João de Deus, o kardecismo e a desigualdade entre os homens

Delegado diz que João de Deus utilizava a fé para cometer abusos sexuais

Sem querer me estender muito em toda essa patifaria ligada ao caso do charlatão que se autodenominou João de Deus, gostaria de compartilhar por aqui breves reflexões que me fizeram relembrar o tempo em que eu estudei de perto o espiritismo kardecista e, na sequência, engatei numa pós-graduação em teologia com alguns professores jesuítas.

Sem rodeios e indo direto ao ponto, a reaparição do João de Deus na TV me fez recordar de uma discussão que havia feito com alguns colegas no começo dos anos 2000 sobre a relação entre CARIDADE e DESIGUALDADE entre os homens. Já naquele tempo, antes mesmo de ter cursado faculdade de Ciências Humanas, defendia ser possível classificar qualquer doutrina/religião cujo fundamento principal é a caridade como sendo fortemente vinculada a valores da DIREITA. Depois de ter cursado História e, sobretudo, lido as reflexões sobre Direita e Esquerda de Norberto Bobbio, fiquei ainda mais convicto disso.

Antes que me acusem de insanidade, o que quero dizer é que tais doutrinas entendem a desigualdade como algo NATURAL em vez de SOCIALMENTE CONSTRUÍDA, isto é, as pessoas nascem e ocupam posições diferenciadas na escala social não por conta do modo como a sociedade se organiza, mas em razão de outros fatores, como por exemplo, a conduta individual dessas pessoas em vidas pretéritas. Tal critério daria conta de explicar a existência de pessoas “INFERIORES” e “SUPERIORES” em nossa sociedade. Para essas doutrinas, a caridade é o principal instrumento de ascensão espiritual a TODOS aqueles em busca de se desenvolverem para atingirem novos planos. Entretanto, deve-se ter em conta que os que já entraram nessa vida em estágio maior de desenvolvimento espiritual (os superiores) estão em melhores condições para desempenhar o papel de mitigar o sofrimento dos que ainda estão nos estágios iniciais (os inferiores).

Por essa linha raciocínio, sou levado a pensar que o ESPIRITISMO KARDECISTA leva essa ideia ainda mais adiante, pois postula que “fora da caridade não há salvação”. Ao fazê-lo, condiciona o aprimoramento espiritual do indivíduo à prática da caridade, principalmente, entre pessoas de diferentes níveis de desenvolvimento espiritual, isto é, dos mais aos menos desenvolvidos. Mais que isso, o kardecismo leva para o além-túmulo a desigualdade entre os seres humanos, uma vez que os mais desenvolvidos deverão reencarnar sempre em condições melhores (a não ser que aceitem alguma missão), enquanto os menos desenvolvidos ainda deverão penar com miséria, doenças, fome, deficiências e outra miríade de infortúnios em razão dos erros em vidas pretéritas.

Historicamente não é difícil compreender porque Allan Kardec (1804-1869) codificou uma doutrina como essa que acabou levando o seu nome. Como todos, era um homem de seu tempo, profundamente influenciado pelo POSITIVISMO e pela ideia de que o homem branco tinha o “FARDO” de civilizar o resto da humanidade. Para tanto, elegeu como mecanismo principal dessa “civilização” a caridade, cujo papel era justamente o desenvolvimento da humanidade em muitas etapas sucessivas ou estágios.

Antes de prosseguir quero deixar muito claro que não me oponho, de forma alguma, à prática da caridade. Muito pelo contrário. Em um mundo como o que vivemos ela é mais do que necessária. Penso, porém, que tudo deve estar bem claro para quem estiver disposto a seguir quaisquer doutrinas ou religiões. No caso em questão, o kardecismo, vejo uma obscuridade intencional nesse sentido, assim como uma necessidade imensa de se fantasiar com vestes cristãs para poder dialogar com esse grande público. No entanto, por trás disso tudo fica evidente que o espiritismo se opõe ao cristianismo naquilo que lhe é mais caro: a salvação.

