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Vélez Rodriguez e a faxina ideológica

por Milena Natividade

Faxina Ideologica

Chamada da Revista Veja para a entrevista concedida pelo atual Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, a Gabriel Castro e Maria Clara Vieira. Foto: Cristiano Mariz.

Ler criticamente a entrevista que o atual Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, cedeu à revista Veja é tão importante quanto analisar a fotografia que abre a matéria.

Vemos em primeiro plano a imagem, levemente embaçada, de uma pilha de livros. A identificação das obras exige alguma familiaridade com a historiografia: encontra-se empilhada a coleção de livros da UNESCO. A imagem desfocada é uma referencia sutil à coleção de História Geral da África, projeto que levou mais de 30 anos para ser construído e que busca tornar acessível ao público a longa, diversificada e complexa história do continente africano. A edição em português foi lançada durante o mandato de Fernando Haddad como ministro da Educação. Curiosamente, a lombada desses livros está voltada para nós, observadores, e não para Rodriguez, que se encontra em segundo plano na fotografia.

Além dele, em segundo plano também vemos outra pilha de livros. A composição dessa pilha, sobre a qual o ministro se apoia (se sustenta, se fundamenta), lembra uma pirâmide invertida. Sabemos que construções assentadas em bases instáveis não se mantém de pé por muito tempo, são fáceis de derrubar, desconstruir. Os livros dessa pilha não são exibidos para nós, observadores. As referências sobre as quais o atual ministro da Educação (literalmente) se apoia não são exibidas nem citadas.

Após a leitura da entrevista, fica evidente como nesse caso imagem e texto estabelecem uma relação de complementaridade de significados. Destaco dois dos vários excertos que confirmam a falta de embasamento sólido dos argumentos de Vélez Rodriguez.

Sobre a Universidade não ser para todos:

“Em nenhum país a universidade chega para todos, ela representa uma elite intelectual, para a qual nem todo mundo está preparado ou para a qual nem todo mundo tem disposição ou capacidade. Universidade não é elite econômica nem elite sociológica”.

Como se acesso à universidade, sobretudo pública e gratuita, fosse democrático e estivesse no horizonte de possibilidade para todos os grupos sociais. Os filtros que selecionam quem vai pertencer a tal “elite intelectual” não é só o vestibular, mas também são os de raça, classe, gênero.

Já sobre o fim das cotas, diz o ministro:

“As cotas são uma solução emergencial e, como tudo no Brasil, o provisório vira definitivo […] Quatro anos é pouco tempo. Mas tenho certeza de que, se fizermos o dever de casa, meu sucessor conseguirá iniciar esse processo”.

Se realmente as cotas são políticas de inclusão com prazo de validade, é falta, no mínimo, de bom senso dizer que não serão mais necessárias em quatro anos. A USP, por exemplo, só foi adotar o sistema de cotas raciais (na graduação) em 2017. Apesar de já surtir algum efeito, a quantidade de alunos ainda é majoritariamente branca.

Ao final da entrevista, gostaria que o fotógrafo Cristiano Mariz (brilhante, por sinal) pudesse ter dado a Coleção de presente para o ministro. Mais importante do que posar com livros é ler os mesmos.


Milena Natividade é bacharela e licenciada em História pela Universidade de São Paulo.

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O GLOBO pede fim do ensino superior gratuito

Em editorial publicado neste domingo (24), O Globo pede o fim do ensino superior gratuito no Brasil. Embora não seja surpresa que tal instituição defenda a privatização das universidades públicas, uma vez que ela já demonstrou, em diversas oportunidades, estar sempre na contramão do interesse público, do acesso democrático às instituições e da democracia, em si, como já tivemos oportunidade de escrever neste blog (O Globo saúda Golpe Militar; Globofilmes destrói cinema nacional; Globo manipula dados na cobertura das eleições venezuelanas), o destaque é a maneira cruel e covarde como ela argumenta pela extinção do ensino superior gratuito.

