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Preconceitos e ódio: os pilares da direita brasileira

por Célia Regina da Silva e Rogério Beier

Recentemente, como parte de uma “experiência antropológica”, entrei em um grupo de discussão política em uma rede social. O grupo diz preconizar a discussão de ideias, não de pessoas, entretanto, quando se começa a participar das discussões o que se vê é justamente o contrário.

Bastou fazer alguns comentários e como primeiras respostas logo vieram simpatizantes do deputado Jair Messias Bolsonaro insultando-me de gordo, reparando na minha camiseta comunista, chamando-me de merda, escroto, comedor de hamburguer do McDonnalds, dentre outros qualificativos, como se pode ver abaixo:

Leonardo Hatake e Kaio_001

Rui de Salles Oliveira_001

Samuel Gomes_001

Johann_004

Rafael Neves_001

Este último comentário veio em resposta a uma imagem que faz comparativo entre as ideias do historiador Eric Hobsbawm e o economista Ludwig von Mises.

Não satisfeitos em responderem o post que eu havia compartilhado no grupo criticando minha aparência, partiram para ataques homofóbicos, como se percebe no comentário deste militante do Bosonaro para quem eu sou socialista por ele achar que eu gosto de sexo anal:

Vinicius Ramos_004

Claro que depois das primeiras ofensas, passei a responder àqueles que me atacavam. Não baixei tanto o nível, como alguns que ofenderam minha mãe, sugerindo que ela estivesse fazendo sexo oral com eles, mas tentava fazê-los ver o quanto são imbecis.

Entretanto, o pior ainda estava por vir. Célia Regina da Silva, outra participante do grupo começou a fazer posts provocativos que defendiam ideais da esquerda. Desde o primeiro post ela foi insultada e humilhada diversas vezes. Vou postar aqui apenas os comentários raivosos de um dos posts mais comentados que ela fez, só para que vocês tenham ideia da quantidade de preconceitos (de todos os tipos) e ódio que circula nas redes sociais.

O “post bomba” foi este:

Celia_Che

Logo de princípio, gratuitamente, ela teve respostas como estas:

Ana Paula Santos_001

Ana Paula Santos_002

Alexandre Limberger_001

Alexandre Limberger_002

Para um dos integrantes do grupo, esquerdistas como a Célia, além de serem pobres de espírito e de caráter, não são seres humanos de verdade, como se vê no comentário abaixo:

Cris Orlando_001

Já para outro membro, que foi atrás do perfil de Célia e viu que ela é professora, a desonestidade faz parte do caráter dela. Para chegar a esta conclusão, bastou o post e umas respostas que ela deu àqueles que a atacavam.

Johann_001

Outro membro do grupo, após observar alguns erros cometidos por Célia durante a digitação de suas respostas, não a poupou de críticas, taxando-a de analfabeta funcional:

Mauro Neto_001

Já outro integrante, um dos principais agressores de Célia, aponta que os posts dela se devem a pagamentos que ela supostamente estaria recebendo do PT ou do governo, não poupando-a de comentários depreciativos, inclusive utilizando-se de calão, como se pode ver abaixo:

Mauro Halpern_001

Mauro Halpern_002

Mauro Halpern_003

Mauro Halpern_004

Outro agressor contumaz de Célia, um senhor mais idoso, mesmo sem conhecê-la ou sequer haver conversado com ela, diz ter segurança de que Célia era má professora, analfabeta política, idiota útil, imbecil e canalha.

Nicolau Piragino_002

Nicolau Piragino_005

Nicolau Piragino_001

Nicolau Piragino_003

Este último comentário, pasmem, ele fez após Célia ter chamado atenção para o fato de a Revolução Francesa ser uma Revolução Burguesa.

Por seu lado, o militante do Bolsonaro para quem eu sou socialista porque supostamente gosto de sexo anal, não deixou por menos. Quando contestado no grupo por outros participantes, também partiu para a agressão pessoal:

Vinicius Ramos_003

Vinicius Ramos_002

Vinicius Ramos_001

No entanto, muito surpreendeu uma integrante feminina do grupo, estudante de medicina e de quem se esperava um pouco mais de sororidade para com Célia. Ao contrário disso, manteve a sequência de ofensas chamando-a de Doente e Louca em razão do post que ela havia compartilhado, além de algumas respostas que Célia havia dado a seus detratores. Detalhe: ela agiu de modo covarde, destilando seu veneno apenas após ter recebido notícia de seus colegas assegurando que Célia havia deixado o grupo.

