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John Pilger: À sombra de uma terceira guerra mundial?

Direto do blog OUTRAS PALAVRAS no site da Carta Capital

por John Pilger | por Vila Vudu

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Cena de “Doutor Fantástico”, de Stanley Kubrick. Para Pilger, “mundo está diante do risco de grande guerra, talvez nuclear. EUA provocam Rússia e China. Estas verdades estão sendo invertidas por jornalistas”

Por que o jornalismo sucumbiu tão completamente à propaganda? Por que censura e distorção são a prática padrão? Por que a BBC é, tão frequentemente, porta voz dos poderosos mais rapaces? Por que o New York Times e o Washington Post mentem diariamente aos seus leitores-consumidores?

Por que não se ensina os jovens jornalistas a compreender as agendas dos veículos e a se contrapor a elas, denunciando a distância que separa os altos objetivos declarados e a realidade da “objetividade” mais falsa? E por que não compreendem que a essência de praticamente tudo que costumamos chamar de “imprensa dominante” nunca é informação, mas é só e sempre, poder?

Essas são perguntas que clamam por respostas urgentes. O mundo está diante do risco de grande guerra, talvez guerra nuclear – com os EUA claramente decididos a isolar e provocar a Rússia e provavelmente, em breve, também a China. Essa verdade está sendo invertida, apresentada de cabeça para baixo por jornalistas – entre os quais, é claro, também os que divulgaram como se fossem notícias, as mentiras que levaram ao banho de sangue no Iraque em 2003.

Vivemos tempos tão perigosos e tão distorcidos, para a percepção pública, que a propaganda deixou de ser, como Edward Bernays a chamou, “um governo invisível”. Ela é o governo. Governa diretamente, sem medo de ser contraditada, e seu principal objetivo é nos conquistar: nosso sentido de mundo, nossa capacidade de separar mentiras e verdade.

A era da informação é, na verdade, uma era da mídia. A mídia produz guerra; a mídia censura; a mídia demoniza quem queira; a mídia vinga-se; a mídia afasta a atenção dos eleitores do que a imprensa não quer que seja sabido – a mídia é uma linha de montagem surreal de clichês de rendição e pressupostos mentirosos.

Esse poder para criar uma nova “realidade” foi construído ao longo de muito tempo. Há 45 anos, um livro intitulado The Greening of America fez furor. Na capa, lia-se: “Há uma revolução em marcha. Não será como as revoluções passadas. Dessa vez, a revolução nascerá com o indivíduo.”

Eu trabalhava como correspondente nos EUA e lembro bem como, da noite para o dia, o autor – Charles Reich, um jovem aluno de Yale – recebeu status de guru. A mensagem era que a ação política e o trabalho de informar a verdade haviam fracassado, e só a “cultura” e a introspecção poderiam mudar o mundo.

Em poucos anos, movido pelas forças do lucro, o culto do “eu-mesmismo” já atropelara mortalmente nosso senso de ação conjunta, de justiça social e de internacionalismo. Classe, gênero e raça foram separados. Se era individualista e pessoal… era “político”. E imprensa, já então chamada “mídia”, era a mensagem.

Ao fim Guerra Fria, a fabricação de novas “ameaças” completou o serviço de desorientação política para todos que, vinte anos antes, ainda teriam constituído uma oposição veemente.

Em 2003, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, respeitado jornalista investigativo norte-americano. Discutimos a invasão ao Iraque, acontecida meses antes. Perguntei-lhe: “E se a imprensa mais livre do mundo tivesse denunciado as mentiras de George Bush e Donald Rumsfeld e investigado tudo que eles diziam, em vez de pôr em circulação tudo que, como em seguida se viu, não passava de propaganda a mais nua e crua?”

Lewis respondeu que se nós jornalistas tivéssemos feito o que era nosso trabalho e nosso dever “haveria boa, muito boa probabilidade de que os EUA não tivessem feito guerra ao Iraque.”

É conclusão estarrecedora, mas apoiada por outros jornalistas aos quais fiz a mesma pergunta. Dan Rather, ex-CBS, deu-me a mesma resposta. David Rose do Observer e consagrados jornalistas e produtores na BBC, que pediram para que seus nomes não fossem divulgados, disseram a mesma coisa.

Em outras palavras: se os jornalistas tivessem feito jornalismo, se tivessem perguntado e investigado, em vez de só repetir e amplificar a propaganda que recebiam pronta, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças não teriam morrido; milhões não teriam perdido as próprias casas; e a guerra sectária entre sunitas e xiitas não teria sido insuflada; e talvez nem existisse o famigerado Estado Islâmico.

