Nordeste, filosofia, sociologia: o pensamento contra a deseducação

por Marcos Silva – publicado originalmente em 10/04/2019 no portal GGN

Jair Bolsonaro (esquerda) e o novo ministro da Educação, Abraham Weintraub. FOTO: Valter Campanato Agência Brasil.

O economista Abraham foi nomeado para o Ministério da Educação por Carlos (perdão pelo cacófato!) e em fala anterior ao ato, agiu como se mudasse antecipadamente o nome do órgão para Ministério da Deseducação: anunciou e garantiu que o Nordeste brasileiro não deveria se dedicar a Filosofia nem a Sociologia, e sim a convênios com Israel no campo da Agronomia.

É um trajeto de velocidade espantosa, entre Hermes/Mercúrio (que também cuidava de negócios, embora fosse mais sábio, promovesse relações entre povos, não apenas com um povo) e o personagem de quadrinhos e cinema Flash.

Em termos geográficos, onde é mesmo que se pensa?

Em qualquer lugar! Europa, França e Bahia, na antiga metáfora popular.
E quem escolhe como pensar?
Os Pensadores!
Quem são esses Pensadores?
Todas as mulheres e todos os homens do mundo!

Ministério da Educação (ou da Deseducação, como Abraham parece preferir) pode contribuir para o Pensamento com verbas e profissionais da primeira área (a Deseducação fica a cargo de qualquer burocrata), jamais com normas definidoras de áreas e tarefas. Ministério da Deseducação não pensa no lugar dos outros.

Alguns homens e mulheres, naquela parte do Brasil que costumamos designar como Nordeste, pensaram filosófica e sociologicamente sem autorização de Abraham, bem antes de seu nascimento. Houve mesmo quem se antecipasse ao conceito de Nordeste, às universidades propriamente ditas (mais que soma de unidades de ensino superior dedicadas a diferentes especialidades) e, já no século XIX e no começo do século XX – quando as regiões geográficas começavam a ser discutidas sistematicamente e os cursos de ensino superior no Brasil antecipavam universidades ao abordarem Filosofia e Sociologia nos quadros de Direito, Medicina e Engenharia -, ousasse filosofar ou sociologizar. Sylvio Romero (1851/1914), advogado, foi um deles, escreveu sobre uma cultura brasileira que mesclava elementos portugueses, africanos e indígenas. Manoel Bomfim (1868/1932), médico, combateu o racismo ao debater a História do Brasil nos quadros da América Latina, e comentou criticamente a Educação na sociedade republicana. Depois, já no tempo de região e universidade mais consolidadas, vieram Gilberto Freyre (1900/1987), graduado em Artes Liberais nos EEUU, que falou sobre africanos como formadores do Brasil; Nise da Silveira (1905/1999), médica, que articulou o trabalho terapêutico em Psiquiatria com Arte e Trabalho, tratando loucos com dignidade; Josué de Castro (1908/1973), médico, que mapeou fome e sociedade, saber de combte; Celso Furtado (1920/2004), advogado, que repensou Economia e Região; e Paulo Freyre (1921/1997), advogado, que ressignificou a Educação no universo popular São Pensadores tão diferentes cada um do outro, tão insistentes em percorrerem Sociologias e Filosofias, referências para universidades no Brasil e no mundo! E até hoje, inúmeros outros Pensadores nordestinos transitam por Filosofia, Sociologia e mais campos de saber em seu trabalho cotidiano, agora com cursos específicos, sem estribos governamentais sobre como pensar. Filosofia e Sociologia existem no Nordeste porque os Nordestinos (como os demais homens e mulheres do mundo) pensam!

Não estamos diante de ecletismo ou indefinição intelectual. Quando advogados, médicos e outros profissionais apelam para Filosofia e Sociologia, apenas demonstram que possuem rigorosa formação universitária.

O que é mesmo uma Universidade?

Mais que aglomerado de cursos e tarefas, universidades são conjuntos de núcleos de estudos sobre múltiplos saberes, articulados uns aos outros.

Cada campo de conhecimento está na universidade porque precisa dos outros e é invocado pelos demais.

E o que é mesmo Nordeste?

Existe uma região que é definida administrativamente – órgãos e verbas governamentais, respectivos poderes.

