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O falso discurso dos extremismos

por Breno Leal Ferreira.

É falso o discurso, que já virou quase senso comum, de que o PT e o Bolsonaro são os extremos do espectro político.

Bolsonaro tem vocação autoritária e ditatorial. Não é um ditador (ainda), talvez não precise (dado a base de apoio que elegeu), mas não esconde um discurso extremista, contrário aos direitos de minorias (índios, negros, mulheres, LGBT, pobres e até animais) e profundamente desprovido de humanidade. Defende abertamente a tortura e a ditadura militar. Seus aliados falam em prender ministros do STF. Quer que seus adversários políticos sejam presos ou exilados. Nem nacionalista consegue ser: quer implementar um programa liberal na economia que nem Temer ousou, já disse que a Amazônia deve ser doada aos americanos e bateu continência à bandeira dos Estados Unidos.

Já em relação ao PT temos um passado a considerar. Acalmou o mercado financeiro com a “Carta ao Povo Brasileiro” (2002). Lula foi o “Lulinha paz e amor”. Seu governo não foi o de confronto de classes, mas o de conciliação de classes. Os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro quanto na época em que o partido ocupou a presidência. O BNDES apostou na política dos “campeões nacionais”, beneficiando grandes empresas nacionais. Lula e Dilma indicaram deram liberdade de investigação à Polícia Federal. Com seu republicanismo, indicaram ministros ao STF que foram responsáveis pela prisão de boa parte de sua própria cúpula (em processos altamente duvidosos, mas não cabe aqui discuti-los), além da chancela da destituição de Dilma e da prisão (também baseada em um processo discutível) do próprio Lula. O partido venceu democraticamente quatro eleições presidenciais seguidas.

Longe de qualquer comunismo, o PT fez algo próximo de um governo trabalhista, de centro-esquerda. Foi qualquer coisa menos extremista. Nem mesmo seu discurso é extremista. Já não se pode dizer a mesma coisa de Bolsonaro.

Breno Leal Ferreira atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado do IFCH-UNICAMP. Doutor e mestre em História Social pela FFLCH-USP.

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PT e o número de homicídios no Brasil

Em conversas e discussões pelas redes sociais é muito comum nos depararmos com pessoas afirmando que a violência e, especialmente, o número de homicídios no Brasil dobrou durante os governos petistas. Mais que isso, o argumento vem acompanhado de um ataque ao estatuto do desarmamento, em vigor desde 2003.

Pesquisando sobre o tema e buscando me informar acerca dos números dos homicídios no Brasil durante as últimas quatro décadas, encontrei o post abaixo, publicado na página do Movimento Economia Pró-Gente (Facebook) nessa última sexta-feira (19). Achei-o bastante elucidativo, razão pela qual estou repercutindo a íntegra do mesmo aqui no Hum Historiador.

É VERDADE QUE O PT DOBROU O NÚMERO DE HOMICÍDIOS NO BRASIL?
publicado na página do Movimento Economia Pró-Gente do Facebook – 19/10/2018

Taxa de homicídios no Brasil 1985-2015

Está circulando nas redes sociais que o número de homicídios no Brasil dobrou durante o governo do PT. Também tem uma versão parecida, de que o número de homicídios teria dobrado depois do Estatuto do Desarmamento, o que não muda muito, já que o Estatuto foi aprovado no fim de 2003, primeiro ano do governo Lula. Em nenhum lugar aparecem as fontes dessas informações. Aqui vão os números reais, retirados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), com os links para os dados no fim do texto.

Em 2003, primeiro ano do PT na presidência e último ano antes do Estatuto do Desarmamento, ocorreram 51.043 homicídios no Brasil. Em 2015, último ano completo de governo petista, foram 58.138 homicídios. Realmente aumentou, mas está muito longe de ter dobrado. Mais do que isso: esse aumento seguiu mais ou menos o aumento da população. Quando olhamos para a taxa de homicídios por 100 mil habitantes, medida mais utilizada mundialmente para medir o nível de violência, passamos de 28,56 em 2003 para 28,94 em 2015. Ou seja, durante os governos petistas a taxa de homicídios cresceu, em média, 0,1% ao ano.

