Tiago Mitraud e o negócio da educação

Tiago Lima Mitraud, deputado federal pelo NOVO-MG. Foto: João Victor Moura de Medeiros, disponível em Wikipedia.

Em artigo recentemente publicado pelo deputado Tiago Mitraud (NOVO-MG) no Nexo Jornal, o parlamentar vem à público defender que é preciso quebrar o que ele considera ser um “tabu” de que a educação pública precisa, necessariamente, ser estatal. Segundo Mitraud, fora do Brasil já seria uma realidade a educação pública oferecida pela rede privada, citando a Holanda como exemplo dessa opção de financiamento da educação básica. Para reforçar sua argumentação, menciona nas entrelinhas de seu artigo o ranking Pisa – um estudo realizado pela OCDE em diferentes países para medir o rendimento dos alunos em matemática, ciência e interpretação de texto – para afirmar que o Brasil investe mal os altos recursos públicos destinados à educação, concluindo, em seguida, se tratar de uma “ilusão” acreditar que o “Estado tem margem orçamentária” para aumentar o volume de recursos investido na educação básica.

Ora, para começarmos a discussão, devemos considerar que, ao contrário do que afirma o Mitraud, dentre os países no topo do ranking Pisa, a Finlândia, campeã do ranking há vários anos, tem seu financiamento todo bancado pelo Estado; já a Coréia do Sul, vice colocada, tem feito vultuosos investimentos estatais há mais de uma década, chegando a destinar 5% do PIB (mais de US$ 45 bilhões) na formação de professores, investimento em material de apoio e melhoria da estrutura, exatamente na contramão do que defende o deputado Tiago Mitraud.

Já no Canadá, terceiro colocado no ranking Pisa, seu sistema altamente descentralizado apresenta províncias nas quais 94% dos alunos estão matriculados em escolas públicas. Este é o caso de Ontário, por exemplo, que concentra 40% da população canadense. Segundo reportagem do El País, o orçamento destinado à educação infantil (primária e secundária) pelo Ministério da Educação de Ontário em 2018 foi equivalente a R$ 77,8 bilhões. Na província de Manitoba, por exemplo, as escolas públicas operam diretamente sob a tutela do Ministro da Educação da província e são financiadas por uma combinação de financiamento provincial direto e tributos especiais.

No Japão, país que aparece em quarto lugar na relação do Pisa, os recursos investidos pelo Estado no ensino público passam por uma gestão mais rigorosa. O volume de investimento é menor do que dos outros países citados acima (3,3% do PIB), mas a infraestrutura educacional é mais enxuta, o que permite maiores salários para os profissionais da educação. Lá os salários são pagos pelo governo federal em conjunto com a administração de cada província.

Portanto, trata-se de uma premissa falsa aquela utilizada pelo nobre deputado para defender a entrada da iniciativa privada no financiamento da educação pública básica brasileira. Falsa, pois nos países referenciais quanto à qualidade da educação pública, a maioria adota um sistema de financiamento público, gerido pelo Estado, quer em sua esfera federal, quer na estadual ou ambas. Ao contrário do que defendeu Mitraud, esses países referenciais investem pesadamente na estrutura escolar (professores, materiais de apoio, escolas, água, luz, etc.), entendendo os gastos na educação como investimento, e não como custo do Estado.

Aliás, é na parte final de seu artigo que o deputado Mitraud mostra claramente suas ideias de financiamento da educação pública e a quem ela serve. Segundo o parlamentar, a abertura do financiamento da educação pública à iniciativa privada permitirá que recursos como o do Fundeb (Fundo de Manutenção da Educação Básica e Valorização dos Profissionais de Educação) poderão financiar bolsas de estudo em escolas da rede privada (vouchers) e contratar escolas conveniadas para atender alunos da rede pública (charter schools). Ora, tal projeto visa transferir, diretamente, recursos públicos para instituições privadas e enriquecer um punhado de empresários ligados ao ramo da educação. (Nunca é demais lembrar, a propósito, que a família do atual ministro da economia, Paulo Guedes, possui investimentos no ensino privado). Na tentativa de justificar/legitimar sua proposta, Mitraud cita como exemplo de parceria público privada na educação o Prouni (Programa Universidade Para Todos), criado em 2005 durante a gestão do presidente Luís Inácio Lula da Silva. O deputado se esquece que, no campo progressista, essa tem sido uma das fortes críticas feitas à opção de financiamento do ensino superior adotado durante as gestões petistas. O principal descontentamento é, justamente, que o governo passou a enriquecer pequenos grupos de empresários ligados ao ensino privado, transformando a educação superior em um negócio altamente lucrativo em detrimento da qualidade dos cursos. Os governos Lula/Dilma, nesse sentido, teriam impulsionado a criação de universidades nas quais os títulos são comprados em suaves prestações em três ou quatro anos.

