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Carta aberta dos estudantes da USP presos na última reintegração de posse da reitoria

Os estudantes de filosofia da Universidade de São Paulo Inauê Taiguara Monteiro de Almeida e João Vítor Gonzaga foram detidos nessa última terça-feira (12) durante operação da Polícia Militar (PM) de reintegração de posse da reitoria da USP, que havia sido ocupada por manifestantes no dia 1º de outubro. Os dois passaram a noite no 91º Distrito Policial da capital e, na manhã de quarta-feira, foram encaminhados a um presídio.

Com o habeas corpus, terão o direito de responder ao processo em liberdade. A decisão determinando a soltura dos estudantes é da juíza Juliana Guelfi, do Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária de São Paulo (Dipo). Segundo informações do delegado Celso Garcia, responsável pelo inquérito que investiga a ocupação da reitoria da USP, Almeida e Gonzaga devem ser indiciados por furto, dano ao patrimônio público e formação de quadrilha.

Felipe Vono, advogado dos estudantes, defende que os dois não integraram o grupo que ocupou o prédio. “Eles estavam voltando de uma festa no campus quando passaram pela Praça do Relógio, em frente à reitoria, e foram detidos pela PM”.

Abaixo, disponibilizamos a íntegra da carta que Inauê Taiguara e João Vitor prepararam para agradecer à todos que os auxiliaram de alguma forma para que fossem colocados em liberdade nessa última quarta-feira.

Todo apoio a Inauê Taiguara e João Vitor, bem como a todos os estudantes da USP que ocuparam a reitoria e fizeram greve por uma universidade com uma estrutura de poder democratizada. através de uma Estatuinte livre, soberana e democrática.

CARTA ABERTA DE AGRADECIMENTO À SOCIEDADE
por Inauê Taiguara Monteiro de Almeida e João Vitor Gonzaga

Foto retirada durante a transferência dos estudantes da USP Inauê Taiguara e João Vitor Gonzaga nesta quarta-feira (13), do 91º Distrito Policial na Vila Leopoldina em São Paulo, para o Centro de Detenção Provisória (CDP), em Osasco. Foto: Marcos Bezerra/Futura Pres

Caros amigos, familiares e concidadãos, gostaríamos de agradecer ao apoio de todos aqueles que se mobilizaram para que nós, Inauê Taiguara Monteiro de Almeida e João Vitor Gonzaga, estivéssemos novamente em liberdade e pudéssemos defender-nos das acusações feitas por policiais da tropa de CHOQUE, que faziam a reintegração de posse do prédio da reitoria da USP. Fomos presos arbitrariamente e de forma violenta.

Temos a consciência tranquila por saber que não estávamos no prédio da reitoria e que não participávamos da ocupação do mesmo. De modo que não temos receio algum de que eventuais imagens das câmeras que estão espalhadas pelo campus apareçam – inclusive exigimos que elas apareçam.

Durante cerca de três horas ficamos desaparecidos, pois se fomos detidos por volta das 05h horas do dia 12 de novembro, às 08h42min deste dia o twitter da PM de São Paulo declarou: “Informamos que na reintegração de posse na Reitoria da USP, ao contrário do que tem sido informado, não houve nenhum detido.” Ora, então onde estávamos se não sentados no chão do ônibus da PM, ao final do corredor, estacionado entre o prédio da reitoria e a biblioteca Midlin? Talvez tenhamos viajado no tempo, de volta para o período da ditadura. Gostaríamos que esta fosse a explicação mais plausível. Porém, sabemos que infelizmente isto ocorre cotidianamente em plena Democracia e Estado de Direito, com especial recorrência nas periferias e favelas, onde habita a população negra e pobre do país. Aparecemos e estamos soltos, mas somos a minoria destes casos. Sabemos disso. Se saímos, foi graças à mobilização das pessoas, entidades e mandatos que se engajaram em nos defender. Se não fosse a repercussão política de nossa prisão poderíamos ainda estar presos no Centro de Detenção Provisória de Osasco, ao qual fomos encaminhados pela manhã do dia 13 de novembro.

Enquanto cidadãos que foram presos injustamente, gostaríamos de agradecer a nossos amigos e familiares pelo amor e dedicação que empenharam à nossa liberdade. Eles se mobilizaram desde o momento em que souberam que havíamos sido detidos e conseguiram, em pouquíssimo tempo, acionar uma rede de contatos que nos ajudou a sair da situação em que estávamos. Queremos agradecer também à dedicação dos advogados Felipe Vono, Maria Lívia, Fernanda Elias, Viviane Cantarelli e dos advogados do Sintusp que deram o seu melhor e conseguiram que recuperássemos a nossa liberdade, bem como a todos os outros inúmeros advogados que nos ajudaram a conversar com nossos entes queridos que estavam para além dos muros da prisão e ajudaram a elaborar a estratégia jurídica que nos permitiu estar mais uma vez em liberdade. Queremos agradecer também ao Deputado Estadual Prof. Carlos Giannazi, que esteve presente conosco por três vezes durante o dia e meio em que ficamos detidos (indo inclusive ao CDP para se certificar que nossa integridade física seria resguardada), à Deputada Leci Brandão que enviou o seu Chefe de Gabinete, Eliseu Soares Lopes, para nos prestar solidariedade no 93º DP. Aos mandatos de Ivan Valente, Toninho Vespoli e Zé Maria que nos apoiaram. Em especial, queremos agradecer ao Senador Eduardo Suplicy que intercedeu por nós. Gostaríamos também de agradecer aos detentos, com os quais fomos levados ao CDP e com os quais dividimos uma cela durante à tarde do dia 13 de novembro, pela solidariedade e humanidade com que nos trataram.

Queremos agradecer às entidades “Grupo Tortura Nunca Mais/RJ”, “Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, Belo Horizonte”, “Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos”, “União de Mulheres de São Paulo” e “Promotoras Legais Populares” e todas as outras que se manifestaram em nosso apoio.

Como membros da comunidade acadêmica da USP, gostaríamos de agradecer a todos os colegas do curso que se mobilizaram e ajudaram a divulgar a notícia de que estávamos presos. Agradecemos ao Centro Acadêmico de Filosofia “Prof. João Cruz Costa” (o CAF), ao CAELL, ao CeUPES, ao CALQ e a todos os Centros Acadêmicos que manifestaram seu apoio para que fossemos liberados e inocentados. Agradecemos ao Diretório Central dos Estudantes da USP, DCE Livre “Alexandre Vanuchi Leme” pelo apoio e solidariedade prestados. Também somos gratos aos professores do Departamento de Filosofia, pois sua manifestação de apoio foi fundamental para que fossemos postos em liberdade. Agradecemos aos colegas do Curso de Áudio Visual Anders R. e Lorena Duarte pela rápida edição do vídeo “Liberdade para João Vitor e Inauê!”. Agradecemos Sintusp que além de manifestarem seu apoio, também disponibilizaram seus advogados para nos defenderem. Agradecemos à Adusp pelo seu manifesto de apoio. Somos gratos a todos os professores, funcionários e alunos da USP ou de outras Universidades que assinaram alguma das muitas cartas de apoio que circularam. Agradecemos também ao apoio, manifestado em nota, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e do Instituto de Psicologia.