Outra que é invocada ideologicamente, justificativa para práticas de poder.
E também outra nasce inventada pelo preconceito, em nome de dominação e atos de excluir.

Mas não é possível esquecer a região recuperada por dominados e preconceituados, contra essa prática, como afirmação de poderes alternativos e críticos, presente tanto no cotidiano dos designados como paraíbas ou baianos quanto na produção artística reflexiva.

O Nordeste de administração e ideologia pode dispensar Filosofia e Sociologia porque essa é sua lógica instrumental e produtora da ignorância. Algo semelhante ocorre no mundo do preconceito, alheio ao Pensamento. Mas o Nordeste crítico, dos preconceituados, contra os dominantes, reivindica para si aqueles e outros universos de Pensamento porque… pensa.

Nordeste não é apenas um lugar físico do mapa, é um universo de homens e mulheres portadores de culturas que são mais que região e estão além daquele recorte. Nordestinos estão em New York e Paris, assim como New York e Paris estão nos Nordestes – textos, imagens, danças, cantos, lutas… E regiões não apagam Gêneros, Classes Sociais, Etnias e tantas outros faces de experiências humanas.

O desejo de Abraham não sobreviverá ao fazer crítico dos Nordestes. Filosofia e Sociologia existem ali porque os Nordestinos pensam, contra a Deseducação governamental e preconceituosa.

Convênios universitários podem e devem ser feitos com todos os países, inclusive Israel e Autoridade Palestina. Convênio não é parasitismo: existem pesquisas no Brasil sobre irrigação e outros campos de Agronomia. O Nordeste recebe pesquisadores estrangeiros nessa e noutras áreas de estudos e envia seus pesquisadores para tantos outros país. Existem Filósofos e Sociólogos em diferentes universidades do Nordeste brasileiro e do resto do planeta, assim como Físicos, Linguistas, Historiadores, Psicólogos e demais pensadores gabaritados.

Todo apoio aos convênios entre as universidades brasileiras nordestinas (e de outras regiões do país) e suas congêneres do mundo inteiro. Universidade é para isso mesmo, para ser universo.

Marcos Silva é professor no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

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Os 500 anos da circum-navegação de Magalhães e o terraplanismo

Por Luiz Felipe de Alencastro para o Portal UOL em 26/03/2019

Divulgação

Pôster internacional do filme “Terra Plana”, da Netflix. Imagem: Divulgação.

Há quase quinhentos anos, no dia 20 de setembro de 1519, uma frota de 5 navios comandada pelo português naturalizado espanhol Fernão de Magalhães zarpava de Sanlúcar de Barrameda, o grande porto marítimo andaluz, no sul da Espanha, para efetuar a primeira viagem de circum-navegação terrestre.

Como se sabe, nascido em Portugal, Magalhães se naturalizou espanhol e estava a serviço da Coroa espanhola quando iniciou seu périplo para chegar nas Ilhas das Especiarias (Molucas) navegando pelo Oeste e evitando a rota do Cabo cursada pelos portuqueses. Atravessando tempestades, calmarias e motins de marinheiros e oficiais compreensivelmente revoltados com as incertezas da rota, Magalhães cruzou o estreito que ganhou seu nome, entrou no Pacífico, e chegou às Filipinas.

Alí, em 1521, foi morto num combate pelo chefe Lapu-lapu que se tornou herói nacional filipino após da independência do país (1898), até então colônia espanhola. Elcano, capitão espanhol, levou um dos navios da frota de Magalhães de volta a Sanlúcar de Barrameda, completando assim a primeira volta ao mundo. Malgrado o avanço da ciência da época, ainda predominava a geografia de Ptolomeu que postulava a existência de um só oceano circundado de terras.

Magalhães e Elcano batizaram o Oceano Pacífico e enterraram de vez a geografia formulada na Grécia antiga. Agora, Portugal e Espanha disputam a primazia da celebração do quinto centenário da célebre e tormentosa viagem que mudou a história mundial.