Pior que o uso indevido do Prouni para justificar sua proposta é a exposição clara que o deputado tem do financiamento da escola pública pelo Estado. Aqui não há pudores em expor o liberalismo. Para Mitraud,

“Quando investimos na construção de mais estrutura estatal, estamos aumentando nossos gastos com custeio para as próximas décadas […] mais escolas estatais significam mais professores na folha de pagamento, mais contas de água e luz, e, consequentemente, mais custeio no orçamento do Estado. Considerando a queda na taxa de natalidade no país, seria investir bilhões em uma estrutura permanente que ficaria em desuso rapidamente”.

Fica evidente a visão do deputado da escola pública como um “custo” que onera o Estado, sendo os principais gargalos aqueles qualificados como estruturais, tais como a folha de pagamento dos professores, água e luz. Percebam, tudo isso vem exatamente na contramão do que os países referenciais no que tange a qualidade da educação básica têm feito.  Como vimos, Finlândia, Coréia do Sul, Canadá e Japão estão, justamente, aumentando os investimentos em estrutura, investindo na formação dos professores e gerindo, eles mesmos, os recursos destinados à educação.

Percebe-se, então, que a proposta de educação pública defendida por Tiago Mitraud visa atender a grupos específicos, isto é, grupos de investidores e empresários ligados ao ramo da educação privada que querem entrar no negócio da educação. Não basta mais as universidades ou os materiais didáticos. Querem abocanhar um público que, segundo o próprio parlamentar, seria de 40 milhões de estudantes de ensino básico matriculados nas escolas públicas. É disso que se trata toda essa discussão, e não da melhoria da qualidade de ensino de nossas crianças e jovens, como o deputado quer fazer parecer.

1 comentário

Arquivado em Brasil, Educção, Sem categoria

Maria Betânia escreve carta aberta para Lula

Um artigo atribuído a uma mulher chamada Maria Betânia está circulando amplamente nas redes sociais (Facebook e WhatsApp). Em formato de carta aberta, Betânia (que não é a cantora) dirige-se ao presidente Luís Inácio Lula da Silva de forma bastante afetuosa, dizendo que, a despeito dos erros que ele possa ter cometido durante sua gestão e na escolha de sua sucessora, ela não soltará da mão dele, pois “suas virtudes são muitas e intensas”, entendendo o presidente como um homem “extraordinário”.

Abaixo segue a íntegra do texto, tal como está circulando hoje (28/04) nas páginas do Facebook.

DE MARIA BETÂNIA PARA LULA
LULA, EU NÃO SOLTO DA SUA MÃO…

“‘Lula tá preso babaca’ não é um bordão, é uma constatação”

Luis Inacio Lula da Silva durante entrevista a Folha de S. Paulo e El País, em 26/04. FOTO: Isabella Lanave para El País.

Mas…antes de mais nada, eu preciso lhe dizer uma coisa que talvez vc não goste.

Eu não tenho por você nenhuma idolatria como muita gente tem. Eu não penso que vc seja perfeito e só tenha virtudes. Eu não acho que você seja ingênuo, puro, inocente em tudo o que você faz. Eu não acho que você só tenha tido acertos na sua vida e no seu governo. Eu não acho que a sua vida política não tenha máculas . Eu não posso dizer que eu tenha ficado satisfeita com o seu governo, sobretudo, no segundo mandato. Eu não gostei da escolha de Dilma para lhe suceder (votei nela para o segundo mandato. Não votei para o exercício do primeiro. Porém, a visão que hj tenho dela é de uma pessoa grandiosa em vários aspectos… mas isso é assunto para outro momento…)

Enfim, Lula, acho que você tem a capacidade de driblar os seus defeitos. Contudo, o você não tem em uma escala incomensurável é a capacidade de não esconder as suas virtudes.

E você tem essa capacidade não porque vc seja alguém egocêntrico…e até é…mas é porque suas virtudes são muitas e são intensas.

Elas fogem ao seu controle e quando você fala você deita e rola no tapete das virtudes, deixando muito gente admirada, outras encantadas e muitas outras com raiva. Uma raiva que vem da inveja de não ser como você é: inteligente, espirituoso, perspicaz, disposto, ousado, cheio de si para o outro, afetuoso, atento, inspirado, inspirador e resiliente.

Ser tudo isso de uma só vez ou destacar uma dessas virtudes no momento certo não é algo comum. Não é todo mundo que consegue, sabe? Isso é extraordinário!

Você, sem dúvida, foge ao comum: não é um homem mediano, muito menos medíocre. E mais do que tudo, você não é um homem mau. Você não é um homem perverso. Você não é cínico.

Penso que os erros que você cometeu ao longo de sua vida…não sei se todos eles, mas certamente muitos dos que você cometeu no seu governo, não decorreram de uma intencionalidade mas da ousadia, da coragem de correr riscos na busca de um bom acerto.

Você é um homem extraordinário, Lula!