Ora, ao colocar a caridade como o elemento central de sua doutrina, o kardecismo não só se torna anti-cristão, pois retira o papel de Jesus na salvação da humanidade – passando-o exclusivamente para o próprio indivíduo em busca seu aprimoramento espiritual -, mas também alinha-se ao postulado de que a desigualdade entre os seres humanos é natural, isto é, já vem com ele ao nascer. Segundo os kardecistas, a superação dessa desigualdade só se dará pela via sobrenatural (reencarnação) e, ainda assim, após uma vida dedicada a caridade. Há uma ESCALA DE DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL para cada indivíduo que, após o intercurso de uma vida, poderá se elevar ou diminuir, determinando seu destino nas próximas vidas. Nesse sentido, não há quem possa intervir pelo indivíduo no plano da vida material, nem mesmo todo o sangue derramado por Jesus. Este último, cumpre lembrar, é considerado pelos kardecistas um grande mestre, um profeta, uma alma desenvolvida, um modelo de vida, mas não o filho de Deus ou, tampouco, o Deus encarnado.

Por outro lado, insisto que vale a pena aprofundarmos essa reflexão sobre a desigualdade natural entre os humanos e a Criação. Ora, se a desigualdade é natural e há uma intencionalidade por trás de toda a Criação, então o arquiteto maravilhoso é quem deve ser responsabilizado pela existência de toda essa desigualdade, certo? Mas como pensar em uma divindade eminentemente boa com tamanha desigualdade no mundo? Essa é uma pergunta que todos nós – crentes e ateus – deveríamos nos fazer diante do verdadeiro horror que é o mundo que vivemos: qual a razão de bilhões de pessoas nascerem sem acesso a comida e água potável em um canto do mundo, enquanto outras tantas nascem em situação oposta, isto é, com tamanho excesso de tais recursos ao ponto de a maior parte dos mesmos ser desperdiçada?

Se nos fosse dada uma explicação cristã para essa verdadeira tragédia, certamente ouviríamos em resposta que deus tem um plano pra cada um e nós não temos como entender os desígnios divinos (MISTÉRIO). No caso da kardecista, porém, a explicação recai nas vidas pretéritas desses indivíduos. Cada um está exatamente no lugar onde deveria estar segundo seu desenvolvimento espiritual. No melhor dos casos, há ESPÍRITOS ILUMINADOS que optaram por reencarnar em tal situação para auxiliar no desenvolvimento espiritual dos menos desenvolvidos. É a caridade além-túmulo, pré-natal.

Enquanto a explicação cristã evidencia o papel da própria divindade na criação da desigualdade, isto é, deus teria criado os homens iguais (à sua imagem e semelhança), mas os teria colocado na Terra em situações de desigualdade em função de um plano individual que tem para cada um; a explicação kardecista retira o protagonismo divino e coloca-o novamente em cada indivíduo (ainda que, em última instância, acabará por recair na divindade quando da criação inicial dos espíritos. Estes, por sua vez, criados todos igualmente inferiores para que possam se desenvolver, mais ou menos rapidamente, através das inúmeras vidas sucessivas nos diferentes planos).

Por fim, para não deixar o fio solto, o que pensar do tal João de Deus? Se antes ele era um ser de luz, encarnado em missão para ajudar na evolução espiritual da humanidade, e agora? O que pensar dessa figura sinistra após a descoberta de seus abusos e falcatruas? Te convence a ideia de que ele voltará em próximas vidas como um ser doente, tetraplégico ou com câncer infantil? É tudo tão simples e tão raso assim? Ainda que a Federação Espírita Brasileira (FeB) negue a vinculação de João de Deus aos quadros do espiritismo, tanto o charlatão quanto a Federação se beneficiaram, durante anos, das promessas de curas espirituais que o “falso médico” realizava através de suas pseudo-cirurgias. Antes de ser descoberto em suas inúmeras falcatruas, a FeB não parece ter se importado em divulgar que ela não tinha ligação nenhuma com o dito patife. Pelo contrário. Me lembro de ter sido informado de que alguns centros espíritas de São Paulo  promoviam excursões aos que se interessassem nas alegadas curas espirituais do médium de Abadiânia.

A quem possa interessar, deixo, aqui, um vídeo do doutor Dráuzio Varella tratando da questão dos charlatães, em especial, o de João de Deus, e suas promessas de curas espirituais.


