Jorge Lourenço: saída de Cuba do programa Mais Médicos

Tem circulado pelas redes sociais um texto bastante interessante sobre a saída de Cuba do programa Mais Médicos, anunciada nessa última quinta-feira (15). O texto é de autoria do escritor Jorge Lourenço e traz algumas reflexões sobre a maneira como tem sido divulgado pela mídia o fim da parceria entre Cuba e Brasil no programa Mais Médicos.

Interessado nessa discussão e na difusão das reflexões propostas por Jorge Lourenço, o Hum Historiador tomou a liberdade de repercuti-lo, na íntegra, para seus leitores.

Mais Medicos_Cuba_Nov2018

Sobre a saída de Cuba do Mais Médicos
por Jorge Lourenço – originalmente publicado em sua página do Facebook, 15/11/2018

Vocês devem ter lido por aí que Cuba encerrou sua parceria o Programa Mais Médicos, certo? Pois bem, essa afirmação, por si só, já é a criação de uma narrativa estabelecida pelo nosso novo presidente, Jair Bolsonaro.

Cuba não acabou com sua participação no Mais Médicos. Jair Bolsonaro acabou com a participação cubana e agora quer fazer você acreditar que os cubanos o fizeram. Ele não quer ver a presidência dele manchada logo no começo pelos enormes prejuízos que isso vai trazer.

Vamos lá: o Mais Médicos é um programa criado pelos dois países. O que cada país ganha com essa ação?

– Cuba forma médicos de forma gratuita pelo seu sistema de educação e fornece essa mão de obra especializada para o Brasil. Qual é o retorno que o país recebe? 70% do salário dos profissionais, valor que deve ser reinvestido no sistema de bem-estar social da ilha (como saúde e educação pública gratuitos).

– O Brasil recebe mão de obra especializada para atuar em áreas isoladas e suprir a carência de médicos, além de se desamarrar de algumas limitações e problemas relacionados à contratação de funcionários públicos estatutários.

Bolsonaro é eleito depois de anos insultando Cuba. E quais são os termos que ele pede para a manutenção do programa? O Revalida é o de menos, vamos aos termos que importam:

– O salário integral deveria ser pago aos médicos;

– Os médicos poderiam trazer suas famílias para o Brasil.

Agora pergunto para vocês, o que acontece com o programa se Cuba aceita esses dois termos?

1 – Cuba cede mão de obra especializada de forma completamente gratuita para o Brasil;

2 – O sistema de bem-estar social de Cuba não recebe o reinvestimento para manter-se (afinal, saúde e educação gratuitos não se pagam com sorrisos);

3 – Caso as famílias venham para o Brasil e os médicos recebam o salário integralmente por aqui, todo esse dinheiro é utilizado na economia brasileira.

Você percebe a pegada? Não há nenhuma vantagem para Cuba. A não ser que se tratasse de uma missão humanitária – o que não é o caso, tendo em vista que Cuba é um país bem mais pobre pobre do que o Brasil – esse programa não faria sentido nenhum para eles sob esses termos.

Bolsonaro então oferece esses termos – inaceitáveis e completamente descabidos – e Cuba obviamente os recusa e sai do programa. E qual é a manchete dos jornais?

“Cuba abandona o Mais Médicos”.

Qual deveria ser uma manchete mais apropriada?

“Bolsonaro oferece acordo sem contrapartidas para Cuba e país abandona o Mais Médicos”.

Imagina uma narrativa onde você se recusa a trabalhar de graça para alguém e os jornais publicam que você “abandonou o emprego”? É basicamente o que estão fazendo agora. E os minions, impulsionados pelas redes de desinformação do candidato, já estão obviamente colocando a culpa do caos no governo cubano.

O que vocês viram agora foi o Bolsonaro prejudicar a vida de milhões de brasileiros a troco de nada. Ou melhor, a troco de um factoide político.

Os médicos cubanos estão em 2.885 municípios brasileiros. Centenas deles atuam em aldeais indígenas. Quase 150 municípios brasileiros sequer tinham médicos contratados e só receberam essa mão de obra especializada graças ao Programa Mais Médicos.