Segundo o texto, o que justificaria o fim do ensino superior gratuito é a sua “injustiça” e o gatilho que está dando oportunidade ao governo golpista de Michel “Fora” Temer privatizá-lo é a crise, como indica o título do editorial. O argumento principal do editorialista é que a maior parte das vagas das universidades públicas é, atualmente, ocupada pelos alunos de renda mais alta, enquanto aos pobres restam apenas pagar pelas universidades privadas. A crueldade e a covardia do editorial está justamente no fato de O Globo usar uma injustiça cometida contra as camadas mais pobres da sociedade, alijadas desde sempre do ensino superior brasileiro, não para reparar a injustiça, mas para mantê-la e fazer retroceder as recentes conquistas que pobres, pretos e índios tiveram dentro do espaço universitário, antes restrito apenas a um grupo social (com raríssimas exceções).

O argumento, evidentemente, não é novo. Frequentemente o vejo na boca da classe média para justificar a privatização e, com isso, o fim das cotas sociais e raciais. Mais e pior que isso, o tenho visto cotidianamente em minha vida institucional universitária dentro da Universidade de São Paulo (que caminha a largos passos para a privatização daquele espaço público de excelência) e, também, na imprensa paulista, sobretudo na Folha de S. Paulo, que dia sim, outro também, publica uma notícia enviesada no intuito de justificar a privatização das universidades públicas.

Não raro, Folha de S. Paulo, Globo, Band e outros veículos de mídia, juntamente com o poder estadual (que há mais de 20 anos tenta encampar a privatização), criaram a imagem de uma universidade pública sucateada que não serve para mais nada além de gastar dinheiro público. Evidentemente, trata-se de uma grande mentira. A verdade é que, apesar dos constantes ataques da mídia e do Estado, que tem, sim, buscado sucatear a universidade pública, justamente para se livrar dela e dos hospitais universitários, tais instituições tem mantido seu padrão de excelência graças aos esforços sobre-humanos de muitos de seus funcionários, professores e alunos. Se hoje, universidades como USP, Unicamp, Unesp, UFF, UFMG, UFOP, UFRGS, UnB e tantas outras conseguem se manter como referências mundiais, nacionais e regionais em diferentes áreas do conhecimento, é por conta dessas pessoas.

Como bem disse o professor Renato Janine Ribeiro, ao comentar o malfadado editorial em sua página de uma rede social:

A USP recebe o mesmo porcentual do ICMS paulista desde a década de 1980, e neste tempo criou novos campi, novas faculdades, aumentou muito o número de alunos, deu saltos de qualidade científica e tudo o mais. Sua pior gestão foi a de um reitor nomeado pelo governador José Serra, contra a vontade da maioria dos votantes na universidade. Não representava as forças vivas da USP.

Em suma, o que O Globo reproduz aqui é justamente o que temos visto em São Paulo há muitos anos. Se no princípio usa a crise como justificativa para agora se realizar o antigo projeto de privatizar o ensino superior, logo abaixo afirma que, mesmo se a economia vier a se recuperar, seria necessário “reformar o Estado” para não recorrer a aumento de impostos (não deixa de ser cômico, se não fosse trágico, a grande sonegadora Globo falando de não querer mais pagar impostos). E é assim, pateticamente reclamando contra o pagamento dos impostos que ela costuma não pagar, que as Organizações Globo introduz seu argumento sem nenhum pudor: “[…] para combater uma crise nunca vista (?) necessita-se de ideias nunca aplicadas. Nesse sentido, porque não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito”.

Quem lê o editorial percebe claramente que a discussão não passa pelo acesso das camadas populares ao ensino de qualidade (seja o superior ou o fundamental e médio, que é justamente onde está o problema), mas sim pela questão fiscal. Desta forma, a injustiça social é mera desculpa à qual a O Globo recorre em seu editorial, a fim de pretensamente colocar-se em defesa dos interesses da população, quando na verdade encampa uma luta contra o uso dos impostos para financiar o acesso das camadas populares à universidade superior de qualidade. A estes, se tiverem interesse, que vão pedir bolsas nas universidades privadas, pois segundo O Globo, trata-se de um sistema que funciona bem ao redor do mundo (sobre o assunto, ver o que o documentário Torre de Marfim, do cineasta estadunidense Andrew Rossi, tem a dizer sobre o sistema educacional dos Estados Unidos da América, epítome de um modelo que os plutocratas brasileiros querem adotar e, segundo o editorialista de O Globo, funciona muito bem).