Rogério Beier é doutorando em História Econômica (FFLCH-USP) e mestre em História Social (FFLCH-USP). Entre 1998-2001 estudou o kardecismo em centos-espíritas na cidade de São Paulo e fez um curso de pós-graduação em teologia em instituição ligada aos jesuítas.

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Os signos do reacionarismo, da teocracia neopentecostal e do militarismo marcam governo Bolsonaro

por Vinícius Moraes – 06. dez. 2018

A formação do governo Bolsonaro combina duas características bastante nítidas, são elas o conservadorismo civil como critério objetivo de escolha e a presença militar. Um desavisado poderia confundir o processo atual com a constituição de governos de inspiração fascista do início do século XX.

Durante a campanha eleitoral, os defensores da tese de que “tem que mudar tudo isso aí” sugeriram diminuir o número de ministérios para 15, no afã do Estado mínimo. Hoje são 29. No entanto, a necessidade de acomodar no governo o conjunto das forças que apoiam Bolsonaro obrigou aos novos articulares a expandir as vagas. O velho toma lá dá cá se mostra muito atual.

O governo que está sendo montado nasce com os signos do reacionarismo, da teocracia neopentecostal e do militarismo. Nunca antes a bancada evangélica se viu com tanta força de indicação de nomes e, ao mesmo tempo, poder de veto.

Cotado para o Ministério da Educação, pasta que contará com 122 bilhões em 2019, o nome de Mozart Neves Ramos, membro do Instituto Ayrton Senna, foi simplesmente vetado, por ser considerado um moderado. Os evangélicos fazem questão de que os nomes do governo defendam a medieval ‘escola sem partido’ e o combate à ‘ideologia de gênero’, segundo Ronaldo Nogueira do PTB.

Com o veto, Bolsonaro recorreu ao Olavo de Carvalho, considerado filósofo por alguns e figura tão chula quanto lunática por outros. O indicado foi o católico colombiano, ex-trotskysta, ultrarreacionário Ricardo Vélez Rodríguez. Este, diferente de Mozart, agrada aos evangélicos. Olavo de Carvalho também indicou para chanceler Eugênio Araújo, quem pretende priorizar o combate ao ‘marxismo cultural’, considera que existe um alarmismo em relação ao aquecimento global e pretende colocar o Brasil sob a tutela norte-americana.

Os evangélicos ainda se organizaram para indicar um nome para o Ministério da Cidadania, o qual deve reunir as estruturas do Desenvolvimento Social, Cultura, Esportes e parte da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. O nome indicado, o pastor Marco Feliciano, não foi aceito. O escolhido foi Osmar Terra, ex-ministro de Temer, nome que não desagradou aos defensores da teologia da prosperidade. Composta por 84 deputados federais e sete senadores, o peso da Frente Parlamentar Evangélica parece explicar a guinada religiosa de Jair Bolsonaro.

A presença militar nos cargos de primeiro escalão impressiona e muito. Não é de agora que os militares voltaram a ter protagonismo na cena política brasileira. Imerso em crise, Michel Temer os trouxe para ser uma espécie de pilar de sustentação. Vale dizer, a título de nota relevante, que membros da ativa das Forças agiram politicamente em plena luz do dia para defender posições no cenário recente de incertezas e crise institucional. O ápice foi o tuíte do general Villas Bôas ameaçando o STF, caso a corte aceitasse o habeas corpus que permitiria a candidatura do ex-presidente Lula no pleito eleitoral.

Pois bem, agora, militares de alta patente estão em postos estratégicos do Estado brasileiro, algo que não acontecia desde a ditadura. Os generais do Exército são Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional); Fernando Azevedo e Silva (Defesa) e Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo). Os capitães são Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) e Wagner Rosário (Controladoria Geral da União). Como representante da Marinha, o almirante Bento Costa Lima Leite chefiará Minas e Energia. Da Aeronáutica, o tenente-coronel, astronauta e ex-candidato a deputado federal pelo PSB, assumirá, não se sabe porquê, a Ciência e Tecnologia. Em nenhuma democracia do mundo os militares possuem tanta presença quanto aqui. Talvez isso se explique pelo fato de o Brasil estar em marcha contrária ao destino democrático.

