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PT e o número de homicídios no Brasil

Em conversas e discussões pelas redes sociais é muito comum nos depararmos com pessoas afirmando que a violência e, especialmente, o número de homicídios no Brasil dobrou durante os governos petistas. Mais que isso, o argumento vem acompanhado de um ataque ao estatuto do desarmamento, em vigor desde 2003.

Pesquisando sobre o tema e buscando me informar acerca dos números dos homicídios no Brasil durante as últimas quatro décadas, encontrei o post abaixo, publicado na página do Movimento Economia Pró-Gente (Facebook) nessa última sexta-feira (19). Achei-o bastante elucidativo, razão pela qual estou repercutindo a íntegra do mesmo aqui no Hum Historiador.

É VERDADE QUE O PT DOBROU O NÚMERO DE HOMICÍDIOS NO BRASIL?
publicado na página do Movimento Economia Pró-Gente do Facebook – 19/10/2018

Taxa de homicídios no Brasil 1985-2015

Está circulando nas redes sociais que o número de homicídios no Brasil dobrou durante o governo do PT. Também tem uma versão parecida, de que o número de homicídios teria dobrado depois do Estatuto do Desarmamento, o que não muda muito, já que o Estatuto foi aprovado no fim de 2003, primeiro ano do governo Lula. Em nenhum lugar aparecem as fontes dessas informações. Aqui vão os números reais, retirados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), com os links para os dados no fim do texto.

Em 2003, primeiro ano do PT na presidência e último ano antes do Estatuto do Desarmamento, ocorreram 51.043 homicídios no Brasil. Em 2015, último ano completo de governo petista, foram 58.138 homicídios. Realmente aumentou, mas está muito longe de ter dobrado. Mais do que isso: esse aumento seguiu mais ou menos o aumento da população. Quando olhamos para a taxa de homicídios por 100 mil habitantes, medida mais utilizada mundialmente para medir o nível de violência, passamos de 28,56 em 2003 para 28,94 em 2015. Ou seja, durante os governos petistas a taxa de homicídios cresceu, em média, 0,1% ao ano.

E antes do Estatuto do Desarmamento e do PT, o que tava acontecendo com a criminalidade no Brasil? De 1980 a 1985, últimos anos da Ditadura Militar, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes cresceu em média 4,8% ao ano. De 1985 (quando voltamos a ter um governo civil) até 2003, essa taxa cresceu 3,7% ao ano. Ou seja, durante os governos anteriores ao PT e, principalmente, durante a ditadura, a violência só aumentava. Foi justamente com a aprovação do Estatuto do Desarmamento que a taxa de homicídios parou de crescer e, inclusive, caiu nos primeiros anos.

O argumento de que o Estatuto do Desarmamento incentiva o crime não se sustenta quando se olham os verdadeiros dados sobre homicídio.

Fontes dos dados:

População: IBGE – Projeção da População do Brasil por sexo e idade: 1980-2050 – Revisão 2008
https://ww2.ibge.gov.br/…/projecao_da_pop…/2008/default.shtm

Número de mortes por arma de fogo: Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM (MS/SVS/CGIAE)
http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205

Foram usadas as seguintes categorias da Classificação Estatística Internacional de Doenças:

1980-1995 (CID9)
Total de homicídios: E960 a E965
Homicídios por arma de fogo: E965

1996-2016 (CID10)
Total de homicídios: X85 a Y09
Homicídios por arma de fogo : X93, X94 e X95

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Eu, mulher, feminista, sua mãe, sua filha, já fui estuprada

Por Flávia Cláudia, historiadora.
Publicado originalmente no Palavra Dita | 27.mai.2016

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil e, diferente de pegar catapora, ter sido estuprada uma vez não faz de ninguém imune à possibilidade de ser estuprada novamente. Essa semana no mesmo dia em que um estuprador confesso foi recebido pelo Ministério da Educação com a proposta de combater a chamada ideologia de gênero nas escolas viralizou na internet o vídeo de uma garota de 17 anos sendo estuprada por vários homens, mais de trinta, em meio a risos, piadas e toda sorte de crueldades. Desacordada, machucada, humilhada, levada a categoria de uma coisa, um trapo humano.

Pessoalmente não tenho palavras que possam expressar o que sinto pelo fato de que, dos 30 homens, nenhum tenha posto a mão na consciência e dado um fim àquela monstruosidade, de que dos 30 nenhum tenha nem mesmo se recusado a participar da violência. Não é novidade que o estupro, que nós feministas não nos cansamos de afirmar que não é sobre sexo, é sobre poder, sobre opressão, está entranhado no nosso cotidiano na cultura do estupro, ainda posta em dúvida e negada. No entanto, cada vez que um caso com tamanha brutalidade ganha repercussão, o debate retorna aos mesmos pontos, a culpabilização da vítima, a suposição de que não tenha havido estupro e a espantosa subnotificação, hoje avaliada por meio de estatísticas como algo em torno de 10% dos casos. Também enquanto militante, já tive muitas discussões no interior do movimento devido ao discurso de que “denunciar não dá em nada” que penso, desestimula as mulheres a denunciarem seus estupradores e procurarem ajuda, o que pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Por mais que doa (e sempre dói) me expor publicamente e falar sobre o estupro como algo que aconteceu comigo, penso hoje que o primeiro movimento para romper a barreira da baixíssima taxa de denúncias desse crime desumanizante seja acabar com o silêncio. Não vejo outra saída senão toda e cada mulher que já passou por isso expor o seu caso. Toda vez que o assunto do estupro vem à tona, alguém traz o comentário de que “e se fosse com a sua irmã, a sua filha…”. Colocar as coisas nesses termos está errado, porque desconhece a mulher como um ser humano que merece empatia por si só. No entanto, esse é o único modo de sensibilizar algumas pessoas para o fato de que aconteceu com uma pessoa e pouco importa se é um dos seus entes queridos ou não. De qualquer modo o caso é que é sim, com as mulheres que estão à sua volta, sua tia, sua irmã, sua prima, só que você não sabe porque ela não contou para ninguém.