Ainda hoje, apesar dos milhões que tomaram as ruas em protestos, a maioria das populações nos países ocidentais absolutamente ainda não tem nem ideia da escala gigante do crime que os governos ocidentais cometeram no Iraque. Menos gente ainda sabe que, nos 12 anos antes da invasão, os governos de EUA e Grã-Bretanha puseram em movimento um holocausto – negando à população civil iraquiana os meios mínimos para a sobrevivência.

Essa são as palavras do principal funcionário britânico responsável por sanções impostas ao Iraque nos anos 1990 – um cerco medieval que provocou a morte de meio milhão de crianças com menos de cinco anos, como a Unicef relatou. O nome do funcionário é Carne Ross. No Ministério de Relações Exteriores em Londres, ficou conhecido como “Mr. Iraq”. Hoje, ocupa-se de contar, afinal, a verdade, sobre como o governo britânico mentia e os jornalistas acorriam, lépidos, sempre dispostos a divulgar o mais possível toda e qualquer mentira que lhes chegasse aos ouvidos. “Alimentávamos os jornalistas com factoides que os serviços inteligência nos passavam, depois de ‘aprovados’” – disse-me ele. – “Ou os mantínhamos absolutamente longe de qualquer fato.”

O principal sentinela, durante aquele período sombrio de informação falsificada, foi Denis Halliday. Então secretário-geral assistente da ONU e alto funcionário da ONU no Iraque, Halliday renunciou ao cargo e à carreira, para não ter de implementar políticas que ele descreveu como “genocidas”. Halliday estima que as sanções impostas por EUA e Grã-Bretanha ao Iraque mataram mais de um milhão de iraquianos.

O que então aconteceu a Halliday é muito instrutivo. Foi apagado do mundo. Ou foi convertido em agente do mal. No programa “Newsnight”, da BBC, o apresentador Jeremy Paxman berrou-lhe: “Você não é defensor de Saddam Hussein?” Recentemente, oGuardian descreveu essa cena como um dos “momentos memoráveis” da carreira de Paxman. Semana passada, Paxman assinou contrato de 1 milhão de libras, para escrever um livro.

Os faxineiros da supressão do jornalismo fizeram bem feito o seu trabalho imundo. Considerem os efeitos. Em 2013, pesquisa da ComRes descobriu que a maioria da população britânica acreditava que haviam morrido no Iraque “menos de 10 mil pessoas” – fração ínfima da verdade. O rastro de sangue que vai do Iraque a Londres havia sido esfregado a golpes de mídia, até quase sumir.

Rupert Murdoch é conhecido como o chefão da “máfia midiática”, e ninguém deve duvidar do estarrecedor poder de seus jornais – são 127, com circulação somada de 40 milhões de exemplares, mais a rede Fox. Mas a influência nefasta do império de Murdoch não é maior nem mais nefasta que a influência do que se conhece como “a mídia mais ampla”.

A propaganda mais efetiva não se encontra nem no Sun nem no Fox News de Murdoch – mas nos jornais e televisões ditos “sérios”, acobertados por um halo de jornalismo liberal e supostamente “civilizado”.

Quando o New York Times publicou a notícia inventada segundo a qual Saddam Hussein teria armas de destruição em massa, todos acreditaram, porque o veículo não era o canal Fox News de Murdoch: era o New York Times.

O mesmo vale para o Washington Post e o Guardian, jornais que, ambos, tiveram função criticamente decisiva no condicionamento dos seus leitores, até que aceitassem uma nova e perigosa guerra fria. Todos esses veículos da imprensa liberal falsearam o noticiário dos eventos na Ucrânia, apresentado como se a Rússia tivesse cometido algum crime – quando, na verdade, aconteceu ali um golpe fascista liderado pelo EUA, ajudado pela Alemanha e pela OTAN.

A inversão da verdade e do fato é tão generalizada que já nem se discutem, nos EUA, os movimentos de intimidação e provocação militar que Washington realiza contra a Rússia, nem se ouve qualquer oposição a eles. Não se ouve notícia alguma, todas suprimidas e censuradas por trás de uma campanha de geração de medo social, do tipo sob o qual cresci, durante a primeira guerra fria.

Mais uma vez, o império do mal vem nos pegar, liderado por um novo Stalin ou, perversamente, por novo Hitler. Escolha seu judas e pode malhá-lo até a morte.

A ocultação dos fatos reais sobre a Ucrânia é um dos mais completos blecautes de notícias de que me recordo em toda a minha vida. A maior concentração de militares ocidentais no Cáucaso e no leste da Europa, desde o final da 2ª Guerra Mundial, é escondida. A ajuda secreta que Washington deu a Kiev e às suas brigadas neonazistas responsáveis por crimes de guerra contra a população do leste da Ucrânia foi apagada do mundo. Todas as provas que desmentem a propaganda segundo a qual a Rússia teria sido responsável por abater em pleno voo um avião civil malaio com 300 passageiros foram apagadas do mundo.