E antes do Estatuto do Desarmamento e do PT, o que tava acontecendo com a criminalidade no Brasil? De 1980 a 1985, últimos anos da Ditadura Militar, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes cresceu em média 4,8% ao ano. De 1985 (quando voltamos a ter um governo civil) até 2003, essa taxa cresceu 3,7% ao ano. Ou seja, durante os governos anteriores ao PT e, principalmente, durante a ditadura, a violência só aumentava. Foi justamente com a aprovação do Estatuto do Desarmamento que a taxa de homicídios parou de crescer e, inclusive, caiu nos primeiros anos.

O argumento de que o Estatuto do Desarmamento incentiva o crime não se sustenta quando se olham os verdadeiros dados sobre homicídio.

Fontes dos dados:

População: IBGE – Projeção da População do Brasil por sexo e idade: 1980-2050 – Revisão 2008
https://ww2.ibge.gov.br/…/projecao_da_pop…/2008/default.shtm

Número de mortes por arma de fogo: Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM (MS/SVS/CGIAE)
http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205

Foram usadas as seguintes categorias da Classificação Estatística Internacional de Doenças:

1980-1995 (CID9)
Total de homicídios: E960 a E965
Homicídios por arma de fogo: E965

1996-2016 (CID10)
Total de homicídios: X85 a Y09
Homicídios por arma de fogo : X93, X94 e X95

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RENATO JANINE: O PT não é comunista

Em tempos nos quais dizer o óbvio é imperativo, vale relembrar texto escrito em 2012 pelo professor Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da educação, que publicou em sua coluna no jornal Valor Econômico, um texto em que explica porque o PT não é (nem foi) um partido comunista.

O PT NÃO É COMUNISTA
por Renato Janine Ribeiro para o VALOR
Íntegra do texto republicada a partir do Portal GGN – 27/08/2012

De vez em quando, leio em blogs ou mesmo em cartas que recebo enquanto colunista deste jornal ataques aos “comunistas” do PT. Ora, é importante esclarecer algumas coisas. Todos têm o direito de divergir do Partido dos Trabalhadores e do comunismo. Mas é errado confundir um com o outro. Melhor aclarar alguns pontos, para que os adversários do PT ou do comunismo possam criticá-los sem incorrer nessa confusão.

O PT não é ou foi comunista, nem por seu programa nem por sua história.

Vamos ao programa ou, se quiserem, aos ideais. O princípio de todo partido ou militante comunista é a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Quer dizer que só a sociedade pode ser dona de fábricas, fazendas, empresas. Já residências, carros, roupas e hortas para uso pessoal ou familiar não precisariam ser expropriadas de seus proprietários privados. A casa em que eu moro não é “meio de produção”. Menos ainda, minha roupa. Mesmo a horta, em vários países comunistas, ficou em mãos particulares. Seja como for, o ponto de partida do comunismo é: a propriedade privada dos meios de produção – fazendas, fábricas – é injusta e, também, ineficiente. Deve ser suprimida. Sem essa tese, não há comunismo.

Um parêntese: até o presente, esse projeto não funcionou. Para Marx, a questão não era moral, mas econômica. A propriedade privada acabaria se mostrando ineficiente. Seria superada por uma forma superior de propriedade, a coletiva. Ora, até hoje a propriedade privada se mostrou mais produtiva. E ninguém conseguiu mostrar na prática (ou teorizar) o que seria a propriedade “social” dos meios de produção. Houve, sim, propriedade estatal deles. Mas Marx era claríssimo: o Estado tinha que ser abolido. Nunca propôs ampliá-lo. Nem reduzi-lo. Ela ia mais longe do que os próprios liberais: queria suprimir o Estado. Era o contrário do que fizeram os Estados comunistas, que reforçaram a polícia e controles de toda ordem. Eles suprimiram a propriedade privada, mas não o Estado: criaram um monstro policial que Marx jamais aceitaria.