A Reitoria da Universidade de São Paulo já se manifestou acerca dos prejuízos ocorridos no prédio da reitoria e disse que irá investigar e punir os responsáveis por tais danos. No entanto, nada disse sobre a prisão arbitrária de dois estudantes da universidade. Gostaríamos de perguntar se nossa integridade física e moral não merecem a atenção da reitoria, que deveria zelar por toda a comunidade universitária? Nenhuma pessoa se quer veio procurar-nos para saber como estávamos e apurar os relatos sobre como nossa prisão foi feita. Por esta conduta omissa em relação ao que passamos, repudiamos veementemente o silêncio da Reitoria da USP frente à injustiça que ocorreu com dois de seus estudantes dentro do Campus Butantã, principalmente por que a ação de reintegração de posse que culminou com a prisão arbitrária de tais estudantes foi solicitada pelo próprio reitor João Grandino Rodas. Além de tudo isso, ainda receamos que esta mesma reitoria venha a mover um processo administrativo contra nós. (Quanto a isso, o DCE Livre da USP Alexandre Vanuchi Leme criou um abaixo assinado contra a criminalização do movimento estudantil e pela retirada imediata dos processos que teremos de responder. Quem quiser nos apoiar, o link: https://secure.avaaz.org/po/petition/Nenhuma_punicao_aos_estudantes_da_USP_e_retirada_imediata_dos_processos_aos_2_estudantes_presos/?copy&mobile=1)

Para finalizar, gostaríamos de afirmar que o que aconteceu conosco poderia ter acontecido com qualquer estudante ou cidadão que estivesse circulando naquele local àquela hora. Ficamos desaparecidos por algumas horas, embora estivéssemos em mãos da Polícia Militar. Fomos presos e torturados física, psicológica e moralmente. Acusados de depredação ao patrimônio público, furto qualificado e formação de quadrilha (sendo este último crime inafiançável). Mantiveram-nos longe de nossos familiares e amigos, pois alegaram que nos prenderam em flagrante. Estivemos em seis celas diferentes (em dois DPs e no CDP). Ficamos nus várias vezes. Perdemos as roupas com que fomos detidos – recuperamos apenas nossos tênis, sem cadarços. Rasparam nossas cabeças. E ainda teremos de responder ao processo jurídico que se instaurou contra nós. Nesse sentido, gostaríamos de prestar nossa grande estima e mais altas considerações à lucidez das decisões do juiz Adriano Marcos Laroca e do desembargador José Luiz Germano (em 09 e 15 de outubro, respectivamente) sobre a questão da reintegração de posse do prédio da reitoria da USP, pois tais decisões reconheceram que acionar a polícia militar para resolver conflitos políticos, como o que se dava internamente à USP, poderia culminar em fatos lamentáveis como estes que infelizmente viemos a sofrer na pele.

Toda a arbitrariedade a que fomos submetidos só nos mostra uma coisa: a universidade precisa ser urgentemente democratizada. Como disse a Associação dos Docentes da USP (Adusp) em seu manifesto lançado dia 13 de novembro, esperamos que em breve a USP possa ter a sua estrutura de poder democratizada através de uma Estatuinte livre, soberana e democrática.
Agradecemos sua atenção e pedimos que nos ajudem a divulgar esta carta.

Inauê Taiguara Monteiro de Almeida, estudante do 4º ano do Curso de e Filosofia da USP e membro do Centro Acadêmico de Filosofia “Prof. João Cruz Costa”.

João Vitor Gonzaga, estudante do 5º ano do Curso de Filosofia da USP e funcionário técnico administrativo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

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A falsa ideia de que a Polícia Militar é sinônimo de segurança

PM na USP

Aluna da USP é ameaçada por Policial Militar durante a desocupação da reitoria, em 2011.

A Folha de S. Paulo publicou ontem (8) notícia dando conta que uma estudante sofreu tentativa de estupro dentro do campus da USP (Butantã). Segundo a notícia, uma aluna de 23 anos do curso de engenharia de produção, foi atacada as 7h50 da manhã dentro do banheiro feminino da Escola Politécnica (Póli). Segundo o delegado que atendeu o caso, o agressor teria agarrado a estudante por trás e tentado levá-la para uma das cabines do banheiro. A estudante reagiu e o agressor acabou fugindo, deixando-a com um ferimento na boca. Apesar do susto, a estudante passa bem.

Ao tomar conhecimento da notícia, divulguei-a em meu perfil de uma rede social juntamente com a seguinte questão: mas a presença da Polícia Militar no campus não ia dar mais segurança aos alunos da USP?

Como se pode imaginar, a pergunta suscitou nova discussão sobre o tema, especialmente por eu contar com colegas que defendem não só a presença da PM no campus, mas o aumento considerável do número de policiais fazendo rondas entre os estudantes. Para um desses colegas, a ocorrência da tentativa de estupro de ontem, mesmo com a presença da Polícia Militar no campus, é algo que naturalmente iria ocorrer, pois a presença da força coercitiva “não zeraria os crimes” dentro da universidade. Segundo este colega:

“O que é concreto que sua presença (da Polícia Militar) tende a diminuir drasticamente o crime, como já ocorreu mesmo na USP. Por isso sou a favor de ampliar ainda mais o policiamento”.

Embora o colega não tenha apresentado números para corroborar a hipótese de que a presença da PM no campus contribuiu para a redução do índice de crimes ocorridos na Cidade Universitária, vou colocar meu foco em outro ponto dessa discussão, que é a ideia de que a presença da polícia tende a diminuir drasticamente o crime.

Ora, como disse para ele, a defesa de tal ideia é de uma puerilidade e de uma falta de senso tamanha, pois simplifica a questão reduzindo a ocorrência ou não de crimes e atos de violência à presença física (ou não) de agentes da polícia fazendo patrulhamento em um local, quando sabemos que o problema da violência tem raízes muito mais profundas. Tal ideia é tão superficial que sequer leva em consideração se essa polícia está ou não preparada para lidar com aquela comunidade específica. Apenas atende à fórmula: há violência, coloca a polícia para resolver.

