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[PONDÉ] Sobre a ética das baratas e a eugenia…

Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

Luiz Felipe Pondé é filósofo pela USP. Foto: Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

Nessa última segunda-feira (16), o filósofo escreveu em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo texto intitulado “A ética das baratas“, no qual faz duras críticas aos militantes vegetarianos (veganos em especial) e defensores dos direitos dos animais que, segundo ele, ganharam força quando foram “abençoadas” pelo filósofo australiano Peter Singer e seu livro Animal Liberation.

Que o Pondé tenha se especializado em falar bobagens (se é que algum dia falou algo de útil), não é novidade para ninguém. Contudo, nesta coluna ele chega às raias da imbecilidade ao construir raciocínios como os que destaco abaixo:

“Às vezes me pergunto o que faz uma pessoa razoável cair num delírio como esse. Como assim “não se deve matar nenhuma forma de vida”?

A pergunta é: essa moçadinha seguidora de uma mistura de filosofia singeriana aguada e budismo light (com pitadas de delírio) já olhou para natureza a sua volta?

A natureza é a maior destruidora de vidas na face da Terra. Ela mata sem pena fracos, pobres e oprimidos. A natureza é a maior “opressora” da face da Terra”.

Ora. Tal raciocínio segue uma trilha muito perigosa que já levou muitos cientistas a justificarem práticas como esterilização em massa, a eugenia e limpezas étnicas, dentre outros crimes contra a humanidade. Não sei o que pensa Luiz Felipe Pondé sobre esses assuntos em particular, mas que suas ideias flertam com esses pensamentos extremistas que estavam, em exemplo mais marcante, na raiz da justificativa do holocausto, não há como negar.

Por trás desse discurso do século XIX, que Pondé usou para criticar vegetarianos (“o struggle for life”, de Spencer), há quem ainda hoje justifique que portadores de qualquer tipo de deficiência, doenças genéticas, ou pertençam a determinado grupo étnico ou social, sejam simplesmente impedidos de procriar ou, em casos extremos, sejam eliminados.

Pondé é provocador, e faz isso para chamar atenção. Não creio que ele, pessoalmente, seja capaz de usar tal raciocínio para justificar qualquer prática aplicada a seres humanos. No entanto, não tenho esta relativa segurança no que tange a seus leitores. Recentemente acompanhamos os casos dos incêndios em favelas de São Paulo e, ao ler os comentários das notícias que divulgavam as tragédias recorrentes durante a gestão Serra/Kassab, estarrecia-me a quantidade de pessoas que não se importavam com a prática higienista e criminosa de queimar favelas (levando algumas pessoas à morte) para tirar “aquelas pessoas” do centro da cidade. Segundo muitos comentaristas, “crackeiros” e “toda aquela gente miserável tem que ser impedida de ter filhos ou, até mesmo, sumir”. (Aliás, o mesmo se ouviu a respeito dos nordestinos e pobres de modo geral quando Lula foi reeleito e, mais recentemente, Dilma e Haddad ganharam suas eleições).

No mais, a argumentação de Pondé é fraca e rasteira. Ele conclui sua coluna com uma piada ridícula, que o Jô Soares adora repetir ad nauseam em seu programa global:

Pergunto a esses adoradores de baratas: ele já pensou que as alfaces também sofrem? ela já pensou que quando come uma alface está interrompendo toda uma vida feliz de fotossíntese? Que as alfaces também choram? Malvados e insensíveis…

Seria desnecessário lembrar, se não ouvisse esse argumento em cada conversa sobre vegetarianismo que presenciei na minha vida, que alfaces não tem um sistema nervoso central. É simplesmente uma imbecilidade sem tamanho comparar o tratamento dado a animais (especialmente mamíferos) com aquele que se dá aos vegetais.

Talvez Pondé desconsidere o fato de sermos seres dotados de inteligência e, como tal, termos a opção de refletir se devemos agir ou não como a natureza. Será que nós, como humanos, não deveríamos agir de modo cada vez menos instintivo e mais racional em nossos hábitos, de modo mais específico, e no modo de nos organizamos socialmente, de modo mais geral? Fica a pergunta…

MAIS SOBRE O MODO COMO TRATAMOS OS ANIMAIS

Pra quem jamais teve a oportunidade de ver e realmente quer entender um pouco mais sobre o assunto que Pondé ridiculariza de uma forma bisonha, recomendo o documentário A CARNE É FRACA, que disponibilizo abaixo.

MAIS SOBRE O ASSUNTO EM HUM HISTORIADOR

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O documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS acaba de ser lançado na íntegra no YouTube

É com grande prazer que o Hum Historiador anuncia o lançamento da íntegra do documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS no YouTube para todos que quiserem acompanhar o trabalho que o Lucas Lespier, eu e uma equipe de grandes amigos realizamos para dar voz aos moradores da antiga comunidade do Pinheirinho, de São José dos Campos, que foi massacrada pela Polícia Militar de São Paulo à mando do governador Geraldo Alckmin.

O filme é de livre divulgação e gostaríamos muito que cada um pudesse ajudar a espalhá-lo para tornar a história das pessoas que foram desalojadas do Pinheirinho ainda mais conhecida.

SOBRE O FILME

Pinheirinho – um ano depois é um documentário que tem o objetivo de registrar como vivem as famílias que moravam na antiga comunidade do Pinheirinho um ano após a violenta reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo, em 22 de janeiro de 2012.

Através desse registro documental, queremos dar voz  às pessoas que viveram o trauma da desocupação para que contem suas histórias e relembrem à sociedade que elas seguem vivendo sob o risco de retornarem à condição de desabrigadas, além de permanecerem sem nenhuma perspectiva de solução definitiva para o seu problema de habitação após a desocupação.

Ilustração final do Pinheirinho um ano depois

Arte: Juliana Amoasei Reis

O filme tem como foco central os ex-moradores da comunidade do Pinheirinho e seus depoimentos de como tem sobrevivido desde que foram retirados de suas casas. No entanto, para darmos uma ideia mais aprofundada sobre o que ocorreu logo após a desocupação e quais as reais oportunidades de resolução definitiva do acesso à moradia adequada, também demos voz a outros atores que participaram ativamente de todo o processo de desocupação, como os políticos envolvidos nas negociações que antecederam a reintegração de posse, intelectuais e estudiosos da questão da habitação e moradia no Brasil, jornalistas que cobriram o caso, representantes de órgãos de proteção aos Direitos Humanos, líderes comunitários, advogados, juízes, defensoria pública, promotores de justiça.

BREVE HISTÓRICO DO DOCUMENTÁRIO PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS

Num domingo, às 6 horas da manhã, Alckmin manda a PM desocupar violentamente a comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos. Era o dia 22 de janeiro. Acompanhei as notícias estarrecido pela Internet, jornal e televisão. No mesmo dia estava na Avenida Paulista me manifestando contra esse ato criminoso realizado contra cidadãos que lutam pelo direito de uma moradia adequada.