Teresa Raposo_001

Teresa Raposo_002

Todavia, alertada por mim, Célia retornou ao grupo e chamou a atenção da dita estudante de medicina por ter feito os comentários naquela condição. Não satisfeita com as agressões iniciais, a estudante volta ao ataque e responde Célia chamando-a de louca.

Teresa Raposo_003

Não bastasse ataques como estes, alguns integrantes do grupo passaram a utilizar fotos de Célia para ofender sua aparência, sem economizar nos palavrões e nos insultos até mesmo à já falecida mãe de Célia, como se pode ver abaixo:

Rodolfo Mello_001

Rodolfo Mello_002

Kaio Klement_001

Mauro Halpern_005

Teve até um oficial da Polícia Militar que fez os seguintes comentários:

Capitão Craveiro_001

Capitão Craveiro_002

Capitão Craveiro_003

Capitão Craveiro_004 (Vaca Profana)

Não satisfeitos, esses mesmos indivíduos que a atacaram, insultaram e humilharam uma pessoa em quase 300 comentários, tentaram covardemente reverter a situação buscando fazer de Célia, vítima dos ataques, a culpada de todas as agressões que sofreu. Vejam, por exemplo, os comentários abaixo:

Johann_002

Johann_003

Johann_006

A estudante de medicina não parou com os insultos e manteve sua sanha ofensiva, chegando a mandar Célia se foder.

Teresa Raposo_004

Teresa Raposo_005

E os homens que vieram após os insultos proferidos pela dita estudante, sentiram-se à vontade para recomendar que Célia resolvesse “seu problema” arranjando um namorado.

Johann_007

Mauro Halpern_006

Eis aqui, caros companheiros, um flagrante preocupante de inúmeros preconceitos e do ódio que encontramos em algumas pessoas que alegam defender os ideais conservadores e de direita. Em seus perfis, muitos ostentam orgulhosamente bandeiras do Brasil, além, é claro, de imagens de Jair Bolsonaro, textos de Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, dentre outros “ícones” responsáveis por formar a opinião de indivíduos como estes que acabam de ser descritos aqui.


ATUALIZAÇÃO

Após termos comunicado aos membros do grupo a publicação deste post com o registro de seus ataques, muitos deles ficaram ainda mais raivosos e continuaram insultando, sobretudo, a Célia. Abaixo seguem os registros dos novos xingamentos:

Fizeram uns poucos ataques a mim, como se vê abaixo:

Eugenio D_001_Ofensas

Vinicius Ramos_Ofensas Pesadas_003

Mas a maioria dos insultos foram novamente dirigidos à Célia.

Alexandre Limberger_003_Ofensas

Teresa Raposo_Ofensas_001

Luiz Alberto Fiori_001

Para esse membro do grupo, além de esquizofrênica, Célia é vitimista por ter exposto os ataques que sofreu no grupo.

Andre Almeida Exposed_001

Houve quem se revoltasse com o post e buscou nas discussões respostas de Célia que pudessem justificar a fúria com que eles a haviam atacado. Esquecem-se que durante quatro dias Célia vinha sofrendo agressões em diferentes posts e tudo o que ela fez havia sido revidar os ataques desferidos contra ela.

Teresa Raposo e Claudia Exposed_001

De qualquer modo, não satisfeitos com os ataques iniciais, continuaram agredindo Célia com ofensas como porca, gorda e outros nomes, como se vê abaixo.

Rafael Neves_003_Ofensas

Rafael Neves_002_Ofensas

Vinicius Ramos_Ofensas Pesadas_002

Mauro Halpern_Ofensa_001

Mauro Halpern_Ofensa_002

Mauro Halpern_Ofensa_003

Depois de toda essa agressão, houve um membro do grupo que até quis fazer uma análise psicológica de Célia, tentando compreender a razão de ela haver respondido os ataques que sofreu.

Mauro Neto_002_Ofensas

Como desfecho final, houve um membro do grupo que, no meio de tanto ódio desferido contra Célia, aproveitou para fazer postagens anti-semitas. O nome desse eu não borrei, pois entendo que deve ser identificado e denunciado, ainda que acredite que o perfil seja falso.

Arthur Alves_Antisemitismo 002

Arthur Alves_Antisemitismo 001

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Arquivado em Política, Sociedade

Heroísmo à brasileira?