Como vimos através da própria notícia de ontem, crimes ou atos de violência não deixam de ocorrer em razão de um corpo policial estar ou não fazendo patrulhamento em algum local, mesmo porque, se essa ideia fosse verdadeira, seria impossível manter a polícia  em todos os lugares em todos os momentos o que, neste caso, abriria espaço para que em algum momento ocorresse um crime, restando apenas conformarmo-nos com a diminuição do número de ocorrências após o aumento dramático do número de efetivos no policiamento da universidade. Ora, resultado similar ou melhor que este poderia ser obtido através de outras medidas que não o uso do aparato coercitivo do Estado.

Voltando a ideia do colega, a meu ver, o principal problema reside no fato dela conter a suposição de que as pessoas precisam ser vigiadas por policiais armados para que não cometam crimes ou atos de violência umas contra as outras. Pior ainda nesse caso específico, pois se defende a presença ostensiva do policiamento dentro de uma universidade. Segundo o postulado desse meu colega, a garantia da segurança de todos está na presença de policiais armados dentro do campus. E não basta apenas uma base comunitária localizada em um ponto da universidade, mas é necessário um número grande o suficiente para que se façam rondas por toda a área do campus, caso contrário a garantia da segurança em toda extensão da universidade estaria ameaçada.

No entanto, desde 2011, quando a Polícia Militar passou a ter uma base dentro da Cidade Universitária e a fazer rondas pelo campus, ainda não foram divulgados números concretos que corroborem a ideia de que o índice de criminalidade tenha diminuído em função da ação específica da Polícia Militar. Em novembro de 2011, seis meses após a Polícia entrar no campus, o blog Never Asked Questions trouxe um post tratando do assunto. Nele o autor faz um levantamento do registro de ocorrências criminais dentro do campus  USP/Butantã conforme divulgado pela Guarda Universitária. Abaixo o gráfico divulgado no blog.

Fonte: Never Asked Questions.

Mesmo levando em conta que os números divulgados pela Guarda Universitária são cheias de problemas (como o próprio autor do blog lembra), é possível verificar que entre os meses de Abril de 2011 a Novembro de 2011, período em que a PM passou a frequentar o campus, o índice dos crimes levantados pelo gráfico manteve a mesma oscilação dos anos anteriores, fazendo com que reafirmemos o equívoco da ideia de que a mera presença da PM no campus diminuiria a ocorrência de crimes.

Na contramão dessa ideia está um texto publicado pela professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU/USP), Raquel Rolnik, que escreveu sobre o assunto em seu blog assim que a PM entrou no campus. Segundo o texto da professora, quanto ao tema da segurança no campus em si:

“É uma enorme falácia, dentro ou fora da universidade, dizer que presença de polícia é sinônimo de segurança e vice-versa. O modelo urbanístico do campus, segregado, unifuncional, com densidade de ocupação baixíssima e com mobilidade baseada no automóvel é o mais inseguro dos modelos urbanísticos, porque tem enormes espaços vazios, sem circulação de pessoas, mal iluminados e abandonados durante várias horas do dia e da noite. Esse modelo, como o de muitos outros campi do Brasil, foi desenhado na época da ditadura militar e até hoje não foi devidamente debatido e superado. É evidente, portanto, que a questão da segurança tem muito a ver com a equação urbanística.”

Ora, para ficarmos apenas em um ponto, se sabemos que a presença da polícia no campus não diminui a ocorrência de crimes e também que, ao contrário, pode-se diminuir a curto prazo os índices de criminalidade dentro da universidade através de intervenções no modelo urbanístico do campus, porque é mesmo que optamos pela primeira opção em vez da segunda no combate da violência dentro da USP? A própria Rolnik já apontava uma das respostas em seu post ao lembrar que a questão da presença da PM no campus estava ligada com a estrutura de gestão dos processos decisórios dentro da USP, isto é, a gestão da USP e de seus processos decisórios é absolutamente estruturada hierarquicamente. Neste caso, o poder de decisão do que fazer dentro da universidade está concentrado nas mãos do reitor e de seu grupo de apoio.

Independente da questão de poder dentro do campus, para mim é sempre desolador ver que pessoas da área das humanidades, que já atuam como professores e/ou estejam se formando para exercer a docência (seja em nível fundamental, médio ou universitário), acreditem que o ser humano precisa de vigilância armada para não cometer crimes. Antes de mais nada, isso revela um profundo descrédito dessas pessoas na humanidade, em si, e na educação como instrumento de emancipação do ser humano. Revela uma descrença no papel do professor como agente social capaz de transformar a vida dos educandos e reforça a ideia de que a única solução possível para os problemas da humanidade é através da violência do aparato coercitivo. Pessoas nessas posições com tais ideias, já fracassaram em suas carreiras antes mesmo de iniciá-las. Não me surpreenderá nada se em breve eu receber notícias de que estas pessoas, no exercício de sua profissão como docentes, estarão indo para as escolas e universidades dar suas aulas armadas como garantia de sua segurança.

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Quando a luta por democracia na USP se transforma em formação de quadrilha

Neste último dia 05 de fevereiro, a promotora ELIANA PASSARELLI, do Ministério Público de São Paulo, apresentou denúncia à justiça contra 72 estudantes que participaram da ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo em novembro de 2011. Passarelli pede a condenação dos estudantes pelos crimes de formação de quadrilha, posse de explosivos, dano ao patrimônio público, desobediência e crime ambiental por pichação.

Em matéria publicada no portal G1, a promotora informa que a denúncia foi feita no Fórum de Pinheiros à juíza Angélica Aparecida Correia, “mas a denúncia será remetida ao Fórum Criminal da Barra Funda por se tratar de crimes com penas de reclusão. Eles se uniram para resistir a uma ordem judicial, por isso a denúncia por formação de quadrilha”, disse Passarelli.

No último dia 06 de fevereiro, o blog do Altamiro Borges publicou post comentando o pedido de condenação dos estudantes encaminhado à justiça.

A QUADRILHA DOS ESTUDANTES DA USP
por Altamiro Borges – publicado originalmente em 06/02/2013

O Ministério Público Estadual encaminhou na terça-feira (5) o pedido de condenação de 72 pessoas – a maioria estudantes – que participaram da ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo em novembro de 2011. Os jovens, que se rebelaram contra a postura fascistóide do reitor da USP, foram denunciados por cinco crimes: formação de quadrilha, posse de explosivos, dano ao patrimônio público, desobediência e crime ambiental por pichação. Somados, os crimes podem render penas de até sete anos de prisão.

A decisão do MPE representa um duro golpe à luta estudantil e confirma as suspeitas de que o órgão é controlado e serve aos intentos repressivos dos tucanos paulistas. A ocupação da USP foi um protesto contra a presença da PM no campus. Ela ocorreu três dias após a polícia deter três alunos da Faculdade de Geografia num estacionamento da universidade. A desocupação, feita pela Tropa de Choque da PM, teve requintes de truculência e selvageria – conforme atestam vários vídeos postados na internet.