Mesmo que nesses processos ajuizados contra você existam provas daquilo que lhe acusam (coisa que eu estou convencida que não tem…em outros processos que possam ainda ser ajuizados, talvez, mas nesses que lhe levaram à condenação…) bom, mesmo na hipótese de você ter alguma culpa comprovada judicialmente, eu estou certa de que a prisão não é o seu lugar.

Ao acompanhar a entrevista que você concedeu ontem a Mônica Bergamo e Florestan Fernandes Junior, Lula, você deu mostras de uma grandeza que somente os seres humanos cientes de suas fragilidades e dispostos a superá-las, podem ter.

Você manteve a sua cabeça erguida, você demonstrou sofrer, você assumiu lutar contra as mágoas que invadem seu coração, você lançou desafios e você espontaneamente respondeu à inquietante pergunta de Mônica Bergamo com uma firmeza admirável.

Quando ela lhe questionou sobre a possibilidade de você nunca sair da prisão, você, Lula, nem deu ao tempo e logo retrucou afirmando que isso não era problema.

Isso me impactou!

E lógico que você tem razão: ficar o resto da vida preso não é um problema para quem, há alguns anos já sem governar – ainda é chamado por simpatizantes e opositores de: Presidente e para quem sobreviveu até aqui a tantas dores…

Não! Você está, dolorosamente, certo.

O problema não é exatamente o tempo que você vai ficar preso, Lula, embora isso seja também um… tempo não é o cerne do problema; o cerne é você ter sido preso da forma que foi e estar sendo mantido nessa situação da forma que está sendo…

O problema é subtraírem do BR a dignidade de todo o povo, aprisionando a sua pessoa.

O problema é jogar o BR numa vala comum, querendo que você caía nela.

O problema é não saber que fazer Justiça não é cultivar ódio ou não saber superar frustração e agir como quem se vinga. Só os medríocres, só os seres medianos sem sensibilidade alguma misturam Justiça com vingança. Esses são os recalcados, os que se condenam a si próprios e que por falta de coragem de assumirem ser o que são atraem para o fosso fétido no qual se movem, todos aqueles que não distinguem o chão do buraco que nele se abre.

Você, não, Lula!

Como você sempre pisou o chão saltando os buracos, você criou “asas”: voou e vislumbrou horizontes onde ninguém conseguiu visualizar.

Você continua nesse vôo de descobertas, Lula. E nesse trajeto você preserva sonhos.

Eu quero voar junto, eu quero preservar sonhos para o BR.

Eu quero que o meu país tenha a possibilidade de realizá-los.

Eu quero que todos os brasileiros possam alçar voos para chegarem no horizonte que você enxerga.

Por isso, Lula, eu não solto a sua mão. Ela está para além das grades.

Um afetuoso aperto de mão seguido de um grande abraço.

Maria Betânia

4 Comentários

Arquivado em Internet, Música, Política

ANPUH-SP emite nota de repúdio a declarações do ministro da educação e do presidente da República

O Hum Historiador repercute a nota de repúdio divulgada ontem (26) pela página da ANPUH-SP nas redes sociais.

NOTA DE REPÚDIO A DECLARAÇÕES DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO E DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA SOBRE AS FACULDADES DE HUMANIDADES, NOMEADAMENTE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA

A Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF) e associações abaixo mencionadas repudiam veementemente as falas recentes do atual presidente da república e de seu ministro da educação sobre o ensino e a pesquisa na área de humanidades, especificamente em filosofia e sociologia.

As declarações do ministro e do presidente revelam ignorância sobre os estudos na área, sobre sua relevância, seus custos, seu público e ainda sobre a natureza da universidade. Esta ignorância, relevável no público em geral, é inadmissível em pessoas que ocupam por um tempo determinado funções públicas tão importantes para a formação escolar e universitária, para a pesquisa acadêmica em geral e para o futuro de nosso país.

O ministro Abraham Weintraub afirmou que retirará recursos das faculdades de Filosofia e de Sociologia, que seriam cursos “para pessoas já muito ricas, de elite”, para investir “em faculdades que geram retorno de fato: enfermagem, veterinária, engenharia e medicina”. O ministro apoia sua declaração na informação de que o Japão estaria fazendo um movimento desta natureza.

De fato, em junho de 2015 o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão enviou carta às universidades japonesas recomendando que fossem priorizadas áreas estratégicas e que fossem cortados investimentos nas áreas de humanidades e ciências sociais.

Após forte reação das principais universidades do país, incluindo as de Tóquio e de Kyoto (as únicas do país entre as cem melhores do mundo), e também da Keidanren (a Federação das Indústrias do Japão) – que defendeu que “estudantes universitários devem adquirir um entendimento especializado no seu campo de conhecimento e, de forma igualmente importante, cultivar um entendimento da diversidade social e cultural através de aprendizados e experiências de diferentes tipos” – o governo recuou e afirmou que foi mal interpretado.