Todavia, o fato mais impressionante do quinto centenário da prova definitiva da esfericidade do planeta é o retorno das ideias afirmando que a terra é plana. Sempre houve gente que desconsiderou a viagem de Magalhães-Elcano, o heliocentrismo, os milhares de percursos transoceânicos de navios e aviões, a órbita dos satélites, a viagem do homem à Lua, os traçados dos GPS, para aderir ao terraplanismo. Mas agora o movimento se avolumou e aparece como um componente importante das teorias conspiracionistas que pululam na mídia social. Um documentário dirigido por Daniel J. Clark, “A Terra é plana” (Behind the curve), apresentado na Netflix, retrata os terraplanistas americanos com boa fé e pertinência. Eles poderiam até reivindicar uma filiação com a geografia ptolomaica, visto que seus mapas apresentam a Terra como um gigantesco disco circundado por uma barreira de gelo que seria a Antártica.

Como apontam os especialistas consultados no filme, as entrevistas e os estudos realizados em várias universidades, o terraplanismo, baseado no conhecimento intuitivo e autorreferente, agrega outras teorias conspiracionistas. Tudo indica que o renascimento e a expansão do movimento devem-se às mídias sociais e sobretudo ao YouTube. Ou seja, a teoria sobre a terra plana não vai acabar nunca.

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Vélez Rodriguez e a faxina ideológica

por Milena Natividade

Faxina Ideologica

Chamada da Revista Veja para a entrevista concedida pelo atual Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, a Gabriel Castro e Maria Clara Vieira. Foto: Cristiano Mariz.

Ler criticamente a entrevista que o atual Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, cedeu à revista Veja é tão importante quanto analisar a fotografia que abre a matéria.

Vemos em primeiro plano a imagem, levemente embaçada, de uma pilha de livros. A identificação das obras exige alguma familiaridade com a historiografia: encontra-se empilhada a coleção de livros da UNESCO. A imagem desfocada é uma referencia sutil à coleção de História Geral da África, projeto que levou mais de 30 anos para ser construído e que busca tornar acessível ao público a longa, diversificada e complexa história do continente africano. A edição em português foi lançada durante o mandato de Fernando Haddad como ministro da Educação. Curiosamente, a lombada desses livros está voltada para nós, observadores, e não para Rodriguez, que se encontra em segundo plano na fotografia.

Além dele, em segundo plano também vemos outra pilha de livros. A composição dessa pilha, sobre a qual o ministro se apoia (se sustenta, se fundamenta), lembra uma pirâmide invertida. Sabemos que construções assentadas em bases instáveis não se mantém de pé por muito tempo, são fáceis de derrubar, desconstruir. Os livros dessa pilha não são exibidos para nós, observadores. As referências sobre as quais o atual ministro da Educação (literalmente) se apoia não são exibidas nem citadas.

Após a leitura da entrevista, fica evidente como nesse caso imagem e texto estabelecem uma relação de complementaridade de significados. Destaco dois dos vários excertos que confirmam a falta de embasamento sólido dos argumentos de Vélez Rodriguez.

Sobre a Universidade não ser para todos:

“Em nenhum país a universidade chega para todos, ela representa uma elite intelectual, para a qual nem todo mundo está preparado ou para a qual nem todo mundo tem disposição ou capacidade. Universidade não é elite econômica nem elite sociológica”.

Como se acesso à universidade, sobretudo pública e gratuita, fosse democrático e estivesse no horizonte de possibilidade para todos os grupos sociais. Os filtros que selecionam quem vai pertencer a tal “elite intelectual” não é só o vestibular, mas também são os de raça, classe, gênero.

Já sobre o fim das cotas, diz o ministro:

“As cotas são uma solução emergencial e, como tudo no Brasil, o provisório vira definitivo […] Quatro anos é pouco tempo. Mas tenho certeza de que, se fizermos o dever de casa, meu sucessor conseguirá iniciar esse processo”.

Se realmente as cotas são políticas de inclusão com prazo de validade, é falta, no mínimo, de bom senso dizer que não serão mais necessárias em quatro anos. A USP, por exemplo, só foi adotar o sistema de cotas raciais (na graduação) em 2017. Apesar de já surtir algum efeito, a quantidade de alunos ainda é majoritariamente branca.

Ao final da entrevista, gostaria que o fotógrafo Cristiano Mariz (brilhante, por sinal) pudesse ter dado a Coleção de presente para o ministro. Mais importante do que posar com livros é ler os mesmos.