Novamente lembramos a postagem do professor Janine Ribeiro, para quem:

Cobrar anuidade dos alunos com mais dinheiro parece justo, mas penso que seria bem melhor aumentar o imposto de renda das pessoas que ganham mais dinheiro. Assim, façam ou não (eles e seus filhos) a universidade, pagarão mais. E serão então estimulados a cursar o ensino superior, o que só lhes fará bem, pessoal e profissionalmente. Deve-se tributar a renda, é melhor do que cobrar pela educação (não se cobra aquilo que você quer incentivar!)

Abaixo reproduzimos a postagem que nos chamou atenção a mais esse ataque ao ensino e ao povo brasileiro, perpetrado por defensores de oligopólio, bem como à manutenção da profunda desigualdade social que cliva o Brasil desde seu nascimento até os dias que correm, por uma elite que pouco mudou nas últimas décadas, como bem apontou a historiadora Maria Aparecida de Aquino.

EDITORIAL DO GLOBO PEDE FIM DO ENSINO SUPERIOR GRATUITO NO BRASIL

publicado originalmente na Revista Forum em 24 de julho de 2016

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Por Redação (da Revista Fórum)

Em editorial publicado neste domingo (24), o jornal O Globo defende o fim do ensino superior gratuito no Brasil como uma forma de equilibrar as contas públicas.

“Por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social? Pagará quem puder, receberá bolsa quem não tiver condições para tal. Funciona assim, e bem, no ensino privado. E em países avançados, com muito mais centros de excelência universitária que o Brasil”, diz o texto.

“O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares”, continua.

“Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos”, conclui.

Para ler o editorial na íntegra, clique aqui.

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Desempenho de cotistas no ENEM vira argumento contra as cotas sociais e raciais

Volto ao tema das cotas raciais, pois esta semana, durante uma discussão nas redes sociais, uma pessoa, após ver as notas de corte para o ingresso na UFMG, questionou a necessidade das cotas se alguns candidatos cotistas conseguem atingir notas de corte muito próximas ou até mesmo superiores às notas obtidas pelos não cotistas, como se pode ver pelas imagens abaixo.

Sisu UFMG 001

Sisu UFMG 004

Sisu UFMG 003

Sisu UFMG 002

Para entender as notas de corte dos cursos acima, é preciso levar em consideração a tabela explicativa abaixo:

Sisu UFMG 000

Se observaram bem, viram que em alguns cursos, a nota máxima atingida por alguns candidatos inscritos na modalidade um são superiores a de candidatos que foram aprovados com a nota mínima na modalidade de ampla concorrência.

Pois bem, pelo que entendi, esse camarada que perguntou da necessidade de se manter as cotas se as notas de corte entre candidatos cotistas e não cotistas não são tão distintas, toma como uma de suas premissas que as notas de corte dos cursos são o que justificam a política de cotas. Outra premissa tomada pelo colega é a de que a exceção (candidatos cotistas que atingem notas de corte superiores a não cotista) seja a regra e, se isso é verdade, logo, não haveria necessidade em se manter a política de cotas.

Para quem acha que essa argumentação faz algum sentido, entendo que convém explicar, ainda que de modo bastante esquemático, razões que justificam a política de cotas sociais e raciais começando pela apresentação de alguns dados.

Segundo os números do último censo realizado pelo IBGE (2010), 43,1% da população brasileira identificaram-se como pardos, 7, 6% declararam-se pretos, enquanto apenas 0,4% da população declararam-se indígenas. Deste modo, 51,1% da população brasileira é formada pelo conjunto desses indivíduos.