Há, evidentemente, os superpoderosos Ministérios da Economia e da Justiça. O primeiro contará com o ‘posto Ipiranga’ Paulo Guedes. Ultraliberal, sujeito de poucas palavras, Guedes montou uma equipe econômica ao seu sabor. Como orientação, devem todos defender a privatização de tudo o que for possível e garantir os interesses do mercado financeiro.
Nomeado para agradar ao senso comum conservador, a indicação de Sérgio Moro assombrou o mundo do direito. Depois de comandar uma operação judicial que reformulou toda a roupagem do sistema político, o juiz-militante mudou de função, assumindo a pasta da Justiça no governo daqueles que saúdam torturadores. Ora, por óbvio que a Lava Jato passou a ser imediatamente questionada pela ousadia de Moro de sequer esconder suas preferências políticas.

Vale acrescentar aqui um grave ataque aos direitos dos trabalhadores: a extinção do Ministério do Trabalho. Surgido em 1930, este ministério tinha a função de estimular políticas de criação e proteção do emprego, fiscalizar violações, como o trabalho escravo, e conceder novas cartas sindicais. Ao dividir suas atribuições entre as pastas da Economia, Justiça e Cidadania, Bolsonaro revela desprezo por aqueles que vivem do seu próprio suor. Em nota, o próprio Ministério do Trabalho considerou a medida ilegal. Argumentou-se que “o Ministério do Trabalho reitera que o eventual desmembramento da pasta atenta contra o artigo 10 da Constituição Federal, que estabelece a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação”.

Observando essa montagem, fica evidente que este governo não terá vida fácil. Os militares, nacionalistas por dever de ofício, não aceitarão de bom grado os anseios ultraliberais de Guedes. Generais, diga-se de passagem, não são chegados a receber ordens, conforme já afirmou o vice Mourão. Não costumam aceitar ordem nem de economistas, nem de capitães. Por outro lado, como Sergio Moro lidará com um exército de corruptos articulados por Onyx Lorenzoni? Será que daqui em diante pedidos de desculpas serão suficientes?

Em meio a toda essa tormenta, Jair Bolsonaro será o quadro mediador. Autoritário, estabanado e impulsivo, Bolsonaro poderá, involuntariamente, levar todo o Brasil para a ponta da praia.

Segue o desenho do novo ministério:

Casa Civil: Onyx Lorenzoni

GSI: general Augusto Heleno

Secretaria de Governo: general Carlos Alberto dos Santos Cruz

Secretaria-Geral: Gustavo Bebianno

Economia (Fazenda, Planejamento, Trabalho e MDIC): Paulo Guedes

Minas e Energia: Bento Albuquerque

Justiça e Segurança Pública (Justiça, Segurança Pública e Trabalho): Sergio Moro

Relações Exteriores: Ernesto Araújo

Defesa: general Fernando Azevedo e Silva

Educação: Ricardo Vélez Rodríguez

Saúde: Luiz Henrique Mandetta

Agricultura: Tereza Cristina

Infraestrutura (Transportes, Aviação Civil, Portos e Aeroportos): Tarcísio Freitas

Ciência, Tecnologia e Comunicações: Marcos Pontes

Cidadania (Desenvolvimento Social, Trabalho, Esporte e Cultura): Osmar Terra

Turismo: Marcelo Álvaro Antônio

Banco Central: Roberto Campos Neto

AGU: André Luiz Mendonça

CGU: Wagner Rosário

Desenvolvimento Regional (Cidades e Integração Nacional): Gustavo Canuto

Faltam anunciar

  • Meio Ambiente
  • Direitos Humanos

Vinícius Moraes é historiador pela Universidade de São Paulo.

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Jorge Lourenço: saída de Cuba do programa Mais Médicos

Tem circulado pelas redes sociais um texto bastante interessante sobre a saída de Cuba do programa Mais Médicos, anunciada nessa última quinta-feira (15). O texto é de autoria do escritor Jorge Lourenço e traz algumas reflexões sobre a maneira como tem sido divulgado pela mídia o fim da parceria entre Cuba e Brasil no programa Mais Médicos.

Interessado nessa discussão e na difusão das reflexões propostas por Jorge Lourenço, o Hum Historiador tomou a liberdade de repercuti-lo, na íntegra, para seus leitores.