E, mais uma vez, quem censura é a imprensa supostamente liberal. Sem que se apresente um único fato ou evidência, um jornalista “identificou” um líder pró-Rússia na Ucrânia como o homem que, pessoalmente, teria derrubado o avião. Esse homem, escreveu o tal jornalista, é conhecido como O Demônio. Sujeito assustador, que apavorou o jornalista. Pronto. Está tudo investigado e comprovado.

Muitos, na mídia ocidental, trabalharam duro para apresentar a população etnicamente russa étnicos que vive na Ucrânia como outsider, forasteira em seu próprio país — nunca como ucranianos que desejam ser integrados à Federação Russa, como cidadãos ucranianos em luta de resistência, diante de um golpe orquestrado contra um governo que eles elegeram.

O que o presidente da Rússia tenha a dizer não importa; é o vilão da pantomima que se pode malhar à vontade, sem consequências. Um general norte-americanos que dirige a OTAN e é perfeita reencarnação do Dr. Strangelove, o “Dr. Fantástico”. O tal generalPhilip Breedlove reclama todos os dias de invasões russas, sem um fiapo de comprovação. É a personificação do general Jack D. Ripper, de Stanley Kubrick.

Quarenta mil russos estariam reunidos na fronteira, fortemente armados, disse o Dr. Fantástico — digo, o general Breedlove. Pois foi o que bastou para alimentar o “noticiário” do New York Times, do Washington Post e do Observer – esse último, depois de ter-se destacado pelo empenho com que publicou, como se fosse informação, as mentiras e delírios que serviram de “base” para a invasão ao Iraque ordenada por Blair – como revelou um ex-repórter, David Rose.

Há quase que o “prazer espiritual” de uma reunião de classe. Os batedores-de-tambor do Washington Post são exatamente os mesmos redatores de editoriais para os quais a existência das armas de destruição em massa de Saddam Houssein seria “fato comprovado”.

“Se você se pergunta” – escreveu Robert Parry – “como é possível que o mundo tenha chegado às portas da terceira guerra mundial, do mesmo modo como chegou às portas da primeira guerra mundial há um século, tudo que tem de fazer é observar a loucura que tomou contra de virtualmente toda a estrutura político-informacional nos EUA, sobre a Ucrânia. Uma falsa narrativa de bons contra maus tomou conta de tudo desde o início. E, com o tempo, tornou-se impenetrável a qualquer fato ou informação racionalmente produzidos.”

Parry, o jornalista que investigou e expôs todo o caso Irã-“contras”, no governo Reagan, é um dos poucos profissionais que investiga o papel crucialmente decisivo desempenhado pela mídia no que o ministro de Relações Exteriores da Rússia chamou de “jogo das galinhas assustadas” [que correm cacarejando alto, antes até de saberem o que realmente está acontecendo]. Mas será mesmo jogo? No momento em que escrevo esse texto, o Congresso dos EUA está votando a Resolução n. 758 que, em resumo, ordena: “vamos nos preparar para a guerra contra a Rússia.”

No século 19, o escritor Alexander Herzen descreveu o liberalismo secular como “a última religião, embora sua igreja não seja do outro mundo, mas deste.” Hoje, esse direito divino é muito mais violento e perigoso que qualquer coisa que o mundo muçulmano produza, embora seu principal triunfo seja, talvez, a ilusão da informação livre e aberta.

Nos noticiários, países inteiros desaparecem. A Arábia Saudita, fonte do extremismo e do terror apoiado pelo ocidente, não é assunto – exceto quando reduz o preço do petróleo, e é então apresentada praticamente como associação de filantropia universal. O Iêmen sofreu 12 anos sob ataques de drones norte-americanos. Quem soube? Quem se incomoda?

Em 2009, a Universidade do Oeste da Inglaterra [orig. University of the West of England] publicou os resultados de um estudo de dez anos sobre a cobertura que a BBC dera à Venezuela. Das 304 matérias levadas ao ar, só três mencionavam qualquer das políticas socialmente mais importantes introduzidas pelo governo de Hugo Chávez. O maior programa de alfabetização em massa(que erradicou o analfabetismo na Venezuela) da história da humanidade recebeu duas linhas de comentário.

Na Europa e nos EUA, milhões de leitores e de telespectadores não sabem praticamente nada sobre as mudanças dramáticas, de melhoria na qualidade de vida que foram implantadas na América Latina, muitas delas inspiradas em Chávez. Como na BBC, também as matérias publicadas no New York Times, no Washington Post, no Guardian e no resto de toda a “respeitável” imprensa ‘séria’ no ocidente, tudo foi sempre redigido e distribuído de má fé. Zombaram de Chávez até em seu leito de morte. E fico a pensar: como se explica isso, nas escolas de jornalismo?