Até a promulgação da lei que garantiu a reserva de vagas em universidades públicas para pretos, pardos, índios e pobres (2012), o percentual de indivíduos desses grupos nas universidades públicas estava bem aquém dos números verificados na distribuição da população brasileira.

Em 2001, a Universidade de São Paulo (USP) apresentava a seguinte distribuição de seus alunos segundo o critério de cor ou raça empregado pelo IBGE: brancos (76,9%); pretos (1,2%); pardos (7%); indígenas (0,4%). Somando-se o grupo de pretos, pardos e indígenas verifica-se um total de apenas 8,6% dos alunos de 2001. (Fonte: http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/relatorio_substantivo.pdf).

Em 2010 os números dessa mesma universidade eram: brancos (77,4%); pardos (10,6%); pretos (2,1%); indígenas (0,2%). Pretos, pardos e indígenas somados (12,9%), um aumento de 4,3% em relação aos números da década anterior. (Fonte: https://desigualdadesespaciais.wordpress.com/tag/segregacao-racial/).

Foi justamente essa diferença observada entre a distribuição étnica dos alunos das faculdades públicas brasileiras e a distribuição populacional do conjunto da sociedade brasileira que levou à criação de uma lei autorizando as universidades adotarem reserva de vagas para pretos, pardos, índios e pobres nas universidades públicas brasileiras.

Assim, ainda que em teoria todas as pessoas que concluíram o ensino médio, independente de sua cor ou faixa de rendimento, possam participar do vestibular, na prática, a forma como a avaliação desse processo seletivo foi concebida (tipo de conteúdo e seleção por notas de cortes iguais para todos os participantes de um mesmo curso) ainda é a principal causa da exclusão dos indivíduos pretos, pardos e indígenas do processo em universidades que não adotaram as cotas sociais e raciais.

Desta forma, fica evidente que ao contrário da premissa tomada pelo colega, a nota de corte é um dos mecanismos de exclusão dos candidatos e não a justificativa da existência da política de cotas nas faculdades. Como busquei demonstrar, a justificativa das políticas de cotas são os baixos índices de pretos, pardos, índios e pobres nas universidades públicas em comparação ao número de indivíduos desses grupos na sociedade brasileira.

Quanto à questão formulada pelo camarada, isto é, da necessidade de se manter a política de cotas uma vez que as notas de alguns candidatos cotistas chegam próximo ou até mesmo superam a de não cotistas, esta é bastante simples responder. Se o objetivo das políticas de cotas é garantir que um grande volume de pretos, pardos, índios e pobres entrem nas universidades públicas para que os índices desses grupos possam se aproximar aos índices verificados na distribuição da sociedade brasileira, então não se pode tomar a exceção como regra. Os candidatos cotistas que tiram notas superiores ou próximas às dos candidatos não cotistas ainda são exceção. A maior parte dos cotistas aprovados nos processos seletivos das universidades federais ingressaram com notas de corte inferiores aos dos candidatos não cotistas, como era de se esperar. Apesar disso, como as pesquisas tem demonstrado, o desempenho desses alunos após terem entrado nas universidades é, em média, superior ao dos não cotistas, como se pode ver nesta matéria publicada no portal Pragmatismo Político.

Portanto, entendo que apesar de a nota de corte de alguns candidatos cotistas serem até maiores do que a de não cotistas, isto não é um argumento que justifique o cancelamento das políticas de cotas raciais e sociais nas universidades públicas brasileiras, já que esta não é a regra observada no conjunto da maioria dos candidatos da maior parte dos cursos e, além disso, pelas universidades públicas ainda estarem longe de terem 51% de alunos pretos, pardos e índios entre seus alunos.

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Apenas a elite de São Paulo e do país tem acesso à USP

por Nadine Nascimento
publicado originalmente em Brasil de Fato | 04.jan.2016

Hugo Nicolau, aluno de geografia, elaborou estudo sobre composição racial da instituição. Pesquisa demonstra que negros são maioria apenas entre trabalhadores terceirizados na universidade.