O Mais Médicos não era um programa de caridade. Era um acordo entre dois países que, apesar de não ser perfeito, trazia uma série de benefícios aos dois. Foi demonizado de maneira completamente irracional e agora extinto pela falta de bom senso do Bolsonaro.

E vocês acreditam que foi Cuba que decidiu meter o pé.

Jorge Lourenço é escritor e trabalha na Cajá agência de comunicação e Rio 2054.

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ACHILLE MBEMBE: A era do humanismo está terminando

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Este artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22/12/2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporeafilosofia.blogspot.com, 31/12/2016. A tradução para o português é de André Langer, para o portal Pensar Contemporâneo, em 25/01/2017.

A ERA DO HUMANISMO ESTÁ TERMINANDO
por Achile Mbembe

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.


Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul).

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Revista Fórum: estudantes da FEA entram armados na faculdade e anunciam o início de nova era

O Hum Historiador abre espaço para repercutir uma matéria bastante preocupante divulgada no portal da Revista Fórum nessa segunda-feira (29), apenas um dia após o anúncio da eleição de Jair Bolsonaro.

A matéria denuncia que alunos da FEA entraram armados na faculdade, trajando uniformes militares, anunciando o início de uma “nova era”, na qual as “petistas safadas” devem temer.

Uma das fotos que circulou nas redes sociais difundindo a ação desses “estudantes da FEA” mostra quatro indivíduos, dois deles portando armas, um com camiseta do presidente estadunidense Donald Trump e, ao fundo, um carregando uma bandeira usada por movimentos fascistas, neonazistas, pela Ku Klux Klan e pela Supremacia Branca. Na frente, sobre a mesa, pequenos pedaços de papéis onde se lê “está com medo petista safada?” e “a nova era está chegando”. No quadro branco, atrás da bandeira se lê as inscrições “nova era” e ” B17″.

Abaixo segue o texto do jornalista Lucas Vasques na íntegra, tal como publicado na revista:

ESTUDANTES DA FEA ENTRAM ARMADOS NA FACULDADE E ANUNCIAM O INÍCIO DE NOVA ERA

por Lucas Vasques
para Revista Fórum – Publicado originalmente em 29/out/2018

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Estudantes da FEA posam para foto em uma sala de aula com uniformes militares e de armas em punho, ameaçando “petistas safadas” e anunciando uma “nova era”.  Foto: Reprodução

Estimulados pelo clima político atual e pela vitória de Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições presidenciais, um grupo de alunos da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) ingressou nas dependências da instituição armado. Estavam vestidos com roupa militar e camisetas em que se lia Trump, fotografaram salas de aula, fizeram uma espécie de performance, anunciando a chegada da “nova era” e fazendo ameaças: “As petistas safadas vão ter de tomar cuidado”.

A foto dos alunos circulou entre grupos de WhatsApp e pelas redes sociais e causou uma rápida reação tanto dos estudantes como da direção. Ainda na noite desta segunda-feira (29), uma reunião de alunos foi realizada para debater a questão.

“O caso é grave. A direção da faculdade e o Centro Acadêmico Visconde de Cairu divulgaram notas de repúdio e a direção se comprometeu a abrir sindicância para apurar os fatos. Além disso, vamos realizar nos próximos dias uma plenária entre estudantes, professores e e funcionários, com o objetivo de centralizar forças contra a violência. As manifestações de ideias divergentes podem ocorrer, mas sempre preservando o debate democrático, sem violência”, afirmou Rodrigo Toneto, estudante de mestrado de Economia e integrante do DCE Livre da USP.

Nota de repúdio do CAVC FEA-USP

A Gestão Delta do Centro Acadêmico Visconde de Cairu vem por meio desta nota mostrar sua indignação perante as demonstrações fascistas que têm ocorrido em nossa Universidade.

Na manhã desta segunda-feira (29), após o resultado das eleições presidenciais, uma foto bastante preocupante circulou pelos grupos de WhatsApp da comunidade FEAna. Na imagem, um conjunto de alunos em sala de aula da faculdade segura armas e cartazes com os dizeres “está com medo, petista safada?”; além disso, a imagem acompanha frases como “nova era” e “B17”, comemorando a vitória do candidato Jair Bolsonaro. Apesar do cunho eleitoral, não se trata de uma simples manifestação política: é um retrato misógino e violento, de caráter fascista, que ameaça os direitos democráticos da coletividade dos estudantes.