Pois bem, o PT namorou em seus inícios a ideia de um socialismo vago, mas nunca se bateu pela abolição da propriedade privada dos meios de produção. Daí que, nos seus primórdios, fosse até acusado de ser uma armação contra a “verdadeira” esquerda, a comunista. Dizia-se que Lula seria um ingênuo, ou um agente da CIA aqui infiltrado. Além disso, o PT nasce de um inovador movimento sindical; ora, Lênin fora áspero na crítica ao “sindicalismo”, que padeceria de uma ilusão reformista, querendo melhores salários em lugar da revolução. Tínhamos um abismo entre o projeto petista e o comunista. Finalmente, o lado libertário do PT – o fato de reunir descontentes com a cultura dominante, machista, racista etc. – desagradava a quem achava que a contradição decisiva da sociedade seria o conflito do capital com o trabalho. Havia marxistas no PT, talvez ainda os haja, mas sempre foram minoria.

Daí vêm duas consequências curiosas e paradoxais quanto ao comunismo. Para ele, o fim da propriedade privada não é só um projeto. É uma certeza científica. O marxismo pretende ser a ciência das relações humanas. É científico que um dia virá o socialismo. Disso decorre que, sendo uma ciência, o marxismo no poder não admite discordância. O dissidente é um errado. E por que autorizaríamos os errados a falar? Eles só atrasarão a rota da história… Seria mais econômico e melhor, para a humanidade, calá-los. Daí, o caráter não democrático dos regimes comunistas (é por isso que, na democracia, a liberdade de expressão significa que podemos erra, renunciamos à certeza). E disso decorre, também, que os marxistas fora do poder não têm pressa. Um dia, chegará o comunismo. No poder, enfatizam que o socialismo é uma necessidade histórica. Fora do poder, enfatizam que a história não precisa ser apressada. Dão-se bem com a adversidade. Derrotados, sabiam ser serenos, para usar a virtude que mostravam em tempos nefastos: a história lhes daria, um dia, razão.

É paradoxal, não é? A mesma convicção de que o marxismo seja uma ciência leva os comunistas, no poder, a não tolerar a oposição, e fora do poder a fazer tudo o que é acordo, mesmo dos mais espúrios, a aguentar qualquer derrota, a esperar. Ora, é digno de nota que o PT nunca aceitou o pressuposto do marxismo como ciência. Por isso mesmo, também recusou suas consequências. Nunca reprimiu divergências ao feitio comunista. E sempre teve pressa (exceto, talvez, depois de chegar à Presidência). Não foi à toa que, entre petistas e comunistas, as relações nunca tenham sido fáceis. A queda do Partido Comunista tradicional, o “partidão”, acaba coincidindo com a ascensão do PT. Não restou espaço ao PCB. Mudou de nome, abriu mão do fim da propriedade privada, manteve uma excelente retórica, foi para a direita.

Em suma, há muito a criticar ou a elogiar no PT, mas será errado criticá-lo (ou elogiá-lo) por ser comunista.

Depois de meu último artigo, recebi de Fernando Henrique Cardoso amável e-mail. O ex-presidente se diz leitor da coluna e, confiando na minha boa-fé, desmente que seu governo tenha restringido a apuração dos escândalos da privatização das teles e da compra de votos para a reeleição. Esta existiu, diz, mas por parte de políticos locais. É importante o seu depoimento. E lembro aos leitores que o eixo de meu artigo estava na tese de que as questões de corrupção, que pareciam tão claras quando o lado do bem se opunha à ditadura, se transformaram num cipoal desde que PT e PSDB se digladiam. Agradeço a carta e a gentileza do ex-presidente.

renato_janine_ribeiroRENATO JANINE RIBEIRO é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). Foi Ministro da Educação (Abril a Setembro de 2015).

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Professores da FFLCH-USP lançam manifesto em defesa da democracia

É preciso propor alternativas para combater os efeitos da crise mundial e não alimentar a instabilidade política por meio de ameaças ao voto popular.
USP Imagens

Editoriais e manifestações de políticos de oposição procuram ampliar o escopo de um golpe na Democracia brasileira. É preciso estar alerta e pronto a evitar ameaças à vontade popular, expressa nas últimas eleições presidenciais. O caos que uma ação dessa ordem traria pode afetar radicalmente os rumos do país. Por isso, é uma irresponsabilidade social e política inflar um movimento que pode causar profundas rupturas na sociedade brasileira, com consequências econômicas, sociais, culturais e políticas que podem ser desastrosas.