Os dias foram se passando e eu ia registrando no blog todas as atividades que participei no decorrer daquele mês logo após a desocupação do Pinheirinho (ver histórico abaixo). O amigo Lucas Lespier já tinha uma ideia de fazer um documentário, ao ver meus relatos no blog, me chamou para conversarmos e ver se eu topava fazer parte de um projeto para documentar a história daquelas pessoas. Daí por diante, foram várias reuniões para decidirmos qual linha seguiria o filme e como o realizaríamos. A ideia principal era que o filme não seria sobre o que ocorreu no Pinheirinho, mas sobre as pessoas que foram desocupadas e ainda sofriam, por tempo indeterminado, a violência da desocupação iniciada na truculenta ação da Polícia Militar de São Paulo à mando do governador do estado.

Em julho de 2012, ocorreu uma ato na Câmara Municipal de São José dos Campos, sobre os seis meses da desocupação do Pinheirinho. Foi a oportunidade que imaginamos de fazer contatos com as lideranças da comunidade e tentar ajeitar as primeiras entrevistas com moradores e alguns outros envolvidos, como defensor público, advogado da comunidade e ex-procurador do estado de São Paulo. Foi assim que eu e Lucas partimos pela primeira vez a São José dos Campos, como mostra o pequeno vídeo amador que eu fiz abaixo, em um caminho que ainda seria trilhado tantas outras vezes pela equipe.

Feitos os contatos iniciais, precisávamos levantar a grana para a realização do documentário. Dentre as opções possíveis, decidimos pelo financiamento coletivo através do sistema de crowdfunding, no Brasil muito conhecido através da plataforma Catarse. Através desse sistema, cadastramos um projeto no site da plataforma por um tempo determinado e, todos aqueles que se interessarem, podem colaborar com qualquer quantia para a realização do projeto. Nossa meta era a captação de R$ 10.000,00 para realizarmos o filme praticamente inteiro com trabalho voluntário dos envolvidos. Abaixo segue o vídeo que fizemos para chamar colaboradores que se interessassem em contribuir com projeto.

Enquanto a grana não saía, começamos a realizar as primeiras entrevistas no final de julho de 2012 em São Paulo mesmo, para evitar grandes despesas. Começamos com a relatora da ONU para a moradia adequada e professora da FAU-USP, Raquel Rolnik. Foi uma ótima entrevista e, com base nela, começamos oficialmente nosso projeto.

Entrevistando o Suplicy

Foto: Jean Gold

Em agosto de 2012 já estávamos entrevistando algumas das personalidades que apareceram no filme, como o Senador Eduardo Suplicy.

Quando o projeto conseguiu atingir sua meta no Catarse, ficamos aliviados. Com o dinheiro foi possível comprar alguns equipamentos para poder fazer melhores entrevistas na realização do filme. Além disso, também seria possível pagar um lanche para a equipe que se deslocasse até São José dos Campos para as filmagens que duravam um dia inteiro.

Muitas entrevistas se sucederam até 22 de janeiro de 2013, data que marcaria o primeiro ano após a desocupação dos moradores do Pinheirinho e quando pretendíamos fazer as últimas gravações do documentário. Um ato foi marcado para ser realizado neste dia e lá estava nossa equipe fazendo as filmagens em diferentes locações e aproveitando para fazer mais contatos para garantir o lançamento do filme alguns meses depois em São José dos Campos e São Paulo.

Terminadas as filmagens, o filme entrou em período de edição, onde Lucas trabalhou muito para conseguir finalizar o filme com a qualidade que vocês podem verificar agora. O filme teve algumas exibições em pré-lançamento para verificarmos o resultado de como ficou a produção na tela-grande.

Assim, em homenagem aos moradores do Pinheirinho, a primeira projeção foi feita ao ar livre em São José dos Campos no Campão, local histórico de reunião dos moradores do Pinheirinho que fica no bairro do Campo dos Alemães, ao lado de onde era a comunidade que foi desocupada. Depois disso, tivemos uma pré-estréia no baixo-centro, também ao ar livre em São Paulo, e no Museu da Imagem e do Som, no MIS.

Agora o documentário está disponível na íntegra no YouTube para que todos possam acompanhar essa produção que começou há mais de um ano, que valeu muito esforço pessoal de cada um dos envolvidos, mas que nos enche de orgulho de ter participado.

Meu abraço carinhoso e sincero agradecimento à todos que participaram, em especial aos amigo Lucas Lespier, Felipe Gil, Patrícia Brandão e Juliana Lima.

Abaixo a foto do último dia de gravação que participei do filme, feita no começo de 2013, no escritório da revista Caros Amigos, quando entrevistávamos uma das jornalistas que cobriram o caso Pinheirinho para a revista.

Roger na CarosAmigos para PinheirinhoUmAnoDepois

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O DOCUMENTÁRIO

Aqui segue uma relação de quatro posts que foram publicados no Hum Historiador referentes aos diferentes momentos em que estávamos produzindo o documentário.

Gostaria de lembrar que o projeto já foi concluído e, portanto, não há mais como colaborar com o mesmo. A relação dos posts abaixo é só para registrar o histórico do desenvolvimento do projeto.

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O PINHEIRINHO

Abaixo segue uma relação de quinze posts publicados no Hum Historiador que tiveram como tema o Pinheirinho (em ordem decrescente de data de publicação). Os posts de janeiro e fevereiro de 2012 foram escritos no calor do momento e registram minha participação nos protestos e atividades de solidariedade aos antigos moradores do Pinheirinho. A partir de julho de 2012, nasce a ideia de fazer o documentário e há inclusive um post trazendo o primeiro vídeo amador que fizemos de nossa primeira ida a São José dos Campos para estabelecer os primeiros contatos.

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Documentário They Are We, de Emma Christopher, estabelece conexão cultural entre Cuba e Serra Leoa

Interessante matéria de Emma Christopher, publicada em abril na revista The Atlantic, destaca como o documentário They Are We, de Sérgio Leyva Seiglie, teria ajudado alguns cubanos a descobrirem que são descendentes de escravos sequestrados de uma pequena aldeia localizada em Serra Leoa.

De modo geral, a descoberta se deu há alguns anos, quando o chefe de uma pequena aldeia de Serra Leoa viu que um grupo de cubanos dançavam e cantavam canções em uma língua que, para eles próprios, era desconhecida, todavia muito familiar ao chefe Pokawa da vila de Mokpangumba.

Embora a matéria tenha o claro interesse utilizar essa história para fazer uma crítica ao governo de Cuba (especialmente no período de Fidel Castro), ainda assim achei que valia a pena traduzi-la e repercuti-la aqui no Hum Historiador, pois muitos dos leitores do blog não conseguem identificar nos posts que publico as relações entre o passado de um país que viveu intensamente o regime de escravidão e o presente. Não enxergam, sequer, as ligações entre América-África a partir de seu produto mais óbvio, a herança cultural africana que, após séculos e séculos de sucessivos ataques, ainda persiste.

Abaixo segue uma tradução livre que preparei da matéria tal como foi publicada na revista.