Por que milhões de pessoas na Grã-Bretanha aceitam e deixam-se convencer de que esse castigo coletivo chamado “austeridade” seria necessário?! Logo depois do crasheconômico em 2008, o que se viu exposto foi um sistema apodrecido. Por um átimo de segundo os bancos foram “noticiados” como escroques, com dívidas para com o público, que haviam assaltado e traído.

Mas em apenas poucos meses – exceto uma poucas pedras lançadas contra “bônus” corporativos exagerados, pagos aos executivos – a mensagem já mudara completamente. As caricaturas e as críticas contra banqueiros-bandidos desapareceram da midia. E começou o tempo de glorificar algo chamado “austeridade” – para a desgraça de milhões de pessoas comuns. Houve algum dia tunga mais ousada que essa?

Hoje, muitas das bases e fundamentos da vida civilizada na Grã-Bretanha estão sendo desmanteladas, para pagar dívida fraudulenta, dívida de escroques. Os cortes de “austeridade” parecem chegar a 83 bilhões de libras. É quase exatamente o total de impostos sonegados por aqueles mesmos bancos e imprensa escroques, como a Amazon britânica e o jornal britânico de Murdoch, News UK.  E os bancos dos escroques estão recebendo subsídio anual de 100 bilhões de libras, em avais, garantias e seguros grátis – dinheiro suficiente para financiar toda a Saúde Pública Nacional.

A crise econômica é pura propaganda. Hoje, a Grã-Bretanha, os EUA, grande parte da Europa, Canadá e Austrália são governados por políticos extremistas. Quem fala pela maioria? Quem está construindo a narrativa da maioria? Quem oferece informação confiável? Quem organiza e preserva registros corretos de fatos reais? Não é para isso que existem os jornalistas?

Em 1977, Carl Bernstein, apoiado na justa fama que adquiriu em Watergate, revelou que mais de 400 jornalistas e executivos da mídia trabalhavam para a CIA. A lista incluía jornalistas do New York TimesTime e das redes de televisão. Em 1991, Richard Norton Taylor, do Guardian, revelou números semelhantes, sobre seu país.

Hoje já nada disso é necessário. Duvido muito que alguém tenha tido de pagar aoWashington Post e a muitos outros veículos para que se pusessem a acusar Edward Snowden de ajudar terroristas. Duvido que alguém precise pagar os que rotineiramente ofendem Julian Assange – embora, sim, haja muitas recompensas.

Para mim, é perfeitamente claro que a principal razão pela qual Assange atraiu tanta ira, violência e inveja é que o WikiLeaks pôs a nu toda uma elite política corrupta que é mantida à tona e no poder exclusivamente por jornalistas e jornalismos. Ao inaugurar uma extraordinária era de abertura e transparência, Assange fez inimigos mortais, porque iluminar o papel dos cães de guarda da mídia e envergonhá-los. Assange tornou-se o arqui-inimigo, um alvo preferencial — mas, simultaneamente, galinha dos ovos de outro. Assinaram-se contratos lucrativos para livros e para filmes hollywoodianos, e carreiras chegaram aos píncaros da glória, nas costas de WikiLeaks e seu criador. Muita gente ganhou muito dinheiro, enquanto o WikiLeaks lutava para não morrer.

Nada disso foi mencionado em Estocolmo, dia 1ª/12, quando o editor do Guardian, Alan Rusbridger, partilhou com Edward Snowden o “Right Livelihood Award”, conhecido como o Prêmio Nobel da Paz alternativo. O mais chocante daquele evento foi que Assange e o WikiLeaks foram apagados do mundo. Como se não tivessem existido. Como se fossem não-pessoas. Ninguém falou em defesa do criador, do pioneiro absoluto do movimento de soar o alarme, de avisar do perigo mortal que se esconde na manipulação do noticiário pela imprensa. O homem que deu de presente ao Guardian um dos maiores furos de toda a história. E o mais importante de tudo: foram Assange e sua equipe de WikiLeaks quem, de fato – e brilhantemente – resgataram Edward Snowden em Hong Kong e o puseram em total segurança [em Moscou, onde hoje vive e trabalha]. Nem uma palavra.

O que tornou ainda mais gritante, irônica e desgraçada aquela censura por omissão, foi que a tal cerimônia realizava-se no Parlamento da Suécia – parlamento e autoridades cujo vergonhoso silêncio no caso construído contra Assange colaborou para um dos maiores golpes jamais assestados contra a justiça em Estocolmo.

“Quando a verdade é substituída pelo silêncio” – disse o dissidente soviético Yevtushenko – “o silêncio torna-se mentira.”