No dia do meu aniversário de 29 anos comecei a viver o que seria sem dúvida o pior ano da minha vida, passei meses vivendo no inferno, um ano em que por diversos momentos pensei que não sairia viva, naquele dia fui estuprada e agredida por um homem enquanto a mulher dele me xingava e filmava com o celular, o medo de tudo aquilo ir parar na internet, a minha mãe saber, a imagem dele me segurando pelos cabelos, todas essas imagens e outras piores ficarão escarificadas na minha memória até o fim dos meus dias, um homem. E penso, TRINTA HOMENS, trinta… E uma garota de 17 anos.

Eu já havia passado por abuso sexual na infância, mas era uma lembrança longínqua, do passado, agora eu era uma mulher feita, militante e sabia dentro de mim o que devia ser feito, denunciar. Assim que estive de volta em posse do meu celular (que ele obviamente havia me tomado) liguei para a polícia e todo o processo de denúncia começou. E é sobre isso que eu pretendo falar, sobre a denúncia, porque como sempre digo, a minha militância é sobre as minas, com as minas e para as minas. Esse texto pode e deve ser lido por toda e qualquer pessoa, mas é principalmente para quem já passou ou pode ainda passar por isso e para aquelas pessoas que ainda acham que o estupro é um crime abstrato, que acontece em uma realidade distante, com mulheres que não sabemos quem são. É com as mulheres que vocês e lidam todos os dias, vocês talvez só não saibam. Não raramente nem elas mesmas sabem que aquele dia, aquela vez, aquele cara, aquele “não” que ele fingiu que não ouviu, aquele sexo dormindo que ela pensou que era melhor deixar, aquela “tentativa”, aquilo foi um estupro. Em caso de dúvida, existem centenas de relatos em muitos blogs feministas onde as mulheres escrevem contando de suas experiências, ler sobre ajuda a não se sentir tão sozinha, porque você não é a única. Pessoalmente eu sempre indico o Blog da Lola.

Chamei a polícia pelo 190, como acredito que qualquer um teria feito. A viatura veio depois de uns minutos. Mesmo eu estando na portaria do prédio onde tudo aconteceu, os policiais me disseram que não poderiam subir pois a situação não configurava um flagrante e que eu deveria ir a pé à delegacia mais próxima. Óbvio que eles não subiriam em um prédio de classe média, em um bairro de classe média para fazer fazer uma ocorrência de estupro assim, não é mesmo? Fui a pé até a primeira delegacia que por um acaso eu sabia onde ficava, lá não havia um delegado de plantão, pois era um domingo de manhã, me indicaram onde era a delegacia com delegado plantonista e me disseram que fosse sozinha. Infelizmente as delegacias da mulher não funcionam aos finais de semana. Pois bem, no meio do caminho consegui uma carona em uma viatura, caridade, informal, me deixou na esquina da DP, não poderia me deixar na porta porque não era uma ocorrência dele, foi assim, uma cortesia para me ajudar. Desde o primeiro instante, o trâmite é feito de maneira que a vítima desista, desista por todos os motivos, por que está cansada, porque quer ir para casa esquecer o que aconteceu, porque sente medo de “o que será que vai acontecer agora”, porque não sabe, dependendo de onde o crime aconteceu, ir até a delegacia sozinha, porque não conhece a região ou porque está confusa ou porque precisa de apoio. Mas não desista, não vá para casa. 

Uma das coisas que me deram mais força para seguir adiante foi o fato de que se daquela vez havia sido comigo, sabe deus com quantas outras mulheres ele já tinha feito aquilo e com quantas outras ainda faria, não era só sobre mim, é sobre todas as mulheres que cruzarem o caminho dele também. Na delegacia prestei o meu depoimento no saguão, sem sala privativa, sem um copo de água, em pé, falando em voz alta por quais orifícios do meu corpo tinha sido invadida e se havia bebido ou não, se trabalhava ou não, em que era formada, o que eu tinha ido fazer ali, o de sempre, enquanto pessoas entravam e saiam, passando por mim e ouvindo detalhes sórdidos de algo que eu mesma ainda estava tentando entender, enquanto reconstituía os detalhes que o escrivão digitava. É horrível. Sim, é horrível. O tratamento dado está errado? Completamente errado, o tratamento adequado é que seja dado à vítima privacidade, respeito, confiança.

Ainda assim, quanto mais eu via que todo o processo estava sendo feito completamente errado mais forças eu tirava para levar adiante aquela denúncia. Discuti com o policial, perguntei se beber era ilegal, se não estar trabalhando era ilegal, ou se isso desqualificava a minha denúncia, ele bufou e retomou o seu trabalho. Mesmo que ele repetisse para mim mais de uma vez “Tem certeza que você vai fazer isso? Essa é uma denúncia muito séria…”. Prossegui, uma assistente social veio me levar ao hospital, para fazer o corpo de delito e tomar a medicação. Sim, a sensação é de que está todo mundo olhando para você, provavelmente algumas daquelas pessoas até ouviram mesmo parte do que você falou. Se você passar por isso, prossiga, não se importe com os olhares, você está fazendo a coisa certa. Ele fez a errada. Estatísticas apontam que, com muita frequência, os estupros são cometidos por pessoas do convívio da vítima, o que obviamente torna todo o processo da denúncia ainda mais complicado e inseguro. Da minha parte, cabe a nós militantes tornar o ambiente seguro para que as vítimas possam denunciar.

No hospital a vítima, no caso eu, é encaminhada para o exame de corpo de delito. Atenção: você não é legalmente obrigada a fazer o exame de corpo de delito em nenhuma hipótese. No meu caso, achei por bem fazer porque senti que precisava de todas as provas que eu conseguisse de que aquilo realmente havia acontecido, de que eu não era uma bêbada maluca que inventou uma história absurda para manchar a imagem de um homem de respeito e de sua esposa. Foi deprimente sim, foi doloroso inclusive, e muito, mas muito constrangedor. São tiradas fotografias e é coletado material da região genital. Acho importante, o estupro é um crime dificílimo de ser comprovado, é a sua palavra contra a palavra do agressor. Resista, erga a cabeça, e tenha certeza de que, de todas as dores que você já passou, as que envolvem a denúncia e o tratamento preventivo são as únicas necessárias.