 Nos últimos anos, partidos progressistas foram eleitos em vários países da América Latina. Ainda que muitos deles propusessem uma pauta moderada frente ao quadro de desigualdade social presente no mundo atual, conseguiram aplicar reformas que as diminuíram. Além disso, implantaram programas sociais que aumentaram a capacidade de emitir opinião de camadas sociais que não tinham como aferir sua situação no mundo diante da condição de miséria, desinformação e fome que viviam.

 De modo articulado, assistiu-se um roteiro que seguiu os dirigentes progressistas de países da América do Sul, com agressões duras contra a Democracia. Governos eleitos na Venezuela, no Equador, na Bolívia, na Argentina e no Paraguai enfrentaram momentos difíceis que resultaram em países polarizados.

 Esse modo de operar chegou ao Brasil, mas com uma agravante: um ódio descabido ao partido que aplicou as mudanças sociais no país. Como a história só se repete como farsa e como a política possui especificidades nacionais, causa muita preocupação o acirramento de tensões que, de algum modo, estavam acomodadas. No caso brasileiro, a irracionalidade trazida pelo ódio já tem resultado em agressões verbais e até físicas de cidadãos que simplesmente ostentam roupas de cor vermelha em situações as mais inusitadas. Isso não pode continuar.

 É preciso aprimorar o uso do potencial energético, dos recursos naturais e da capacidade produtiva no campo e nas cidades brasileiras para melhorar a vida da população por meio da criação de novas relações sociais e com o ambiente. O Brasil possui enormes vantagens nessa corrida tecnológica dada suas condições naturais, que garantem reservas de biodiversidade, petróleo, água, solo, sol e vento. Esses atributos devem ser usados de modo inteligente para alçar o país a um novo patamar de produção e distribuição de riqueza em vez de manter-se como simples provedor de produtos primários.

 É preciso reafirmar que quaisquer tentativas de retirar a Presidente Dilma Rousseff, eleita democraticamente, antes do fim de seu mandato, pode levar o país a uma situação insustentável do ponto de vista social e político. O Brasil não precisa disso, muito menos seu povo, que enfrenta as duras consequências de uma crise econômica e financeira que afeta o mundo hodierno.

 O momento exige responsabilidade e discernimento para propor alternativas sérias de combater os efeitos da crise mundial e não alimentar a instabilidade política por meio de ameaças ao voto popular.

1) Wagner Costa Ribeiro – Professor – Departamento de Geografia – USP
2) Flavio Aguiar – Professor – USP
3) Adrián Pablo Fanjul – Professor – Departamento de Letras Modernas – USP
4) Marcello Modesto – Professor – Departamento de Linguística – USP
5) Ligia Chiappini Moraes Leite – Professora – USP
6) Fabio Cesar Alves- Professor – DLCV – USP
7) Gloria Alves – Professora – Departamento de Geografia – USP
8) Rita Chaves – Professora – DLCV/FFLCH – USP
9) Marcos Silva – Professor – Departamento de História – USP
10) Luis Roncari – Professor – DLCV – USP
11) Ricardo Musse – Professor – DS – USP
12) Olga Ferreira Coelho Sansone – Departamento de Linguística – USP
13) Homero Santiago – Departamento de Filosofia – USP
14) Ieda Maria Alves – DLCV – USP
15) Tercio Redondo – DLM – USP
16) João Adolfo Hansen – DLCV- FFLCH- USP
17) Luís César Oliva – Professor USP
18) Neide Maia González – FFLCH – USP
19) Heloísa Pezza Cintrão DLM/FFLCH/USP
20) Kabengele Munanga Dpto.Antropologia – USP
21) Beatriz Raposo de Medeiros – FFLCH – USP
22) Cilaine Alves Cunha – Literatura Brasileira – FFLCH – USP
23) Renato da Silva Queiroz – FFLCH-USP
24) Rosangela Sarteschi – DLCV – USP
25) Sheila Vieira de Camargo Grillo – DLCV – USP
26) Marta Inez Medeiros Marques – DG – USP
27) Sylvia Bassetto – DH – USP
28) Beatriz Daruj Gil – DLCV – USP
29) Gustavo Venturi – DS – USP
30) Paula Marcelino – professora – Departamento de Sociologia – USP
31) María Zulma M. Kulikowski – DLM – USP
32) Elisabetta Santoro – DLM – USP
33) Vima Lia de Rossi Martin – DLCV – USP
34) Pablo Schwartz – DLCV – USP
35) Fabio Contel – DG – USP
36) Léa Francesconi, professora, DG-FFLCH-USP
37) Valeria De Marco – DLM/FFLCH-USP
38) Adma Muhana – FFLCH-DLCV-USP
39) José Pereira de Queiroz Neto – DG – USP
40) Manoel Luiz Gonçalves Corrêa – DLCV – FFLCH – USP
41) Waldir Beividas – DL- USP
42) Rita de Cássia Ariza da Cruz – Departamento de Geografia – FFLCH/USP
43) Ivan Marques – DLCV / FFLCH – USP
44) Mónica Arroyo – DG – USP
45) Homero Freitas de Andrade – DLO – FFLCH – USP
46) Maria Helena Pereira Toledo Machado – FFLCH – USP
47) André Martin – DG – USP
48) Iris Kantor – DH – USP
49) Fernanda Padovesi Fonseca – DG – USP