A foto faz parte de uma onda de extremismo e práticas violentas por todo país. Só em nossa Universidade, observamos também suásticas sendo pintadas na porta de residências estudantis e apologia à violência dentro dos campi. Diante deste cenário, é preciso que nós tenhamos posicionamento em nome da democracia e pela paz. Entendemos que a Universidade deve permitir a livre expressão e a militância política de seus associados, entretanto, posições contra os direitos humanos ou que propaguem o medo e a violência não devem, de forma alguma, ser toleradas. Devemos nos colocar por um país onde a manifestação política e o engajamento seja livre, e não motivo de ameaça e medo. Por um país onde pobres, mulheres, LGBTs, nordestinos, negros e negras e qualquer outra pessoa não se sintam ameaçadas dentro de seu próprio ambiente de ensino por pensarem de forma contrária ao governo. Devemos nos posicionar contra qualquer manifestação de cunho fascista que ponha em risco as liberdades democráticas.

Demonstrações de ódio como a presente na imagem são inadmissíveis em quaisquer contextos, principalmente dentro de uma sala de aula universitária. Nesse sentido, repudiamos a prática e aqueles responsáveis, e saudamos o posicionamento da instituição diante do ocorrido. Esperamos que o caso seja encaminhado com a seriedade devida.

Não podemos ficar calados diante de uma ameaça como esta.

Nós, estudantes, resistimos!

Nota de repúdio da direção da FEA-USP

A direção da FEA vem a público para repudiar as ações de incitação à violência que estão ocorrendo dentro do ambiente da USP e, particularmente, da FEA.

A Universidade existe como um campo de debate de inúmeros temas, inclusive o político, e a nossa tradição é pacífica. E queremos que assim continue, para todos, num ambiente em que a pluralidade seja uma prática real, politica, religiosa, de gênero ou outra perspectiva.

O período eleitoral foi tenso e as expectativas oscilaram com muita radicalização. Uma vez terminado o processo eleitoral, imagina-se que as acomodações ocorram e os ânimos sejam acalmados. Afinal a vida segue.

Em algumas situações algo que pode ser pensado como “brincadeira” pode ser o estopim para aumento da agressividade e mesmo ameaças. Isso é inaceitável pois queremos um ambiente em que a comunidade possa pensar, discutir, aprender e crescer. Truculência não faz parte desse cardápio seja qual for a sua forma de exteriorização.

Além de todos os esforços para manter integridade e paz no ambiente da FEA, ações que intimidem, ofendam e causem reações e danos serão rigorosamente coibidas e punidas.

Fábio Frezatti
Diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP

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Judeus e Muçulmanos se unem contra Bolsonaro

Em nota pública de oposição ao candidato Jair Bolsonaro, grupos de judeus e muçulmanos mostram como colocar as diferenças de lado por uma causa comum. Quatro coletivos de muçulmanos e seis coletivos de judeus assinam a nota, representando cerca de 15 mil pessoas.

Abaixo a íntegra do documento que foi divulgado pela revista Época no dia 05/08/2018.

JUDEUS E MUÇULMANOS UNIDOS: FASCISMO NÃO!

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Judeus e muçulmanos lançam nota pública contra Bolsonaro. Foto: Agência OGlobo

A cultura de tolerância religiosa é recente no Brasil. Nas raízes de nossa formação, encontra-se o massacre cultural imposto aos povos indígenas e africanos, obrigados a renunciar a suas crenças originárias e aceitar o poder dos senhores, aliados à estrutura da Igreja Católica. Com a tolerância advinda em meados do século passado, a partir do Concílio Vaticano II, uma nova onda de intolerância religiosa ganha ímpeto com o fanatismo de parte dos evangélicos neopentecostais, tendo como principais alvos as religiões de matriz africana.

Mesmo com os avanços legais que tornaram o Brasil um dos países mais avançados na criminalização do racismo e da discriminação religiosa, permanece em boa parte da sociedade brasileira o sentimento abafado do segregacionismo excludente. Na onda de ódio fomentada no país, nos últimos anos, a resistência cultural-religiosa desses povos passou a incomodar os setores de extrema direita, que passaram a ameaçar novamente a imposição de restrições às religiões não-cristãs, e a disseminar o medo.