COMO MORADORES DE VILAREJOS DE CUBA DESCOBRIRAM QUE SÃO DESCENDENTES DE ESCRAVOS DE SERRA LEOA

A incrível história das canções e danças tradicionais, passadas por séculos, que ligaram um pequeno grupo étnico caribenho a uma remota tribo africana.

por Emma Christopher | publicado originalmente em 22 de abril de 2013 para The Atlantic

Barmmy Boy Mansaray, é um cameraman de Serra Leoa que trabalhou para o documentário “They Are We”. (Sergio Leyva Sieglie)

O chefe Mabadu Pokawa mal pode acreditar. Sua voz oscilava um pouco entre espanto e esperança, perguntando onde eu havia gravado as canções e danças que ele estava assistindo na tela de meu laptop em sua pequenina e isolada aldeia em Serra Leoa.

Há uma razão para sua descrença. Quando as pessoas da tela não estão cantando em uma língua que, de outro modo, já foi esquecida há muito tempo, estão falando o espanhol rápido à maneira cubana. Eles claramente não são da aldeia de Pokawa, onde poucos falam o inglês dos que passaram pelas escolas e ninguém fala o espanhol.

No entanto, por tudo isso, as pessoas de Perico, Cuba são daqui. São gente de Pokawa, ancestrais que foram exilados séculos atrás como escravos.

A vila de Mokpangumba do chefe Pokawa é implacavelmente pobre, condenada pela geografia assim como pela história. Deixada de fora das estradas ao redor pelas curvas e voltas do rio Taia, seus moradores não tem outra água se não a do fluxo acastanhado do rio e também não contam de nenhum modo com instalações sanitárias. Eletricidade está aquém de suas aspirações. Pokawa, como a maior parte dos homens, planta para sua subsistência, cultivando arroz, inhame e banana para suplementar o peixe que retira do rio.

Agora Pokawa e seu povo estão prontos para celebrar o retorno daqueles que se acreditava há muito terem se perdido. Os habitantes da vila estão todos ocupados se preparando. Cabanas estão sendo preparadas para os visitantes e sacos vazios de arroz estão sendo recheados com folhas para o preparo dos colchões. Um banheiro rudimentar foi cavado e algumas colheres foram colhidas para as refeições, cientes de que os visitantes estão acostumados a tais luxos. Insistindo que eles mesmos contribuem para a celebração pela chegada dos cubanos, os anciãos da vila deram metade do peixe necessário para um banquete para 800 pessoas. Uma coleção de contas sujas de pequeno valor foi tomado para pagar por metade do óleo de palma e pimentas que serão necessárias.

Eles foram inflexíveis sobre todos terem ido embora. Pessoas que cantam as canções da vila – ritmos e melodias que os unem a essa aldeia inacessível – são considerados gente da família. “Nossos avós que nos contaram as histórias sobre nossa gente indo daqui como escravos, sabemos agora que eles não estavam mentindo,” disse Joe Allie, um ancião da villa e tio de Pokawa.

“Esses devem ser nosso povo, “ diz Solomon Musa, um jovem que trabalha como professor na vila, “quando vimos as pessoas que praticam as mesmas coisas que nós costumamos fazer, ficamos muito felizes e cheios de alegria.”

Há uma ideia generalizada de que os africanos são indiferentes ao destino dos descendentes de escravos espalhados pelas Américas. Essa crença nasce em grande parte da tragédia de que a vasta maioria dos que saíram com a diáspora africana ficaram com muito pouco das línguas específicas, culturas, ou crenças que poderiam uni-los a um lugar particular de origem. A insensibilidade total da escravidão, a destruição sem fim das famílias, e o enorme peso das décadas que se passaram contribuíram para atenuar muito do que originalmente cruzou o oceano com os seus antepassados. Na ausência desses laços, alguns afro-americanos tem ido a locais centrais de comemoração, tais como a Ilha Gorée ou o Castelo Cape Coast, em busca de tudo o que foi perdido. Aqueles que esperaram por uma conexão individual com a terra de origem tem, por vezes, relatado um certo desapontamento com esses lugares. Eles são áreas de turismo, no fim das contas. Além disso, a pele escura aqui é norma, de modo que ela só é muito pouco para simbolizar parentesco ou afinidade se não estiver amparada por uma língua, cultura ou experiência partilhada.

Pokawa e seu povo, em contrapartida, encontrou alguns dos seus parentes perdidos nas Américas. Este pequeno grupo de pessoas em Cuba – um país que eles pouco ouviram falar a respeito – cantando e dançando suas músicas, foi um presente de Deus. Ou, mais apropriadamente, de Deus e Allah, ambos adorados aqui lado a lado. Mantidos de fora da mídia e de quase todo sistema educacional do ocidente, para eles as pessoas tomadas como escravas para o comércio transatlântico de escravos ainda são chamadas por seus nomes antigos, invocadas como os perdidos. Havia Gboyangi. Bomboai. Havia uma garota jovem que estava prestes a se casar.

Teaser oficial do documentário THEY ARE WE  de Emma Christopher no Vimeo.

Mas, com meu ceticismo acadêmico, duvidei que poderia ser verdade. Retornei a Cuba e aos arquivos e registros, buscando por alguma evidência escrita de como isso deve ter acontecido. A história inteira, exata provavelmente jamais será recuperada, mas uma mulher específica e seus descendentes preservaram uma série de canções e danças parecidas o bastante para serem claramente identificadas.

O que nós sabemos é que havia uma garota chamada Josefa, sequestrada de sua terra natal na década de 1830, que sobreviveu muito mais do que os sete anos típicos dos engenhos cubanos, em meados do século dezenove. Na verdade, ela viveu até uma idade avançada, tempo suficiente para experimentar a liberdade, e ensinar a sua bisneta Florinda sua herança africana. Forinda, por sua vez, ensinou seu neto, que ela criou desde a infância. Seu nome é Humberto Casanova, agora ele mesmo um bisavô. É a Casanova e três de seus amigos por quem Pokawa e seu povo estão esperando.

O esforço de manter as canções e danças vivas é especialmente notável, pois desde o começo da década de 1960 até o fim da década de 1980, suas performances foram proscritas de Cuba. Fidel Castro restringiu atividades culturais e religiosas afro-cubanas da mesma forma como barrou o catolicismo e outras fés. Foi apenas em tempos mais recentes que elas foram permitidas a ser celebradas abertamente, e poucos grupos lograram ressuscitar suas canções, danças e rituais. De alguma forma Humberto Casanova e sua fiel assistente Magdalena (Piyuya) Mora conseguiram realizar esse feito singular. (Aos 85 anos de idade, Piyuya está muito frágil para fazer a viagem a Serra Leoa, então será representada por seu sobrinho, o entalhador Alfredo Duquesne.)