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Heroísmo à brasileira?

Que as redes sociais são locais propícios para se fazerem ataques mentirosos a quem quer que seja, com vistas à atingir milhões de pessoas, ninguém mais tem dúvidas. Se levarmos tal afirmação ao campo da política, então, poucos contestariam que tal expediente se tornou uma prática amplamente utilizada por quase todas associações políticas.

Ora, sabendo disso, não deveria surpreender que na atual conjuntura política brasileira, veicular mentiras no intuito de aumentar a instabilidade política e diminuir a popularidade do atual Governo é um prato cheio para os inimigos, críticos e antipatizantes do Governo e das agremiações políticas que o compõe. Prova disso é que, das eleições pra cá, temos visto um aumento exponencial de mentiras compartilhadas por milhões de pessoas com o objetivo único de atacar a imagem do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, da atual presidenta Dilma Rousseff e, obviamente, do Partido dos Trabalhadores.

Pois bem, ontem (05), Leonardo, um amigo uspiano, publicou em sua conta do Facebook um exemplo disso justamente para criticar as mentiras que estavam sendo divulgadas nas redes sociais por pessoas mal intencionadas visando, sobretudo, promover a desinformação generalizada. O exemplo que ele utilizou foi uma imagem divulgada pelo perfil DILMA NA BALADA, em fevereiro deste ano, que colocou em circulação a seguinte informação:

Ataques ao Governo nas Redes Sociais

Que o brasileiro pode ser considerado heroico por uma série de razões, disso não cabem dúvidas, no entanto, o autor da imagem acima faz referência à sua capacidade de viver com um salário baixo, pagando uma elevada carga de impostos em produtos como um Toyota Corolla ou a gasolina, por exemplo. Vê-se logo que o foco da crítica recai sobre a carga tributária do Brasil sob o governo do PT.

Não é necessário ser muito inteligente para constatar que se trata da velha crítica liberal de como os governos oprimem a economia e deveriam, ao contrário do que faz o atual governo, diminuir a carga tributária. Não que a crítica seja inválida. Cada um tem a liberdade para fazer a crítica que quiser, mas o modo como se faz essa crítica é que se está questionando aqui, por ser covarde e mentirosa.

Covarde porque tenta esconder os interesses de um grupo privilegiado da sociedade por trás de uma “bandeira” popular em busca do apoio dessa camada social para a realização das demandas daquela elite. Percebam que a imagem não clama pelo aumento do Salário Mínimo, mas sim pela redução dos impostos e os exemplos dos produtos escolhidos para a crítica, em si, são indicativos claros do grupo de pessoas que criou esta imagem e a quem ela é originalmente destinada.