Esse comportamento de uma parte da sociedade abre caminho ao cenário da ameaça fascista, solo fértil às hostilidades de raça, gênero e todas as demais discriminações sociais, hoje personificadas na figura de Jair Bolsonaro. Seu discurso deixa claro o intento de subjugar as minorias.

Os discursos de ódio, ironicamente, têm se aproveitado da liberdade de expressão, que não tem proteção contra a livre circulação de ideários fascistas.

Nós, muçulmanos e judeus, que conhecemos os horrores da islamofobia e do antissemitismo, temos a sensibilidade aguçada para perceber que, entre todas as barbaridades proferidas por este candidato, a mais emblemática, por atingir vários segmentos, foi a de que as minorias devem se curvar à maioria. Essa frase ecoa fundo no coração daqueles que sofrem diariamente a brutalidade do preconceito e da não aceitação, contrariando a nossa Constituição, que nos garante o direito de vivermos em um Estado Laico. As minorias religiosas se sentem ameaçadas em seus direitos à prática de seus cultos, e até mesmo, nas suas existências.

O discurso de ódio fomentou a união de muitos subsetores existentes nas mesmas minorias, e nos une contra o inimigo comum. Manifestamos o nosso mais profundo repúdio a todas as formas de intolerância que possam comprometer o convívio salutar dos cidadãos com todas as suas diferenças, sejam religiosas, de gênero, de cor ou de ideologia política. Ressaltamos que nossa luta não se restringe apenas à figura pessoal do candidato, mas a tudo que ele representa e todos os que reproduzem o seu discurso.

Nossa bandeira comum, como muçulmanos e judeus é barrar toda forma de violência, de preconceito e qualquer outro elemento que dê base ao projeto fascista desse homem e de seus seguidores.

Muçulmanos e judeus vão permanecer unidos depois das eleições de 2018. Nossa luta é perene, enquanto existirem nesse país sementes de fascismo, lá estaremos para tornar esse solo cada vez mais impermeável a esta ideologia.

ASSINAM ESTA NOTA PÚBLICA:

MUÇULMANOS CONTRA BOLSONARO

COLETIVO MUÇULMANAS E MUÇULMANOS CONTRA O GOLPE

MESQUITA SUMAYYAH BINT KHAYYAT – COMUNIDADE MUÇULMANA DE EMBU DAS ARTES-SP

MUÇULMANAS EM MANIFESTO CONTRA O FASCISMO

JUDEUS CONTRA BOLSONARO

FRENTE JUDAICA PARA OS DIREITOS HUMANOS

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O falso discurso dos extremismos

por Breno Leal Ferreira.

É falso o discurso, que já virou quase senso comum, de que o PT e o Bolsonaro são os extremos do espectro político.

Bolsonaro tem vocação autoritária e ditatorial. Não é um ditador (ainda), talvez não precise (dado a base de apoio que elegeu), mas não esconde um discurso extremista, contrário aos direitos de minorias (índios, negros, mulheres, LGBT, pobres e até animais) e profundamente desprovido de humanidade. Defende abertamente a tortura e a ditadura militar. Seus aliados falam em prender ministros do STF. Quer que seus adversários políticos sejam presos ou exilados. Nem nacionalista consegue ser: quer implementar um programa liberal na economia que nem Temer ousou, já disse que a Amazônia deve ser doada aos americanos e bateu continência à bandeira dos Estados Unidos.

Já em relação ao PT temos um passado a considerar. Acalmou o mercado financeiro com a “Carta ao Povo Brasileiro” (2002). Lula foi o “Lulinha paz e amor”. Seu governo não foi o de confronto de classes, mas o de conciliação de classes. Os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro quanto na época em que o partido ocupou a presidência. O BNDES apostou na política dos “campeões nacionais”, beneficiando grandes empresas nacionais. Lula e Dilma indicaram deram liberdade de investigação à Polícia Federal. Com seu republicanismo, indicaram ministros ao STF que foram responsáveis pela prisão de boa parte de sua própria cúpula (em processos altamente duvidosos, mas não cabe aqui discuti-los), além da chancela da destituição de Dilma e da prisão (também baseada em um processo discutível) do próprio Lula. O partido venceu democraticamente quatro eleições presidenciais seguidas.