USP

Divulgação/USP

“A Universidade de São Paulo é branca, seus alunos e professores são brancos, os negros são minoria na USP. Os negros só são maioria entre os funcionários terceirizados da limpeza, segurança, alimentação, com condições de trabalho precárias, atraso de salários e outras ilegalidades denunciadas inúmeras vezes pelos funcionários e pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP”, diz estudo que retrata a distribuição espacial de negros na Universidade de São Paulo.

Onde estão os negros na USP?” publicado no blog “Desigualdades Espaciais”, é um conjunto de mapas que apresentam a distribuição racial na instituição. Feito pelo estudante de geografia Hugo Nicolau, o estudo constatou que o número de negros na Universidade de São Paulo é ainda muito desproporcional em relação a sociedade em geral.

Através da análise de dados do vestibular da Fuvest, da prefeitura de São Paulo e do IBGE, Nicolau distribuiu por cor a comunidade da USP no mapa da universidade.

Em 2010, 77% dos alunos que ingressaram na universidade eram brancos, 10% pardos, 10% asiáticos e apenas 2% eram pretos.

“Em todos os cursos, com exceção da geografia, tem mais asiáticos do que negros. Os asiáticos correspondem a 1% da população de São Paulo, os negros são 34%, e na USP a quantidade de negros, pardos e pretos, se equivale a de asiáticos”, diz Nicolau.

Ainda que todas as universidades federais do país e algumas estaduais tenham implementado o sistema de cotas, a USP reluta em implementar o programa que reserva vagas para negros e conta apenas com uma bonificação na nota final.

O Inclusp e o Pasusp dão um acréscimo de 15% na nota da Fuvest para alunos do ensino público e 5% a mais se o estudante estiver incluído “no grupo PPI” – raça ou cor preta, parda ou indígena.

Para Nicolau, “um bônus de 5% no resultado final do vestibular é insignificante, pois não é suficiente para igualar o nível de quem teve um ensino fundamental e médio deficientes com quem sempre estudou nas melhores escolas”.

“A minha conclusão é que essas políticas de inclusão são só para mostrar que existem, mas elas não funcionam. A relutância em implantar o sistema de cotas está no fato de ser uma universidade elitista, assim, apenas a elite de São Paulo e do país tem acesso à USP”, conclui o estudante.

Ainda segundo o estudo, dos dez cursos mais concorridos do vestibular da instituição, 6 deles não possuem nenhum negro. Para tentar mudar esse quadro, grupos como Ocupação Negra e a Frente Pró-Cotas cobram da universidade um posicionamento positivo em relação ao sistema de cotas.

O Ocupação Negra, criado em 2015, realiza intervenções durante as aulas e a ideia, segundo Marcelo Moreira, é “primeiro fazer a denúncia do racismo institucionalizado e cobrar de maneira forte da instituição, dos professores e dos alunos de que a gente precisa das cotas raciais como uma ferramenta de ação afirmativa para modificar essa situação. Queremos cotas raciais, e quando falamos isso, a gente quer o ingresso de no mínimo 35% de alunos negros na USP.”

Moreira critica o fato da universidade ter se tornado “um centro de poder e um privilégio para poucos”. Para ele, “desde de sua criação, a USP era destinada para uma elite branca, para que esta tenha a dominância intelectual do nosso país. Nesses 80 anos isso só cristalizou. Há uma forte resistência dessa elite para que haja a manutenção desses privilégios”.

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ATO PÚBLICO: Professores contra o Impeachment e pela democracia

Liberdades Democraticas

Na próxima quarta-feira, dia 16 de dezembro de 2015, às 11:00, haverá na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo um Ato Público organizado pelo Grupo Manifesto “Impeachment, legalidade e democracia” com a presença de vários dos professores universitários que assinaram o manifesto contra o Impeachment da presidenta Dilma Rousseff na última semana.

O Hum Historiador se une aos esforços contra o Impeachment e em defesa da Democracia, divulgando os eventos, manifestos e textos, além de seu autor buscar ativa participação nas manifestações pelo respeito às instituições e contra o golpismo que assola o país.

