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Discutindo a Fundação Ford (Parte 4/4)

Continuando a repercutir o texto do amigo e historiador Marcus Correia, publicado originalmente no portal Esquerda Online.

Abaixo a quarta e última parte do texto que discute a Fundação Ford. Para ler os posts anteriores, clique nos links abaixo:

DISCUTINDO A FUNDAÇÃO FORD (PARTE 4/4)
por Marcus Correia | publicado originalmente em 22 jan. 2017 | Esquerda Online

Dos anos 1970 aos dias atuais

Conforme a proposta das partes anteriores do artigo, o objetivo aqui não é o de elencar financiamentos da Fundação Ford pelo mundo, mas apontar as relações existentes entre os principais membros da entidade, os órgãos do governo dos Estados Unidos (incluindo a CIA, o Pentágono e o Departamento de Estado) e as transnacionais do país.

Nas últimas décadas, em razão de os recursos da Fundação Ford direcionarem-se ao financiamento dos chamados direitos humanos, a entidade passou a aparecer aos olhos dos mais crédulos como tendo cortado os vínculos que manteve com o establishment estadunidense durante a Guerra Fria. Tal percepção, ora ingênua ora oportunista, mostra-se completamente equivocada, pois é possível identificar a permanência desses vínculos até os dias atuais.

De acordo com o que foi exposto nas partes 2 e 3 do artigo, entre 1966 e 1979, o presidente da Fundação Ford foi McGeorge Bundy, que, entre outros cargos que ocupou, foi Assessor de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lindon Johnson e cujas relações com a CIA consistiram em monitorar e formular algumas de suas ações no exterior. Seu irmão William Bundy também era funcionário da agência [1].

Quando, em 1979, Bundy deixou a presidência da Fundação, o cargo foi ocupado por Franklin Augustine Thomas.

Durante dez anos (1967-77), Franklin A. Thomas dirigiu a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, em Nova York, uma organização “beneficente”, fundada por ninguém menos que Robert F. Kennedy, irmão de John F. Kennedy, e pelo então prefeito da cidade, John Lindsay [2].

Em 1967, Franklin  A. Thomas foi convidado por Robert F. Kennedy para presidir a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, que contava com aportes financeiros da Fundação Ford, à época presidida por McGeorge Bundy [3].

As relações entre Robert F. Kennedy, a CIA e a máfia também são bastante conhecidas, a exemplo de várias operações coordenadas por ele para o assassinato de Fidel Castro [4]. Em 1968, Robert F. Kennedy foi assassinado, assim como o irmão John F. Kennedy havia sido cinco anos antes.

Franklin A. Thomas serviu na Força Aérea dos Estados Unidos entre 1956 e 1960, chegando à patente de capitão. Ele também foi diretor do setor jurídico do Departamento de Polícia de Nova York, entre 1965 e 1967, no conturbado contexto de luta por direitos civis nos EUA. Enquanto ocupava a presidência da Fundação Ford, Franklin A. Thomas foi do conselho de diretores do Citibank e de várias outras grandes empresas estadunidenses [5].

Franklin A. Thomas ficou na presidência da Fundação Ford até o ano de 1996, quando passou o cargo para Susan Berresford, uma alta funcionária da entidade desde a gestão de McGeorge Bundy. Ela ficará na presidência da Fundação até 2007. Susan Berresford, entre outros cargos que ocupou, foi do conselho do Chase Manhattan Bank, hoje controlado pelo JP Morgan.

Como Susan Berresford foi funcionária da Fundação Ford por mais de trinta anos, seu vínculo mais conhecido com empresas privadas dos EUA foi com o referido banco. Como presidente da Fundação Ford, abriu o primeiro escritório da entidade na Rússia em 1996. Em 2005, Berresford entrou na lista da revista Forbes como uma das cem mulheres mais poderosas do mundo. [6]

Em 2008, foi a vez de Luis Ubiñas presidir a Fundação Ford. Ubiñas trabalhou durante dezoito anos como diretor da McKinsey & Company, a maior empresa de consultoria de negócios do mundo. Sua área de especialidade na companhia era mídia e telecomunicações [7].

Não é, portanto, coincidência que um dos principais pilares de financiamento da Fundação Ford pelo globo atualmente seja a mídia dita alternativa e movimentos de ampliação do espectro de mídia nos países periféricos.

Em 2013, Luis Ubiñas passou a presidência da entidade para Darren Walker, que ocupa o cargo até hoje.

No mesmo ano em que Walker assumiu a presidência, um dos representantes da entidade no Brasil, quando foi questionado sobre as relações entre a Fundação e a política externa estadunidense durante a Guerra Fria, admitiu que “certamente ocorreram erros na história  [da entidade]” ! [8] E afirmou que atualmente a Fundação opera apenas com recursos próprios da família Ford e não recebe aportes de nenhuma outra instituição ou governo.[9]

O que ele não mencionou é que em alguma cristaleira da família Ford está guardada a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã nazista que o patrono Henry Ford ganhou de Adolf Hitler (Cf. Parte 1).

Porém, mesmo pressupondo que a Fundação não receba recursos de outros organismos públicos e privados e opere apenas com dotação orçamentária própria, isso não significa que na atualidade suas ações não sejam coordenadas com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, com o Pentágono, com o Departamento de Estado e com as megatransnacionais do país.

Prova disso é a atividade do atual presidente da Fundação, Darren Walker, como membro do Council on Foreign Relations, o principal órgão privado de formulação de política externa para os Estados Unidos [10].

É possível afirmar que este think tank é o principal formulador da parceria entre as transnacionais do país, as fundações privadas ditas filantrópicas e o aparato militar-diplomático estadunidense na aplicação de uma política global que beneficie o centro do império capitalista.