Levou dois anos para se obter a permissão para a visita, e estas só foram possíveis recentemente em função do relaxamento das leis de viagem em Cuba. Nesses dois anos eu voltei a Serra Leoa diversas vezes para mantê-los a par do andamento da viagem, sem esquecer da ironia de que, 180 anos depois, os africanos são muito pobres para retirarem certidões de nascimentos que lhes permitiriam obter passaportes, enquanto os cubanos descendentes dos escravos não são tão livres para viajar como gostariam. O pessoal da aldeia jamais desistiram de ter esperanças. Eles esperaram por 170 anos pelo retorno de seus antepassados, afinal de contas, o que são alguns meses a mais?

O que esta visita significa para Pokawa e seu povo é quase impossível de compreender plenamente. As pessoas aqui são definidas por suas relações familiares, com muito pouco da pessoa existindo além da unidade familiar. Como reincorporar pessoas que se foram a tanto tempo, que agora falam uma língua diferente mas que, inescapavelmente, são seus parentes, é uma questão que pode apenas ser tratada através da aceitação de coração aberto. Apenas saber que eles estão vivos, que sua cultura floresceu em algum outro lugar, é maravilhoso. Pokawa estendeu o convite para que eles permanecessem na aldeia o quanto quisessem, o que para esta viagem será apenas uma semana.

Assim como os tambores da celebração estão sendo preparados, o “diabo” também está, uma dançarina fantasiada com ráfia dos pés à cabeça e com painéis de madeira em suas costas, representando todos os ancestrais. Pois os ancestrais estão, finalmente, dançando com prazer e alegria.

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Open Arms, Closed Doors: o racismo no Brasil pelo olhar de um angolano

O Blog do Sakamoto acaba de publicar um post divulgando o documentário Open Arms, Closed Doors, dirigido por Fernanda Polacow e Juliana Borges para a rede de TV Al Jazeera.

O documentário tem como personagem principal um imigrante angolano chamado Badharó que vive como rapper na favela da Maré, lar da maior concentração de angolanos no Rio de Janeiro. Segundo Fernanda e Juliana, diretoras do filme, “uma parcela significativa da nossa população insiste em dizer que este é um problema que não enfrentamos. Somos miscigenados, multirraciais, coloridos. Como um país assim pode ser racista?” Essa é uma das perguntas que o documentário, através do personagem Badharó, busca responder.

Abaixo segue a íntegra do post publicado originalmente no Blog do Sakamoto dia 18/02/2012 às 14:39

Leonardo Sakamoto

“Open Arms, Closed Doors” é um filme sobre um imigrante angolano que vive na favela da Maré, no Rio de Janeiro, e compõe rap para combater o preconceito sofrido diariamente. Pedi para as diretoras, as brasileiras Fernanda Polacow e Juliana Borges, um texto sobre a experiência de produzir o documentário, que estreia, nesta segunda (18), pela rede de TV Al Jazeera.

Vale a pena assistir e compartilhá-lo nas redes sociais. O resultado acaba funcionando como um espelho do que somos, mostrando que, não raro, agimos com o mesmo preconceito utilizado contra nós por alguns cidadãos e governos do centro do mundo.

O racismo no Brasil pelo olhar de quem veio de fora, por Fernanda Polacow e Juliana Borges*

Discutir o racismo na sociedade brasileira sempre é um assunto controverso. Para início de conversa, uma parcela significativa da nossa população insiste em dizer que este é um problema que não enfrentamos. Somos miscigenados, multirraciais, coloridos. Como um país assim pode ser racista?

Foi essa a pergunta que o angolano Badharó, protagonista do documentário “Open Arms, Closed Doors” (Braços Abertos, Portas Fechadas), que dirigimos para a rede de TV Al Jazeera e que será veiculado a partir de hoje em 130 países, se fez quando chegou ao Brasil em 1997 esperando encontrar o Rio de Janeiro que ele via nas novelas.

Badharó é um dos milhares de angolanos que vieram viver no Brasil. Depois de fugir da guerra civil no seu país de origem, escolheu aqui como novo lar – um país sem conflitos, alegre, aberto aos imigrantes e cuja barreira da língua já estava ultrapassada à partida. Foi parar no Complexo da Maré, onde está localizada a maior concentração de angolanos do Rio de Janeiro.

Para quem defende que o Brasil não é um país racista, vale ouvir o que ele, um imigrante negro, tem a dizer sobre a nossa sociedade. Badharó não nasceu aqui, não carrega nossos estigmas, não foi acostumado a viver num lugar em que muitos brancos escondem a bolsa na rua quando passam ao lado de um negro. Depois de 15 anos vivendo numa comunidade carioca, ele tem conhecimento de causa suficiente para afirmar: “O Brasil é um dos países mais racistas do mundo, mas o racismo é velado”. O documentário segue a rotina deste rapper de 35 anos e mostra o dia a dia de quem sofre na pele uma cascata de preconceitos, por ser pobre, negro e imigrante.

Além de levantar o tema do nosso racismo disfarçado, o documentário propõe, também, uma outra discussão: agora que estamos nos tornando um país alvo de imigrantes, será que estamos recebendo bem esses novos moradores?

Com a ascensão do Brasil como potência econômica e o declínio da Europa, principal destino de imigração dos africanos, nos tornamos um foco para quem não apenas procura uma situação melhor de vida, mas para quem procura uma melhor educação ou mesmo um bom posto de trabalho. São muitos os estudantes africanos de língua portuguesa que desembarcam no Brasil. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, Angola foi o quarto país do mundo que mais solicitou visto de estudantes no Brasil em 2012. Com esta nova safra de imigrantes, basta saber como vamos nos comportar.

Europeus e norte-americanos encontram nossas portas escancaradas e nossos melhores sorrisos quando aportam por aqui, mesmo que estejam vindo de países falidos e em situação irregular. No entanto, um estudante angolano com visto e com dinheiro no bolso, continua sofrendo preconceito. Foi este o caso da estudante Zulmira Cardoso, baleada e morta no Bairro do Brás, em São Paulo, no ano passado. Vítima de um ato racista, a estudante virou o mote de uma musica que Badharó compôs para que o crime não fique impune. Isto porque tanto as autoridades brasileiras quanto as angolanas não deram sequência nas apurações e o crime segue impune.

A tentativa de abafar qualquer problema de relacionamento entre as duas nações pode afetar as interessantes parceiras comercias que existem entre os dois governos. Para todos os efeitos, continuamos sendo ótimos anfitriões e estamos de braços abertos para quem quer aqui entrar.

Abaixo disponibilizamos o documentário Open Arms, Closed Doors, de Fernanda Poliacow e Juliana Borges. Compartilhe, divulgue!!!

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PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS

Foto: Gabriela Biló / Futura Press

A última terça-feira, dia 22 de janeiro, marcou o primeiro ano desde a violenta reintegração de posse do terreno do Pinheirinho realizado pela Polícia Militar de São Paulo. A desocupação deixou mais de 1500 famílias desabrigadas na cidade de São José dos Campos, causando muito sofrimento e dor a mais de oito mil pessoas que viviam no terreno. Passado um ano desde a desocupação, essas pessoas seguem sem uma solução definitiva com relação a moradia adequada e, pior, continuam sofrendo diversos tipos de violências como preconceito e discriminação, desintegração da família, péssimas condições de moradia e dificuldades para encontrar emprego, dentre outras.