Milena Natividade é bacharela e licenciada em História pela Universidade de São Paulo.

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João de Deus, o kardecismo e a desigualdade entre os homens

Delegado diz que João de Deus utilizava a fé para cometer abusos sexuais

Sem querer me estender muito em toda essa patifaria ligada ao caso do charlatão que se autodenominou João de Deus, gostaria de compartilhar por aqui breves reflexões que me fizeram relembrar o tempo em que eu estudei de perto o espiritismo kardecista e, na sequência, engatei numa pós-graduação em teologia com alguns professores jesuítas.

Sem rodeios e indo direto ao ponto, a reaparição do João de Deus na TV me fez recordar de uma discussão que havia feito com alguns colegas no começo dos anos 2000 sobre a relação entre CARIDADE e DESIGUALDADE entre os homens. Já naquele tempo, antes mesmo de ter cursado faculdade de Ciências Humanas, defendia ser possível classificar qualquer doutrina/religião cujo fundamento principal é a caridade como sendo fortemente vinculada a valores da DIREITA. Depois de ter cursado História e, sobretudo, lido as reflexões sobre Direita e Esquerda de Norberto Bobbio, fiquei ainda mais convicto disso.

Antes que me acusem de insanidade, o que quero dizer é que tais doutrinas entendem a desigualdade como algo NATURAL em vez de SOCIALMENTE CONSTRUÍDA, isto é, as pessoas nascem e ocupam posições diferenciadas na escala social não por conta do modo como a sociedade se organiza, mas em razão de outros fatores, como por exemplo, a conduta individual dessas pessoas em vidas pretéritas. Tal critério daria conta de explicar a existência de pessoas “INFERIORES” e “SUPERIORES” em nossa sociedade. Para essas doutrinas, a caridade é o principal instrumento de ascensão espiritual a TODOS aqueles em busca de se desenvolverem para atingirem novos planos. Entretanto, deve-se ter em conta que os que já entraram nessa vida em estágio maior de desenvolvimento espiritual (os superiores) estão em melhores condições para desempenhar o papel de mitigar o sofrimento dos que ainda estão nos estágios iniciais (os inferiores).

Por essa linha raciocínio, sou levado a pensar que o ESPIRITISMO KARDECISTA leva essa ideia ainda mais adiante, pois postula que “fora da caridade não há salvação”. Ao fazê-lo, condiciona o aprimoramento espiritual do indivíduo à prática da caridade, principalmente, entre pessoas de diferentes níveis de desenvolvimento espiritual, isto é, dos mais aos menos desenvolvidos. Mais que isso, o kardecismo leva para o além-túmulo a desigualdade entre os seres humanos, uma vez que os mais desenvolvidos deverão reencarnar sempre em condições melhores (a não ser que aceitem alguma missão), enquanto os menos desenvolvidos ainda deverão penar com miséria, doenças, fome, deficiências e outra miríade de infortúnios em razão dos erros em vidas pretéritas.

Historicamente não é difícil compreender porque Allan Kardec (1804-1869) codificou uma doutrina como essa que acabou levando o seu nome. Como todos, era um homem de seu tempo, profundamente influenciado pelo POSITIVISMO e pela ideia de que o homem branco tinha o “FARDO” de civilizar o resto da humanidade. Para tanto, elegeu como mecanismo principal dessa “civilização” a caridade, cujo papel era justamente o desenvolvimento da humanidade em muitas etapas sucessivas ou estágios.

Antes de prosseguir quero deixar muito claro que não me oponho, de forma alguma, à prática da caridade. Muito pelo contrário. Em um mundo como o que vivemos ela é mais do que necessária. Penso, porém, que tudo deve estar bem claro para quem estiver disposto a seguir quaisquer doutrinas ou religiões. No caso em questão, o kardecismo, vejo uma obscuridade intencional nesse sentido, assim como uma necessidade imensa de se fantasiar com vestes cristãs para poder dialogar com esse grande público. No entanto, por trás disso tudo fica evidente que o espiritismo se opõe ao cristianismo naquilo que lhe é mais caro: a salvação.