No calvário das dores ainda haverá injeções de antibióticos, pílula do dia seguinte e medicação preventiva para HIV. Esse é o momento em que a você vai se proteger de consequências ainda piores, cuidar de você. Tome. Os dias seguintes dessa medicação serão horríveis, mas você vai ser assistida com todos os remédios que precisar para passar por isso da melhor forma possível. Em São Paulo o hospital que cuida dessa parte é o hospital Pérola Byington, que é um hospital especializado em saúde da mulher e esse tipo de violência. O atendimento existe e funciona, custeado pelo SUS, há ginecologistas que farão uma bateria de exames, todos, assistentes sociais que ouvirão o seu caso e psicólogos que poderão atendê-la caso você ache necessário.

Não é preciso fazer o boletim de ocorrência para ser atendida no hospital, as assistentes sociais estão orientadas a oferecer tratamento e acompanhamento mesmo nos casos em que não há BO. Há profissionais preparadas para atender as vítimas de violência sexual. Tanto pelos médicos, quanto pelas assistentes sociais e psicólogos, em todo momento fui tratada com respeito, paciência e discrição. O atendimento é rápido, o agendamento de consultas relativamente ao tempo geral que se leva para atendimento no SUS é rápido também.

Além do acompanhamento psicológico que fiz no AVS, o núcleo de atenção à mulher em situação de violência sexual do Pérola também fiz acompanhamento psiquiátrico no Programa para vítimas de violência do departamento de psiquiatria da Unifesp.

Tenho duas amigas que após terem sido estupradas tentaram suicídio e ficaram internadas por meses em hospitais psiquiátricos, estupro é coisa séria, não tenha medo de pedir ajuda, caso ache que precisa, você passou por uma situação horrível e que pode ter consequências devastadoras, não deixe que uma monstruosidade acabe com a sua vida ou com a sua sanidade. Você pode e você terá a sua vida de volta. Esses dois programas eu mesma usei e posso garantir que funcionam, com suas dificuldades, mas funcionam. Se você foi vítima de violência, os procure. Não acredite em quem disser que a denúncia não vai dar em nada, que não existe atendimento para a vítima de violência sexual, que a única coisa que você vai conseguir é ser julgada e condenada por todo mundo. vai ser difícil, vai ser horrível, mas tem muita gente que está disposta a ajudar. Não se esconda, não deixe que a violência prossiga ou acabe com a sua vida.

Há muitos coletivos feministas que podem amparar e orientar você nesse momento. Pessoas a quem você poderá contar e que irão ampará-la. Conte a quem ache que deve contar e não conte para quem possa humilhá-la ou tentar fazê-la desistir de ir a diante com a queixa. também sofri pressão para retirar a queixa e não retirei. Repeti para mim mesma que, independentemente do quanto fosse doloroso ou complicado eu não deixaria que ele seguisse pensando que o que ele fez foi certo.

Pessoalmente acho que perdemos tempo demais convencendo homens de que o estupro existe e pessoas de que é errado (Convenhamos, se tem uma coisa que os conservadores sabem fazer é se apropriar do discurso de combate ao estupro quando lhes convém falar em redução da maioridade penal, castração química ou a liberação do porte de armas) e a maior parte do tempo esquecemos que há vítimas que precisam de ajuda, mulheres que não têm a menor ideia de por onde começar. Perdemos um tempo crucial repetindo que denunciar estupros não dá em nada, perdemos tempo compartilhando vídeos de violência sexual, até ingenuamente em vez de simplesmente denunciar o conteúdo e acolher a vítima.

Da minha parte já se passaram dois anos, o processo segue em segredo de justiça, mas o Ministério Público avaliou que há indícios e materialidade de provas, acolheu a denúncia.

Minha vida seguiu.

Por fim, seguem links de denúncia para conteúdo criminoso na internet, não compartilhem, denunciem e só.

Link 1

Link 2

Link 3

Para todos os outros mimimis compartilho a sequência de links que recebi no Facebook, reflitam:

“Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!”
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores

“Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília

“Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!”
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte

“Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!”
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho

“Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria!”
“Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia”

“Se ela fosse mais família isso não aconteceria!”
Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR

“Se ela fosse menos ‘puta’ isso não aconteceria!”
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada

“Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo

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Desabafo de fim de ano

por Liana Machado para o Hum Historiador | 30.dez.2014

contra_a_violencia2Meu penúltimo dia do ano foi marcado por um resumo de tudo que aconteceu nesse país durante o ano de 2014.

Eram quase 23h30min e uma confusão na rua chamou minha atenção. Fui à janela e vi um garoto que se escondia num muro vizinho da minha casa. Olhei mais acima e vi um casal que se exaltava com outro garoto de forma virulenta. Disse ao garoto que fosse embora, e ele assustado me pediu que o deixasse ficar. Não disse nada, afinal ele estava na rua. Minha atenção novamente se voltou ao casal. Debaixo de tapas vi o garoto agachando para o chão, enquanto o homem que nele batia empunhava uma arma. Um tiro. Do lado do garoto. No chão. Pedi a minha mãe para chamar a polícia, mas logo percebi que o tal garoto era acusado de roubo. A aglomeração começou. Uma senhora ensandecida, com um cachorro nos braços agredia e xingava o menino desesperadamente. Sai de casa e fui em direção. Cada vez mais juntava gente, Ia rolar um linchamento. Com muito custo, consegui enfiar a mulher do cachorro dentro do carro e pedi a amigos dela que a levassem embora, pois estava muito nervosa. Era ela que havia sido a vítima de um roubo perpetrado por três garotos. O casal foi atrás e encontrou esse menino. O outro, o que estava encostado no meu muro, já havia sumido. Talvez fosse ele. Talvez não. Quando a senhora saiu, a polícia chegou. O menino agachado se escondia entre as mãos, ouvia todo tipo de xingamentos. Prostrei-me ao lado dele e fiquei em silêncio. Ao todo nove policiais chegaram e perguntavam o que acontecia. O homem armado era da polícia. Sem camisa, suado e visivelmente bêbado, continuava empunhando seu revólver, resolveu dar um tapa no garoto. Na frente dos policiais. Minha mãe protestou e o tal cara foi pra cima dela. “E se fosse com você?” É o argumento de sempre. Eu olhava para os policiais com cara de desespero. Perguntei se iam levar o moleque para a delegacia, era tudo que eu queria.  “Ele é seu parente?” perguntaram-me. Não. Eu olhava para os policiais e para a multidão em cima dele, e, consequentemente, em cima de mim. Nove policiais de braços cruzados, olhando e deixando o cara sem camisa dominar a situação. “Ele é seu parente?” perguntaram-me novamente. Não, ele não é. Minha cara de desolamento deveria ser tal, que eu parecia ser parente? “Levem ele preso”. Disse. A multidão que até a pouco o xingava freneticamente foi se dissipando. Os ânimos acalmando. Um vizinho me puxou pelo braço. “Deixa os policiais fazerem o trabalho deles”. Mas que trabalho? Acho que se não for para dar porrada e tiro a polícia não sabe muito o que fazer. Desci para casa. Tinha deixado meu filho em casa em desespero. Daí advém uma daquelas discussões surreais com a coxinhice de todo dia. Um menino que eu conhecia desde os 10, e que deve ter agora seus 20, destilava todo seu ódio contra mim. “Vocês gostam de bandido” e todo aquele resto que vocês já sabem, vou poupar vocês. Ao final me chamou de comedora de alface e do alto da sua arrogância procurava me ofender. Daí me vi sozinha com 6 pessoas que relinchavam. Agora o linchamento era contra mim. Meu filho viu tudo.  Fui pra casa. Pela janela vi que levaram o garoto, que soube ter 17, pela viatura. Passei mal a noite toda. Não dormi. E cheguei a chorar. Pela primeira vez na minha vida um garoto de 20 anos me fez perder toda a esperança na humanidade.