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Sobre a saída de Cuba do Mais Médicos
por Jorge Lourenço – originalmente publicado em sua página do Facebook, 15/11/2018

Vocês devem ter lido por aí que Cuba encerrou sua parceria o Programa Mais Médicos, certo? Pois bem, essa afirmação, por si só, já é a criação de uma narrativa estabelecida pelo nosso novo presidente, Jair Bolsonaro.

Cuba não acabou com sua participação no Mais Médicos. Jair Bolsonaro acabou com a participação cubana e agora quer fazer você acreditar que os cubanos o fizeram. Ele não quer ver a presidência dele manchada logo no começo pelos enormes prejuízos que isso vai trazer.

Vamos lá: o Mais Médicos é um programa criado pelos dois países. O que cada país ganha com essa ação?

– Cuba forma médicos de forma gratuita pelo seu sistema de educação e fornece essa mão de obra especializada para o Brasil. Qual é o retorno que o país recebe? 70% do salário dos profissionais, valor que deve ser reinvestido no sistema de bem-estar social da ilha (como saúde e educação pública gratuitos).

– O Brasil recebe mão de obra especializada para atuar em áreas isoladas e suprir a carência de médicos, além de se desamarrar de algumas limitações e problemas relacionados à contratação de funcionários públicos estatutários.

Bolsonaro é eleito depois de anos insultando Cuba. E quais são os termos que ele pede para a manutenção do programa? O Revalida é o de menos, vamos aos termos que importam:

– O salário integral deveria ser pago aos médicos;

– Os médicos poderiam trazer suas famílias para o Brasil.

Agora pergunto para vocês, o que acontece com o programa se Cuba aceita esses dois termos?

1 – Cuba cede mão de obra especializada de forma completamente gratuita para o Brasil;

2 – O sistema de bem-estar social de Cuba não recebe o reinvestimento para manter-se (afinal, saúde e educação gratuitos não se pagam com sorrisos);

3 – Caso as famílias venham para o Brasil e os médicos recebam o salário integralmente por aqui, todo esse dinheiro é utilizado na economia brasileira.

Você percebe a pegada? Não há nenhuma vantagem para Cuba. A não ser que se tratasse de uma missão humanitária – o que não é o caso, tendo em vista que Cuba é um país bem mais pobre pobre do que o Brasil – esse programa não faria sentido nenhum para eles sob esses termos.

Bolsonaro então oferece esses termos – inaceitáveis e completamente descabidos – e Cuba obviamente os recusa e sai do programa. E qual é a manchete dos jornais?

“Cuba abandona o Mais Médicos”.

Qual deveria ser uma manchete mais apropriada?

“Bolsonaro oferece acordo sem contrapartidas para Cuba e país abandona o Mais Médicos”.

Imagina uma narrativa onde você se recusa a trabalhar de graça para alguém e os jornais publicam que você “abandonou o emprego”? É basicamente o que estão fazendo agora. E os minions, impulsionados pelas redes de desinformação do candidato, já estão obviamente colocando a culpa do caos no governo cubano.

O que vocês viram agora foi o Bolsonaro prejudicar a vida de milhões de brasileiros a troco de nada. Ou melhor, a troco de um factoide político.

Os médicos cubanos estão em 2.885 municípios brasileiros. Centenas deles atuam em aldeais indígenas. Quase 150 municípios brasileiros sequer tinham médicos contratados e só receberam essa mão de obra especializada graças ao Programa Mais Médicos.

O Mais Médicos não era um programa de caridade. Era um acordo entre dois países que, apesar de não ser perfeito, trazia uma série de benefícios aos dois. Foi demonizado de maneira completamente irracional e agora extinto pela falta de bom senso do Bolsonaro.

E vocês acreditam que foi Cuba que decidiu meter o pé.

Jorge Lourenço é escritor e trabalha na Cajá agência de comunicação e Rio 2054.

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ACHILLE MBEMBE: A era do humanismo está terminando

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Este artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22/12/2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporeafilosofia.blogspot.com, 31/12/2016. A tradução para o português é de André Langer, para o portal Pensar Contemporâneo, em 25/01/2017.