Que as redes sociais são locais propícios para se fazerem ataques mentirosos a quem quer que seja, com vistas à atingir milhões de pessoas, ninguém mais tem dúvidas. Se levarmos tal afirmação ao campo da política, então, poucos contestariam que tal expediente se tornou uma prática amplamente utilizada por quase todas associações políticas.

Ora, sabendo disso, não deveria surpreender que na atual conjuntura política brasileira, veicular mentiras no intuito de aumentar a instabilidade política e diminuir a popularidade do atual Governo é um prato cheio para os inimigos, críticos e antipatizantes do Governo e das agremiações políticas que o compõe. Prova disso é que, das eleições pra cá, temos visto um aumento exponencial de mentiras compartilhadas por milhões de pessoas com o objetivo único de atacar a imagem do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, da atual presidenta Dilma Rousseff e, obviamente, do Partido dos Trabalhadores.

Pois bem, ontem (05), Leonardo, um amigo uspiano, publicou em sua conta do Facebook um exemplo disso justamente para criticar as mentiras que estavam sendo divulgadas nas redes sociais por pessoas mal intencionadas visando, sobretudo, promover a desinformação generalizada. O exemplo que ele utilizou foi uma imagem divulgada pelo perfil DILMA NA BALADA, em fevereiro deste ano, que colocou em circulação a seguinte informação:

Ataques ao Governo nas Redes Sociais

Que o brasileiro pode ser considerado heroico por uma série de razões, disso não cabem dúvidas, no entanto, o autor da imagem acima faz referência à sua capacidade de viver com um salário baixo, pagando uma elevada carga de impostos em produtos como um Toyota Corolla ou a gasolina, por exemplo. Vê-se logo que o foco da crítica recai sobre a carga tributária do Brasil sob o governo do PT.

Não é necessário ser muito inteligente para constatar que se trata da velha crítica liberal de como os governos oprimem a economia e deveriam, ao contrário do que faz o atual governo, diminuir a carga tributária. Não que a crítica seja inválida. Cada um tem a liberdade para fazer a crítica que quiser, mas o modo como se faz essa crítica é que se está questionando aqui, por ser covarde e mentirosa.

Covarde porque tenta esconder os interesses de um grupo privilegiado da sociedade por trás de uma “bandeira” popular em busca do apoio dessa camada social para a realização das demandas daquela elite. Percebam que a imagem não clama pelo aumento do Salário Mínimo, mas sim pela redução dos impostos e os exemplos dos produtos escolhidos para a crítica, em si, são indicativos claros do grupo de pessoas que criou esta imagem e a quem ela é originalmente destinada.

Mentirosa porque os números utilizados na mensagem foram inflacionados/deflacionados justamente para causar uma impressão de que o brasileiro está sob uma pressão tão grande, que só mesmo sendo heroico para sobreviver no Brasil sob o regime petista.

Peguemos os valores da gasolina e do Salário Mínimo nos diferentes países citados para mostrar como esses dados são mentirosos (a escolha da gasolina e do Salário Mínimo devem-se pelo fato destes terem sido os elementos “populares” escolhido pelos autores da imagem para ampliar seu público-alvo).

Usando os dados veiculados na imagem, se um Salário Mínimo brasileiro (R$ 788,00)) compram 220 litros de gasolina, então o litro da gasolina no Brasil custaria algo em torno de R$ 3,58 o que, de princípio, já não é verdade. Nos postos paulistanos (ao menos na zona sul) a média é R$ 3,00, chegando a custar até R$ 2,90 em muitos postos. Vamos agora analisar essa relação nos demais países mencionados, onde os valores dos salários mínimos são:

  • Argentina: PA$ 4716,00 (convertidos para R$ 1.656,73)
  • Alemanha: E$ 1473,33 (convertidos para R$ 5.183,00)
  • Estados Unidos: aproximadamente US$ 1200,00 / mês tomando como referência os US$ 7,25 (por hora) equivalente ao Salário Mínimo federal em 2015. (convertidos para R$ 3.801,24)

Seguindo essa mesma linha de raciocínio os valores da gasolina por litro para Argentina, Alemanha e EUA, convertidos para reais seriam, respectivamente: R$ 3,20; R$ 3,91 e R$ 1,83.