Charge produzida por Carlos Latuff em 2012 a respeito da presença da PM no campus da USP

Abaixo segue reprodução da nota divulgada nesta última quarta-feira (6) pela União da Juventude Socialista (UJS) contra a acusação do MPE e em apoio aos perseguidos:

O Ministério Público de São Paulo encaminhou ao Poder Judiciário um pedido de condenação de 72 estudantes da Universidade de São Paulo. Entre os crimes, consta a acusação de formação de quadrilha.

Para a União da Juventude Socialista as manifestações que ocorreram na USP são totalmente legítimas, pois a inserção da policia militar no campus da universidade, embora tenha o argumento da segurança como sua justificativa, na verdade tem servido para reprimir o movimento estudantil e a luta sindical, diversos servidores enfrentam processos por exercerem o livre direito de associação sindical e social.

O MP de São Paulo abre um precedente perigoso contra a democracia brasileira, ou não foram assim os processos da ditadura militar contra toda a luta sindical e estudantil? Um dos maiores exemplos foi o movimento grevista do ABC ou a expulsão de dezenas de estudantes, seguido de torturas e mortes.

A justiça que quer condenar os estudantes da USP por ocupar a reitoria é a mesma justiça que não condenou a Rede Globo de televisão por ocupar e cercar um terreno do Estado durante 11 anos, ou que promoveu o massacre do Pinheirinho.

É por este motivo que a União da Juventude Socialista tem a certeza de que a denuncia do Ministério Público de São Paulo não passa de mais uma tentativa de calar o movimento estudantil. Solidarizamo-nos com todos os 72 estudantes indiciados pelo MP e estaremos lado a lado na defesa da liberdade de expressão e de manifestação, assegurada pela constituição cidadã de 1988.

PETIÇÃO PELA RETIRADA DA DENÚNCIA DO MP AOS 72 ESTUDANTES DA USP

O DCE-Livre da USP preparou uma petição online pela retirada imediata da denúncia do MPE aos 72 estudantes da USP por formação de quadrilha. Abaixo segue o texto da petição:

“O DCE-Livre da USP e abaixo-assinados exigem a retirada imediata da denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo à Justiça no dia 5 de fevereiro, que acusa 72 estudantes da universidade, detidos durante a violenta reintegração de posse do prédio da reitoria em 2011 por parte da Tropa de Choque da Polícia Militar, por danos ao patrimônio público, pichação, desobediência judicial e formação de quadrilha. Além disso, também repudiam as declarações da promotora Eliana Passarelli, autora da denúncia, à imprensa que chama os estudantes de bandidos e criminosos. Na nossa opinião, a intenção de criminalizar esses estudantes é um ataque ao movimento estudantil e aos movimentos sociais de conjunto, em todo Brasil, que possuem o direito democrático de livre expressão, manifestação e organização política e ideológica. Lutar por democracia na universidade não é crime.”

Além da petição, os estudantes da USP estão articulando protestos juntamente com movimentos sociais, como informou matéria da Rede Brasil Atual. Segundo a reportagem, DCE, movimentos sociais e sindicatos estão articulando manifestações em protesto à denúncia da promotora Eliana Passarelli. Para os representantes dos alunos, a medida “abre precedente para qualquer tipo de criminalização do movimento social no país. Nós sabemos a representatividade da USP”, avalia a representante do DCE Ariele Moreira. “Já entramos em contato com o Conlutas (Central Sindical e Popular), tanto para dar assistência jurídica, quanto para, por meio de seus sindicatos, como o dos metroviários, fazermos uma campanha bem ampla com relação a esse tema”.

Se você também concorda que essa denúncia de formação de quadrilha deve ser retirada imediatamente, não  deixe de assinar a petição. Basta clicar no link e deixar seu e-mail (se já for inscrito no site de petições) ou fazer um cadastro rápido e assinar.

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Não existe racismo no Brasil?

O jornal Diário de S. Paulo publicou hoje (23/01/2013), no caderno dia-a-dia, uma notícia que revela claramente como o racismo, além de existir, está institucionalizado no Brasil.

Assinada por Thaís Nunes, notícia da conta de que comandante do batalhão instruiu policiais militares do bairro Taquaral, dos mais nobres de Campinas, a “abordar indivíduos em atitude suspeita, em especial os de cor parda e negra”. Segundo a reportagem, a ordem foi assinada pelo capitão Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, mas o Comando da PM nega teor racista na instrução dada pelo oficial.

Vejam abaixo a íntegra da notícia, tal como publicada no Diário de S. Paulo de 23 de janeiro de 2013, junto com foto da edição impressa do jornal que já está circulando nas redes sociais.

PM DÁ ORDEM PARA ABORDAR NEGROS E PARDOS

Instrução de comandante do batalhão se baseou na descrição de vítima de assalto em bairro luxuoso

Desde o dia 21 de dezembro do ano passado, policiais militares do bairro Taquaral, um dos mais nobres de Campinas, cumprem a ordem de abordar “indivíduos em atitude suspeita, em especial os de cor parda e negra”. A orientação foi dada pelo oficial que chefia a companhia responsável pela região, mas o Comando da PM nega teor racista na determinação.

O documento assinado pelo capitão Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci orienta a tropa a agir com rigor, caso se depare com jovens de 18 a 25 anos, que estejam em grupos de três a cinco pessoas e tenham a pele escura. Essas seriam as características de um suposto grupo que comete assaltos a residências no bairro.

A ordem do oficial foi motivada por uma carta de dois moradores. Um deles foi vítima de um roubo e descreveu os criminosos dessa maneira. Nenhum deles, entretanto, foi identificado pela Polícia Militar para que as abordagens fossem direcionadas nesse sentido.

Para o frei Galvão, da Educafro, a ordem de serviço dá a entender que, caso os policiais cruzem com um grupo de brancos, não há perigo. Na manhã de hoje, ele pretende enviar um pedido de explicações ao governador Geraldo Alckmin e ao secretário da Segurança Pública, Fernando Grella.

O DIÁRIO solicitou entrevista com o capitão Beneducci, sem sucesso. A reportagem também  pediu outro ofício semelhante, em que o alvo das abordagens fosse um grupo de jovens brancos, mas não obteve resposta até o fim desta edição.

Oficial da PM dá ordem para abordar negros e pardos

Foto de matéria assinada por Thais Nunes, publicada na edição de 23/01/2013 do jornal Diário de S. Paulo.