Esse tipo de silêncio mentira tem de ser quebrado pelos jornalistas. Que todos olhemos nossa própria cara no espelho. Temos de chamar às falas a imprensa submissa ao poder e ao dinheiro, e a psicose que mais uma vez ameaça arrastar o mundo à guerra.

No século 18, Edmund Burke descreveu o papel da imprensa como um Quarto Poder que fiscalizaria os poderosos.  Não sei sequer se alguma imprensa algum dia fez tal coisa. Mas sei, com certeza absoluta, que, hoje, nenhuma faz. Acho que precisamos de um Quinto Estado: jornalismo que monitore, que desconstrua e que enfrente a propaganda e que ensine os mais jovens a defender os mais fracos e mais pobres, não os mais ricos e mais poderosos.

Para mim, jornalismo tem de ser a insurreição do saber subjugado.

Estamos diante do centenário da 1ª Guerra Mundial. Na época os jornalistas foram recompensados e prestigiados por seu silêncio e covardia. No auge do banho de sangue, o primeiro-ministro britânico David Lloyd George confidenciou a C.P. Scott, editor do Manchester Guardian: “Se as pessoas conhecessem a verdade, a guerra acabaria amanhã cedo. Mas não conhecem nem podem conhecer.”

Ainda não conhecem. Mas, com certeza, já é hora de conhecerem.

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Rússia se junta à China em projeto que prevê construção de canal na Nicarágua

Em notícia divulgada na Gazeta Russa (13.mai), o país governado por Vladimir Putin juntou-se à China em projeto que prevê a construção de um novo canal na América Central, dessa vez na Nicarágua (como já havíamos noticiado aqui anteriormente).

Segundo a notícia, a parceria entre Rússia, China e Nicarágua para a construção do Grande Canal Interoceânico poderá desafiar o controle dos Estados Unidos sobre a região: “Esse Canal promete ser a maior rede de transporte do hemisfério Ocidental, e levará os EUA a perderem significativamente o controle que tiveram sobre a região nos últimos cem anos”, afirmou Emil Dabaghian, pesquisador do Instituto Latino Americano da Academia de Ciências Russa.

Tal notícia revela o quão acertada foi a decisão do governo brasileiro, através do BNDS, em investir US$ 682 milhões na ampliação do Porto de Mariel, em Cuba,  bem como na construção de uma Zona de Desenvolvimento Econômico (ZDE) naquela região, com aporte de mais US$ 290 milhões do BNDS.

Como é de se imaginar, as empresas brasileiras que estiverem atuando na ZDE cubana seguramente estarão entre as grandes beneficiadas com a construção do canal (e, em consequência, o governo brasileiro através do aumento da arrecadação e do provável incremento que as obras prometem dar à exportação de produtos brasileiros). Não restam dúvidas de que, com todas essas obras ocorrendo na América Central e Caribe, a região está entre as que desfrutará de altos índices de crescimento econômico nas próximas décadas e, oportunamente, o governo brasileiro se adiantou em marcar sua posição na região.

Para os que criticaram a decisão do governo brasileiro, questionando quais os reais benefícios em investir quase US$ 1 bilhão de dólares naquela região, está aí uma boa justificativa que leva para bem longe a hipótese aventada pela oposição e setores da grande mídia, de que o governo brasileiro estaria fazendo as obras por questões ideológicas, em benefício do regime cubano dos irmãos Castro.

Abaixo segue a íntegra da notícia tal como publicada no site da Gazeta Russa:

PROJETO CONJUNTO COM A CHINA PREVÊ CONSTRUÇÃO DE CANAL NA NICARÁGUA
por Iúri Paniev | especial para a Gazeta Russa | 13.mai.2014

Canal da Nicarágua será o mais profundo, largo e longo do mundo Foto: Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia.

“Depois de prolongadas reflexões, a Rússia finalmente concordou em tomar parte na construção do canal que promete ser a maior rede de transporte do hemisfério Ocidental. Dessa forma, os EUA perderão uma parte significativa do controle sobre esse território, que eles exerceram durante os últimos cem anos, graças ao Canal do Panamá”, disse Emil Dabaghian, pesquisador do Instituto da América Latina da Academia de Ciências Russa, à Gazeta Russa.

A nova hidrovia artificial, que irá se estender por 286 km (contra os atuais 81,5 km do Canal do Panamá), começará a ser construída no final do ano, conforme estipulado pelo acordo tripartido entre as autoridades da Nicarágua, Rússia e China. A entrega da obra concluída está prevista para 2029.

A verba para realização do projeto, estimada em 40 bilhões de dólares, dependerá sobretudo do grupo chinês HKND, que recebeu a concessão por um período de cem anos para a abertura e operação do canal.