Ora, bastaria comparar esses valores com os preços praticados nesses países para ver como os mesmos são tão mentirosos quanto o valor alegado para o Brasil. Há sites que registram, mensalmente, a evolução dos preços do combustível em todos os países, como o GlobalPetrolPrices, por exemplo. Segundo este sítio, o preço médio da gasolina nos quatro países em 01/06 eram:

  • Brasil: US$ 1,05 ou R$ 3,32 (dólar a R$ 3,16 em 05/06/2015)
  • Argentina: US$ 1,34 ou R$ 4,23
  • Alemanha: US$ 1,62 ou R$ 5,12
  • EUA: US$ 0,78 ou R$ 2,46

Vê-se que dentre os quatro países, o Brasil tem o segundo menor preço, abaixo apenas dos EUA. Comparando os valores da imagem com os valores calculados acima, temos o seguinte cenário:

  • Brasil: R$ 3,58 x R$ 3,32; (+ 8%)
  • Argentina: R$ 3,20 x R$ 4,23 (- 24,3%)
  • Alemanha: R$ 3,91 x R$ 5,12 (- 23,6%)
  • EUA: R$ 1,83 x R$ 2,46 (- 25,6%)

Fica evidente, portanto, como a imagem inflaciona o valor da gasolina brasileira e deflaciona o valor do mesmo produto nos demais países, deixando claro a má intenção dos criadores dessa imagem.

Para concluir, e retornando à questão implícita no título deste post, não duvido que o povo brasileiro seja heroico, absolutamente. No entanto, não creio que esse heroísmo deva-se ao fato de pagarmos muitos impostos em Corollas ou no litro da gasolina. Acredito que boa parte do heroísmo brasileiro está em sua resiliência à uma elite tão violenta e oportunista como a nossa. Acho ainda que seria mais heroico se conseguisse realizar transformações profundas e efetivamente tomasse o poder em suas mãos. Mas essa é uma outra história.

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Arquivado em Educação, Internet, Política

Nós vamos invadir seu shopping

por José Guilherme Zago especialmente para o Hum Historiador

Jovens marcam encontro pelas redes sociais e invadem o Shopping Itaquera no último sábado (7)

Uma semana após uma massa de adolescentes uniformizados de Hollister e oakley ocuparem o shopping Itaquera, desta vez foi o Shopping Internacional de Guarulhos que recebeu neste sábado  (14/12) o evento intitulado nas redes sociais de “rolezinho”, ou seja, um encontro de adolescentes  que propõem um “fleneur” pelos centros de consumo paulistanos.

“QUEM FAZ O FLUXO SOMOS NÓS” diz o evento do Shopping Itaquera, atordoando o público tradicional dos shoppings que ficam incrédulos ao ver  os protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) cantando seu “tchu-tcha”.  Não, não se trata do “grito dos excluídos” que há dez anos respirava o ar da Anti-globalização e levava o MST a almoçar pão com mortadela na frente de vitrines de Rollex.  Por mais que tais eventos ainda existam os membros deste “fluxo” estão incluídos no ethos do consumo e ostentação caminhando e cantando ao som do funk paulistano. Só que desta vez trata de um “occupy” de um território onde impera o liberalismo por excelência: Um território sem conflitos, homogêneo onde a relação primordial não é entre humanos, mas entre cartões de crédito e mercadorias.

Não é de hoje que o medo que a “plebe” invada os espaços restritos a uma parcela da população paira sobre mundo burguês,  o hoje reacionário Roger do Ultraje a Rigor fazia sucesso ao narrar no hit “Nós vamos invadir sua praia” a descida ao litoral da plebe farofeira. Danuza Leão que o diga: “Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?”.

Qual é a lição disso tudo? Estes jovens nascidos em 1998 entraram para a vida de consumo no exato momento que esta se tornou a alavanca de crescimento do governo de Lula em 2008, aprendendo muito bem que uma pessoa de “status”, uma pessoa de sucesso é alguém que se enquadra na estética do consumo, entretanto eles cobram maior participação nos espaços onde os mesmos são tradicionalmente excluídos.

Ironicamente, o final do “rolezinho” encerra com a participação do braço tradicional do Estado que mais se relaciona com a plebe, a polícia é chamada para proteger os antigos frequentadores e coibir arrastões nem sempre confirmados.