Senti-me uma idiota por defender a paz, e tive a sensação forte, nunca tinha sentido isso, de que eu estou presa no planeta terra com um mundo de seres humanos clamando por sangue. Jesus sempre me vem à cabeça, porque, apesar de ateia, eu concordo muito com ele. Onde você está Jesus? Hoje é o último dia de 2014, e eu nem aguento pensar no que vem por aí. Tomara que algum ser supremo me faça voltar a ter esperança, mas por hora… sou pura depressão. O texto é assim corrido porque foi desabafo. Peço desculpas por mais uma história. Mas eu tinha que falar com alguém.

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Maria do Rosário afirma ter sido agredida como mulher, como parlamentar e como mãe, após ofensas de Jair Bolsonaro no plenário da Câmara

Deputada Maria do Rosário (PT-RS) informa que irá processar criminalmente o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que disse ontem em discurso na Câmara que só não a estupraria porque ela “não merece”; “Chego em casa e tenho que explicar isso para a minha filha”, disse a petista; “Vou processá-lo criminalmente”.

Publicado originalmente no portal Brasil 247

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), agredida verbalmente pelo deputado Jair Bolsonaro ontem na Câmara, afirmou que pretende processá-lo criminalmente por sua declaração.

Bolsonaro subiu à tribuna logo após um discurso da petista sobre direitos humanos. Ela então deixou o plenário.

“Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir”, disse, aos gritos, o parlamentar.

“Fui agredida como mulher, como parlamentar, como mãe. Chego em casa e tenho que explicar isso para a minha filha”, declarou a ex-ministra dos Direitos Humanos, em entrevista à Rádio Gaúcha. “Vou processá-lo criminalmente”, anunciou.

Em seguida, ela se emocionou e disse não estar em condições de continuar a entrevista. “Não quero meu nome na voz de alguém que tem uma atitude como esta. Vocês me desculpem, fiquei bastante emocionada. Vou seguir meu trabalho. Não tenho mais condições de seguir a entrevista. Sugiro que as mulheres que tenham força e dignidade para seguir esta luta”, concluiu

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Os imóveis vazios do centro e a função social da propriedade

Repercutindo mais um excelente texto da professora Raquel Rolnik sobre a questão dos prédios abandonados no centro de São Paulo e outro violento episódio de reintegração de posse de um edifício no cruzamento da Av. Ipiranga com a São João.

O texto foi publicado originalmente na Folha de S. Paulo da última segunda-feira (22) e também no Blog da professora Raquel Rolnik, que é um dos sites mais que recomendáveis da blogosfera.

PRÉDIO VAZIO HÁ MAIS DE DEZ ANOS, PODE?
por Raquel Rolnik | publicado na Folha de S. Paulo em 22.Set.2014

Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista e professora da FAUUSP.

Na semana passada, depois do violento episódio da reintegração de posse de um edifício na av. São João, no centro de São Paulo, me chamaram a atenção os comentários em apoio à ação da Polícia Militar, justificados na defesa pura e simples do direito à propriedade privada. Segundo essa visão, se “invadiram” a propriedade de outrem, a polícia tem que tirar. E pronto.

Se há gente que pensa assim, talvez seja porque alguns elementos importantes dessa discussão não são conhecidos. O prédio da av. São João, inaugurado em 1991 para ser um hotel, nunca chegou a funcionar. Por acaso terrenos e imóveis podem ficar vazios ou subutilizados em pleno centro da cidade durante anos, às vezes décadas? Não, não podem.

Não tirei isso da minha cabeça. A Constituição do país, em primeiro lugar, o Estatuto da Cidade, o Plano Diretor, entre outras leis, regulam a questão. Todos lembram que a Constituição garante o direito de propriedade, mas esquecem que ela também garante que “a propriedade atenderá a sua função social”.

Mas quem define a função social das propriedades urbanas? Ainda de acordo com a Constituição, é o Plano Diretor de cada cidade que define para cada região, de acordo com a política urbana naquele período, a função social de cada um dos imóveis.

Desde 2002, o Plano Diretor de São Paulo já determinava que as áreas centrais são prioritárias para repovoamento. Ou seja, nessa área específica, imóveis vazios devem ser reocupados por moradias. O plano vai mais longe: reconhecendo a enorme demanda de habitação para setores de menor renda, também introduziu a figura das Zonas Especiais de Interesse Social –inúmeros edifícios vazios ou subutilizados no centro de São Paulo estão incluídos nessas zonas, reafirmando claramente essa destinação.

Se a propriedade não estiver cumprindo com sua função social, o proprietário pode ser penalizado. Tais penas já estão previstas desde 1988 na Constituição, regulamentadas pelo Estatuto da Cidade.