Longe de qualquer comunismo, o PT fez algo próximo de um governo trabalhista, de centro-esquerda. Foi qualquer coisa menos extremista. Nem mesmo seu discurso é extremista. Já não se pode dizer a mesma coisa de Bolsonaro.

Breno Leal Ferreira atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado do IFCH-UNICAMP. Doutor e mestre em História Social pela FFLCH-USP.

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PT e o número de homicídios no Brasil

Em conversas e discussões pelas redes sociais é muito comum nos depararmos com pessoas afirmando que a violência e, especialmente, o número de homicídios no Brasil dobrou durante os governos petistas. Mais que isso, o argumento vem acompanhado de um ataque ao estatuto do desarmamento, em vigor desde 2003.

Pesquisando sobre o tema e buscando me informar acerca dos números dos homicídios no Brasil durante as últimas quatro décadas, encontrei o post abaixo, publicado na página do Movimento Economia Pró-Gente (Facebook) nessa última sexta-feira (19). Achei-o bastante elucidativo, razão pela qual estou repercutindo a íntegra do mesmo aqui no Hum Historiador.

É VERDADE QUE O PT DOBROU O NÚMERO DE HOMICÍDIOS NO BRASIL?
publicado na página do Movimento Economia Pró-Gente do Facebook – 19/10/2018

Taxa de homicídios no Brasil 1985-2015

Está circulando nas redes sociais que o número de homicídios no Brasil dobrou durante o governo do PT. Também tem uma versão parecida, de que o número de homicídios teria dobrado depois do Estatuto do Desarmamento, o que não muda muito, já que o Estatuto foi aprovado no fim de 2003, primeiro ano do governo Lula. Em nenhum lugar aparecem as fontes dessas informações. Aqui vão os números reais, retirados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), com os links para os dados no fim do texto.

Em 2003, primeiro ano do PT na presidência e último ano antes do Estatuto do Desarmamento, ocorreram 51.043 homicídios no Brasil. Em 2015, último ano completo de governo petista, foram 58.138 homicídios. Realmente aumentou, mas está muito longe de ter dobrado. Mais do que isso: esse aumento seguiu mais ou menos o aumento da população. Quando olhamos para a taxa de homicídios por 100 mil habitantes, medida mais utilizada mundialmente para medir o nível de violência, passamos de 28,56 em 2003 para 28,94 em 2015. Ou seja, durante os governos petistas a taxa de homicídios cresceu, em média, 0,1% ao ano.

E antes do Estatuto do Desarmamento e do PT, o que tava acontecendo com a criminalidade no Brasil? De 1980 a 1985, últimos anos da Ditadura Militar, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes cresceu em média 4,8% ao ano. De 1985 (quando voltamos a ter um governo civil) até 2003, essa taxa cresceu 3,7% ao ano. Ou seja, durante os governos anteriores ao PT e, principalmente, durante a ditadura, a violência só aumentava. Foi justamente com a aprovação do Estatuto do Desarmamento que a taxa de homicídios parou de crescer e, inclusive, caiu nos primeiros anos.

O argumento de que o Estatuto do Desarmamento incentiva o crime não se sustenta quando se olham os verdadeiros dados sobre homicídio.

Fontes dos dados:

População: IBGE – Projeção da População do Brasil por sexo e idade: 1980-2050 – Revisão 2008
https://ww2.ibge.gov.br/…/projecao_da_pop…/2008/default.shtm

Número de mortes por arma de fogo: Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM (MS/SVS/CGIAE)
http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205

Foram usadas as seguintes categorias da Classificação Estatística Internacional de Doenças:

1980-1995 (CID9)
Total de homicídios: E960 a E965
Homicídios por arma de fogo: E965

1996-2016 (CID10)
Total de homicídios: X85 a Y09
Homicídios por arma de fogo : X93, X94 e X95

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Instituto Vladimir Herzog se posiciona publicamente contra a candidatura de Jair Bolsonaro

Com o título de Porque ele não, o Instituto Vladimir Herzog lançou um manifesto no qual afirma que o candidato Jair Bolsonaro é uma ameaça à democracia. Publicado em 6 de outubro de 2018, o texto pede a “todos aqueles que dão valor ao Estado de Direito” que evitem votar no candidato….”.