A equipe que está produzindo o documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS foi até São José dos Campos acompanhar o ato realizado em frente ao antigo terreno do Pinheirinho, com o objetivo de registrar mais esse encontro dos ex-moradores que seguem em sua luta por moradia e querem lembrar a todo Brasil que, um ano depois, ainda permanecem desabrigados e, mais do que nunca, a luta deve continuar, pois a luta deles não é mais só do Pinheirinho, mas de todos os sem-teto desse país.

Embora o ato estivesse marcado para ocorrer as 18h no Centro Poliesportivo Fernando Avelino Lopes, em frente ao terreno da antiga ocupação do Pinheirinho, a equipe chegou antes ao local para observar as diversas atividades que ocorriam a todo momento por ali. Equipes de reportagem das televisões, a cada instante, solicitavam entrevistas a um ex-morador e gravavam suas matérias em frente ao terreno. Muitas pessoas que passavam com seus carros por ali e viam a movimentação, manifestavam-se: ora positivamente, ora negativamente. Conforme o horário do ato ia se aproximando, ex-moradores iam chegando em frente ao terreno e se surpreendiam ao saber que o ato não seria na rua, mas dentro do Poliesportivo. Conversamos com alguns deles que diziam estranhar o fato de a manifestação se realizar dentro de um equipamento da prefeitura. Para eles, o ato deveria ocorrer na rua em frente ao terreno, mesmo que tivesse que fechá-la e atrapalhar o trânsito. Um ex-morador me confidenciou que muita gente não participaria do ato justamente por estar sendo realizado no Centro Poliesportivo. Dizia que naquele lugar muita gente do Pinheirinho havia sido agredida logo depois da desocupação, pois ali funcionou um centro de triagem da prefeitura e que as pessoas que haviam passado por ali, não querem nunca mais voltar àquele lugar que só lhes trazem lembranças ruins. Para essas pessoas, a resistência do Pinheirinho tem que estar nas ruas e não em equipamentos municipais.

Por volta das 18h, saímos da rua em frente ao terreno e nos dirigimos ao Centro Poliesportivo. O local estava ainda bastante vazio e, conversando com um dos organizadores do evento, fomos informados de que por ser uma terça-feira, dia útil, muita gente ainda se encontrava trabalhando e que logo mais o ato estaria cheio. O tempo foi passando e a previsão do organizador estava parcialmente correta. É verdade que chegou bastante gente, mas muitas dentre as pessoas que chegavam, não eram moradores do Pinheirinho, mas sim estudantes, equipes de reportagens, integrantes de movimentos sociais e partidos políticos, além de algumas pessoas que vinham de São Paulo para acompanhar o ato e engrossavam o número de participantes do evento. Estimamos que por volta de 400 a 500 pessoas teriam marcado presença no ato e, desses, talvez menos da metade fossem de ex-moradores do Pinheirinho. Perguntamos a alguns dos moradores presentes no ato a razão disso e eles novamente nos deram como explicação o fato do evento ser realizado dentro do Poliesportivo. Além disso, outro fator determinante que teria desestimulado o interesse de alguns moradores participarem do ato, seria a sensação de que a manifestação daria muito mais espaço aos políticos do que aos moradores, o que de fato acabou acontecendo, como testemunharíamos horas mais tarde.

Passados alguns minutos, o carro de som começou a chamar as pessoas para perto do palco, pois o ato começaria dentro de alguns instantes. Os presentes se aproximaram e, por volta das 18h45, o ato começa com a informação de que as inscrições para quem desejava falar estavam abertas e que havia uma mesa responsável por organizar as falas até as 20h30, quando o ato seria encerrado. Passaram pelo microfone, muitos dos políticos que estiveram envolvidos com o Pinheirinho desde antes mesmo da desocupação, quanto tentavam evitar que as famílias fossem despejadas do Pinheirinho: Antonio Donizete, Marco Aurélio, Adriano Diogo, Tonhão Dutra, Eduardo Suplicy e Ivan Valente, dentre outros.

Antonio Donizete, o Toninho, falou que no ano de 2013, enquanto não houvesse solução definitiva para as famílias do Pinheirinho, havia necessidade de lutar pelo reajuste do aluguel social, uma vez que o valor atual, de R$ 500,00, é insuficiente para alugar uma casa adequada em São José dos Campos. Além disso, Toninho também informou que estão sendo negociados com a Caixa Econômica Federal dois terrenos em São José dos Campos para abrigar ex-moradores do Pinheirinho: um em Bom Retiro e outro em Interlagos.  Por fim, Toninho salientou que, embora terrenos fossem negociados, seria importante e muito significativo se a luta prosseguisse até que conquistasse como resultado, senão o terreno todo, ao menos a desapropriação de uma parte do Pinheirinho que fosse destinada à moradia de parte dos ex-moradores que foram expulsos daquele terreno em 2012.

Outras políticos e líderes de movimentos sociais foram passando pelo microfone, até que a palavra foi dada ao Deputado Estadual Adriano Diogo, que começou sua fala propondo a todos que fizéssemos um minuto de silêncio em homenagem ao senhor Ivo Teles, ex-morador do Pinherinho morto depois da desocupação em decorrência de ferimentos que teriam sido provocados pela violência policial utilizada durante a reintegração de posse. Em seguida, retoma sua fala parabenizando os moradores pela resistência e lembrando que aquela se tratava da maior escola de luta por moradia do Brasil e, por isso, não poderia terminar com a vitória de Naji Nahas.

Sara Al Suri, ativista da revolução síria que discursou durante ato para relembrar reintegração de posse do Pinheirinho.

Mais pessoas vão passando pelo microfone para deixar sua solidariedade e parabenizar os moradores do Pinheirinho por sua luta e resistência, até que foi anunciada a presença de Sara Al Suri, militante da revolução síria que acompanha de perto a luta por moradia adequada no Brasil. Sara contou aos participantes do ato da trágica realidade de seu país, onde mais de 60 mil pessoas foram mortas pelo regime ditatorial de Bashir Al Assad, lembrando que a população síria também sente diariamente a perda de suas casas, terras e vida. Para Sara, a mesma luta está sendo travada em  Damasco e no Pinheirinho, pois em ambos lugares as pessoas são vitimadas pela violência do capitalismo, que é internacional. Acredita que da mesma forma como age o capitalismo, a força, a persistência e as lutas dos trabalhadores também deve ser internacional. Só dessa maneira há uma possibilidade de vencer.

O ato se aproximava dos seus momentos finais quando foram anunciadas as presenças de Ivan Valente e do Senador Eduardo Suplicy, que relembraria todos os acontecimentos que marcaram a negociação para que não houvesse a reintegração de posse do Pinheirinho. Além disso, trouxe uma vez mais à tona o absurdo caso de estupro e violência sexual sofrido por moradores da região do Pinheirinho que, segundo a denúncia, foram atacados por policiais militares que rondavam o bairro dias depois da desocupação. O caso, que foi denunciado pelo senador em Brasília e levado ao conhecimento do governador de São Paulo pelo próprio Suplicy, ainda não teve nenhuma solução e, sequer, qualquer pronunciamento por parte do governo, que havia prometido máximo rigor na apuração. Assim como os casos de David Washington Furtado e Ivo Teles, este é outro dos tenebrosos casos de violência que cercam o Pinheirinho.