Ora, ao colocar a caridade como o elemento central de sua doutrina, o kardecismo não só se torna anti-cristão, pois retira o papel de Jesus na salvação da humanidade – passando-o exclusivamente para o próprio indivíduo em busca seu aprimoramento espiritual -, mas também alinha-se ao postulado de que a desigualdade entre os seres humanos é natural, isto é, já vem com ele ao nascer. Segundo os kardecistas, a superação dessa desigualdade só se dará pela via sobrenatural (reencarnação) e, ainda assim, após uma vida dedicada a caridade. Há uma ESCALA DE DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL para cada indivíduo que, após o intercurso de uma vida, poderá se elevar ou diminuir, determinando seu destino nas próximas vidas. Nesse sentido, não há quem possa intervir pelo indivíduo no plano da vida material, nem mesmo todo o sangue derramado por Jesus. Este último, cumpre lembrar, é considerado pelos kardecistas um grande mestre, um profeta, uma alma desenvolvida, um modelo de vida, mas não o filho de Deus ou, tampouco, o Deus encarnado.

Por outro lado, insisto que vale a pena aprofundarmos essa reflexão sobre a desigualdade natural entre os humanos e a Criação. Ora, se a desigualdade é natural e há uma intencionalidade por trás de toda a Criação, então o arquiteto maravilhoso é quem deve ser responsabilizado pela existência de toda essa desigualdade, certo? Mas como pensar em uma divindade eminentemente boa com tamanha desigualdade no mundo? Essa é uma pergunta que todos nós – crentes e ateus – deveríamos nos fazer diante do verdadeiro horror que é o mundo que vivemos: qual a razão de bilhões de pessoas nascerem sem acesso a comida e água potável em um canto do mundo, enquanto outras tantas nascem em situação oposta, isto é, com tamanho excesso de tais recursos ao ponto de a maior parte dos mesmos ser desperdiçada?

Se nos fosse dada uma explicação cristã para essa verdadeira tragédia, certamente ouviríamos em resposta que deus tem um plano pra cada um e nós não temos como entender os desígnios divinos (MISTÉRIO). No caso da kardecista, porém, a explicação recai nas vidas pretéritas desses indivíduos. Cada um está exatamente no lugar onde deveria estar segundo seu desenvolvimento espiritual. No melhor dos casos, há ESPÍRITOS ILUMINADOS que optaram por reencarnar em tal situação para auxiliar no desenvolvimento espiritual dos menos desenvolvidos. É a caridade além-túmulo, pré-natal.

Enquanto a explicação cristã evidencia o papel da própria divindade na criação da desigualdade, isto é, deus teria criado os homens iguais (à sua imagem e semelhança), mas os teria colocado na Terra em situações de desigualdade em função de um plano individual que tem para cada um; a explicação kardecista retira o protagonismo divino e coloca-o novamente em cada indivíduo (ainda que, em última instância, acabará por recair na divindade quando da criação inicial dos espíritos. Estes, por sua vez, criados todos igualmente inferiores para que possam se desenvolver, mais ou menos rapidamente, através das inúmeras vidas sucessivas nos diferentes planos).

Por fim, para não deixar o fio solto, o que pensar do tal João de Deus? Se antes ele era um ser de luz, encarnado em missão para ajudar na evolução espiritual da humanidade, e agora? O que pensar dessa figura sinistra após a descoberta de seus abusos e falcatruas? Te convence a ideia de que ele voltará em próximas vidas como um ser doente, tetraplégico ou com câncer infantil? É tudo tão simples e tão raso assim? Ainda que a Federação Espírita Brasileira (FeB) negue a vinculação de João de Deus aos quadros do espiritismo, tanto o charlatão quanto a Federação se beneficiaram, durante anos, das promessas de curas espirituais que o “falso médico” realizava através de suas pseudo-cirurgias. Antes de ser descoberto em suas inúmeras falcatruas, a FeB não parece ter se importado em divulgar que ela não tinha ligação nenhuma com o dito patife. Pelo contrário. Me lembro de ter sido informado de que alguns centros espíritas de São Paulo  promoviam excursões aos que se interessassem nas alegadas curas espirituais do médium de Abadiânia.

A quem possa interessar, deixo, aqui, um vídeo do doutor Dráuzio Varella tratando da questão dos charlatães, em especial, o de João de Deus, e suas promessas de curas espirituais.