A primeira delas é a obrigatoriedade de construir e dar um uso ao imóvel, atendendo à função social que lhe cabe. Se isso não for feito, a prefeitura pode aplicar um aumento progressivo do IPTU, durante cinco anos, até o limite de 15% do valor do imóvel. Se ainda assim o proprietário não fizer nada, a prefeitura pode desapropriá-lo, pagando com títulos da dívida pública em vez de dinheiro.

Por que, então, tantos edifícios vazios e subutilizados como o da São João ainda não estão sofrendo as penalidades previstas? Em 2011, a prefeitura chegou a notificar mais de mil imóveis vazios ou subutilizados. O que aconteceu desde então? Por que em 2014, 26 anos depois de escrevermos a Constituição, as sanções que pesam sobre a subutilização continuam bloqueadas?

Chega a ser acintoso que alguém mantenha imóveis ociosos em áreas centrais, enquanto tanta gente não tem onde morar ou mora em péssimas condições. E é absolutamente vergonhoso que o Judiciário siga fechando os olhos para essa situação e ignorando todos os textos legais que regulam a função social da propriedade, quando o dono de um prédio ocupado entra com o pedido de reintegração de posse.

A crise habitacional é gravíssima e não faltam leis que possibilitem o seu enfrentamento. Falta aplicá-las.

Raquel Rolnik é arquiteta e urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

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A cada 28 horas um LGBT é assassinado no Brasil vítima da homofobia

Publicada originalmente por Thiago Araújo no Brasil Post, notícia dá conta de que quase uma pessoa é assassinada por dia no Brasil, vítima da homofobia, que certos parlamentares e boa parte da sociedade insistem em afirmar que não existe no país.

Levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), contabilizou 312 assassinatos, sendo cinco deles na cidade de São Paulo. Por ser bastante difícil de realizar, acredito tratar-se de um levantamento bastante incompleto, uma vez que é comum um assassinato motivado pela homofobia ser camuflado nas ocorrência policiais como brigas, desinteligência ou outras tipificações.

A matéria traz um mapa com a distribuição dos assassinatos por estado do país. Chama atenção a posição de destaque dos estados da região Nordeste, em especial suas capitais. Enquanto São Paulo registrou a ocorrência de 5 homicídios motivados por homofobia, Recife-PE aparece com 12, João Pessoa-PB aparece com 11, Salvador-BA com 9, Fortaleza-CE com 8, Teresina-PI e Natal-RN com 5 homicídios, Maceió-AL e Aracaju-SE com 4 e São Luís-MA com 3.

Cabe ressalvar que esses números devem ser analisados com cuidado, já que o número de habitantes em cada cidade/estado é bastante diferente e revelam que determinadas regiões, em números relativos, são ainda mais homofóbicas que outras.

Abaixo, a repercussão da íntegra da notícia publicada no Brasil Post.

UMA MORTE LGBT ACONTECE A CADA 28 HORAS MOTIVADA POR HOMOFOBIA
por Thiago Araújo | Brasil Post

Em 2013 foram contabilizados 312 assassinatos, mortes e suicídios de gays, travestis, lésbicas e transexuais brasileiros vítimas de homofobia e transfobia, de acordo com levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB). O documento inclui a morte de uma transexual brasileira no Reino Unido e um gay morto na Espanha. A média é de uma morte a cada 28 horas.

Esse número é 7,7% menor em relação ao ano de 2012 (388 mortes), mas, segundo o GGB, as mortes aumentaram 14,7% nos últimos 4 anos.

Segundo o documento, a maioria das mortes de gays acontece na casa da vítima, enquanto a maioria dos travestis morre na rua. Em um ano foram 186 gays, 108 transexuais, 14 lésbicas, 2 bissexuais e 2 héteros mortos, confundidos com homossexuais.

Pernambuco foi o estado onde aconteceu o maior número de mortes de LGBT (34). Em seguida, vem São Paulo (29), Minas Gerais (25) e, empatados em quarto lugar, Bahia e Rio (20). A Região Nordeste concentrou 43% das mortes, seguida de Sudeste e Sul com 35%, e Norte e Centro Oeste, com 21%.


Número de mortes com motivação homofóbica ou transfóbica por estados

O estudo realizado pela entidade utiliza como base notícias divulgadas por veículos de imprensa e dados enviados por ONGs. Nele foram contabilizados também dez suicídios. Segundo Luiz Mott, coordenador da pesquisa, essas mortes são registradas por terem motivações homofóbicas ou transfóbicas: “Como aconteceu com um gay de 16 anos, de São Luís, que enforcou-se dentro do apartamento ‘por que seus pais não aceitavam sua condição homossexual’.”

O relatório completo pode ser acessado no site Homofobia mata.

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[DEPOIMENTO] Vítima de assédio sexual denuncia agressão sofrida em vagão do Metrô de SP

Superlotação dos metrôs e trens da CPTM em horários de pico, facilitam ação dos agressores.

Como vem sendo noticiado na grande imprensa nos últimos anos, o abuso sexual contra mulheres no metrô e na CPTM vem aumentando vertiginosamente. Em outubro de 2011, o portal da Band já noticiava a ocorrência de 76 casos de abuso nos trens do metrô e CPTM em São Paulo. Àquela época, 8 mulheres eram atacadas por mês, segundo dados da Delpom (delegacia do metropolitano). Esses são números oficiais, pois como devemos imaginar, muitas mulheres atacadas sequer registram queixa do assédio sofrido nas composições do metrô e da CPTM.

Mulheres protestam contra assédio sexual em transportes públicos.

Nesta última quarta-feira (30), a vítima do assédio foi uma colega da faculdade que, revoltada com a agressão, decidiu denunciar e espalhar a violência sofrida nas redes sociais. O Hum Historiador pediu autorização para repercutir o depoimento da colega que foi covardemente atacada no metrô, no intuito de refletirmos o quanto a causa dos ataques sexuais no transporte público não está relacionado com a cultura do estupro, com o machismo cotidiano, com esse sentimento que muitos homens tem de que podem agredir mulheres que os rejeitam e saírem impunes.