A proposta foi inteiramente abandonada quando o ministro da educação teve de renunciar ao cargo, ainda em 2015, por suspeita de corrupção. Da forma como o ministro Abraham Weintraub apresenta o caso trata-se, portanto, de uma notícia falsa.

O ministro foi seguido pelo presidente, que mencionou que o governo “descentralizará investimentos em faculdades de filosofia”, sem especificar o que isto significaria, mas deixando claro que se trata de abandonar o suporte público a cursos da área de humanidades, nomeadamente os de Filosofia e de Sociologia. O presidente indica que investimentos nestes cursos são um desrespeito ao dinheiro do contribuinte e, ao contrário do que pensa a Federação das Indústrias do Japão, afirma que a função da formação é ensinar a ler, escrever, fazer conta e aprender um ofício que gere renda.

O ministro e o presidente ignoram a natureza dos conhecimentos da área de humanidades e exibem uma visão tacanha de formação ao supor que enfermeiros, médicos veterinários, engenheiros e médicos não tenham de aprender sobre seu próprio contexto social nem sobre ética, por exemplo, para tomar decisões adequadas e moralmente justificadas em seu campo de atuação. Ignoram que os estudantes das universidades públicas, e principalmente na área de humanidades, são predominantemente provenientes das camadas de mais baixa renda da população. Ignoram, por fim, a autonomia universitária, garantida constitucionalmente, quando sugerem o fechamento arbitrário de cursos de graduação.

Uma das maiores contribuições dos cursos de humanidades é justamente o combate sistemático a visões tacanhas da realidade, provocando para a reflexão e para a pluralidade de perspectivas, indispensáveis ao desenvolvimento cultural e social e à construção de sociedades mais justas e criativas.

Seguiremos combatendo diuturnamente os ataques à universidade pública e aos cursos de humanidades movidos pelo ressentimento, pela ignorância e pelo obscurantismo, também porque julgamos que esta é uma contribuição maiúscula da área de humanidades para o melhoramento da sociedade à nossa volta.

Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR)
Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE)
Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE)
Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd)
Associação Brasileira de Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias (ESOCITE)
União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil)
Associação Nacional de História (ANPUH)
Centro de Investigaciones Filosóficas (CIF/Argentina)
Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP)
Fórum Nacional de Diretores de Faculdades, Centros de Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas Brasileiras (FORUMDIR)
ODARA – Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade
Associação Brasileira de Antropologia (ABA)
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde – Cebes
Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC)
Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR)
Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR)
Asociación Costarricense de Filosofía (Acofi)
Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP)
Sociedade Brasileira de Ensino de Química (SBEnQ)
Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope)
Associação dos Professores da UDESC (Aprudesc – ANDES-SN)
Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (FORPIBID)
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM)
Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP)

2 Comentários

Arquivado em Brasil, Educção, Universidade

Nordeste, filosofia, sociologia: o pensamento contra a deseducação

por Marcos Silva – publicado originalmente em 10/04/2019 no portal GGN

Jair Bolsonaro (esquerda) e o novo ministro da Educação, Abraham Weintraub. FOTO: Valter Campanato Agência Brasil.

O economista Abraham foi nomeado para o Ministério da Educação por Carlos (perdão pelo cacófato!) e em fala anterior ao ato, agiu como se mudasse antecipadamente o nome do órgão para Ministério da Deseducação: anunciou e garantiu que o Nordeste brasileiro não deveria se dedicar a Filosofia nem a Sociologia, e sim a convênios com Israel no campo da Agronomia.

É um trajeto de velocidade espantosa, entre Hermes/Mercúrio (que também cuidava de negócios, embora fosse mais sábio, promovesse relações entre povos, não apenas com um povo) e o personagem de quadrinhos e cinema Flash.

Em termos geográficos, onde é mesmo que se pensa?

Em qualquer lugar! Europa, França e Bahia, na antiga metáfora popular.
E quem escolhe como pensar?
Os Pensadores!
Quem são esses Pensadores?
Todas as mulheres e todos os homens do mundo!

Ministério da Educação (ou da Deseducação, como Abraham parece preferir) pode contribuir para o Pensamento com verbas e profissionais da primeira área (a Deseducação fica a cargo de qualquer burocrata), jamais com normas definidoras de áreas e tarefas. Ministério da Deseducação não pensa no lugar dos outros.