Entre os membros atuais do conselho encontram-se quer republicanos quer democratas, bem como acadêmicos, militares, ex-altos funcionários do governo (Pentágono e Departamento de Defesa), presidente de grandes órgãos de comunicação (CNN, Fox News, Times Warner), jornalistas, empresários, ex-ministros, ex-presidentes dos Estados Unidos etc. O conselho reúne, de fato, os principais articuladores geopolíticos da burguesia internacional na atualidade.

Para se ter uma idéia, entre os muitos indivíduos do setor de inteligência dos Estados Unidos no Council on Foreign Relations, do qual o atual presidente da Fundação Ford faz parte, estão: os dois ex-diretores da CIA na administração Jimmy Carter: Frank Carlucci e Stansfield Turner; Robert M. Gates, ex-diretor da CIA na administração George H. W. Bush (pai) e ex-ministro da Defesa de George W. Bush e Barak Obama; Michael Hayden, ex-diretor da NSA na administração Bill Clinton e ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; James Woolsey, ex-diretor da CIA na administração Bill Clinton; John Negroponte, ex-diretor de inteligência nacional da administração George W. Bush; Porter Gross, ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; David Patreaus, ex-diretor da CIA na administração Obama.[11]

General Motors, Chevron, ExxonMobil, Ford Motor, Texaco, Citibank, IBM, Coca-Cola, Soros Fund Management, JP Morgan, Goldman Sachs são apenas alguns exemplos das megatransnacionais que subsidiam o conselho do qual participa Darren Walker, que antes de ocupar o cargo de presidente da Fundação Ford foi ainda alto executivo do Union Bank of Switzerland. [12]

O importante a ser observado aqui é que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, existe um vínculo ininterrupto entre o alto escalão da Fundação Ford, os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, o Pentágono e o Departamento de Estado, o complexo industrial-militar e grandes transnacionais. Ao contrário do que comumente se imagina, a política externa conjunta entre fundações privadas e o governo estadunidense ampliou-se a partir da década de 1970.

Um dos objetivos da utilização de ONGs e fundações privadas para a política externa dos EUA é desburocratizar e encobrir atividades de inteligência no exterior, como o financiamento de grupos locais cujas causas coincidam com os interesses estratégicos do império, seja na aquisição de novos mercados seja na desestabilização de governos ou regimes considerados “não-alinhados” seja para uma política soft de contrainsurgência.

Este último caso consiste em influenciar pessoas, por meio de ONGs e entidades filantrópicas, a se engajarem em “causas” liberais, supostamente progressistas, embora não anticapitalistas tampouco comunistas e, assim, promover protagonistas políticos de orientação política não-classista, eclipsando e dificultando a militância das organizações comunistas-marxistas.

Vale, por fim, reeditar aqui a pergunta feita no artigo Open Society: sociedade aberta para quem [13]: Deve a esquerda brasileira receber recursos financeiros oriundos de fundações, ONGs, empresários e financistas das principais potências estrangeiras para lutas políticas no Brasil, considerando ainda o histórico desses ignóbeis filantropos?


NOTAS:

  1. Sobre os irmãos Bundy, Cf.: MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974; E, BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.;
  2. Bedford Stuyvesant Restoration- History: https://www.restorationplaza.org/about/history  ; Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html
  3. Idem.
  4. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Idem, 2005.;
  5. Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html
  6. Revista Forbeshttp://www.forbes.com/lists/2005/11/YELG.html
  7. http://www.huffingtonpost.com/author/luis-ubi
  8. Nelson de Sá. Quem paga a conta? Observatório da Imprensa. http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ed762_quem_paga_a_conta/
  9. Idem.

10.Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html

  1. Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html
  2. Lista de membros comporativos do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/corporate/roster.html
  3. “Open Society”: sociedade aberta para quem? http://blog.esquerdaonline.com/?p=7704
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ANPUH: Carta aberta pela obrigatoriedade da História no Ensino Médio

CARTA ABERTA PELA OBRIGATORIEDADE DA HISTÓRIA NO ENSINO MÉDIO

A História, como disciplina escolar, integra o currículo do ensino brasileiro desde o século XIX. Sua presença, considerada fundamental para a formação da cidadania, foi gravemente ameaçada no período da Ditadura Militar, quando se deu a diluição da História na instituição dos Estudos Sociais.

A Medida Provisória nº 746/16, aprovada pelo Congresso Nacional, que instaura a Reforma do Ensino Médio, comete grave equívoco ao omitir do texto legal qualquer referência à disciplina, e, principalmente, ao excluí-la da relação de componentes curriculares obrigatórios, instalando fortes incertezas sobre a presença da História nesse nível de ensino.

Não menos preocupante é o rebaixamento das exigências para o exercício da profissão docente, ao permitir a admissão de “profissionais com notório saber”. Além disso, na prática, a Reforma do Ensino Médio está sendo subordinada a um documento (BNCC) que ainda não está concluído, cujo conteúdo final é desconhecido, e que está indicado como referência para a formação de professores.

Diante do exposto, a Associação Nacional de História – ANPUH-Brasil, contesta a aprovação da Reforma do Ensino Médio sem consultar a sociedade, em particular, os professores. E reivindica, com muita ênfase, a clara definição da História como componente curricular obrigatório no Ensino Médio.

Atenciosamente,

Diretoria da ANPUH Brasil

P.S.: Esta carta foi enviada ao Presidente da República, ao Chefe da Casa Civil, ao Ministro da Educação, à Secretária Executiva do Ministério da Educação e ao Secretário de Educação básica do Ministério da Educação.

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