Seguem as informações divulgadas em evento criado no Facebook:

ATO PÚBLICO:

PROFESSORES CONTRA O IMPEACHMENT E PELA DEMOCRACIA

Com a presença confirmada de, entre outros:

Alfredo Bosi – Letras/USP
André Singer – Ciência Política/USP
Dalmo de Abreu Dallari – Direito/USP
Ermínia Maricato – FAU/USP
Leda Paulani – Economia/USP
Luiz Gonzaga Belluzzo – Economia/Unicamp
Marcos Nobre – Filosofia/Unicamp
Maria Vitória Benevides – Educação/USP
Miguel Nicolelis – Neurobiologia/Universidade Duke (EUA)
Paulo Arantes – Filosofia/USP
Roberto Schwarz – Letras/Unicamp

Local:
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
Sala dos Estudantes
Largo São Francisco, 95

Data:
Quarta-feira, dia 16/12, às 11h

O ato será um lançamento público do manifesto dos professores universitários contra o impeachment, que foi divulgado na última quinta-feira com o título “Impeachment, legalidade e democracia” e contou com surpreendente adesão. É também um ato de mobilização para as manifestações marcadas para as 17h no MASP.

O manifesto está disponível aquii: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR87028

Organização:
Grupo Manifesto “Impeachment, legalidade e democracia”

Maiores Informações:
Página do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1720328401532323/

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Rankings universitários e sua manipulação para fins propagandísticos

Na última segunda-feira (3/9) a Folha de S. Paulo lançou um caderno especial onde divulgou um “troço” chamado Ranking Universitário da Folha (RUF), o qual define como “o primeiro ranking sistemático de universidades brasileiras”. Segundo a divulgação feita pelo jornal, tal ranking traz a classificação de 232 instituições de ensino superior brasileiras com foco em pesquisa e autonomia de ensino.

Em texto intitulado “Sobre universidades, campeonatos e reportagem”, veiculado no Observatório da Imprensa, a jornalista e professora da Universidade Federal Fluminense, Sylvia Debossan Moretzsohn, considera que a pesquisa idealizada pelo próprio jornal e realizada ao longo de oito meses, “traz tantas inconsistências que nem deveria ter sido publicada”. Um pouco mais adiante em seu texto, ao tratar do porquê de se criar um ranking universitário, a professora traz trecho de texto do articulista da Folha, Hélio Schwartsman, que embora reconhecendo os problemas metodológicos do RUF, ainda tentava justificar sua criação:

“A ciência e o ensino estão se globalizando. É cada vez mais comum ver jovens estudando no estrangeiro. E, se já é difícil escolher uma universidade no país de origem, muito pior é fazê-lo em lugares a respeito dos quais não se tem muita informação. Os rankings, ao traduzir toneladas de dados num número, ajudam esse estudante. Embora a internacionalização seja ainda incipiente no Brasil, devido a mudanças como o Enem, está aumentando a mobilidade interna dos alunos, para os quais o RUF pode ser de grande auxílio. (…) No mais, uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida.”

Logo de princípio, poderíamos rebater essa “lógica heterônoma” de Schwartsman, na qual “uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida”, lembrando o que diz o professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dmitri Cerboncini Fernandes: “Ora, posso propor, por exemplo, um novo sistema de mensuração de massa corpórea em que um morcego seja considerado mais leve do que uma formiga, se para tanto eu ignorar o sistema vigente e adotar outro em que a capacidade ou altura de voo representar o parâmetro central”. Segue o professor em sua argumentação: “poderia ainda ignorar as divisões assentadas da biologia, entre mamíferos, aves e insetos, e localizar o morcego em uma nova rubrica, junto aos pássaros e demais insetos capazes de voar”.