A ERA DO HUMANISMO ESTÁ TERMINANDO
por Achile Mbembe

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.


Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul).

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Revista Fórum: estudantes da FEA entram armados na faculdade e anunciam o início de nova era

O Hum Historiador abre espaço para repercutir uma matéria bastante preocupante divulgada no portal da Revista Fórum nessa segunda-feira (29), apenas um dia após o anúncio da eleição de Jair Bolsonaro.

A matéria denuncia que alunos da FEA entraram armados na faculdade, trajando uniformes militares, anunciando o início de uma “nova era”, na qual as “petistas safadas” devem temer.

Uma das fotos que circulou nas redes sociais difundindo a ação desses “estudantes da FEA” mostra quatro indivíduos, dois deles portando armas, um com camiseta do presidente estadunidense Donald Trump e, ao fundo, um carregando uma bandeira usada por movimentos fascistas, neonazistas, pela Ku Klux Klan e pela Supremacia Branca. Na frente, sobre a mesa, pequenos pedaços de papéis onde se lê “está com medo petista safada?” e “a nova era está chegando”. No quadro branco, atrás da bandeira se lê as inscrições “nova era” e ” B17″.

Abaixo segue o texto do jornalista Lucas Vasques na íntegra, tal como publicado na revista:

ESTUDANTES DA FEA ENTRAM ARMADOS NA FACULDADE E ANUNCIAM O INÍCIO DE NOVA ERA

por Lucas Vasques
para Revista Fórum – Publicado originalmente em 29/out/2018

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Estudantes da FEA posam para foto em uma sala de aula com uniformes militares e de armas em punho, ameaçando “petistas safadas” e anunciando uma “nova era”.  Foto: Reprodução

Estimulados pelo clima político atual e pela vitória de Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições presidenciais, um grupo de alunos da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) ingressou nas dependências da instituição armado. Estavam vestidos com roupa militar e camisetas em que se lia Trump, fotografaram salas de aula, fizeram uma espécie de performance, anunciando a chegada da “nova era” e fazendo ameaças: “As petistas safadas vão ter de tomar cuidado”.

A foto dos alunos circulou entre grupos de WhatsApp e pelas redes sociais e causou uma rápida reação tanto dos estudantes como da direção. Ainda na noite desta segunda-feira (29), uma reunião de alunos foi realizada para debater a questão.

“O caso é grave. A direção da faculdade e o Centro Acadêmico Visconde de Cairu divulgaram notas de repúdio e a direção se comprometeu a abrir sindicância para apurar os fatos. Além disso, vamos realizar nos próximos dias uma plenária entre estudantes, professores e e funcionários, com o objetivo de centralizar forças contra a violência. As manifestações de ideias divergentes podem ocorrer, mas sempre preservando o debate democrático, sem violência”, afirmou Rodrigo Toneto, estudante de mestrado de Economia e integrante do DCE Livre da USP.

Nota de repúdio do CAVC FEA-USP

A Gestão Delta do Centro Acadêmico Visconde de Cairu vem por meio desta nota mostrar sua indignação perante as demonstrações fascistas que têm ocorrido em nossa Universidade.

Na manhã desta segunda-feira (29), após o resultado das eleições presidenciais, uma foto bastante preocupante circulou pelos grupos de WhatsApp da comunidade FEAna. Na imagem, um conjunto de alunos em sala de aula da faculdade segura armas e cartazes com os dizeres “está com medo, petista safada?”; além disso, a imagem acompanha frases como “nova era” e “B17”, comemorando a vitória do candidato Jair Bolsonaro. Apesar do cunho eleitoral, não se trata de uma simples manifestação política: é um retrato misógino e violento, de caráter fascista, que ameaça os direitos democráticos da coletividade dos estudantes.