Tal notícia demonstra cabalmente como o racismo é uma prática institucionalizada no Brasil há tempos, ao  contrário do que defendem os paladinos do ideário de uma nação que não é racista, Ali Kamel, Demétrio Magnoli e Renata Kauffman. Para estes, políticas afirmativas como as cotas em universidades para afro-brasileiros, por exemplo, instituiriam o racismo que, na opinião deles, é inexistente no Brasil. Uma vez mais cabe a pergunta: a quem estas pessoas servem ao querer tampar a crua realidade de nossa sociedade? Talvez parte da resposta venha ao olharmos quem assina os contracheques que eles recebem.

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Ferréz escreve sobre a primeira chacina do ano, na Zona Sul

Ferréz

O escritor Ferréz, autor de Capão Pecado, publicou recentemente um texto em O Estado de S. Paulo no qual conta um pouco do cotidiano de quem vive nos bairros periféricos de São Paulo, as dificuldades impostas pela pobreza, os constantes enquadros desrespeitosos da Polícia e, agora, o aumento do número das chacinas.

Ainda vivendo no bairro do Capão Redondo, com esposa e filha, Ferréz fala que essas chacinas levam ao limite a situação na periferia de São Paulo: “Esse não é o mesmo país que anunciam na televisão”.

Abaixo repercutimos o texto na íntegra de Ferréz, conforme publicado no Estado de S. Paulo em 12 de janeiro de 2013.

QUEM NÃO PODE FALAR, ESCREVE
por Ferréz para O Estado de S. Paulo – publicado originalmente em 12/01/2013

Nascido e criado na zona sul, quando pequeno dizia que queria ser engenheiro; o pai achava a profissão bonita, o filho mal conseguiu terminar o segundo colegial, tinha que ajudar nas despesas de casa. Namorou com a mesma menina por dois anos, mas ela não viu futuro – a casa dos pais dele, de dois cômodos, não dava pra subir laje. Somente seis meses depois de terminar o curso, Marcos conseguiu emprego numa contabilidade.

Foto de JB Neto/Estadão dá destaque a chão ensanguentado em bar do Campo Limpo, palco da primeira chacina do ano.

Depois de trabalhar por 23 anos como empregada doméstica a tia de Marcos havia comprado um carro, e graças a Marcos ia deixar de pegar ônibus toda sexta para voltar do serviço, onde passava toda a semana limpando a casa e cozinhando. Marcos seria seu motorista. Em contrapartida, pagou o curso para o sobrinho, e deixava o carro a semana toda com ele. Os vizinhos comentavam que o rapaz, agora andando de social e com o carro, teria um futuro na vida, que finalmente alguém daquela comunidade havia vencido.

Marcos parou naquela sexta-feira no mercadinho. Sempre sorridente, cumprimentou todos e foi comprar uma cera. Deixaria o carro brilhando como a tia gostava, para ir buscá-la.

Entrou no carro com o pacote, ligou na Antena 1, sua rádio preferida, as músicas o deixavam calmo no intenso trânsito. Colocou o cinto de segurança e viu a viatura da Polícia Militar parar. Logo foi pego pelo colarinho e arrastado para fora do carro. Tentou falar, mas a voz do policial militar sobrepôs a sua.

– Ladrão de carro filho da puta.

– O carro é da minha tia –, tentava falar enquanto outro policial jogou ele atrás do carro e pisou em sua cabeça. Marcos olhava para o sapato, estilo social que nem o seu, algo pensado no novo uniforme da PM para dar aspecto de menos hostilidade, como antes tinha a antiga farda e o coturno. Polícia comunitária, um termo bonito, mas o sapato estava na cabeça de Marcos, a mão direita na água suja que descia pelo canto do calçada.

A mãe de Marcos vendo a cena chegou perto e convenceu os policiais, explicando a origem do carro. Marcos se levantou, a cabeça suja de terra, os olhares dos vizinhos. Não teve ódio, nem sequer ficou revoltado. Chegou no seu barraco, olhou para a camisa toda suja, uma das três que tinha para ir trabalhar, ajoelhou em frente à estátua de Nossa Senhora Aparecida e agradeceu por estar vivo.

Três horas depois disso, 15 homens estavam sendo revistados num bar no Jardim Rosana. Os policiais chegaram de repente, miraram os revólveres, nem o dono do bar escapou da revista. Terminaram o enquadro, entraram nas viaturas e disseram:

– Boa noite, fiquem com Deus.

As conversas foram retomadas no bar, um deles falava sobre os ganhadores da Mega Sena, outro falou que ia tomar a saideira, a patroa em casa já devia estar nervosa, um que voltava do banheiro ria dos que haviam sido abordados, dessa ele tinha escapado.

Os minutos se passaram, mais duas cervejas foram pedidas, a conversa agora foi para o Corinthians abalando o Japão. Mais alguns minutos, a rua quieta, só as conversas no bar. Foi quando se fez a matemática perversa, 14 homens encapuzados, olhos arregalados, uma cadeira cai no chão, a vizinha ouve barulhos, deve ser bomba de comemoração. Catorze braços atiram em quem estava dentro do bar, nove são baleados, sete morrem, a conversa acaba. O cheiro de pólvora domina todo o ambiente, o dono do bar se arrasta com um ferimento na perna.

Quando chamei meus amigos no sábado de manhã para encaixotar livros e fazer a pintura na ONG Interferência, não imaginávamos que horas depois estaríamos num cemitério.

O coveiro chega perto do Evandro e diz:

– Você aqui de novo, cara! É a terceira vez que te vejo essa semana.

Evandro fica sem graça, vai comprar uma água, realmente não queria voltar ali, mais um amigo para enterrar.

O muro do lado do bar onde aconteceu a primeira chacina do ano estava pichado. Quem não pode falar escreve. “Unidos venceremos as batalhas da vida”. Versos do rapper que acabou de lançar o primeiro CD, depois de muitos anos de batalha, o mesmo rapaz que tem um avô chamado Lino, uma esposa chamada Raiane, um filho chamado Ryan e uma mãe chamada Lilian.

Um verso de esperança de um jovem que não sabia que por estar num bar sua vida estaria atrelada à primeira chacina do ano.

“Nunca desista nem se sinta inferior, seja forte, seja nobre, um guerreiro lutador”. Letra do grupo de rap do DJ Lah, também presente no bar, o último lugar em que estaria com vida. A pressão pra fazer algo é grande, nem sempre externa, mas o dono da padaria pergunta se não vamos fazer nada, a mãe de um amigo me para na rua e diz:

– Não somos animais, não somos ratos para morrer assim.

O estudante que tem que voltar para casa após 11 da noite não sabe como vai fazer, a mãe fica acordada todos os dias com medo de o filho não regressar; o cozinheiro do restaurante fino trabalha a noite toda, a mulher pediu para ele dormir por lá para evitar o pior. A conversa saiu do meio comum, um enterro cheio de gente igual, sofredora, onde a conversa principal é como vamos sair de casa de hoje em diante.