A principal vantagem dessa rota é a largura de 83 metros e a profundidade de 27,5 metros, o que irá permitir a passagem de embarcações da classe superpesada, com um deslocamento de água de até 270 mil toneladas. Em comparação com seu análogo no Panamá, o Canal da Nicarágua será mais profundo, largo e longo. Além disso, planeja-se a construção de dois portos, um aeroporto e um oleoduto.

Na opinião do diretor-geral do Instituto Nacional de Energia, Serguêi Pravosudov, a Rússia será beneficiada não só economicamente, mas também no aspecto geopolítico. “A América do Norte controla os pontos básicos através dos quais seguem as rotas marítimas: os Canais do Panamá e de Suez, bem como as principais rotas comerciais que passam por Singapura, Gibraltar etc. Por isso, o surgimento de uma via navegável alternativa é um desafio direto aos EUA”, alega Pravosudov.

A ideia de construir um canal na Nicarágua surgiu ainda no século 19. Mas, naquela época, a situação política na América Central não era propícia devido à ocupação da Nicarágua por tropas americanas. Foi somente em setembro de 2013 que o Parlamento da Nicarágua aprovou as contas relativas à construção do canal.

Entre as perspectivas que se abrem, as autoridades nicaraguenses esperam um rápido crescimento do PIB, a expansão do mercado de trabalho, novas oportunidades para os negócios locais e receitas provenientes da exploração do canal.

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OTAN derruba regimes na África e no Oriente Médio para ter o Mediterrâneo sob seu total controle

A notícia é velha, mas ainda é muito importante que todos tenham em mente. Mais além do que as causas noticiadas que buscam explicar as quedas de regimes ocorridas no norte da África e no Oriente Médio nos últimos anos, há também os muitos interesses econômicos e geopolítico de diferentes agentes nessa região (OTAN, EUA, França, Reino Unido), coisa que muito pouca gente menciona ao se referir às quedas dos regimes de Hosni Mubarack, no Egito, Muammar Gaddafi, na Líbia, ou de tudo o que ainda está ocorrendo para que o ditador Basshar al-Assad deixe o poder na Síria.

Não se trata de concordar ou não com o regime desses ditadores enquanto estavam/estão no poder, mas sim de deixar claro outros interesses que movem forças da OTAN/EUA para auxiliar a queda desses governos na região.

Sobre esse assunto, decidi repercutir por aqui a notícia abaixo, que foi publicada originalmente em 24 de novembro de 2011 no Asia Times Online (em inglês), por Pepe Escobar, dias depois republicada no Blog do Sorrentino sob o título “O Mediterrâneo será um Lago da OTAN” (em português).

A ESTRADA PEDREGOSA PARA DAMASCO
por Pepe Escobar, para o Asia Times Online (em Inglês) | publicado originalmente em 24.nov.2011

A pergunta de um trilhão de dólares no “Inverno Árabe” é quem piscará primeiro no roteiro do Ocidente para esgueirar-se até Teerã via Damasco.

Quando examina o tabuleiro regional e o conjunto formidável de forças que se alinham contra eles, o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei e a ditadura militar do mulariato em Teerã veem simultaneamente Washington, a superpotência; os estados-membros e bombardeadores malucos da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN; Israel; todas as monarquias absolutas sunitas árabes; e até a maioria sunita da Turquia secular.

E a República Islâmica só pode contar, a seu favor, com Moscou. Não é tão pouco quanto possa parecer.

A Síria é indiscutível aliada chave do Irã no mundo árabe – e Rússia, junto com China, são seus aliados geopolíticos chaves. A China, até agora, continua a repetir que solução para a Síria, seja qual for, terá de ser negociada.

A única base russa no Mediterrâneo está no porto sírio de Tartus. Não por acaso, a Rússia instalou seu sistema S-300 de defesa – dos melhores sistemas de mísseis terra-ar  de todas as altitudes que há no mundo, comparável ao sistema Patriot dos EUA – em Tartus. E o sistema será atualizado, em breve, para o S-400, ainda mais sofisticado.

Do ponto de vista de Moscou – e também do ponto de vista de Teerã –, mudança de regime em Damasco é caso de não-não. Significaria expulsão de virtualmente todos os navios russos e iranianos, do Mediterrâneo.

Mas o Ocidente está-se movimentando pelas laterais. Diplomatas em Bruxelas confirmaram ao jornal Asia Times Online que os ex-”rebeldes” líbios – hoje empenhados em inventar algum governo com um mínimo de credibilidade – já deram sinal verde para que a OTAN construa uma vasta base militar na Cyrenaica.

A OTAN não tem poder de decisão nesses assuntos. Quem decide é o patrão – o Pentágono –, interessado em reforçar o Africom, em coordenação com a OTAN. Estima-se que nada menos que 20 mil pares de coturnos serão desembarcados em solo líbio – 12 mil dos quais, no mínimo, coturnos europeus. Serão responsáveis pela “segurança interna” da Líbia, mas lá ficarão também de prontidão, para futuras campanhas militares que visem – e que outros alvos haveria? – Síria e Irã.