Mentirosa porque os números utilizados na mensagem foram inflacionados/deflacionados justamente para causar uma impressão de que o brasileiro está sob uma pressão tão grande, que só mesmo sendo heroico para sobreviver no Brasil sob o regime petista.

Peguemos os valores da gasolina e do Salário Mínimo nos diferentes países citados para mostrar como esses dados são mentirosos (a escolha da gasolina e do Salário Mínimo devem-se pelo fato destes terem sido os elementos “populares” escolhido pelos autores da imagem para ampliar seu público-alvo).

Usando os dados veiculados na imagem, se um Salário Mínimo brasileiro (R$ 788,00)) compram 220 litros de gasolina, então o litro da gasolina no Brasil custaria algo em torno de R$ 3,58 o que, de princípio, já não é verdade. Nos postos paulistanos (ao menos na zona sul) a média é R$ 3,00, chegando a custar até R$ 2,90 em muitos postos. Vamos agora analisar essa relação nos demais países mencionados, onde os valores dos salários mínimos são:

  • Argentina: PA$ 4716,00 (convertidos para R$ 1.656,73)
  • Alemanha: E$ 1473,33 (convertidos para R$ 5.183,00)
  • Estados Unidos: aproximadamente US$ 1200,00 / mês tomando como referência os US$ 7,25 (por hora) equivalente ao Salário Mínimo federal em 2015. (convertidos para R$ 3.801,24)

Seguindo essa mesma linha de raciocínio os valores da gasolina por litro para Argentina, Alemanha e EUA, convertidos para reais seriam, respectivamente: R$ 3,20; R$ 3,91 e R$ 1,83.

Ora, bastaria comparar esses valores com os preços praticados nesses países para ver como os mesmos são tão mentirosos quanto o valor alegado para o Brasil. Há sites que registram, mensalmente, a evolução dos preços do combustível em todos os países, como o GlobalPetrolPrices, por exemplo. Segundo este sítio, o preço médio da gasolina nos quatro países em 01/06 eram:

  • Brasil: US$ 1,05 ou R$ 3,32 (dólar a R$ 3,16 em 05/06/2015)
  • Argentina: US$ 1,34 ou R$ 4,23
  • Alemanha: US$ 1,62 ou R$ 5,12
  • EUA: US$ 0,78 ou R$ 2,46

Vê-se que dentre os quatro países, o Brasil tem o segundo menor preço, abaixo apenas dos EUA. Comparando os valores da imagem com os valores calculados acima, temos o seguinte cenário:

  • Brasil: R$ 3,58 x R$ 3,32; (+ 8%)
  • Argentina: R$ 3,20 x R$ 4,23 (- 24,3%)
  • Alemanha: R$ 3,91 x R$ 5,12 (- 23,6%)
  • EUA: R$ 1,83 x R$ 2,46 (- 25,6%)

Fica evidente, portanto, como a imagem inflaciona o valor da gasolina brasileira e deflaciona o valor do mesmo produto nos demais países, deixando claro a má intenção dos criadores dessa imagem.

Para concluir, e retornando à questão implícita no título deste post, não duvido que o povo brasileiro seja heroico, absolutamente. No entanto, não creio que esse heroísmo deva-se ao fato de pagarmos muitos impostos em Corollas ou no litro da gasolina. Acredito que boa parte do heroísmo brasileiro está em sua resiliência à uma elite tão violenta e oportunista como a nossa. Acho ainda que seria mais heroico se conseguisse realizar transformações profundas e efetivamente tomasse o poder em suas mãos. Mas essa é uma outra história.

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Deputados paulistas que aprovaram a tramitação urgente da PL da terceirização

Caro trabalhador, que há cada dois anos tem sido enganado por discursos de candidatos que se dizem em defesa de seus direitos, o Hum Historiador traz uma lista contendo os nomes dos 45 dos 66 deputados paulistas que votaram a favor da PL 4339, ajudando a aprovar na Câmara dos Deputados a solicitação de urgência na tramitação do Projeto de Lei que regula a terceirização total dos trabalhadores no Brasil, representando um grande retrocesso nos direitos trabalhistas conquistados após muita luta e não menos sangue, suor e lágrimas terem sido derramados neste caminho.