Foto: Gabriela Biló / Futura Press

Já passava das 20h15 e a equipe começava a se preparar para deixar o ato.  O senador Suplicy ainda falava ao microfone e, depois dele, ainda viria Ivan Valente. Olhando para as pessoas presentes no ato, distinguimos um grupo de crianças se aproximando com escudos feito de papelão, perucas e caracterizados para uma encenação. Sabíamos que se tratavam das crianças do Pinheirinho que queriam apresentar no palco uma re-encenação de como havia sido a desocupação do terreno onde eles moravam. Nos aproximamos para acompanhar mais de perto e vimos que havia um certo descontentamento. Algumas das mães nos contaram que, dado o avançado da hora, a mesa acabou dizendo que não seria possível ocorrer mais a apresentação das crianças. Percebemos um grande desapontamento na feição de todos ali, inclusive nos nossos rostos. Guardamos os equipamentos e nos preparávamos para ir embora. Da portaria do Poliesportivo, vimos uma das mães conversando com o senador Suplicy, explicando que as crianças não puderam apresentar sua re-encenação. Não ouvimos a resposta do senador, mas certamente, assim como cada um dos membros da equipe, ele também deve ter lamentado.

O ato foi muito importante para marcar um ano desde a reintegração de posse do Pinheirinho. O terreno, desde então, continua vazio e as pessoas que ali moravam, seguem desabrigadas. A data não podia passar em branco e a organização do evento está de parabéns por relembrar ao Brasil que a luta do Pinheirinho ainda continua. Também entendemos que é bastante importante saber que os políticos que participaram do ato, se posicionam claramente ao lado dos ex-moradores do Pinheirinho na luta por uma solução definitiva para a moradia dessas mais de 8 mil pessoas (e não de hoje, mas desde antes da reintegração de posse ocorrer). Apesar disso, esperávamos que o ato fosse marcado pela participação dos ex-moradores como personagens principais das atividades que ali se desenrolariam, o que infelizmente não aconteceu. Foi impossível não sair com uma sensação de desapontamento ao constatar que, tal como alguns moradores haviam nos adiantado, o ato do Pinheirinho no Poliesportivo acabou dando muito mais um espaço aos políticos do que aos ex-moradores. De nossa parte, fica a esperança de uma aprendizagem para a organização dos próximos eventos. É importantíssima a presença dos políticos para dar mais força a luta dos ex-moradores do Pinheirinho, mas também é importante garantir o espaço e a participação dos moradores nesses eventos. Sem a presença ativa deles, certamente os eventos ficarão bastante esvaziados, quer de pessoas, quer de significado.

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O Riso dos Outros: há limites quando o assunto é humor?

o-riso-dos-outrosLançado em Dezembro de 2012 e veiculado pela TV Câmara, o documentário O Riso dos Outros (51:35), de Pedro Arantes é um filme que tem como objeto central o humor realizado no Brasil e aborda assuntos polêmicos e não menos interessantes como os tipos de piadas, a censura no humorismo, a tal da patrulha do politicamente correto, as piadas preconceituosas e os alvos desse tipo de piadas, dentre outros.

Com participações de Laerte, André Dahmer, Hugo Possolo, Antônio Prata, Jean Wyllys, Lola Aronovich, Idelber Avelar, Nany People, Rafinha Bastos, Danilo Gentili e Marcela Leal, dentre outros, o filme atinge plenamente o objetivo de levantar a discussão se deve haver limites e responsabilidades quando o assunto é o humorismo.

Dentre os muitos pontos positivos do documentário, de cara gostaria de mencionar a edição, pois ela consegue demonstrar exatamente como realmente são o Rafinha Bastos e o Danilo Gentili, por exemplo, enquanto profissionais do humor, isto é, verdadeiros babacas. Exemplo claro disso é um dado momento, mais para o final do filme, quando a equipe do documentário vai até Buenos Aires, onde entrevistam um produtor de stand-up, Gabriel Groswald, e uma comediante lésbica, Ana Carolina. Se nos dermos ao trabalho de comparar a visão que esses indivíduos tem sobre o papel do humor e dos comediantes com as opiniões de Danilo Gentili e Rafinha Bastos, por exemplo, fica bastante claro a razão do nível rasteiro das comédias e comediantes de sucesso que atingem as grandes massas no Brasil.

DANILO GENTILI: “O comediante tem que ser uma prostituta. O que eu quero é riso. Eu me vendo por riso. Se você riu, eu estou falando.”

GABRIEL GROSWALD: “O humor deve gerar uma mudança na conduta, na forma de ver o mundo e quando isso se realiza, está fazendo arte.”

ANA CAROLINA: “Não me interessa perpetrar estereótipos, nem mal entendidos e nem figuras discriminatórias.”

GABRIEL GROSWALD: “O humor do qual mais gosto, é o que não ri da vítima, mas do carrasco, mas este é um processo, é um trabalho do comediante, tem que ver com a ideologia do comediante. Eu vejo comediantes que riem, por exemplo, dos pobres, e não é algo que eu goste, porque se está rindo do pobre e não me parece que seja justo. “

RAFINHA BASTOS: “O meu papel é subir no palco e ser engraçado, só isso. Teorizar a respeito da função social do comediante… Acho lindo o questionamento, leio, acho legal, mas não sou eu que tenho que responder esse tipo de questão.”

PIADA DE RAFINHA BASTOS: “Fui num restaurante um dia e falei para o garçon: ‘Ô amigo você pode embrulhar?’, ele falou ‘é pra viagem?’ e eu falei ‘Não é pra presente! Vou dar meio bife parmegiana de natal pra uma pessoa'”

PIADA DE UM COMEDIANTE STAND-UP: “Quanto mais tempo você fica no ônibus para chegar no bairro, mais feias são as pessoas que estão ali dentro. Uma vez eu fui pra Itaquera. Puta que pariu, meu irmão. (…) Duas horas pra chegar lá, pra cada hora que passa, os passageiros tem dois dentes a menos.”

Não estou defendendo aqui que não existem humoristas e comediantes que façam humor de bom nível no Brasil. O próprio documentário traz considerações de cartunistas como o Laerte e o André Dahmer, por exemplo, que rechaçam esta ideia. Meu propósito ao fazer o destaque acima era mostrar, de modo bastante didático, como o documentário trabalhou a diferença de piadas que exploram as minorias, os preconceitos e os estereótipos. É certo que na Argentina também existem comediantes escrotos como o Danilo Gentili e o Rafinha Bastos, uma vez que a babaquice não respeita divisões políticas.