Em tempo: Essa disputa pelo espaço urbano ainda vai longe: o “rolezinho de Itaquera” começou após a proibição dos bailes Funk’s na região. http://www.cbnfoz.com.br/editorial/brasil/15122013-60789-rolezinho-do-shopping-traz-medo-e-panico-a-sociedade


José Guilherme Zago é historiador e leciona História em escolas da rede pública e privada de São Paulo.

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Arquivado em Comportamento, Opinião

Luiz Felipe Pondé e os Guarani-Kaiowá: desinformação ou má-intenção?

Em sua coluna semanal publicada na Folha de S. Paulo (19/11/2012), Luiz Felipe Pondé critica a inteligência das pessoas que assinaram Guarani-Kiowá em seus nomes no facebook com frases como:

“Qualquer defesa de um modo de vida neolítico no Face é atestado de indigência mental.”. 

“As redes sociais são um dos maiores frutos da civilização ocidental. Não se “extrai” Macintosh dos povos da floresta; ao contrário, os povos da floresta querem desconto estatal para comprar Macintosh. E quem paga esses descontos somos nós.”

“Pintar-se como índios e postar no Face devia ser incluído no DSM-IV, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.”

“O que faz alguém colocar nomes indígenas no seu “sobrenome” no Facebook? Carência afetiva? Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridículo? Falta de sexo? Falta de dinheiro? Tédio com causas mais comuns como ursinhos pandas e baleias da África? Saiu da moda o aquecimento global, esta pseudo-óbvia ciência?”

“Essas pessoas que andam colocando nomes de tribos indígenas no seu “sobrenome” no Face acham que índios são lindos e vítimas sociais. Eles querem se sentir do lado do bem. Melhor se fossem a uma liquidação de algum shopping center brega qualquer comprar alguma máquina para emagrecer, e assim, ocupar o tempo livre que têm.”

E não fica só na crítica aos simpatizantes dos Guarani-Kaiowá nas redes sociais não. Ao falar a respeito dos índios, Pondé tece as seguintes considerações:

Desejo que eles [índios] arrumem trabalho, paguem impostos como nós e deixem de ser dependentes do Estado. Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo.

Frases que revelam todo o pensamento conservador e tacanho desse que tem sido a fonte de muita gente, mais mal intencionada ainda, que fazem leis, acabam com reservas e usurpam as terras dos índios.

Para não deixar o Pondé sem resposta, abaixo repercutimos a carta de Rita Alves – Membro Fundadora do Instituto Orlando Villas Boas – em resposta a essa coluna infâme, repleta de preconceitos, desinformação e más intenções, do jornalista e filósofo conservador Luiz Felipe Pondé.

“Caríssimo,

seu artigo é uma catástrofe. Muito me espanta um homem com sua relevância midiática fazer uso de um precioso espaço para tantos absurdos num único artigo. Por acaso você conhece – conhece mesmo, de fato, com profundidade e consistência – a história dos irmãos Villas Boas e o que dessa história temos como resultados humanitários, além, muito além dos resultados antropológicos? Saberá o caro jornalista e filósofo que algumas etnias foram salvas de extinção e que junto com extinção de índios paralelamente há todo um contexto social, temas ligados diretamente a produção de soja em larga escala, gado, extração de minérios preciosos de modo ilícito, organizações internacionais que adquirem terras ameaçando nossa soberania…? O jornalista extingue, com seu artigo infeliz o legado de Darcy Ribeiro, Claude Levi-Strauss, Marechal Rondon, além de uma cultura milenar, muito anterior a apropriação européia do continente, de três mil anos.

Saberá o amigo do que trata toda uma vida de pesquisa da antropóloga BettynMindlin? Conhecerá o acervo fotográfico de Maureen Basilliat? Tudo jogado no lixo jornalístico escrito por você. Terá também o jornalista e filósofo Pondé assistido à entrevista feita pelo psicanalista Jorge Forbes com o filósofo e pensador francês Luc Ferry, em que eles nos alertam para o fim das grandes revoluções e nos chamam a atenção para as pequenas revoluções feitas através das redes sociais, alterando comportamentos e rumos históricos?
Pois bem, depois de ler o seu artigo, concluo que você é a pessoa desinformada ou mal formada. E com o agravante de levantar a público algo seríssimo: você é um formador de opinião. Não assinei meu sobrenome como Guarani-Kayowa, no entanto, os que o fizeram conseguiram com este feito alertar as autoridades para a questão.