Rogério Beier é doutorando em História Econômica (FFLCH-USP) e mestre em História Social (FFLCH-USP). Entre 1998-2001 estudou o kardecismo em centos-espíritas na cidade de São Paulo e fez um curso de pós-graduação em teologia em instituição ligada aos jesuítas.

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Os signos do reacionarismo, da teocracia neopentecostal e do militarismo marcam governo Bolsonaro

por Vinícius Moraes – 06. dez. 2018

A formação do governo Bolsonaro combina duas características bastante nítidas, são elas o conservadorismo civil como critério objetivo de escolha e a presença militar. Um desavisado poderia confundir o processo atual com a constituição de governos de inspiração fascista do início do século XX.

Durante a campanha eleitoral, os defensores da tese de que “tem que mudar tudo isso aí” sugeriram diminuir o número de ministérios para 15, no afã do Estado mínimo. Hoje são 29. No entanto, a necessidade de acomodar no governo o conjunto das forças que apoiam Bolsonaro obrigou aos novos articulares a expandir as vagas. O velho toma lá dá cá se mostra muito atual.

O governo que está sendo montado nasce com os signos do reacionarismo, da teocracia neopentecostal e do militarismo. Nunca antes a bancada evangélica se viu com tanta força de indicação de nomes e, ao mesmo tempo, poder de veto.

Cotado para o Ministério da Educação, pasta que contará com 122 bilhões em 2019, o nome de Mozart Neves Ramos, membro do Instituto Ayrton Senna, foi simplesmente vetado, por ser considerado um moderado. Os evangélicos fazem questão de que os nomes do governo defendam a medieval ‘escola sem partido’ e o combate à ‘ideologia de gênero’, segundo Ronaldo Nogueira do PTB.

Com o veto, Bolsonaro recorreu ao Olavo de Carvalho, considerado filósofo por alguns e figura tão chula quanto lunática por outros. O indicado foi o católico colombiano, ex-trotskysta, ultrarreacionário Ricardo Vélez Rodríguez. Este, diferente de Mozart, agrada aos evangélicos. Olavo de Carvalho também indicou para chanceler Eugênio Araújo, quem pretende priorizar o combate ao ‘marxismo cultural’, considera que existe um alarmismo em relação ao aquecimento global e pretende colocar o Brasil sob a tutela norte-americana.

Os evangélicos ainda se organizaram para indicar um nome para o Ministério da Cidadania, o qual deve reunir as estruturas do Desenvolvimento Social, Cultura, Esportes e parte da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. O nome indicado, o pastor Marco Feliciano, não foi aceito. O escolhido foi Osmar Terra, ex-ministro de Temer, nome que não desagradou aos defensores da teologia da prosperidade. Composta por 84 deputados federais e sete senadores, o peso da Frente Parlamentar Evangélica parece explicar a guinada religiosa de Jair Bolsonaro.

A presença militar nos cargos de primeiro escalão impressiona e muito. Não é de agora que os militares voltaram a ter protagonismo na cena política brasileira. Imerso em crise, Michel Temer os trouxe para ser uma espécie de pilar de sustentação. Vale dizer, a título de nota relevante, que membros da ativa das Forças agiram politicamente em plena luz do dia para defender posições no cenário recente de incertezas e crise institucional. O ápice foi o tuíte do general Villas Bôas ameaçando o STF, caso a corte aceitasse o habeas corpus que permitiria a candidatura do ex-presidente Lula no pleito eleitoral.

Pois bem, agora, militares de alta patente estão em postos estratégicos do Estado brasileiro, algo que não acontecia desde a ditadura. Os generais do Exército são Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional); Fernando Azevedo e Silva (Defesa) e Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo). Os capitães são Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) e Wagner Rosário (Controladoria Geral da União). Como representante da Marinha, o almirante Bento Costa Lima Leite chefiará Minas e Energia. Da Aeronáutica, o tenente-coronel, astronauta e ex-candidato a deputado federal pelo PSB, assumirá, não se sabe porquê, a Ciência e Tecnologia. Em nenhuma democracia do mundo os militares possuem tanta presença quanto aqui. Talvez isso se explique pelo fato de o Brasil estar em marcha contrária ao destino democrático.