Pressionar politicamente parecia ser o caminho, mas tal deputado num atende, tal vereador tá de férias, não se convive com quem toma decisões, estão todos longe daqui, quem mora aqui sabe o tamanho do risco, mas muitos também assistiram O Pianista.

Nunca em minha existência aqui tinha visto tantas pessoas comuns revoltadas, esse não é o mesmo País que anunciam na televisão. O que ninguém pensa é que, infelizmente, isso tem mão dupla, porque quem sai pro crime sai mais violento.

O morador de periferia hoje se sente desamparado, tem sua liberdade estrangulada, cerceada. Sem Sesc, centro cultural ou casa de cultura nas favelas, a antessala de estar de todo mundo é o bar.

O cidadão comum que levanta quando é escuro, que cuida do ensino da elite e não tem uma escola de qualidade para seu filho, que faz a comida deles, cuida de sua segurança, e não tem segurança onde mora, não quer morte – nem de farda nem de bombeta.

A segurança individual está em segundo plano perante a morte sistemática de inocentes. Quem vai gritar se as vítimas forem do crime? Quem vai meter a cara? Foram 24 chacinas, e se só algumas das 80 vítimas têm passagem, a tendência é menosprezar o ocorrido, fica legitimado o ato.

A periferia da década de 1980 teve grandes mudanças. No caso das chacinas, o modus operandi mudou. A periferia, com suas casas na maioria de madeira, tinha pavor dos grupos chamados de pés de pato. Hoje, associam essas ocorrências ao único representante do Estado presente aqui, a Polícia Militar. É proposital, oprimir sensação de terror, está dando certo, as mães cabisbaixas, sete enterros, três da mesma rua, o filho chorando na beira do caixão, o repórter que chama a gente no canto:

– Pô, as pessoas acusam a imprensa, mas quando chego nas chacinas, vou fazer a matéria, a primeira coisa é ser abordado. A polícia pede meus documentos. Cara, depois do que aconteceu com o (André) Caramante (repórter policial da Folha de S. Paulo que teve que sair do País após ser ameaçado por simpatizantes da Rota, a tropa de elite da PM paulista) a gente tá com medo também.

Eu entendo o repórter, de uma chacina para outra, da leste pra sul. Olho sua mochila, calça larga, cara de cansado, na faculdade não falaram que ia ser assim.

A solução agora não é só a investigação, mas a emergência é pela não repetição. A questão policial também é cultural, desde a abordagem até o jeito que tratam a comunidade e, por consequência, são tratados.

Quantas vidas podem ser salvas se procurarmos soluções reais, não tapa-buracos. Ajudaria se o discurso não fosse vago, se a certeza da impunidade não fosse tão presente. Um discurso articulado do secretário de Segurança pode ser o início, real empenho na solução das mortes pode brecar algo que pode tomar proporções irreversíveis.

Saímos do Cemitério Jesuíta, calças largas, bonés, frases das letras de rap na camisa, hoje somos o tema das letras, a canção será mais triste quando for ouvida, e quando íamos cruzar a avenida, mais um enquadro, todo mundo na parede.

Um ônibus para, algumas pessoas que estavam no enterro descem, a polícia teme, o povo avança, um dos rappers está sendo revistado, um menino chega perto do policial, olha pro alto, bem nos seus olhos, o policial nota os olhos úmidos, o menino diz.

– Acabamos de vir do enterro, vocês não respeitam nada?

*FERRÉZ, ESCRITOR E ROTEIRISTA, É AUTOR DE CAPÃO PECADO, MANUAL PRÁTICO DO ÓDIO E NINGUÉM É INOCENTE EM SÃO PAULO (OBJETIVA) E DEUS FOI ALMOÇAR (PLANETA)

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OUTRAS PALAVRAS: Só o PCC ameaça São Paulo?

Antônio Martins escreveu excelente artigo publicado no portal Outras Palavras sobre a atual crise de segurança pública e violência em São Paulo e a responsabilidade do Estado na onda de assassinatos que estão ocorrendo diariamente nesta megalópole.

O Hum Historiador repercute o artigo de Antônio Martins aos seus leitores por achá-lo relevante e por abordar o assunto a partir de um ponto de vista que não aparece nas principais emissoras de TV e Rádio do país.

SÓ O PCC AMEAÇA SÃO PAULO?
Por Antonio Martins, publicado originalmente no portal Outras Palavras em 06.11.2012

Breve dossiê revela: onda de assassinatos que apavora Estado foi iniciada e radicalizada pela PM. Governo Alckmin omite-se. Mídia silencia

Paraisópolis, Zona Sul, um dos bairros mais atingidos pelas ações da polícia: 37 presos (7 menores) em dois dias

I.

Ao descrever, num ensaio recente (breve em português, em Outras Palavras), a situação tormentosa vivida pela Grécia, o jornalista Paul Mason, da BBC, recorre à história da Alemanha, às portas do nazismo. Só uma sucessão de erros crassos, mostra ele, pôde permitir que Hitler chegasse ao poder. Mas havia algo sórdido por trás destes enganos. Embora não fosse conscientemente partidária do terror, a maior parte das elites alemãsdesejava o autoritarismo, pois já não conseguia tolerar o ambiente democrático da república de Weimar.

As circunstâncias são distintas: não há risco de fascismo no cenário brasileiro atual. Mas é inevitável lembrar de Mason, e de sua observação sobre a aristocracia alemã, quando se analisa a espiral de violência que atormenta São Paulo há cinco meses. Em guerra com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), parte da Polícia Militar está envolvida numa onda de assassinatos que já fez dezenas de vítimas, elevou em quase 100% o índice de homicídios no Estado e aterroriza as periferias.

Pior: a escalada foi iniciada (e é mantida e aprofundada) por integrantes da própria PM, a força que deveria garantir a segurança e o cumprimento da lei no Estado. Mas apesar de inúmeras evidências, o governo do Estado não age para refrear tal atitude. E a mídia omite, ao tratar da onda de mortes, a participação e responsabilidade evidentes da polícia. É como se tivessem interesse em manter, em São Paulo, um corpo armado, imune à lei e ao olhar da opinião pública, capaz de se impor à sociedade e diretamente subordinado a um governador cujos laços com a direita conservadora são nítidos.

Para ocultar o papel de parte da PM na avalanche de brutalidade, a mídia criou um padrão de cobertura. As mortes de autoria do PCC são noticiadas, corretamente, como assassinatos de PMs. Informa-se que o número de crimes deste tipo cresce de modo acelerado — já são 90 vítimas, este ano. Mas se associa a insegurança que passou a dominar o Estado apenas a estes atos. Também informa-se sobre parte das mortes praticadas pela PM — seria impossível escondê-las por completo. No entanto, aceita-se, sempre sem investigação jornalística algumaa versão da polícia: morreram “em confronto”, depois de terem reagido.