A foto faz parte de uma onda de extremismo e práticas violentas por todo país. Só em nossa Universidade, observamos também suásticas sendo pintadas na porta de residências estudantis e apologia à violência dentro dos campi. Diante deste cenário, é preciso que nós tenhamos posicionamento em nome da democracia e pela paz. Entendemos que a Universidade deve permitir a livre expressão e a militância política de seus associados, entretanto, posições contra os direitos humanos ou que propaguem o medo e a violência não devem, de forma alguma, ser toleradas. Devemos nos colocar por um país onde a manifestação política e o engajamento seja livre, e não motivo de ameaça e medo. Por um país onde pobres, mulheres, LGBTs, nordestinos, negros e negras e qualquer outra pessoa não se sintam ameaçadas dentro de seu próprio ambiente de ensino por pensarem de forma contrária ao governo. Devemos nos posicionar contra qualquer manifestação de cunho fascista que ponha em risco as liberdades democráticas.

Demonstrações de ódio como a presente na imagem são inadmissíveis em quaisquer contextos, principalmente dentro de uma sala de aula universitária. Nesse sentido, repudiamos a prática e aqueles responsáveis, e saudamos o posicionamento da instituição diante do ocorrido. Esperamos que o caso seja encaminhado com a seriedade devida.

Não podemos ficar calados diante de uma ameaça como esta.

Nós, estudantes, resistimos!

Nota de repúdio da direção da FEA-USP

A direção da FEA vem a público para repudiar as ações de incitação à violência que estão ocorrendo dentro do ambiente da USP e, particularmente, da FEA.

A Universidade existe como um campo de debate de inúmeros temas, inclusive o político, e a nossa tradição é pacífica. E queremos que assim continue, para todos, num ambiente em que a pluralidade seja uma prática real, politica, religiosa, de gênero ou outra perspectiva.

O período eleitoral foi tenso e as expectativas oscilaram com muita radicalização. Uma vez terminado o processo eleitoral, imagina-se que as acomodações ocorram e os ânimos sejam acalmados. Afinal a vida segue.

Em algumas situações algo que pode ser pensado como “brincadeira” pode ser o estopim para aumento da agressividade e mesmo ameaças. Isso é inaceitável pois queremos um ambiente em que a comunidade possa pensar, discutir, aprender e crescer. Truculência não faz parte desse cardápio seja qual for a sua forma de exteriorização.

Além de todos os esforços para manter integridade e paz no ambiente da FEA, ações que intimidem, ofendam e causem reações e danos serão rigorosamente coibidas e punidas.

Fábio Frezatti
Diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP

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Judeus e Muçulmanos se unem contra Bolsonaro

Em nota pública de oposição ao candidato Jair Bolsonaro, grupos de judeus e muçulmanos mostram como colocar as diferenças de lado por uma causa comum. Quatro coletivos de muçulmanos e seis coletivos de judeus assinam a nota, representando cerca de 15 mil pessoas.

Abaixo a íntegra do documento que foi divulgado pela revista Época no dia 05/08/2018.

JUDEUS E MUÇULMANOS UNIDOS: FASCISMO NÃO!

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Judeus e muçulmanos lançam nota pública contra Bolsonaro. Foto: Agência OGlobo

A cultura de tolerância religiosa é recente no Brasil. Nas raízes de nossa formação, encontra-se o massacre cultural imposto aos povos indígenas e africanos, obrigados a renunciar a suas crenças originárias e aceitar o poder dos senhores, aliados à estrutura da Igreja Católica. Com a tolerância advinda em meados do século passado, a partir do Concílio Vaticano II, uma nova onda de intolerância religiosa ganha ímpeto com o fanatismo de parte dos evangélicos neopentecostais, tendo como principais alvos as religiões de matriz africana.

Mesmo com os avanços legais que tornaram o Brasil um dos países mais avançados na criminalização do racismo e da discriminação religiosa, permanece em boa parte da sociedade brasileira o sentimento abafado do segregacionismo excludente. Na onda de ódio fomentada no país, nos últimos anos, a resistência cultural-religiosa desses povos passou a incomodar os setores de extrema direita, que passaram a ameaçar novamente a imposição de restrições às religiões não-cristãs, e a disseminar o medo.

Esse comportamento de uma parte da sociedade abre caminho ao cenário da ameaça fascista, solo fértil às hostilidades de raça, gênero e todas as demais discriminações sociais, hoje personificadas na figura de Jair Bolsonaro. Seu discurso deixa claro o intento de subjugar as minorias.

Os discursos de ódio, ironicamente, têm se aproveitado da liberdade de expressão, que não tem proteção contra a livre circulação de ideários fascistas.