Antes de passarmos  lista, cabe salientar que todos os deputados do PSDB (14), PSD (5), PR (5), DEM (3), PV (3), PP (2), PPS (2), PSC (2), PDT (1), PMDB (1), Solidariedade (1) presentes à sessão votaram a favor da PL 4339. Por outro lado, todos os deputados do PT (10) presentes à sessão de votação, do PC do B (1), do PSOL (1) e do PTN (1) votaram contra o Projeto.

Dentre os partidos que tiveram votação dividida, chama atenção o caso do PSB, que contou com quatro deputados presentes à votação, dos quais três votaram a favor da PL 4339 e apenas uma, a deputada Luiza Erundina, votou contra. Já no PRB, que contava com oito deputados na sessão, registrou-se apenas dois deputados votando a favor da PL 4339, enquanto os outros seis votaram contra. Por fim, no PTB, que contou com apenas dois deputados, cada um de seus representantes acabou votando por um dos lados.

Assim, a divisão dos votos segundo os partidos ficaram assim:

PL 4339_Votação Deputados Paulistas

Causa certo espanto que nomes como o de Paulinho da Força (Solidariedade) e Roberto Freire (PPS), cuja biografia é ligada a luta por direitos trabalhistas, tenham fechado com os deputados que aprovaram o Projeto de Lei.

Segue a lista contendo o nome dos deputados paulistas que votaram a favor da PL 4339 (terceirização)… Se você votou neles e é um trabalhador, lembre-se disso quando perder seu emprego CLT e se tornar um terceirizado.

1) Alex Manente (PPS)
2) Alexandre Leite (DEM)
3) Antônio Carlos Mendes Thame (PSDB)
4) Baleia Rossi (PMDB)
5) Beti Mansur (PRB)
6) Bruna Furlan (PSDB)
7) Bruno Covas (PSDB)
8) Capitão Augusto (PR)
9) Carlos Sampaio (PSDB)
10) Dr. Sinval Malheiros (PV)
11) Eduardo Bolsonaro (PSC)
12) Eduardo Cury (PSDB)
13) Ely Correa Filho (PSDB)
14) Evandro Gussi (PV)
15) Flavinho (PSB)
16) Gilberto Nascimento (PSC)
17) Goulart (PSD)
18) Guilherme Mussi (PP)
19) Herculano Passos (PSD)
20) Jefferson Campos (PSD)
21) João Paulo Papa (PSDB)
22) Jorge Tadeu Mudalem (DEM)
23) Keiko Otta (PSB)
24) Lobbe Netto (PSDB)
25) Luiz Lauro Filho (PSB)
26) Major Olímpio (PDT)
27) Mara Gabrilli (PSDB)
28) Marcelo Squassoni (PRB)
29) Márcio Alvino (PR)
30) Miguel Haddad (PSDB)
31) Miguel Lombardi (PR)
32) Milton Monti (PR)
33) Missionário José Olímpio (PP)
34) Nelson Marquezelli (PTB)
35) Paulo Pereira da Silva (Solidariedade)
36) Ricardo Izar (PSD)
37) Ricardo Tripoli (PSDB)
38) Roberto Freire (PPS)
39) Samuel Moreira (PSDB)
40) Sílvio Torres (PSDB)
41) Tiririca (PR)
42) Vanderlei Macris (PSDB)
43) Vitor Lippi (PSDB)
44) Walter Ihoshi (PSD)
45) William Woo (PV)

O portal Viomundo publicou a lista com a votação de todos os deputados (nacional).

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Golpismo e o aumento da renda média do trabalhador brasileiro

Se, por um lado, o antipetismo e a forma como o PT vem reagindo a ele é um dos fatores que ajuda a compreender melhor a atual crise política, como bem apontou o professor Lincoln Secco em sua entrevista a revista Carta Capital, por outro, o aumento do salário mínimo e da renda média do trabalhador também são indicadores que, historicamente, causam reações em setores da sociedade no intuito de derrubar os governos que o promoveram. Ao menos, é o que aponta o artigo do economista e pesquisador da Fundação Economia e Estatística (FEE), Róber Iturriet Ávila.