Este estratagema permite silenciar sobre três fatos essenciais e gravíssimos: a) parte da PM abandonou seu compromisso com a lei e a ordem pública e passou a agir à moda de um grupo criminoso, colocando em risco a população e a grande maioria dos próprios policiais, honestos e interessados em cumprir seu papel; b) diante desta subversão do papel da PM, o comando da corporação e o governo do Estado estão, ao menos, omissos; c) procura-se preservar este estado, evitando, recorrentemente, caracterizar a atitude do setor criminoso da polícia e, muito menos, puni-lo.

II.

Algumas iniciativas permitiram, nos últimos dias, começar a quebrar a cortina de silêncios e omissões. O jornalista Bob Fernandes, editor-chefe do Terra Magazine, sustentou, num comentário corajoso, em noticiário da TV Gazeta, que havia algo além do crime organizado, por trás da onda de assassinatos. “Rompeu-se um pacto entre polícia militar e PCC”, frisou Fernandes — e atribuiu a esta ruptura tanto a “guerra” entre os dois grupos como a espiral de morte que se seguiu. “Criminosos matam de um lado? Vem a resposta: alguns, quase sempre em motos, com munição de uso exclusivo de forças policiais, dão o troco e também matam.”

A fala do editor do Terra Magazine teve o mérito de romper o consenso que a mídia fabricava, até então, em torno de uma explicação inconsistente. Mas a que se referiria ele, ao mencionar, em linguagem quase enigmática, a ruptura de um pacto?

Uma das pistas, para encontrar a resposta, é seguir o fio da meada da onda criminosa. Quando ela teria começado? Por quais motivos? Entre o final de maio e o presente, os jornais estão fartos de notícias sobre os assassinatos, sempre no padrão descrito acima. Mas não é difícil encontrar um ponto de inflexão, o momento a partir do qual o cenário se transforma.

Ele situa-se precisamente em 29 de maio. Nesta data, quando ainda não adotava a confirmação sem checagem das versões da Polícia Militar, O Estado de S. Pauloregistra um massacre. Seis pessoas foram mortas pela ROTA, uma unidade da PM conhecida pela truculência. Estavam num estacionamento, próximo à favela da Taquatira, Zona Leste da capital. Foram vítimas de um comando constituído por 26 policiais. A própria PM afirmou, na ocasião, que eram integrantes do PCC. Alegou-se que estariam reunidas (num estacionamento?) para “traçar um plano de resgate de um preso”. Segundo as primeiras versões, teriam “atirado contra os policiais”. Apesar de numerosas (segundo a PM, 14 pessoas, das quais três foram capturadas e cinco fugiram), e “fortemente armadas”, nenhum soldado sequer se feriu.

Esta versão fantasiosa foi desmentida logo em seguida. Pouco depois da ação policial, um dos mortos “em confronto” seria executado a sangue frio, por parte dos PMs que haviam participado da operação. Os assassinos agiram em pleno acostamento da rodovia Ayrton Senna, e em área habitada. Uma testemunha presenciou o crime e o denunciou, enquanto acontecia, pelo telefone 190. A sensação de impunidade dos assassinos levou-os a ser fotografados pela próprias câmeras de vigilância da estrada. Nove dos 26 policiais foram presos, horas depois. Destes, seis foram soltos em dois dias. Três — apenas os que teriam praticado diretamente a execução — permaneceram detidos. Não é possível encontrar, nos jornais, informações sobre sua situação atual.

Atingido, o PCC reagiu recorrendo, embora em escala limitada, ao método que marcou sua atuação em 2006. Na região de Cidade Tiradentes, uma das mais pobres da cidade e local de moradia de um dos mortos, o grupo obrigou a população a um toque de recolher no dia do enterro do comparsa, 31 de maio. Tiveram de fechar as portas, entre outras, as escolas municipais Adoniran Barbosa e Wladimir Herzog… Mas, também repetindo o que fizera em 2006, a facção não se limitou a isso. Começaria, logo em seguida, a longa série de assassinatos de policiais militares.

No ano passado, 47 PMs paulistas foram mortos, em serviço ou suas folgas. Não é um número excepcional, para uma corporação que reúne quase 100 mil soldados, exerce atividade de risco e vive sob tensão permanente (o índice anual de suicídios é muito próximo ao das vítimas de homicídio). Em 2012, tudo mudou. Até o incidente fatídico de 29/5, haviam sido contabilizadas 29 mortes de PMs — pouco acima da média registrada no ano anterior. Entre 29/5 e 4/11, os ataques disparam. São 61 novos assassinatos, em apenas cinco meses. Há casos dramáticos: uma policial morta diante de sua filha; um garoto assassinado apenas por ser filho de policial, ocasiões em que as próprias bases da PM são atacadas. Inúmeros relatos narram a situação de pânico vivida por milhares de soldados honestos, cuja vida foi subitamente colocada em risco numa “guerra” provocada por uma minoria.

Mas aos poucos — e aqui começa um dos pontos mais obscuros de todo o episódio –, a PM parece inclinar-se em favor de sua banda violenta. Além de ter provocado o PCC à luta no final de maio, num ataque cujo caráter criminoso está demonstrado, a polícia paulista empenhou-se, nos meses seguintes, em tornar a disputa cada vez mais sangrenta e mais letal para a população civil.

Alguns episódios são emblemáticos desta tendência e da barbárie produzida por ela. Em 10 de outubro, por exemplo, um soldado de 36 anos foi executado em Taboão da Serra, oeste da Grande São Paulo. Dois homens dispararam seis tiros em seu corpo. Nas horas seguintes, no mesmo município, nove pessoas foram assassinadas. Duas delas foram vítimas da ROTA — execuções, segundo testemunhas. As sete outras, em circunstâncias nunca esclarecidas, mas muito assemelhadas às descritas por Bob Fernandes, em seu comentário recente. Poucos dias antes, na Baixada Santista, umoutro episódio, em condições muito semelhantes, deixou, em cinco dias, um rastro de quinze mortos. Em nenhum destes casos houve investigações sobre o comportamento dos policiais — nem por parte de seus pares, nem da mídia…

A esta altura é perturbador, porém inevitável, traçar um paralelo. Radicalizar ao máximo a guerra contra o PCC; afogar o “inimigo” em sangue, sem se importar com o risco de atingir a população como um todo, foi a estratégia que prevaleceu na PM em 2006, quando a força enfrentou pela primeira vez o grupo criminoso. Entre 12 e 20 de maio daquele ano, mais de 500 pessoas foram assassinadas em chacinas e execuções na capital, região metropolitana, interior e litoral de São Paulo. A grande maioria não tinha relação alguma com o PCC, como denunciam, desde então, as Mães de Maio. Adotou-se aparentemente a ideia de que deflagrar terror indiscriminado contra a população forçaria o grupo criminoso a recuar, temeroso de perder apoio de suas bases sociais.