Alguns homens e mulheres, naquela parte do Brasil que costumamos designar como Nordeste, pensaram filosófica e sociologicamente sem autorização de Abraham, bem antes de seu nascimento. Houve mesmo quem se antecipasse ao conceito de Nordeste, às universidades propriamente ditas (mais que soma de unidades de ensino superior dedicadas a diferentes especialidades) e, já no século XIX e no começo do século XX – quando as regiões geográficas começavam a ser discutidas sistematicamente e os cursos de ensino superior no Brasil antecipavam universidades ao abordarem Filosofia e Sociologia nos quadros de Direito, Medicina e Engenharia -, ousasse filosofar ou sociologizar. Sylvio Romero (1851/1914), advogado, foi um deles, escreveu sobre uma cultura brasileira que mesclava elementos portugueses, africanos e indígenas. Manoel Bomfim (1868/1932), médico, combateu o racismo ao debater a História do Brasil nos quadros da América Latina, e comentou criticamente a Educação na sociedade republicana. Depois, já no tempo de região e universidade mais consolidadas, vieram Gilberto Freyre (1900/1987), graduado em Artes Liberais nos EEUU, que falou sobre africanos como formadores do Brasil; Nise da Silveira (1905/1999), médica, que articulou o trabalho terapêutico em Psiquiatria com Arte e Trabalho, tratando loucos com dignidade; Josué de Castro (1908/1973), médico, que mapeou fome e sociedade, saber de combte; Celso Furtado (1920/2004), advogado, que repensou Economia e Região; e Paulo Freyre (1921/1997), advogado, que ressignificou a Educação no universo popular São Pensadores tão diferentes cada um do outro, tão insistentes em percorrerem Sociologias e Filosofias, referências para universidades no Brasil e no mundo! E até hoje, inúmeros outros Pensadores nordestinos transitam por Filosofia, Sociologia e mais campos de saber em seu trabalho cotidiano, agora com cursos específicos, sem estribos governamentais sobre como pensar. Filosofia e Sociologia existem no Nordeste porque os Nordestinos (como os demais homens e mulheres do mundo) pensam!

Não estamos diante de ecletismo ou indefinição intelectual. Quando advogados, médicos e outros profissionais apelam para Filosofia e Sociologia, apenas demonstram que possuem rigorosa formação universitária.

O que é mesmo uma Universidade?

Mais que aglomerado de cursos e tarefas, universidades são conjuntos de núcleos de estudos sobre múltiplos saberes, articulados uns aos outros.

Cada campo de conhecimento está na universidade porque precisa dos outros e é invocado pelos demais.

E o que é mesmo Nordeste?

Existe uma região que é definida administrativamente – órgãos e verbas governamentais, respectivos poderes.

Outra que é invocada ideologicamente, justificativa para práticas de poder.
E também outra nasce inventada pelo preconceito, em nome de dominação e atos de excluir.

Mas não é possível esquecer a região recuperada por dominados e preconceituados, contra essa prática, como afirmação de poderes alternativos e críticos, presente tanto no cotidiano dos designados como paraíbas ou baianos quanto na produção artística reflexiva.

O Nordeste de administração e ideologia pode dispensar Filosofia e Sociologia porque essa é sua lógica instrumental e produtora da ignorância. Algo semelhante ocorre no mundo do preconceito, alheio ao Pensamento. Mas o Nordeste crítico, dos preconceituados, contra os dominantes, reivindica para si aqueles e outros universos de Pensamento porque… pensa.

Nordeste não é apenas um lugar físico do mapa, é um universo de homens e mulheres portadores de culturas que são mais que região e estão além daquele recorte. Nordestinos estão em New York e Paris, assim como New York e Paris estão nos Nordestes – textos, imagens, danças, cantos, lutas… E regiões não apagam Gêneros, Classes Sociais, Etnias e tantas outros faces de experiências humanas.

O desejo de Abraham não sobreviverá ao fazer crítico dos Nordestes. Filosofia e Sociologia existem ali porque os Nordestinos pensam, contra a Deseducação governamental e preconceituosa.

Convênios universitários podem e devem ser feitos com todos os países, inclusive Israel e Autoridade Palestina. Convênio não é parasitismo: existem pesquisas no Brasil sobre irrigação e outros campos de Agronomia. O Nordeste recebe pesquisadores estrangeiros nessa e noutras áreas de estudos e envia seus pesquisadores para tantos outros país. Existem Filósofos e Sociólogos em diferentes universidades do Nordeste brasileiro e do resto do planeta, assim como Físicos, Linguistas, Historiadores, Psicólogos e demais pensadores gabaritados.

Todo apoio aos convênios entre as universidades brasileiras nordestinas (e de outras regiões do país) e suas congêneres do mundo inteiro. Universidade é para isso mesmo, para ser universo.

Marcos Silva é professor no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

Deixe um comentário

Arquivado em Brasil, Educação, Internet, Política

Os 500 anos da circum-navegação de Magalhães e o terraplanismo

Por Luiz Felipe de Alencastro para o Portal UOL em 26/03/2019

Divulgação

Pôster internacional do filme “Terra Plana”, da Netflix. Imagem: Divulgação.

Há quase quinhentos anos, no dia 20 de setembro de 1519, uma frota de 5 navios comandada pelo português naturalizado espanhol Fernão de Magalhães zarpava de Sanlúcar de Barrameda, o grande porto marítimo andaluz, no sul da Espanha, para efetuar a primeira viagem de circum-navegação terrestre.