Em texto recentemente publicado na revista Carta Maior, Ávila compara os atuais valores do salário mínimo e da renda média do trabalhador com outros momentos de instabilidade política (governos de Getúlio Vargas e João Goulart), sugerindo haver uma relação entre as quedas desses governos e o aumento da renda média do trabalhador.

O Hum Historiador repercute abaixo a íntegra do texto de Róber Ávila tal como publicado no portal da revista Carta Maior.

ÓDIO AO PT?
por Róber Iturriet Ávila | publicado em Carta Maior em 11.mar.2015

Três intelectuais de relevo trataram recentemente acerca do ódio ao PT: Leonardo Boff, Luis Fernando Veríssimo e Luiz Carlos Bresser Pereira. Suas palavras têm a lucidez de quem enxerga além das aparências e do senso comum. Embora o momento corrente não seja corriqueiro, um olhar histórico traz ensinamentos.

Na Revolução Francesa, por exemplo, na aparência havia uma ruptura lastreada em novos valores: Liberté, Egalité, Fraternité. O pano de fundo real era, entretanto, a emergência de um novo grupo. Em meio a um período econômico conturbado, a burguesia degolou o poder político e o status social da aristocracia.

No Brasil, a constatação de que a escravidão foi excessivamente longa já sinalizava que o arranjo da sociedade é deveras estamental. Políticas progressistas sempre encontraram fortes barreiras conservadoras.

Os conflitos de 1954, por exemplo, foram intensos. Na superfície, o governo estava cercado diante dos “escândalos” de corrupção. A constante oposição na imprensa desgastava Vargas. Em 1954, o então presidente aumentou o salário mínimo em 100%. Quem não é ingênuo sabe que Vargas estava contrariando interesses empresariais, tanto com a concessão de direitos trabalhistas e civis, quanto com ampliações salariais. O suicídio foi a saída honrosa ao cerco montado.

João Goulart foi presidente em um período de conflitos. Seu governo concedia elevados aumentos salariais, prometia reforma urbana, voto de analfabetos, elegibilidade de todos brasileiros, reforma agrária, concessão de terras a trabalhadores rurais, justiça social, emancipação dos brasileiros. Caiu! O receio do “golpe comunista” foi o discurso raso que justificava.

Vargas e Goulart saíram do poder ao tempo em que concediam direitos sociais, sobretudo aos menos favorecidos. Não é novidade que durante os governos do PT, os trabalhadores ampliaram sua renda, o salário mínimo cresceu de maneira contínua e houve uma série de programas sociais. Não surpreende que, mais uma vez, setores da sociedade brasileira se ergam contra tais políticas, ainda que, escamoteadamente, o bordão seja “contra a corrupção”.

Evidentemente, existem elementos factuais dos governos Lula e Dilma que causaram desconforto e indignação a todos os cidadãos. Contudo, é preciso muita inocência para imaginar que as manifestações contra o governo são incentivadas pelo descontentamento com a corrupção, pela elevação do preço do combustível ou da energia. Quem tem conhecimento histórico e compreensão profunda da sociedade não ignora a ojeriza existente a um programa que garante R$ 35,00 para os pobres. O ódio não é ao PT.

Conhecendo um pouco mais dos dados do Brasil se observa que houve dois momentos de crescimento relevante do nível dos salários: no período Getúlio Vargas – João Goulart e nos governos do Partido dos Trabalhadores. Os gráficos abaixo não apenas demonstram esses movimentos como indicam que presentemente o excedente operacional bruto caiu em relação ao produto total em detrimento do incremento nos salários. Interesses poderosos estão sendo feridos. Não apenas segmentos estão perdendo, em termos relativos, como também regiões. Será mesmo preciso pintar de azul em um mapa qual região perde mais com a solidariedade distributiva?
C:\Users\rober\Desktop\renda media do trabalho.pngC:\Users\rober\Desktop\sal minimo.png
C:\Users\rober\Desktop\distribuição funcional.png


Róber Iturriet Ávila é doutor em economia, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS).

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