Há, evidentemente, os superpoderosos Ministérios da Economia e da Justiça. O primeiro contará com o ‘posto Ipiranga’ Paulo Guedes. Ultraliberal, sujeito de poucas palavras, Guedes montou uma equipe econômica ao seu sabor. Como orientação, devem todos defender a privatização de tudo o que for possível e garantir os interesses do mercado financeiro.
Nomeado para agradar ao senso comum conservador, a indicação de Sérgio Moro assombrou o mundo do direito. Depois de comandar uma operação judicial que reformulou toda a roupagem do sistema político, o juiz-militante mudou de função, assumindo a pasta da Justiça no governo daqueles que saúdam torturadores. Ora, por óbvio que a Lava Jato passou a ser imediatamente questionada pela ousadia de Moro de sequer esconder suas preferências políticas.

Vale acrescentar aqui um grave ataque aos direitos dos trabalhadores: a extinção do Ministério do Trabalho. Surgido em 1930, este ministério tinha a função de estimular políticas de criação e proteção do emprego, fiscalizar violações, como o trabalho escravo, e conceder novas cartas sindicais. Ao dividir suas atribuições entre as pastas da Economia, Justiça e Cidadania, Bolsonaro revela desprezo por aqueles que vivem do seu próprio suor. Em nota, o próprio Ministério do Trabalho considerou a medida ilegal. Argumentou-se que “o Ministério do Trabalho reitera que o eventual desmembramento da pasta atenta contra o artigo 10 da Constituição Federal, que estabelece a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação”.

Observando essa montagem, fica evidente que este governo não terá vida fácil. Os militares, nacionalistas por dever de ofício, não aceitarão de bom grado os anseios ultraliberais de Guedes. Generais, diga-se de passagem, não são chegados a receber ordens, conforme já afirmou o vice Mourão. Não costumam aceitar ordem nem de economistas, nem de capitães. Por outro lado, como Sergio Moro lidará com um exército de corruptos articulados por Onyx Lorenzoni? Será que daqui em diante pedidos de desculpas serão suficientes?

Em meio a toda essa tormenta, Jair Bolsonaro será o quadro mediador. Autoritário, estabanado e impulsivo, Bolsonaro poderá, involuntariamente, levar todo o Brasil para a ponta da praia.

Segue o desenho do novo ministério:

Casa Civil: Onyx Lorenzoni

GSI: general Augusto Heleno

Secretaria de Governo: general Carlos Alberto dos Santos Cruz

Secretaria-Geral: Gustavo Bebianno

Economia (Fazenda, Planejamento, Trabalho e MDIC): Paulo Guedes

Minas e Energia: Bento Albuquerque

Justiça e Segurança Pública (Justiça, Segurança Pública e Trabalho): Sergio Moro

Relações Exteriores: Ernesto Araújo

Defesa: general Fernando Azevedo e Silva

Educação: Ricardo Vélez Rodríguez

Saúde: Luiz Henrique Mandetta

Agricultura: Tereza Cristina

Infraestrutura (Transportes, Aviação Civil, Portos e Aeroportos): Tarcísio Freitas

Ciência, Tecnologia e Comunicações: Marcos Pontes

Cidadania (Desenvolvimento Social, Trabalho, Esporte e Cultura): Osmar Terra

Turismo: Marcelo Álvaro Antônio

Banco Central: Roberto Campos Neto

AGU: André Luiz Mendonça

CGU: Wagner Rosário

Desenvolvimento Regional (Cidades e Integração Nacional): Gustavo Canuto

Faltam anunciar

  • Meio Ambiente
  • Direitos Humanos

Vinícius Moraes é historiador pela Universidade de São Paulo.

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Jorge Lourenço: saída de Cuba do programa Mais Médicos

Tem circulado pelas redes sociais um texto bastante interessante sobre a saída de Cuba do programa Mais Médicos, anunciada nessa última quinta-feira (15). O texto é de autoria do escritor Jorge Lourenço e traz algumas reflexões sobre a maneira como tem sido divulgado pela mídia o fim da parceria entre Cuba e Brasil no programa Mais Médicos.

Interessado nessa discussão e na difusão das reflexões propostas por Jorge Lourenço, o Hum Historiador tomou a liberdade de repercuti-lo, na íntegra, para seus leitores.