Como se sabe, nascido em Portugal, Magalhães se naturalizou espanhol e estava a serviço da Coroa espanhola quando iniciou seu périplo para chegar nas Ilhas das Especiarias (Molucas) navegando pelo Oeste e evitando a rota do Cabo cursada pelos portuqueses. Atravessando tempestades, calmarias e motins de marinheiros e oficiais compreensivelmente revoltados com as incertezas da rota, Magalhães cruzou o estreito que ganhou seu nome, entrou no Pacífico, e chegou às Filipinas.

Alí, em 1521, foi morto num combate pelo chefe Lapu-lapu que se tornou herói nacional filipino após da independência do país (1898), até então colônia espanhola. Elcano, capitão espanhol, levou um dos navios da frota de Magalhães de volta a Sanlúcar de Barrameda, completando assim a primeira volta ao mundo. Malgrado o avanço da ciência da época, ainda predominava a geografia de Ptolomeu que postulava a existência de um só oceano circundado de terras.

Magalhães e Elcano batizaram o Oceano Pacífico e enterraram de vez a geografia formulada na Grécia antiga. Agora, Portugal e Espanha disputam a primazia da celebração do quinto centenário da célebre e tormentosa viagem que mudou a história mundial.

Todavia, o fato mais impressionante do quinto centenário da prova definitiva da esfericidade do planeta é o retorno das ideias afirmando que a terra é plana. Sempre houve gente que desconsiderou a viagem de Magalhães-Elcano, o heliocentrismo, os milhares de percursos transoceânicos de navios e aviões, a órbita dos satélites, a viagem do homem à Lua, os traçados dos GPS, para aderir ao terraplanismo. Mas agora o movimento se avolumou e aparece como um componente importante das teorias conspiracionistas que pululam na mídia social. Um documentário dirigido por Daniel J. Clark, “A Terra é plana” (Behind the curve), apresentado na Netflix, retrata os terraplanistas americanos com boa fé e pertinência. Eles poderiam até reivindicar uma filiação com a geografia ptolomaica, visto que seus mapas apresentam a Terra como um gigantesco disco circundado por uma barreira de gelo que seria a Antártica.

Como apontam os especialistas consultados no filme, as entrevistas e os estudos realizados em várias universidades, o terraplanismo, baseado no conhecimento intuitivo e autorreferente, agrega outras teorias conspiracionistas. Tudo indica que o renascimento e a expansão do movimento devem-se às mídias sociais e sobretudo ao YouTube. Ou seja, a teoria sobre a terra plana não vai acabar nunca.

Deixe um comentário

Arquivado em Educção, Internet, Sem categoria

Vélez Rodriguez e a faxina ideológica

por Milena Natividade

Faxina Ideologica

Chamada da Revista Veja para a entrevista concedida pelo atual Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, a Gabriel Castro e Maria Clara Vieira. Foto: Cristiano Mariz.

Ler criticamente a entrevista que o atual Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, cedeu à revista Veja é tão importante quanto analisar a fotografia que abre a matéria.

Vemos em primeiro plano a imagem, levemente embaçada, de uma pilha de livros. A identificação das obras exige alguma familiaridade com a historiografia: encontra-se empilhada a coleção de livros da UNESCO. A imagem desfocada é uma referencia sutil à coleção de História Geral da África, projeto que levou mais de 30 anos para ser construído e que busca tornar acessível ao público a longa, diversificada e complexa história do continente africano. A edição em português foi lançada durante o mandato de Fernando Haddad como ministro da Educação. Curiosamente, a lombada desses livros está voltada para nós, observadores, e não para Rodriguez, que se encontra em segundo plano na fotografia.

Além dele, em segundo plano também vemos outra pilha de livros. A composição dessa pilha, sobre a qual o ministro se apoia (se sustenta, se fundamenta), lembra uma pirâmide invertida. Sabemos que construções assentadas em bases instáveis não se mantém de pé por muito tempo, são fáceis de derrubar, desconstruir. Os livros dessa pilha não são exibidos para nós, observadores. As referências sobre as quais o atual ministro da Educação (literalmente) se apoia não são exibidas nem citadas.

Após a leitura da entrevista, fica evidente como nesse caso imagem e texto estabelecem uma relação de complementaridade de significados. Destaco dois dos vários excertos que confirmam a falta de embasamento sólido dos argumentos de Vélez Rodriguez.

Sobre a Universidade não ser para todos:

“Em nenhum país a universidade chega para todos, ela representa uma elite intelectual, para a qual nem todo mundo está preparado ou para a qual nem todo mundo tem disposição ou capacidade. Universidade não é elite econômica nem elite sociológica”.

Como se acesso à universidade, sobretudo pública e gratuita, fosse democrático e estivesse no horizonte de possibilidade para todos os grupos sociais. Os filtros que selecionam quem vai pertencer a tal “elite intelectual” não é só o vestibular, mas também são os de raça, classe, gênero.