Nós, muçulmanos e judeus, que conhecemos os horrores da islamofobia e do antissemitismo, temos a sensibilidade aguçada para perceber que, entre todas as barbaridades proferidas por este candidato, a mais emblemática, por atingir vários segmentos, foi a de que as minorias devem se curvar à maioria. Essa frase ecoa fundo no coração daqueles que sofrem diariamente a brutalidade do preconceito e da não aceitação, contrariando a nossa Constituição, que nos garante o direito de vivermos em um Estado Laico. As minorias religiosas se sentem ameaçadas em seus direitos à prática de seus cultos, e até mesmo, nas suas existências.

O discurso de ódio fomentou a união de muitos subsetores existentes nas mesmas minorias, e nos une contra o inimigo comum. Manifestamos o nosso mais profundo repúdio a todas as formas de intolerância que possam comprometer o convívio salutar dos cidadãos com todas as suas diferenças, sejam religiosas, de gênero, de cor ou de ideologia política. Ressaltamos que nossa luta não se restringe apenas à figura pessoal do candidato, mas a tudo que ele representa e todos os que reproduzem o seu discurso.

Nossa bandeira comum, como muçulmanos e judeus é barrar toda forma de violência, de preconceito e qualquer outro elemento que dê base ao projeto fascista desse homem e de seus seguidores.

Muçulmanos e judeus vão permanecer unidos depois das eleições de 2018. Nossa luta é perene, enquanto existirem nesse país sementes de fascismo, lá estaremos para tornar esse solo cada vez mais impermeável a esta ideologia.

ASSINAM ESTA NOTA PÚBLICA:

MUÇULMANOS CONTRA BOLSONARO

COLETIVO MUÇULMANAS E MUÇULMANOS CONTRA O GOLPE

MESQUITA SUMAYYAH BINT KHAYYAT – COMUNIDADE MUÇULMANA DE EMBU DAS ARTES-SP

MUÇULMANAS EM MANIFESTO CONTRA O FASCISMO

JUDEUS CONTRA BOLSONARO

FRENTE JUDAICA PARA OS DIREITOS HUMANOS

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O falso discurso dos extremismos

por Breno Leal Ferreira.

É falso o discurso, que já virou quase senso comum, de que o PT e o Bolsonaro são os extremos do espectro político.

Bolsonaro tem vocação autoritária e ditatorial. Não é um ditador (ainda), talvez não precise (dado a base de apoio que elegeu), mas não esconde um discurso extremista, contrário aos direitos de minorias (índios, negros, mulheres, LGBT, pobres e até animais) e profundamente desprovido de humanidade. Defende abertamente a tortura e a ditadura militar. Seus aliados falam em prender ministros do STF. Quer que seus adversários políticos sejam presos ou exilados. Nem nacionalista consegue ser: quer implementar um programa liberal na economia que nem Temer ousou, já disse que a Amazônia deve ser doada aos americanos e bateu continência à bandeira dos Estados Unidos.

Já em relação ao PT temos um passado a considerar. Acalmou o mercado financeiro com a “Carta ao Povo Brasileiro” (2002). Lula foi o “Lulinha paz e amor”. Seu governo não foi o de confronto de classes, mas o de conciliação de classes. Os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro quanto na época em que o partido ocupou a presidência. O BNDES apostou na política dos “campeões nacionais”, beneficiando grandes empresas nacionais. Lula e Dilma indicaram deram liberdade de investigação à Polícia Federal. Com seu republicanismo, indicaram ministros ao STF que foram responsáveis pela prisão de boa parte de sua própria cúpula (em processos altamente duvidosos, mas não cabe aqui discuti-los), além da chancela da destituição de Dilma e da prisão (também baseada em um processo discutível) do próprio Lula. O partido venceu democraticamente quatro eleições presidenciais seguidas.

Longe de qualquer comunismo, o PT fez algo próximo de um governo trabalhista, de centro-esquerda. Foi qualquer coisa menos extremista. Nem mesmo seu discurso é extremista. Já não se pode dizer a mesma coisa de Bolsonaro.

Breno Leal Ferreira atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado do IFCH-UNICAMP. Doutor e mestre em História Social pela FFLCH-USP.

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