O caso de Lígia não é único, não é o primeiro e, infelizmente, não será o último. Enquanto isso, o que empresas (Metrô, CPTM, SPTrans, etc.) e governos (federal, estadual e municipal) tem feito para diminuiu ou acabar com essa prática no país? Vagão exclusivo para mulheres é uma solução? Ao invés de resolvermos o problema, devemos segregar ainda mais as mulheres?

Abaixo o depoimento de Lígia Luchesi, assediada no metrô de São Paulo nesta última quinta-feira (31), na estação República da linha amarela do metrô.

NÃO PARA UMA MULHER
por Lígia Luchesi

Um dia no trabalho comum na vida de qualquer pessoa que precisa usar o metrô para se deslocar em uma grande cidade. Mas não para uma mulher. 

Para deixar o vagão, instantes antes da porta se abrir, eu me levantei e segui a moça que estava ao meu lado. Ela passou na frente de um rapaz. Eu fui passar e ele me prensou no ferro que fica ao lado do banco. Eu pedi licença e, distraída, não entendi o que acontecia. Ele riu. Eu forcei um pouco o corpo para sair e ele novamente me apertou, só que eu escapei e meu pé ficou preso entre a lateral do banco e a perna dele. Dei um empurrão com um jogo de corpo e ele novamente fez menção de me empurrar, só que eu dei um leve empurrão com minha mão no ombro dele e neste instante fiquei de costas, pois na pressa de sair e no empurra-empurra de metrô lotado às 18h, não parecia haver nada de importante. Não era. Não para uma mulher. Ele me chutou na altura dos rins e eu fui projetada para fora do vagão. As pessoas fizeram uma menção de reclamar, eu o xinguei. As portas se fecharam e a vida seguiu. Ele riu e me deu o dedo do meio: um gesto que impõe a força, não de uma mulher. Que projeta o poder e a sujeição: contra uma mulher. 

Demorei mais de uma hora para entender que ele não estava me prensando contra a barra de ferro por conta do vagão lotado. Ele estava me encoxando. Ele me assediou no espaço público. Ele pensa que tem direito sobre um corpo que não é o dele. Ele acha que pode dispor de uma mulher e que, caso seja rejeitado, ele pode agredi-la. Ele me agrediu. Estou com o calcanhar roxo e com as costas doloridas. Estou ferida por não ter tido ajuda, solidariedade e apoio. Amanhã farei um B.O. e uma reclamação no metrô. 

Estou imaginando o desgaste. Estou pensando que muita gente vai me dizer que o vagão separado seria a solução. Eu não acho. Eu estou no espaço público, eu vivo em sociedade e não quero ser segregada. Eu exijo ser respeitada. Eu exijo não ser agredida. Eu sou uma mulher.

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A defesa da Polícia Militar como retrato de uma sociedade doente

Foto divulgada no site Coletivo Cultura Verde

Hoje estive discutindo com um colega sobre a violência da Polícia Militar de São Paulo e o impressionante número de mortos deixados por essa instituição, segundo os números oficiais da Ouvidoria da Polícia de São Paulo (isto é, o número deve ser maior).

Segundo notícia divulgada pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), em apenas cinco anos (2005-2009) a Polícia Militar de São Paulo matou 2045 pessoas no Estado em casos que foram registrados como resistência seguida de morte. (Veja também notícia divulgada pelo site Coletivo Cultura Verde).

Após circular esta informação em meu perfil nas redes sociais, o colega ao qual me referi fez o seguinte comentário: “pessoas ou bandidos?”. Prontamente respondi-lhe a provocação com outra pergunta: “e bandidos não são pessoas?”, ao que o referido colega respondeu: “não!” e ainda perguntou-me se eu era contrário ao policial que deu dois tiros no rapaz que tentou roubar uma moto “hornet”, em caso celebrizado pelo YouTube e pelas redes sociais. “Claro que sou contra!”, respondi-lhe. Aliás, seria estranho se eu, como educador, acreditasse mais na polícia armada do que na educação como meio de acabar com a violência. Após essa resposta, o colega disse-me que era melhor parar a discussão por ali, pois não iria evoluir diante de nossas posições tão divergentes.

Nesse curto diálogo, entendi como muito preocupante a disseminação de algumas ideias bastante equivocadas por trás de um discurso extremamente superficial:

  1. A consideração de que todas as vítimas da Polícia Militar são bandidos;
  2. A desumanização de pessoas que cometem crimes ou atos de violência como tentativa de justificar o extermínio das mesmas, no melhor estilo malufista: “bandido bom é bandido morto!”
  3. O precedente para que se justifiquem assassinatos cometidos pela Polícia Militar sob a justificativa de que se estão eliminando bandidos.

Foi hedionda a pergunta do colega quando referiu-se às vítimas da PM não como pessoas, mas como bandidos. Primeiro porque há vítimas da Polícia Militar que sequer tinham qualquer culpa ao serem mortos. Está aí o recente caso do ajudante de pedreiro Amarildo e do menino morto na Vila Medeiros como exemplos macabros. Mesmo no caso das vítimas dos policiais serem criminosos, o colega trata-os como se estes não merecessem a condição de seres humanos. Como se os bandidos não merecessem, no mínimo, a prisão e um julgamento justo, com amplo direito à defesa, conforme prescrito em nossas leis.

Ao invés de celebrar o assassinato de “bandidos” ou a superlotação das prisões, costumo pensar que cada indivíduo preso representa mais um fracasso nosso enquanto sociedade. Quando alguém comete um ato de violência contra outra pessoa, não é apenas ele quem está cometendo o crime, mas sim todos nós. É o reflexo de uma sociedade doente e falida. Retrato de uma sociedade individualista, baseada no consumo, na exploração do homem pelo homem e, assim sendo, baseada na miséria humana.

Se acreditamos que violência e propensão a crimes não são características genéticas de nossa espécie, então, quando um ato de violência é cometido, família e sociedade falharam ao educar o infrator. A melhor maneira de diminuir a violência não é através da polícia, construção de presídios e compra de armas e munições, mas sim investindo maciçamente em educação, na erradicação da miséria, na garantia de moradia e na distribuição de renda. Impossível acabar com a violência, quando há pessoas morrendo de fome, sede e doenças tratáveis. Pessoas vivendo ao relento ou em locais sem a menor condição higiênica para abrigar seres humanos.