Derrubar aqueles xiitas

Dado que a mais recente “coalizão de vontades” – a qual, por falar nisso, é repetição do modelo líbio – está contra o regime de Bashar al-Assad na Síria, ela representa também um guerra de cristãos/sunitas contra xiitas, sejam da minoria alawita na Síria ou das maiorias xiitas no Irã, Iraque e Líbano.

Tudo isso é parte e item da “oportunidade estratégica” identificada pelo poderoso lobby israelense em Washington: se atacarmos o elo Damasco-Teerã, aplicaremos golpe mortal ao Hezbollah no Líbano. Isso, creem os ideólogos, pode agora ser vendido à opinião pública sob a máscara da ex-Primavera Árabe – agora já “Inverno Árabe”, depois da metamorfose, antes “Verão Árabe”, e já completamente contrarrevolução árabe.

Do ponto de vista de Teerã, o que está acontecendo na Síria é cobertura “humanitária” para uma complexa operação antixiita e anti-Irã.

O mapa do caminho já está claro. Um fraco, dividido, não representativo Conselho Nacional Sírio – ao estilo líbio – já está criado. E já há uma guerrilha (“insurgência”) sunita, pesadamente armada, operando dos dois lados da fronteira entre Líbano e Turquia. A sanções já pesam duramente sobre a classe média síria. Incansável campanha internacional de propaganda de demonização do regime de Assad também já está em campo. E abundam ações de guerra “psicológica”, para estimular deserções do exército sírio (que não estão funcionando).

Relatório de pesquisador baseado no Qatar para o International Institute for Strategic Studies (IISS)[1] chega bem perto de admitir que o autodesignado “Exército Síria Livre” [em inglês Free Syria Army] nada é além de um bando de islamistas linha-dura, uns poucos desertores do exército genuíno e a maioria são ‘irmãos’ superrradicais da Fraternidade Muçulmana pagos e armados por EUA, Israel, monarquias do Golfo e Turquia. Nada há de “pró-democracia” nesse pessoal – como a imprensa-empresa ocidental e a mídia de propriedade dos sunitas não se cansam de repetir que haveria.

Quanto ao Conselho Nacional Sírio, sediado em Washington e Londres e salpicado como sempre de vários exilados sinistros, o  seu programa de governo promete governar a Síria tão militarmente como sempre foi o governo sírio – variação da junta militar que governa o Egito – especialista em bombardear cidadãos que protestem. O que obriga a pensar que a única solução sensível é o povo sírio derrubar o estado policial do regime Assad, e pôr-se veementemente contra o sinistro Conselho Nacional Sírio.

O modelo de ditador dessa temporada

E há, como sempre, o ocidente desorientado e mal informado, que acredita que a Liga Árabe – agora nada além de fantoche da política exterior dos EUA – estaria alinhada a alguma das aspirações democráticas do povo sírio. O blogueiro As’ad Abu Khalil (“The Angry Arab News Service” http://angryarab.blogspot.com/) acerta quando diz que, depois da queda do presidente Hosni Mubarak no Egito, “a Liga Árabe é hoje uma extensão do Conselho de Cooperação do Golfo [CCG]”.

Esse CCG é, de fato, o Clube Contrarrevolucionário do Golfo. Seu esporte preferido é privilegiar ditadores “modelo” – a começar por eles mesmos, mas incluindo Ali Abdullah Saleh no Iêmen e os reizinhos da Jordânia e do Marrocos, que serão anexados ao CCG porque, por mais que adorassem estar no Golfo Persa, não estão (geograficamente falando). Por outro lado, o CCG odeia ditadores “errados” – como o já detonado Muammar Gaddafi e Assad, os quais, não por acaso, estão associados a repúblicas seculares.

A Casa de Saud, a Jordânia e o ascendente Qatar estão mais do que confortabilíssimos, fazendo o jogo de EUA e Israel. A Casa de Saud – cão alfa do CCG – invadiu o Bahrain com 1.500 soldados para esmagar protestos pró-democracia em tudo semelhantes aos do Egito e Síria. A Casa de Saud ajudou a dinastia sunita al-Khalifa, que reina no Bahrain, a disseminar a tortura contra os xiitas, que são 70% da população; os bahrainis confirmam que todos os torturados sempre eram forçados a confessar laços diretos com Teerã, “o mal”.

No Egito, a Casa de Saud apoiou Mubarak até depois de deposto. Hoje apoia – até agora com mais de US$4 bilhões de dólares – uma junta militar que, basicamente, quer manter o poder, sem qualquer tipo de fiscalização ou transparência, sob fachada “democrática”.