Conforme noticiado no portal UOL, o instituto ainda destacou o risco de discursos de “ódio, autoritarismo e preconceito, antes tímidos e reservados à vida privada, tomarem as ruas e as redes para cultuar e se reificar em Jair Bolsonaro”.

Segue a íntegra do texto conforme publicado no site do Instituto Vladimir Herzog.

PORQUE ELE NÃO
publicado por Giuliano Galli em 6 de outubro de 2018

SECRETÁRIO/RIO

Estamos vivendo uma conjuntura política e eleitoral repleta de problemas. O presidente em exercício não foi eleito para a função que ocupa e, desde então, o país vem sendo reiteradamente acometido por uma brutal limitação de direitos sociais e uma impressionante escalada de desemprego, pobreza e violência.

Nesse cenário de retrocessos e ameaças, assistimos a discursos de ódio, autoritarismo e preconceito – antes tímidos e reservados à vida privada – tomarem as ruas e as redes para cultuar e se reificar em Jair Bolsonaro – uma figura indiscutivelmente controversa e despreparada para assumir o complexo e delicado desafio de liderar um país imerso na, possivelmente, mais dramática crise política, econômica e social de sua história.

Jair Bolsonaro é um militar da reserva. Atualmente, compõe o quadro do Partido Social Liberal (PSL), mas já foi filiado a outras oito siglas diferentes. É deputado federal desde 1991 e, nesses 27 anos, teve apenas dois Projetos de Lei aprovados. Se apresenta como “algo novo”, mas, na verdade, é mais um político profissional, de carreira, que trabalha para eleger seus filhos, usufruir de privilégios e disseminar ódio, autoritarismo e preconceito.

Despreza mulheres, negros, indígenas, homossexuais e todos os que lutam em defesa dessas pessoas. Acredita, literalmente, que as minorias têm que se curvar às maiorias e se adequar ou, simplesmente, desaparecer.

É um entusiasta da ditadura que assolou o país entre 1964 e 1985. Para ele, o erro do regime militar foi apenas torturar – e não matar mais cidadãos. Contumaz defensor da tortura, tem como ídolo Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador confesso e o único brasileiro condenado por essa prática que é, em todo o mundo, considerada um crime contra a humanidade.

Enquanto parlamentar, foi o único a votar contra a emenda constitucional que garantiu às empregadas domésticas direitos básicos, como controle da jornada de trabalho e pagamento de hora extra.

Como se não bastasse, o vice em sua chapa na corrida presidencial, o general Antônio Mourão, tem, repetidamente, colocado em risco o 13º salário e a Constituição de 1988, tendo dito, inclusive, que “uma nova Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo”.

O fato é que a candidatura de Jair Bolsonaro coloca a jovem e frágil democracia brasileira sob um iminente risco. E, na medida em que se configura numa garantia de respeito aos direitos, de expressão da pluralidade de ideias, de retificação dos caminhos equivocados e de isonomia na punição dos erros, a democracia deve ser valorizada e defendida por todos os cidadãos.

Não há regimes alternativos à democracia que sejam aceitos majoritariamente na discussão política contemporânea e formas autoritárias de governo não se sustentam e tendem a ficar isoladas.

Não podemos aceitar um projeto autoritário de governo, que se vangloria de proferir discursos machistas, misóginos, racistas, xenofóbicos e discriminatórios, e que nega a existência de um passado autoritário e excludente em nosso país.

Por tudo isso e por acreditar em um ideal de nação que preze pela liberdade, pela convivência plural e pelo respeito mútuo, o Instituto Vladimir Herzog se posiciona publicamente contra a candidatura de Jair Bolsonaro e convoca todos aqueles que dão valor ao Estado de Direito a, neste domingo, manifestarem nas urnas o repúdio a esse projeto que, definitivamente, não converge para um país mais justo e socialmente responsável.

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