Marcela Leal

A comediante Marcela Leal é um dos destaques negativos do documentário ao aparecer defendendo a piada machista sobre estupro escrita por Rafinha Bastos e veiculada na Rolling Stones Magazine.

Há vários trechos interessantes a se destacar ainda no tema sobre piadas discriminatórias e/ou que exploram os estereótipos. O documentário aborda, por exemplo, a repercussão da piada sobre estupro feita pelo Rafinha Bastos, publicada na Rolling Stones, na qual ele dizia que uma mulher feia devia era agradecer ao estuprador por ela ter tido uma oportunidade de sexo. Como bem apontou Lola Aronovich, quer no documentário, quer em seu blog, trata-se de uma piada tão velha e tão infame, que certamente o tataravô do Bastos já devia fazer em sua época. Isso torna bastante evidente a falácia de quem se auto promove vinculando-se à ideia da renovação no gênero humorístico e da produção de textos inteligentes.

Infelizmente, o destaque negativo fica para o fato de a única comediante mulher, Marcela Leal, defender a piada sobre estupro do Rafinha Bastos e, pior que isso, ser registrada no documentário fazendo piadas tão escrotas quanto a dos outros dois já mencionados, sobre a vida sexual de sua vizinha gorda. Tal como disse Nany People no próprio documentário “Como a maioria dos atores que fazem humor são homens, eu cansei de ver o universo ser decantado, escaneado e sacaneado por eles. (…) e até as mulheres que fazem humor, e são poucas as que fazem, fazem humor muito machista. Elas reforçam toda a leitura que os homens já tem delas, entendeu?”

Assim, fica difícil selecionar aquele que foi o auge das piadas de mau gosto que acabaram por ser desveladas pelo documentário. Eu arriscaria, talvez, como não poderia deixar de ser, que foram duas participações do Danilo Gentili. A primeira quando ele aparece em seu stand-up no Comedians, fazendo uma piada de como os deficientes auditivos que tentam falar parecem ridículos, e a segunda é quando ele faz um ataque pessoal à presidenta Dilma Rousseff. Segue abaixo transcrição da piada sobre a Dilma:

DANILO GENTILI: “Eu lembro durante a campanha a Dilma falava uma coisa assim: ‘eu vou ser a mãe do brasileiro’ e eu falava ‘vai tomar no cu, Dilma, eu já tenho mãe. Você nem parece minha mãe. Talvez meu pai, minha mãe não. Se a Dilma fosse minha mãe, eu não estaria aqui hoje. Com seis meses de idade eu teria morrido, porque nem fodendo eu ia chupar aquela teta!”

Não aponto estes trechos como críticas ao documentário, muito pelo contrário. Considero que seja justamente por isso que este filme é extremamente relevante, pois são justamente essas passagens do documentário, que explicitam o extremo mau gosto das piadas produzidas em muitos shows de stand-ups, que nos fazem pensar no tipo de humor que consumimos e que, inevitavelmente, acabaremos reproduzindo em nossa vida cotidiana, nas mesas dos botecos, em nosso local de trabalho, em casa e nas redes sociais. É justamente ao nos deparar com essas piadas mais grosseiras no documentário que somos levados a refletir (ou pelo menos deveríamos) se queremos nos vincular com as representações que determinados tipos de piadas fazem a respeito das mulheres, dos negros, dos deficientes, das lutas sociais, dos mendigos, enfim, de todos esses alvos fáceis do tipo de piada mais rasteira que vem sido produzida e que tem alcançado a grande massa através da veiculação em programas de TV (Zorra Total, CQC e afins) ou de um público mais privilegiado, que pode pagar pelos Stand-Ups nas casas noturnas bacanas de suas cidades. E o pior disso tudo é que eles ainda tentam se eximir de toda e qualquer responsabilidade de ter produzido suas infâmias, jogando a culpa toda para cima de seu público, como o Danilo Gentili faz questão de deixar claro após fazer uma piada sobre a Preta Gil.

DANILO GENTILI: “Vocês não deviam rir dessa piada, sabia? É uma puta piada de bosta! Todo comediante, quando não tem o que falar, fala: Preta Gil e todo mundo ri. Eu não gosto de falar isso. ‘Então por que eu conto?’, vocês vão falar. Porque vocês dão risada. Quem é o filho da puta? Eu? Não! Vocês!”.

Tirinha do Laerte sobre o politicamente incorreto no humor.

Tirinha do Laerte sobre o politicamente incorreto no humor.

Por fim, gostaria de parabenizar a Lola Aronovich, ao Laerte, ao André Dahmer, ao Hugo Possolo, ao Idelber Avelar e, especialmente, ao Antonio Prata e ao Jean Wyllys, que aparecem no documentário deixando bastante claro que há limites sim para o humor e de que, tais limites não se tratam de censura, mas sim de respeito aos direitos que as minorias conquistaram após duras lutas contra a opressão da ideologia burguesa travestida de humor e servindo como instrumento de manutenção de valores tais como a família patriarcal, que subjuga as mulheres e repudia os homossexuais, além do valor máximo a defender, o domínio do homem branco sobre os demais grupos étnicos. Essas pessoas merecem os parabéns, pois se opor a tais comediantes não significa meramente mostrar como eles são babacas, mas significa ter a coragem de enfrentar a classe social que produziu tais representações, e lutar para tentar expor o que a ideologia burguesa tenta esconder através do trabalho medíocre de alguns comediantes. Não é a toa que estes são os comediantes escolhidos para aparecer na TV em horário nobre em pleno sábado, quando o pobre não tem dinheiro para sair e permanece em sua casa vendo a televisão.

Justamente por essa razão, dedico o fim deste post a destacar algumas frases de quem, durante o documentário, tomou a postura de expor o que a classe dominante tenta desesperadamente esconder.

LAERTE: “Acho que nenhum bom humorista vai perder tempo fazendo uma piada leviana sobre raça, sobre gênero, sobre o que for.”

JEAN WYLLYS: “Existem outras formas de fazer humor. Existem outras maneiras de fazer rir sem humilhar os outros. Alguém de talento, de verdade, consegue fazer isso. E mesmo quando você traz essas minorias para a piada, ela não precisa ser, necessariamente, humilhando a pessoa.”

ANDRÉ DAHMER: “Se o humor precisa de uma vítima, façamos a vítima certa, não é? Porque tem tanta gente que merece apanhar. Por que bater nos negros ou nas mulheres, não é? Que já apanharam bastante. Essa é a verdade.”

JEAN WYLLYS: “As pessoas tentam naturalizar isso, como se fosse natural a mulher ser inferior ao homem. Que é da natureza da mulher ser inferior ao homem. Não é da natureza nada, isso é da cultura. E se é da cultura, e a cultura muda no tempo e no espaço, esse tipo de mentalidade pode mudar também. A gente se organiza politicamente para isso.”

