezes complexos com uma simplicidade que só vejo semelhança nos autores de histórias em quadrinhos. Sabemos de muitos professores que dão aulas de filosofia e ensinam Sócrates, Descartes e até mesmo Jean Baudrillard utilizando filmes como Matrix.

Seguindo essa linha, um autor de ficção que foi adaptado inúmeras vezes para cinema é Philip K. Dick (1928-1982). São baseados em suas obras filmes como Blade Runner, Total Recall (Vingador do Futuro), Minority Report e muitos outros. É justamente sobre o primeiro destes filmes que eu gostaria de tratar aqui, só para dar um singelo exemplo do que eu estava conversando com a Célia hoje, isto é, a simplicidade com que esses autores conseguem abordar temas que, muitos outros tornam extremamente complexos e árduos de ler.

Embora tenha sido lançado originalmente como livro, Blade Runner, o caçador de andróides ficou mais conhecido por sua versão cinematográfica lançada em 1982. Quem já assistiu ao filme, sabe que o tema principal da obra é a questão da finitude do ser humano, isto é, a morte. Nós, humanos, sempre fomos inconformados com o fato de termos uma data de validade que, seja por qual razão for, desconhecemos. Justamente por isso, vivemos nossos dias sempre a tentar postergar aquele que será o nosso encontro final com a morte. Está aí todo o progresso da medicina que não me deixa mentir sozinho.

O filme dirigido por Ridley Scott é uma adaptação baseada no livro Do Androids Dream of Electric Sheep (1968) do já citado Philip K. Dick.

Fiz este pequeno preâmbulo, pois gostaria de propor um jogo imaginativo ao leitor deste blog, baseado em uma passagem do filme, para que possamos captar a maneira simples e direta como a ficção retrata este inconformismo que os humanos sentem frente a sua própria finitude. Vamos lá?

Pois bem, imagine então que você saiba o dia exato de sua morte e que, antes disso ocorrer,  tenha a oportunidade única de conhecer o seu criador, sem que para isso, obviamente, fosse necessário morrer…….

Imaginou?

Muito bem! Agora pense que mais além do que meramente vê-lo, você poderá falar com ele, isto é, você poderia trocar umas palavrinhas com aquele ser que te criou e, até mesmo, fazer pedidos e discutir as possibilidades da criação….pegou a ideia?

Pois bem, nessas condições, se essa oportunidade fosse realmente dada a você, o que você falaria ao criador? Quais seriam suas palavras a ele? Consegue pensar nesse diálogo hipotético?

Para Roy Batty, personagem vivido por Rutger Hauer no filme Blade Runner, não foi tão difícil assim. Ao encontrar Tyrell, seu criador e também dono da Tyrell Corporation, a produtora dos replicantes Nexus 6, mandou uma frase que ficaria clássica entre os admiradores de Blade Runner:

“I want more life, fucker!”

“Eu quero mais vida, seu escroto!”.

Simples e contundente! Demonstra perfeitamente o drama vivido pelos humanos diante da possibilidade da própria morte.

Certamente, se muitos de nós tivéssemos a mesma oportunidade, pediríamos a nosso criador uma extensão de nossa data de validade. Não sei se a maioria das pessoas teria a coragem de chegar diante do mesmo e chamá-lo carinhosamente de Fucker, mas certamente pediriam uma prorrogaçãozinha no seu tempo de vida e, se ele não concordasse, também ficaríamos muito chateados.


PS: Outro filme que trata do mesmo tema de forma simples e muito bonita é o excelente Peixe Grande (2003), dirigido por Tim Burton, com Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup e Jessica Lange.

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