Cinismo absurdo pedir que os índios trabalhem. Você está novamente desinformado: eles trabalham. É a ÚNICA organização social que sempre funcionou, com respeito às diferenças, organização sim, em que cada um tem uma função no sentido de utilidade para o grupo. Afora as investidas civilizatórias de corrupção e vícios como álcool e fumo, além de prostituição, que acontecem com os índios justamente FORA das preciosas reservas. Não são reservas temáticas, meu caro. É reserva de terra. Para que pessoas com sua mentalidade não queiram empresariar o espaço. Para que dentro dessas reservas os verdadeiros donos de onde você e eu moramos possam exercitar o seu sagrado direito de liberdade e propriedade: cultura. Pagar impostos? Eles já pagaram com a vida, afinal, nós matamos centenas de milhares de índios em pouco mais de quinhentos anos. Pagaram também com muita terra, sendo excluídos de sua casa violentamente. O amigo também não saberá que nosso estado de São Paulo inaugurou o Parque Orlando Villas Boas, com projeto de museu/centro de formação criado por um dos mais relevantes e respeitados nomes de nossa arquitetura, Ruy Ohtake. Não saberá que a família Villas Boas tem mais de duas mil peças indígenas – algumas que já não existem por ações como a sua – e acervo fotográfico, filmes, etnologia e registros de troncos linguísticos, fonte para nossos cientistas e de todo o mundo? Também está desinformado de que museus de todo o planeta solicitam informações sobre o modo de vida dos índios, como exemplo de sociabilidade e comunhão.

Bem, meu caro, vou fazer uso justamente da rede social para publicar este e-mail, solicitando a você uma RETRATAÇÃO PÚBLICA diante da nação envergonhada com seu texto.”

Rita Alves – tem formação em História, Arte e Letras e é membro fundadora do Instituto Orlando Villas Boas

Agora que leram as frases absurdas de Pondé e a resposta de Rita Alves e me digam: quais as intenções de Pondé com seu texto? Será apenas criticar os usuários do facebook que assinaram seus nomes com Guarani-Kaiowá? Ou ele está querendo servir de referência “intelectual” para muitos dos que tem interesses nas terras dos índios? Quais as intenções de Pondé?

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Vitória de Haddad pode aumentar preconceito contra pobres e nordestinos nas redes sociais

Aos infelizes que distilam seu racismo e preconceito pelas redes sociais ao divulgar mensagens de ódio e incitação a violência contra nordestinos por elegerem Fernando Haddad para prefeito de São Paulo, vale lembrar que o autor de qualquer mensagem ofensiva à dignidade de outrem será responsabilizado e que elas são responsáveis, sim, por suas postagens, como informa notícia veiculada pelo portal R7 em 17 de maio de 2012.

Essa notícia dá conta de que Mayara Petruso foi condenada a um ano, cinco meses e quinze dias de reclusão por mensagem preconceituosa e incitação a violência contra nordestinos em sua página do Twitter. Como informa o portal, a decisão foi da juíza federal Mônica Aparecida Bonavina Camargo, da 9ª Vara Federal Criminal em São Paulo, que acabou permitindo que a pena fosse convertida em prestação de serviço comunitário e pagamento de multa.

Mayara sugere que paulistanos matem nordestinos afogados

Alegando ter sido motivada pelo resultado das eleições à presidência da República em 2010, quando seu candidato – José Serra – perdeu para Dilma Rousseff devido à expressiva votação dos nordestinos, Mayara havia dito que não teve a intenção de ofender, que não é preconceituosa e não esperava que a postagem tivesse tanta repercussão. Confessou ainda estar envergonhada e arrependida pelo que fez..

Na atual eleição municipal de São Paulo, o Twitter e o Facebook já começam a servir de veículos do preconceito contra os nordestinos pela vitória de Haddad, como demonstra o Tweet abaixo, de conta chamada @relinchabrasil, veiculado no twitter por volta das 15h de 28 de outubro de 2012.

Para o presidente da OAB-PE, Henrique Mariano, a pena aplicada servirá de exemplo para todo País:

No momento em que essa estudante postou essa mensagem ofensiva à dignidade, revestida de cunho preconceituoso e discriminatório contra os nordestinos, ela ofendeu toda uma coletividade. [A condenação] Serve de exemplo para todo o Brasil. Até porque essa é a primeira condenação tendo como base mensagens de cunho preconceituoso feitas nas redes sociais.

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