ANTONIO PRATA: “Quando você ofende alguém que não pode ser ofendido pelo poder dessa pessoa, esse humor é grande, que é passar a mão na bunda do guarda, que é uma imagem antiga do cara que não está nem aí, do libertário, digamos assim, que vai lá e passa a mão na bunda do guarda. Essa é uma piada que eu acho ofensiva, pro guarda, pra mãe do guarda, pra mulher do guarda, mas o guarda tem uma arma e um cassetete. Se você passa a mão na bunda do guarda e ele tem uma arma e um cassetete, isso é engraçado porque você está se arriscando. Agora, passar a mão na bunda do mendigo???”

ANTONIO PRATA: “Então, quando você faz uma piada politicamente incorreta, no sentido, quando você é racista, você não está fazendo nada de transgressor. Nada de transgressor. Você está assinando embaixo da realidade. Você está falando assim: o mundo é desigual e eu estou rindo disso.”

IDELBER AVELAR: “Vivemos ainda uma situação de brutal desigualdade na qual, as pequenas conquistas dos grupos historicamente excluídos, não podem ser apresentadas como uma espécie de nova ditadura, de nova ortodoxia.”

LOLA ARONOVICH: “O próprio termo, politicamente correto, é um termo da direita usado para criticar as pessoas de esquerda que começaram a ter essa preocupação.”

IDELBER AVELAR: “É um termo [politicamente correto] que designa uma relação fantasmática de uma camada social dominante com uma suposta opressão vinda de baixo, que na verdade nunca teve realidade nenhuma.”

Tirinha Andre Dahmer

Tirinha de André Dahmer abordando o tema do politicamente correto.

LAERTE: “Atrás da pressão pra que se mude o termo… chamar de crioulo, negão, me traz isso aí… existe toda uma prática social que é racista sim, onde os brancos estão no poder. Onde brancos estão por cima e excluem negros. Quem nega isso, é um mentiroso do caralho. Só pode ser!!!”

JEAN WYLLYS: “Eu acho que os humoristas e comediantes eles tem que ter a liberdade mesmo para fazerem as piadas. Agora, eles não podem achar que não tem que ser contestados, porque este é o problema: é querer fazer a piada e não ser contestado. É fazer uma piada, ofender um coletivo e querer que esse coletivo não reaja. Olha, desculpe aí querido, mas não pode ser uma via de mão única. É uma via de mão dupla! Você tem todo o direito de fazer sua piada, agora pague o preço de ser chamado de babaca, de racista, de homofóbico, de sexista, se defenda, se explique, refaça, reveja seu humor.”

JEAN WYLLYS: “É curioso quando as pessoas evocam a liberdade de expressão, como se a liberdade de expressão fosse também ilimitada. Não. As liberdades elas tem limites. A minha liberdade se encerra no direito do outro, no reconhecimento do outro. Aí termina a minha liberdade. Por isso eu não sou livre para matar.”

ANTONIO PRATA: “O humor é sempre um conteúdo disfarçado, então ele pode dizer que foi só uma brincadeira. Eu não acredito nisso do só uma brincadeira, porque eu levo a brincadeira muito a sério. As piadas não tem um fundo de verdade, elas são a verdade. São a verdade com um nariz de palhaço!”

HUGO POSSOLO: “Um humorista não pode se apoiar simplesmente na resposta do riso do público. Ele precisa ter visão crítica. Quem se curva demais ao público, fica de quatro pra ele e nunca mais se ergue!!!”

ANDRÉ DAHMER: “Parece que não é possível fazer coisa melhor, e aí fica aquele segredo de Tostines, né: ‘será que é um humor imbecil porque dá mais audiência, ou dá mais audiência porque é um humor imbecil?'”

Deixo a questão para quem chegou até o fim deste post…

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A Palestina nos livros escolares israelenses: ideologia e propaganda na educação

Nurit Peled-Elhanan é professora de língua e educação na Universidade Hebraica de Jerusalém e, após a morte de sua filha em um atentado suicida em 1997, se transformou em uma crítica ferrenha da ocupação israelense nos territórios palestinos. Em novembro de 2011 lançou um livro intitulado “Palestine in israeli schoolbooks” (A Palestina nos livros escolares israelenses: a ideologia e a propaganda na educação), no qual argumenta que os livros didáticos utilizados no sistema educacional de Israel marginalizam os palestinos e são idealizados para preparar as crianças israelenses para o serviço militar.

Em seu livro, Peled-Elhanan analisa os livros didáticos israelenses, estudando seu uso de imagens, mapas e linguagem, especialmente nos assuntos voltado a história, geografia e estudos cívicos e o vídeo abaixo é o fruto de uma entrevista que a Alternate Focus fez com a professora Elhanan sobre sua pesquisa.

Durante a entrevista, Nurit Peled-Elhanan expõe em detalhes como os livros didáticos israelenses são elaborados com o objetivo de desumanizar o povo palestino e fomentar nos jovens estudantes israelenses a base de preconceitos que lhes permitirá atuar de forma cruel e insensível com o mesmo durante o serviço militar. Esta, aliás, foi um dos problemas que motivou a pesquisadora e realizar seu trabalho, isto é, entender como as crianças israelenses que são supostamente educados com base em valores muito ilustrados e humanistas, acabam se tornando “monstros horrorosos” no exército.

Segundo a pesquisadora, as construções de mundo feitas a partir dos livros didáticos, por serem as primeiras a se sedimentarem na mente das crianças, são muito difíceis de serem erradicadas. Daí a importância que o establishment israelense dedica à ideologia a ser transmitida nos livros didáticos. Neles, os palestinos nunca são apresentados como seres humanos comuns. Nunca aparecem em condições que possam ser consideradas normais. Para Nurit Peled-Elhanan, não há nesses livros nem sequer uma fotografia de um palestino que mostre seu rosto. Eles são sempre apresentados como constituindo uma ameaça para os judeus.

Há uma parte da entrevista onde a pesquisadora explora a representação da Palestina em mapas sobre o Estado de Israel presentes nos livros escolares israelenses.

Nesta parte da entrevista Nurit Peled-Elhanan deixa claro que a maioria dos livros didáticos israelenses, quando mostram o mapa de Israel, não mostram as fronteiras reais daquele Estado, mas sim o que é chamado de “Grande Terra de Israel”, o que inclui a Palestina dentro dessa concepção de território. Tal concepção confunde os estudantes que, como diz a pesquisadora, a três gerações não sabem direito quais são as fronteiras reais de Israel, uma vez que conhecem apenas a Grande Terra de Israel. Por fim, fala da outra estratégia adotada pelos livros didáticos que é não representar os palestinos de modo algum nos mapas de Israel, deixando um espaço em branco onde deveria aparecer a Palestina, trabalhando com a ideia de que se aquela região está em branco, ela não foi ocupada, isto é, uma região que não possui habitantes e está a espera de ser habitada.

De fato uma pesquisa bastante reveladora das estratégias de Israel para aniquilar qualquer possibilidade de existência de um Estado Palestino. Vale a pena conferir a entrevista inteira e saber mais sobre o assunto a partir de um ponto de vista que normalmente não chega até nós. Deixo aqui minha recomendação.

MAIS VIDEOS DE NURIT PELED-ELHANAN

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