A Casa de Saud de modo algum poderia conviver com qualquer tipo de democracia egípcia bem sucedida. Quem acredite que a Casa de Saud algum dia defendeu ou defenderá direitos humanos e democracia no Oriente Médio deve autointernar-se no manicômio mais próximo.

A Liga Árabe – também uma extensão da Casa de Saud – deu carta branca à OTAN para bombardear estado-membro. Suspendeu a Síria dia 12 de novembro – o mesmo que fez com a Líbia, dia 22 de fevereiro –, porque, diferente do que aconteceu no caso da Líbia, as ordens que EUA e países europeus deram ao Conselho de Segurança da ONU foram devidamente vetadas por Rússia e China.

Bem-vindos a uma “nova” Liga Árabe na qual, se você não se ajoelha ante o altar do CCG, você é automaticamente condenado a “mudança de regime”.

Mas ajoelhar-se e cultuar o CCG não se compara a ajoelhar-se e cultuar o Pentágono e a OTAN. Jordânia e Marrocos são membros do Diálogo Mediterrâneo da OTAN; e o Qatar e os Emirados Árabes Unidos são membros da Iniciativa de Cooperação de Istambul da OTAN. Além disso, Jordânia e Emirados Árabes Unidos são as duas nações árabes que fornecem soldados para a OTAN no Afeganistão.

Ivo Daalder, embaixador do governo Obama à OTAN, já ordenou que a Líbia seja incluída no Diálogo Mediterrâneo, com Marrocos, Jordânia, Egito, Tunísia, Argélia, Mauritania e Israel. E, no início de novembro, deu ao Conselho do Atlântico a receita completa para atacar a Síria: uma “urgente necessidade” (por exemplo, criar a impressão de que Assad massacrará os civis de Homs); um “relatório regional” (que virá à velocidade da luz, do CCG/Liga Árabe); e um mandado da ONU (Rússia e China já disseram que não, não haverá mandado da ONU).

Eis, portanto, o que se pode esperar dessa “coalizão de vontades”: muita violência e ataques de agentes secretos atribuídos ao regime Assad; apoio imediato do CCG/Liga Árabe à democracia; e, provavelmente, ataque unilateral (porque, dessa vez, não haverá Conselho de Segurança da ONU que autorize a intervenção).

O sonho do Grande Oriente Médio

Não surpreende que mentes lúcidas em Damasco, perscrutando o futuro nas folhas de chá, tenham decidido agir. Damasco enviou mensageiros secretos para sondar o estado de ânimo de Washington. O preço de Damasco ser deixada em paz: cortar todos os laços com Teerã. O regime Assad ficou com o problema de descobrir o que lhe seria dado em troca.

Os alawitas, menos de 12% da população e toda a elite dirigente, não abandonarão o regime Assad. Cristãos e druzos só podem esperar o pior de uma nova ordem muito possivelmente dominada pela Fraternidade Muçulmana mais linha dura. Vale o mesmo para um vizinho crucialmente importante: o governo de Nuri al-Maliki em Bagdá.

A Rússia sabe que, se o modelo atualmente implantado na Líbia for reproduzido na Síria – e com o Líbano, hoje, já sob bloqueio de facto pela OTAN –, o Mediterrâneo será aquele sonho afinal concretizado, “um lago da OTAN”, que é o mesmo que dizer que o Mediterrâneo estará sob total controle dos EUA.

Moscou também sabe que, no Grande Oriente Médio concebido pelos EUA – da Mauritânia ao Cazaquistão – os únicos países que não estão ligados à OTAN por miríades de “parcerias” são, além da Síria: o Líbano, a Eritréia, o Sudão e o Irã.

Quanto ao Pentágono, o nome do jogo é “reposicionamento”. Porque, se você sai do Iraque, você tem de ir para outro ponto qualquer no “arco de instabilidade”, de preferência no Golfo. Já há 40 mil soldados dos EUA no Golfo, 23 mil dos quais no Kuwait. Um exército secreto “extra”, para o Pentágono e a CIA, está sendo treinado pela ex-Blackwater, já “reposicionada” como Xe, nos Emirados Árabes Unidos. Está nascendo uma OTAN do Golfo. Talvez… OTANCCG, ou CCGOTAN?

Quando os neoconservadores dos EUA governavam o universo – há apenas poucos anos – o motto era “Homens de verdade vão para Teerã”. É hora de melhorar isso. A coisa hoje está mais para “homens de verdade vão para Teerã via Damasco, mas só se tiverem colhões para encarar Moscou”.

Pepe Escobar, nascido no Brasil, é o correspondente itinerante do Asia Times, portal de notícias baseado em Hong Kong/Tailândia. Também é analista do portal de notícias baseado em Toronto/Washington, The Real News.

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