Já sobre o fim das cotas, diz o ministro:

“As cotas são uma solução emergencial e, como tudo no Brasil, o provisório vira definitivo […] Quatro anos é pouco tempo. Mas tenho certeza de que, se fizermos o dever de casa, meu sucessor conseguirá iniciar esse processo”.

Se realmente as cotas são políticas de inclusão com prazo de validade, é falta, no mínimo, de bom senso dizer que não serão mais necessárias em quatro anos. A USP, por exemplo, só foi adotar o sistema de cotas raciais (na graduação) em 2017. Apesar de já surtir algum efeito, a quantidade de alunos ainda é majoritariamente branca.

Ao final da entrevista, gostaria que o fotógrafo Cristiano Mariz (brilhante, por sinal) pudesse ter dado a Coleção de presente para o ministro. Mais importante do que posar com livros é ler os mesmos.


Milena Natividade é bacharela e licenciada em História pela Universidade de São Paulo.

Deixe um comentário

Arquivado em Educação, Jornalismo, Revista, Universidade

João de Deus, o kardecismo e a desigualdade entre os homens

Delegado diz que João de Deus utilizava a fé para cometer abusos sexuais

Sem querer me estender muito em toda essa patifaria ligada ao caso do charlatão que se autodenominou João de Deus, gostaria de compartilhar por aqui breves reflexões que me fizeram relembrar o tempo em que eu estudei de perto o espiritismo kardecista e, na sequência, engatei numa pós-graduação em teologia com alguns professores jesuítas.

Sem rodeios e indo direto ao ponto, a reaparição do João de Deus na TV me fez recordar de uma discussão que havia feito com alguns colegas no começo dos anos 2000 sobre a relação entre CARIDADE e DESIGUALDADE entre os homens. Já naquele tempo, antes mesmo de ter cursado faculdade de Ciências Humanas, defendia ser possível classificar qualquer doutrina/religião cujo fundamento principal é a caridade como sendo fortemente vinculada a valores da DIREITA. Depois de ter cursado História e, sobretudo, lido as reflexões sobre Direita e Esquerda de Norberto Bobbio, fiquei ainda mais convicto disso.

Antes que me acusem de insanidade, o que quero dizer é que tais doutrinas entendem a desigualdade como algo NATURAL em vez de SOCIALMENTE CONSTRUÍDA, isto é, as pessoas nascem e ocupam posições diferenciadas na escala social não por conta do modo como a sociedade se organiza, mas em razão de outros fatores, como por exemplo, a conduta individual dessas pessoas em vidas pretéritas. Tal critério daria conta de explicar a existência de pessoas “INFERIORES” e “SUPERIORES” em nossa sociedade. Para essas doutrinas, a caridade é o principal instrumento de ascensão espiritual a TODOS aqueles em busca de se desenvolverem para atingirem novos planos. Entretanto, deve-se ter em conta que os que já entraram nessa vida em estágio maior de desenvolvimento espiritual (os superiores) estão em melhores condições para desempenhar o papel de mitigar o sofrimento dos que ainda estão nos estágios iniciais (os inferiores).

Por essa linha raciocínio, sou levado a pensar que o ESPIRITISMO KARDECISTA leva essa ideia ainda mais adiante, pois postula que “fora da caridade não há salvação”. Ao fazê-lo, condiciona o aprimoramento espiritual do indivíduo à prática da caridade, principalmente, entre pessoas de diferentes níveis de desenvolvimento espiritual, isto é, dos mais aos menos desenvolvidos. Mais que isso, o kardecismo leva para o além-túmulo a desigualdade entre os seres humanos, uma vez que os mais desenvolvidos deverão reencarnar sempre em condições melhores (a não ser que aceitem alguma missão), enquanto os menos desenvolvidos ainda deverão penar com miséria, doenças, fome, deficiências e outra miríade de infortúnios em razão dos erros em vidas pretéritas.

Historicamente não é difícil compreender porque Allan Kardec (1804-1869) codificou uma doutrina como essa que acabou levando o seu nome. Como todos, era um homem de seu tempo, profundamente influenciado pelo POSITIVISMO e pela ideia de que o homem branco tinha o “FARDO” de civilizar o resto da humanidade. Para tanto, elegeu como mecanismo principal dessa “civilização” a caridade, cujo papel era justamente o desenvolvimento da humanidade em muitas etapas sucessivas ou estágios.

Antes de prosseguir quero deixar muito claro que não me oponho, de forma alguma, à prática da caridade. Muito pelo contrário. Em um mundo como o que vivemos ela é mais do que necessária. Penso, porém, que tudo deve estar bem claro para quem estiver disposto a seguir quaisquer doutrinas ou religiões. No caso em questão, o kardecismo, vejo uma obscuridade intencional nesse sentido, assim como uma necessidade imensa de se fantasiar com vestes cristãs para poder dialogar com esse grande público. No entanto, por trás disso tudo fica evidente que o espiritismo se opõe ao cristianismo naquilo que lhe é mais caro: a salvação.