III.

Um personagem destacado é comum aos episódios de 2006 e aos de hoje: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Não estava diretamente à frente do Palácio dos Bandeirantes, durante a primeira rebelião do PCC (deixara o posto um mês antes, para concorrer à presidência da República). Mas havia governado o Estado nos seis anos anteriores e executara uma política de segurança considerada ao mesmo tempo brutal e ineficiente. Sua ligação com os acontecimentos ficou patente ao abandonar, de modo abrupto, uma entrevista em que jornalistas britânicos (ao contrário da grande mídia brasileira) questionaram-no sobre o ocorrido.


Apontado como membro da organização ultra-direitista Opus Dei, até mesmo por integrantes de seu partido (o PSDB), Alckmin é visto, por parte da elite brasileira, como uma liderança importante a preservar. As declarações que tem dado, desde maio, em favor das posições mais belicosas e agressivas, no interior da PM, são eloquentes.

Falta muito a apurar, na trilha tenebrosa e caótica para a qual descambou a segurança (?) pública em São Paulo, desde maio. Por que, após uma tentativa fugaz de investigar ações ilegais e criminosas de parte de seus integrantes, a PM desistiu do esforço? Que levou a imprensa — que também denunciou a truculência, num primeiro momento — a silenciar e a repetir, desde junho, uma versão insustentável? Um setor de policiais especialmente violento terá conseguido impor sua postura? De que forma estarão envolvidos o governador e a imprensa?

O certo é que, para interromper a escalada sangrenta, a sociedade precisa agir — o quanto antes.

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Desembarque no porto do Inferno

Já ouviu falar de Lúcifer? Que veio do inferno, com moral, um dia!
No Carandiru, não, ele é só mais um, comendo rango azedo com pneumonia!

Racionais MC’s em Diário de um Detento

Não, amigos, não é necessário que se assustem, este foi apenas o título que dei a um texto despretensioso, em forma de conto, que preparei quando soube do falecimento do Coronel Ubiratan Guimarães, aos 09 de setembro de 2006.

Para aqueles que não se recordam, o Coronel Ubiratan foi o responsável pela invasão da Polícia Militar do Estado de São Paulo ao antigo Complexo Penitenciário do Carandiru, em 1992, na qual, segundo os números oficiais, 111 presidiários foram executados covardemente pela Polícia. Acusado de homicídio, foi julgado e condenado a 632 anos de prisão, em 2001, mas no ano seguinte os paulistanos demonstraram sua tradição histórica de heroicizar facínoras e o elegeram Deputado Estadual, o que acabou sendo fundamental para que Bira acabasse sendo absolvido em foro especial, em 2006.

Não durou muito. Por volta das 22h30 do dia 10 de setembro de 2006, foi encontrado morto por um assessor parlamentar, com um tiro, dentro de seu apartamento nos Jardins.


À GUISA DE EXPLICAÇÃO

Aos que me conhecem, é desnecessário dizer que não acredito no inferno ou no Diabo, portanto não acredito que os 111 detentos mortos foram condenados ao Inferno (mesmo porque o inferno era o Carandiru). A ideia do conto abaixo foi muito mais um desabafo e o desejo de que, ao menos em outro mundo imaginado, esse crápula filho da puta fosse punido e atormentado eternamente por ter comandado uma execução em massa, que o conservadorismo paulistano insiste em louvar, transformando vilões em heróis. Estão aí Anhangüera, Fernão Dias, Raposo Tavares, Borba Gato e Castello Branco que não me deixam mentir. Não me surpreenderia nada se alguém me dissesse que o nome desse psicopata já está batizando uma estrada, rua, praça, viaduto ou ponte nessa cidade.


DESEMBARQUE NO PORTO DO INFERNO
(Rogério Beier – Setembro/2006)

Ao desembarcar de sua barca no inferno, Bira percebeu que o Diabo tinha preparado uma baita recepção para ele: um belo tapete vermelho, as chamas eternas ao fundo emoldurando o momento e uma audiência composta de 111 almas perdidas que, de pé, organizadas em uma espécie de fila, apenas aguardavam com sorrisos maldosos nos cantos dos lábios, qualquer sinal de Lu pela oportunidade da tardia vingança que tanto ansiavam.

Bira caminhou vacilante em direção ao Diabo e, reconhecendo alguns dos rostos que lhe encaravam com os olhos fixos e brilhantes, finalmente entendeu o que estava prestes a lhe acontecer, já temendo por seu destino final.

Lúcifer, velho conhecedor da alma humana, foi buscar Bira todo satisfeito. Passando-lhe a mão pelos ombros, trouxe-o mais para perto de si e disse-lhe num sussurro tenebroso:

– Venha Ubiratan! Não há como fugir daqui, se é nisso que você está pensando agora. Sua chance de se arrepender expirou no momento de sua morte e agora você é meu convidado de honra nesse dia tão especial. Sua presença aqui é mais do que ansiada e, se lhe fiz esta recepção especial, foi por que cada minuto em que esteve na Terra desde que me mandou estes 111, era uma tortura infernal para eles, que tanto esperavam por este reencontro. No fim, sinto uma certa tristeza por sua morte, já que terei que encontrar outras formas de torturá-los daqui por diante, mas antes…

– Enquanto Lúcifer falava, Bira percebeu os olhares maliciosos daqueles que aguardavam um mínimo sinal do Diabo, que por sua vez, se deliciava com aquela situação.

Naquele mesmo instante, um dos 111 danados se aproximou de Bira e Lúcifer, interrompendo-os:

– E aí mano Lú, a bandidage ali tá querendo saber se nóis já pode começar os tormento do coronel. Você prometeu! Você prometeu! Tamo só pela ordem, mano.

Lúcifer olhou para Bira, um tanto chateado por ter sido interrompido, mas já satisfeito com o que estava por vir e acabou respondendo a pergunta do ex-detento, dando sua gargalhada aterrorizante:

– Pois é, Bira. Você conseguiu se livrar de sua pena na Terra, mas aqui quem manda sou eu. Nada de advogados corruptos, nada de juízes comprados, apenas eu e seus 111 colegas por toda a eternidade. Hahahahahahahaha.


Pra finalizar com chave de ouro, segue o clipe de DIÁRIO DE UM DETENTO, dos Racionais MC’s, inspirado no livro homônimo, de Jocenir, que conta como sobreviveu à mais uma chacina executada pelo Estado.

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