Como é de conhecimento geral, a violência está diretamente relacionada à miséria. Portanto, o combate à violência em nossa sociedade deve se dar através do combate à miséria e à má educação. A Polícia Militar não é alternativa de solução viável, mas sim, fruto de uma sociedade que precisa garantir a segurança de quem explora a miséria alheia com homens armados e bem treinados. Afinal de contas, a quem serve a Polícia Militar? A todos os cidadãos? Certamente não serve nem aos 2045 que foram assassinados, nem a seus familiares.

Não há prova maior de que essa sociedade é realmente doente quando nos deparamos com pessoas acreditando e defendendo a necessidade de policiais armados para garantirem que seres humanos possam se relacionar sem medo de serem assaltados ou assassinados. Triste retrato dos tempos em que vivemos.

Cartoon: Carlos Latuff

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A falsa ideia de que a Polícia Militar é sinônimo de segurança

PM na USP

Aluna da USP é ameaçada por Policial Militar durante a desocupação da reitoria, em 2011.

A Folha de S. Paulo publicou ontem (8) notícia dando conta que uma estudante sofreu tentativa de estupro dentro do campus da USP (Butantã). Segundo a notícia, uma aluna de 23 anos do curso de engenharia de produção, foi atacada as 7h50 da manhã dentro do banheiro feminino da Escola Politécnica (Póli). Segundo o delegado que atendeu o caso, o agressor teria agarrado a estudante por trás e tentado levá-la para uma das cabines do banheiro. A estudante reagiu e o agressor acabou fugindo, deixando-a com um ferimento na boca. Apesar do susto, a estudante passa bem.

Ao tomar conhecimento da notícia, divulguei-a em meu perfil de uma rede social juntamente com a seguinte questão: mas a presença da Polícia Militar no campus não ia dar mais segurança aos alunos da USP?

Como se pode imaginar, a pergunta suscitou nova discussão sobre o tema, especialmente por eu contar com colegas que defendem não só a presença da PM no campus, mas o aumento considerável do número de policiais fazendo rondas entre os estudantes. Para um desses colegas, a ocorrência da tentativa de estupro de ontem, mesmo com a presença da Polícia Militar no campus, é algo que naturalmente iria ocorrer, pois a presença da força coercitiva “não zeraria os crimes” dentro da universidade. Segundo este colega:

“O que é concreto que sua presença (da Polícia Militar) tende a diminuir drasticamente o crime, como já ocorreu mesmo na USP. Por isso sou a favor de ampliar ainda mais o policiamento”.

Embora o colega não tenha apresentado números para corroborar a hipótese de que a presença da PM no campus contribuiu para a redução do índice de crimes ocorridos na Cidade Universitária, vou colocar meu foco em outro ponto dessa discussão, que é a ideia de que a presença da polícia tende a diminuir drasticamente o crime.

Ora, como disse para ele, a defesa de tal ideia é de uma puerilidade e de uma falta de senso tamanha, pois simplifica a questão reduzindo a ocorrência ou não de crimes e atos de violência à presença física (ou não) de agentes da polícia fazendo patrulhamento em um local, quando sabemos que o problema da violência tem raízes muito mais profundas. Tal ideia é tão superficial que sequer leva em consideração se essa polícia está ou não preparada para lidar com aquela comunidade específica. Apenas atende à fórmula: há violência, coloca a polícia para resolver.

Como vimos através da própria notícia de ontem, crimes ou atos de violência não deixam de ocorrer em razão de um corpo policial estar ou não fazendo patrulhamento em algum local, mesmo porque, se essa ideia fosse verdadeira, seria impossível manter a polícia  em todos os lugares em todos os momentos o que, neste caso, abriria espaço para que em algum momento ocorresse um crime, restando apenas conformarmo-nos com a diminuição do número de ocorrências após o aumento dramático do número de efetivos no policiamento da universidade. Ora, resultado similar ou melhor que este poderia ser obtido através de outras medidas que não o uso do aparato coercitivo do Estado.

Voltando a ideia do colega, a meu ver, o principal problema reside no fato dela conter a suposição de que as pessoas precisam ser vigiadas por policiais armados para que não cometam crimes ou atos de violência umas contra as outras. Pior ainda nesse caso específico, pois se defende a presença ostensiva do policiamento dentro de uma universidade. Segundo o postulado desse meu colega, a garantia da segurança de todos está na presença de policiais armados dentro do campus. E não basta apenas uma base comunitária localizada em um ponto da universidade, mas é necessário um número grande o suficiente para que se façam rondas por toda a área do campus, caso contrário a garantia da segurança em toda extensão da universidade estaria ameaçada.

No entanto, desde 2011, quando a Polícia Militar passou a ter uma base dentro da Cidade Universitária e a fazer rondas pelo campus, ainda não foram divulgados números concretos que corroborem a ideia de que o índice de criminalidade tenha diminuído em função da ação específica da Polícia Militar. Em novembro de 2011, seis meses após a Polícia entrar no campus, o blog Never Asked Questions trouxe um post tratando do assunto. Nele o autor faz um levantamento do registro de ocorrências criminais dentro do campus  USP/Butantã conforme divulgado pela Guarda Universitária. Abaixo o gráfico divulgado no blog.

Fonte: Never Asked Questions.

Mesmo levando em conta que os números divulgados pela Guarda Universitária são cheias de problemas (como o próprio autor do blog lembra), é possível verificar que entre os meses de Abril de 2011 a Novembro de 2011, período em que a PM passou a frequentar o campus, o índice dos crimes levantados pelo gráfico manteve a mesma oscilação dos anos anteriores, fazendo com que reafirmemos o equívoco da ideia de que a mera presença da PM no campus diminuiria a ocorrência de crimes.

Na contramão dessa ideia está um texto publicado pela professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU/USP), Raquel Rolnik, que escreveu sobre o assunto em seu blog assim que a PM entrou no campus. Segundo o texto da professora, quanto ao tema da segurança no campus em si:

“É uma enorme falácia, dentro ou fora da universidade, dizer que presença de polícia é sinônimo de segurança e vice-versa. O modelo urbanístico do campus, segregado, unifuncional, com densidade de ocupação baixíssima e com mobilidade baseada no automóvel é o mais inseguro dos modelos urbanísticos, porque tem enormes espaços vazios, sem circulação de pessoas, mal iluminados e abandonados durante várias horas do dia e da noite. Esse modelo, como o de muitos outros campi do Brasil, foi desenhado na época da ditadura militar e até hoje não foi devidamente debatido e superado. É evidente, portanto, que a questão da segurança tem muito a ver com a equação urbanística.”