Ora, ao colocar a caridade como o elemento central de sua doutrina, o kardecismo não só se torna anti-cristão, pois retira o papel de Jesus na salvação da humanidade – passando-o exclusivamente para o próprio indivíduo em busca seu aprimoramento espiritual -, mas também alinha-se ao postulado de que a desigualdade entre os seres humanos é natural, isto é, já vem com ele ao nascer. Segundo os kardecistas, a superação dessa desigualdade só se dará pela via sobrenatural (reencarnação) e, ainda assim, após uma vida dedicada a caridade. Há uma ESCALA DE DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL para cada indivíduo que, após o intercurso de uma vida, poderá se elevar ou diminuir, determinando seu destino nas próximas vidas. Nesse sentido, não há quem possa intervir pelo indivíduo no plano da vida material, nem mesmo todo o sangue derramado por Jesus. Este último, cumpre lembrar, é considerado pelos kardecistas um grande mestre, um profeta, uma alma desenvolvida, um modelo de vida, mas não o filho de Deus ou, tampouco, o Deus encarnado.

Por outro lado, insisto que vale a pena aprofundarmos essa reflexão sobre a desigualdade natural entre os humanos e a Criação. Ora, se a desigualdade é natural e há uma intencionalidade por trás de toda a Criação, então o arquiteto maravilhoso é quem deve ser responsabilizado pela existência de toda essa desigualdade, certo? Mas como pensar em uma divindade eminentemente boa com tamanha desigualdade no mundo? Essa é uma pergunta que todos nós – crentes e ateus – deveríamos nos fazer diante do verdadeiro horror que é o mundo que vivemos: qual a razão de bilhões de pessoas nascerem sem acesso a comida e água potável em um canto do mundo, enquanto outras tantas nascem em situação oposta, isto é, com tamanho excesso de tais recursos ao ponto de a maior parte dos mesmos ser desperdiçada?

Se nos fosse dada uma explicação cristã para essa verdadeira tragédia, certamente ouviríamos em resposta que deus tem um plano pra cada um e nós não temos como entender os desígnios divinos (MISTÉRIO). No caso da kardecista, porém, a explicação recai nas vidas pretéritas desses indivíduos. Cada um está exatamente no lugar onde deveria estar segundo seu desenvolvimento espiritual. No melhor dos casos, há ESPÍRITOS ILUMINADOS que optaram por reencarnar em tal situação para auxiliar no desenvolvimento espiritual dos menos desenvolvidos. É a caridade além-túmulo, pré-natal.

Enquanto a explicação cristã evidencia o papel da própria divindade na criação da desigualdade, isto é, deus teria criado os homens iguais (à sua imagem e semelhança), mas os teria colocado na Terra em situações de desigualdade em função de um plano individual que tem para cada um; a explicação kardecista retira o protagonismo divino e coloca-o novamente em cada indivíduo (ainda que, em última instância, acabará por recair na divindade quando da criação inicial dos espíritos. Estes, por sua vez, criados todos igualmente inferiores para que possam se desenvolver, mais ou menos rapidamente, através das inúmeras vidas sucessivas nos diferentes planos).

Por fim, para não deixar o fio solto, o que pensar do tal João de Deus? Se antes ele era um ser de luz, encarnado em missão para ajudar na evolução espiritual da humanidade, e agora? O que pensar dessa figura sinistra após a descoberta de seus abusos e falcatruas? Te convence a ideia de que ele voltará em próximas vidas como um ser doente, tetraplégico ou com câncer infantil? É tudo tão simples e tão raso assim? Ainda que a Federação Espírita Brasileira (FeB) negue a vinculação de João de Deus aos quadros do espiritismo, tanto o charlatão quanto a Federação se beneficiaram, durante anos, das promessas de curas espirituais que o “falso médico” realizava através de suas pseudo-cirurgias. Antes de ser descoberto em suas inúmeras falcatruas, a FeB não parece ter se importado em divulgar que ela não tinha ligação nenhuma com o dito patife. Pelo contrário. Me lembro de ter sido informado de que alguns centros espíritas de São Paulo  promoviam excursões aos que se interessassem nas alegadas curas espirituais do médium de Abadiânia.

A quem possa interessar, deixo, aqui, um vídeo do doutor Dráuzio Varella tratando da questão dos charlatães, em especial, o de João de Deus, e suas promessas de curas espirituais.


Rogério Beier é doutorando em História Econômica (FFLCH-USP) e mestre em História Social (FFLCH-USP). Entre 1998-2001 estudou o kardecismo em centos-espíritas na cidade de São Paulo e fez um curso de pós-graduação em teologia em instituição ligada aos jesuítas.

3 Comentários

Arquivado em Religião