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Sobre a saída de Cuba do Mais Médicos
por Jorge Lourenço – originalmente publicado em sua página do Facebook, 15/11/2018

Vocês devem ter lido por aí que Cuba encerrou sua parceria o Programa Mais Médicos, certo? Pois bem, essa afirmação, por si só, já é a criação de uma narrativa estabelecida pelo nosso novo presidente, Jair Bolsonaro.

Cuba não acabou com sua participação no Mais Médicos. Jair Bolsonaro acabou com a participação cubana e agora quer fazer você acreditar que os cubanos o fizeram. Ele não quer ver a presidência dele manchada logo no começo pelos enormes prejuízos que isso vai trazer.

Vamos lá: o Mais Médicos é um programa criado pelos dois países. O que cada país ganha com essa ação?

– Cuba forma médicos de forma gratuita pelo seu sistema de educação e fornece essa mão de obra especializada para o Brasil. Qual é o retorno que o país recebe? 70% do salário dos profissionais, valor que deve ser reinvestido no sistema de bem-estar social da ilha (como saúde e educação pública gratuitos).

– O Brasil recebe mão de obra especializada para atuar em áreas isoladas e suprir a carência de médicos, além de se desamarrar de algumas limitações e problemas relacionados à contratação de funcionários públicos estatutários.

Bolsonaro é eleito depois de anos insultando Cuba. E quais são os termos que ele pede para a manutenção do programa? O Revalida é o de menos, vamos aos termos que importam:

– O salário integral deveria ser pago aos médicos;

– Os médicos poderiam trazer suas famílias para o Brasil.

Agora pergunto para vocês, o que acontece com o programa se Cuba aceita esses dois termos?

1 – Cuba cede mão de obra especializada de forma completamente gratuita para o Brasil;

2 – O sistema de bem-estar social de Cuba não recebe o reinvestimento para manter-se (afinal, saúde e educação gratuitos não se pagam com sorrisos);

3 – Caso as famílias venham para o Brasil e os médicos recebam o salário integralmente por aqui, todo esse dinheiro é utilizado na economia brasileira.

Você percebe a pegada? Não há nenhuma vantagem para Cuba. A não ser que se tratasse de uma missão humanitária – o que não é o caso, tendo em vista que Cuba é um país bem mais pobre pobre do que o Brasil – esse programa não faria sentido nenhum para eles sob esses termos.

Bolsonaro então oferece esses termos – inaceitáveis e completamente descabidos – e Cuba obviamente os recusa e sai do programa. E qual é a manchete dos jornais?

“Cuba abandona o Mais Médicos”.

Qual deveria ser uma manchete mais apropriada?

“Bolsonaro oferece acordo sem contrapartidas para Cuba e país abandona o Mais Médicos”.

Imagina uma narrativa onde você se recusa a trabalhar de graça para alguém e os jornais publicam que você “abandonou o emprego”? É basicamente o que estão fazendo agora. E os minions, impulsionados pelas redes de desinformação do candidato, já estão obviamente colocando a culpa do caos no governo cubano.

O que vocês viram agora foi o Bolsonaro prejudicar a vida de milhões de brasileiros a troco de nada. Ou melhor, a troco de um factoide político.

Os médicos cubanos estão em 2.885 municípios brasileiros. Centenas deles atuam em aldeais indígenas. Quase 150 municípios brasileiros sequer tinham médicos contratados e só receberam essa mão de obra especializada graças ao Programa Mais Médicos.

O Mais Médicos não era um programa de caridade. Era um acordo entre dois países que, apesar de não ser perfeito, trazia uma série de benefícios aos dois. Foi demonizado de maneira completamente irracional e agora extinto pela falta de bom senso do Bolsonaro.

E vocês acreditam que foi Cuba que decidiu meter o pé.

Jorge Lourenço é escritor e trabalha na Cajá agência de comunicação e Rio 2054.

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ACHILLE MBEMBE: A era do humanismo está terminando

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Este artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22/12/2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporeafilosofia.blogspot.com, 31/12/2016. A tradução para o português é de André Langer, para o portal Pensar Contemporâneo, em 25/01/2017.

A ERA DO HUMANISMO ESTÁ TERMINANDO
por Achile Mbembe

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.


Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul).

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