Ora, para ficarmos apenas em um ponto, se sabemos que a presença da polícia no campus não diminui a ocorrência de crimes e também que, ao contrário, pode-se diminuir a curto prazo os índices de criminalidade dentro da universidade através de intervenções no modelo urbanístico do campus, porque é mesmo que optamos pela primeira opção em vez da segunda no combate da violência dentro da USP? A própria Rolnik já apontava uma das respostas em seu post ao lembrar que a questão da presença da PM no campus estava ligada com a estrutura de gestão dos processos decisórios dentro da USP, isto é, a gestão da USP e de seus processos decisórios é absolutamente estruturada hierarquicamente. Neste caso, o poder de decisão do que fazer dentro da universidade está concentrado nas mãos do reitor e de seu grupo de apoio.

Independente da questão de poder dentro do campus, para mim é sempre desolador ver que pessoas da área das humanidades, que já atuam como professores e/ou estejam se formando para exercer a docência (seja em nível fundamental, médio ou universitário), acreditem que o ser humano precisa de vigilância armada para não cometer crimes. Antes de mais nada, isso revela um profundo descrédito dessas pessoas na humanidade, em si, e na educação como instrumento de emancipação do ser humano. Revela uma descrença no papel do professor como agente social capaz de transformar a vida dos educandos e reforça a ideia de que a única solução possível para os problemas da humanidade é através da violência do aparato coercitivo. Pessoas nessas posições com tais ideias, já fracassaram em suas carreiras antes mesmo de iniciá-las. Não me surpreenderá nada se em breve eu receber notícias de que estas pessoas, no exercício de sua profissão como docentes, estarão indo para as escolas e universidades dar suas aulas armadas como garantia de sua segurança.

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Vídeo que ironiza culpa da mulher em caso de estupro faz sucesso na Índia

“É sua culpa” já teve quase 2 milhões de visualizações no Youtube desde que foi lançado, há uma semana”
por Moncho Torres para o Opera Mundi

“O estupro foi culpa da mulher, porque vestia uma roupa sexy e estava fora de casa em horários estranhos” (Imagem: Reprodução Youtube)

“O estupro foi culpa da mulher, porque vestia uma roupa sexy e estava fora de casa em horários estranhos”. Para refutar argumentos como estes, foi lançando na Índia um vídeo que com bastante ironia procura combater o conservadorismo em alguns setores no país.

Em um espaço branco e vazio, acompanhado por música típica de televendas, a gravação de três minutos mostra duas indianas que, sorridentes, explicam, sem dramas, que tipo de atitude feminina provocam para que os homens as estuprem.

“Sejamos sinceras, meninas, os estupros são culpa nossa. Estudos científicos sugerem que as mulheres que usam saia são a principal causa de estupro. Sabe por quê? Porque homens têm olhos”, afirma a atriz Kalki Koechlin no início do anúncio.

O vídeo, “It’s your fault”, já teve quase dois milhões de visualizações no Youtube desde que foi publicado, há uma semana, e viralizou nas redes sociais, em geral acompanhado da frase: “É culpa minha”.

Por trás da campanha está o coletivo de humoristas de Mumbai “All India Bakchod” (Os charlatões da Índia), formado por Gursimran Khamba, Tanmay Bhat, Rohan Joshi e Ashish Shakya.

Assista ao vídeo (com legenda):

O coletivo decidiu fazer um vídeo porque sabiam que com ele poderiam chegar a mais gente e chamar assim a atenção sobre os “estúpidos e odiáveis comentários” que alguns fizeram após o bárbaro estupro coletivo de uma estudante dentro de um ônibus em Nova Déli, em dezembro do ano passado.

“Não sabíamos como o público ia reagir. Tínhamos medo de que as pessoas não captassem a ironia e pensassem que estávamos trivializando um tema tão sério, mas sabíamos que tínhamos que fazer algo”, explicou a Agência Efe um dos comediantes, Gursimran Khamba.

A atriz Koechlin aceitou participar do projeto junto com a estrela da televisão indiana Juhi Pande porque, segundo ela, “o humor é uma maneira fantástica de enfrentar um tema sério”, mas também disse ter ficado “preocupada com a possibilidade de não ser entendida”.

A morte de uma estudante em decorrência do estupro por vários homens dentro de um ônibus em dezembro do ano passado causou uma onda de protestos na Índia, mas algumas pessoas culparam a jovem –  e foi isso que motivou os comediantes.

“Bhaya”

O popular guru indiano Asaram Bapu, por exemplo, disse que a vítima também teve culpa, embora em menor medida que os agressores, já que em vez de resistir “devia ter rezado para Deus e pedido aos estupradores, chamando-os de ‘Bhaya’ (irmão), que a deixassem em paz”.

O vídeo, que parodia a reunião, mostra uma das atrizes sendo atacada por vários homens e como consegue se livrar do estupro ao conseguir pronunciar a palavra ‘Bhaya’.

“Sempre funciona”, afirma sorridente a jovem, que pede às mulheres “que deixem de seduzir aos homens para que as estuprem”.

A reação nas ruas ao vídeo tem sido muito positiva, contou a entusiasmada Pragya Varma, de 21 anos, classificando o vídeo de “incrível”, e revelou que já teve de enfrentar mais de uma vez a mesma situação.

“Compartilhei no Facebook para que meus amigos vejam. Não é culpa nossa, não podemos ser culpadas por usar uma saia curta”, sentencia Varma.

Simranjeet Kaur Walia, de 19 anos e estudante de jornalismo, também gostou do vídeo, e ressaltou que “ninguém pode nos culpar (pelos estupros) por sair de casa depois das oito da noite ou por nos vestir de uma determinada maneira. Mas como isso acontece!”, lamentou.

A polícia não escapou da paródia no vídeo, acusada em várias ocasiões de incompetente e insensível diante das agressões sexuais, e de transformar as delegacias, como denunciou a organização Human Rights Watch, em “lugares que inspiram temor”.

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