Mas é a professora Sylvia Moretzsohn quem rebate a argumentação estapafúrdia de Schwartsman, lembrando o que realmente está em jogo com a criação do tal Ranking Universitário da Folha:

Não: números ruins não servem para nada, a não ser para mistificar. Ou – o que dá no mesmo – para serem manipulados para fins de propaganda, como, previsivelmente, ocorreu já no dia seguinte à divulgação do ranking: na terça-feira (4/9), uma instituição ocupava a barra inferior da capa do jornal e uma página interna inteira no primeiro caderno para se anunciar como “a melhor universidade privada do estado de São Paulo”. Na quinta (6), uma concorrente faria o mesmo, e repetiria a dose na segunda-feira (10), dizendo-se “top no mercado de trabalho” de acordo com “os que contratam”, valendo-se do RUF como comprovação.

Se ainda não ficou claro, ou acha exagero, dê uma olhada no uso que a Universidade Paulista (Unip), está fazendo do RUF em sua página da Internet, em jornais, revistas e anúncios na TV.

Imagem promocional da Unip, divulgada no site da instituição, menciona RUF para convencer clientes a se matricularem naquela universidade.

Como bem lembra a professora Moretzsohn, o caderno especial foi complementado por um editorial que, dentre outros absurdos, conclui que “seria útil para o país (…) admitir que prosperem diferentes tipos de universidades”. Útil para o país ou útil para os empresários desse negócio lucrativo que é o ensino superior privado no país? Oras, não devemos esquecer que o Grupo Folha também lucra, e muito com as receitas de propagandas que universidades privadas veiculam nas páginas de seus diários, seja em papel, seja na Internet. Isso para não mencionar o conteúdo que “produz” para este mercado através de empresas como a Publifolha e as articulações do Grupo com os pré-vestibulares.

Charge publicada no Observatório da Imprensa ironizando o Ranking Universitário da Folha, publicado no último dia 03 de setembro.

O professor Cerboncini também levanta em seu texto as questões discutidas acima, isto é, “a que ou a quem serve a classificação proposta pela Folha?”, chegando a conclusão de que, com seu caderno especial, a “Folha de S.Paulo revela seu grandioso propósito de, simplesmente, nortear a política educacional superior do país por meio dos critérios que ela própria, dentro da lógica jornalística, e não científica, estabeleceu”. Posto isto, Cerboncini questiona: “tem-se aqui algo no mínimo temerário: quem outorgou tamanho poder de decisão a um grupo capitalista privado, cujos propósitos, como os de qualquer outro grupo capitalista, são os de lucrar com a venda de mercadorias – no caso, de notícias e de rankings?”.  Como propõe a charge também publicada no Observatório da Imprensa e reproduzida ao lado, cabe à imprensa estipular os critérios que irão mensurar o ensino superior no Brasil?

Concluímos o post tal como a professora Sylvia Moretzsohn também fechou brilhantemente o seu texto, isto é, explicitando a quem a Folha serve ao criar tal ranking ao lembrar que se o jornal optasse por investir em reportagem sobre a situação do ensino superior no país, “verificaria, por exemplo, como funcionam as instituições privadas na sua disputa alucinada por mais clientes – perdão: alunos –, como essas instituições tratam seu corpo docente, como promovem demissões em massa para a contratação de funcionários mais baratos”. Não é a Folha, ou seus interesses em lucrar com propagandas de universidades privadas, quem deve estabelecer os critérios de avaliação do ensino superior. Como bem lembra a professora, ao invés disso, a Folha poderia

“(…) dedicar-se a estudar e estimular o debate sobre os critérios já existentes estabelecidos pelo governo. Mas para isso teria de abandonar o pressuposto de que a academia – isto é, a universidade pública – é refratária a avaliações. Pois não é disso que se trata: as inúmeras críticas feitas ao longo das últimas décadas aos critérios de avaliação pretendem demonstrar a enorme dificuldade da adoção de instrumentos adequados para medir a relevância do trabalho intelectual. E, mais ainda, que esses instrumentos não podem ser julgados isoladamente, dissociados do contexto político em que são produzidos: no caso, o modelo de universidade que se quer eleger.”

LEIA MAIS SOBRE O RUF:

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