Rafaela Silva, o feminismo, as cotas e a meritocracia

Acho importante repercutir por aqui no Hum Historiador, um texto com o qual me deparei e considero bastante instrutivo sobre a relação entre o feminismo, cotas e programas sociais com a conquista da medalha de ouro, ontem (08), pela judoca Rafaela Silva nos Jogos Olímpicos que vem ocorrendo no Rio de Janeiro.

O texto é de autoria de Hugo Fernandes-Ferreira, biólogo e doutorando em zoologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e o mesmo vem tendo grande repercussão através de seu perfil em uma rede social.

No texto, Fernandes-Ferreira responde a um meme que também vem circulando nas redes sociais e cujo objetivo principal é exaltar a meritocracia, afirmando que Rafaela Silva não teria necessitado nem do feminismo, nem de cotas, para atingir o resultado de ontem, que o mesmo veio exclusivamente por seu mérito próprio.

Abaixo o meme que vem circulando no Facebook, seguido pela íntegra do texto de Fernandes-Ferreira.

Rafaela Silva_Meritocracia

Vi esse meme algumas vezes na minha timeline (Hugo Fernandes-Ferreira) e acho importante elucidar algumas questões para evitar que esse tipo de chorume (não consigo definir de outra forma) se propague ainda mais.

Rafaela Silva precisou do feminismo e de cotas sim. Vou dizer em quais momentos.

1) Através do feminismo, mulheres puderam competir nos Jogos. Em 1900, seis mulheres feministas enfrentaram as regras olímpicas, obrigando a organização a criar um evento paralelo. Esse torneio paralelo foi levado até 1928. O Barão de Coubertim, criador das Olimpíadas Modernas, inclusive pediu demissão afirmando que a presença feminina era uma traição ao espírito olímpico. Ainda hoje, há muito a ser conquistado, como divergências nos valores de patrocínio.

2) Precisou do feminismo para entrar na Marinha. Com mulheres na corporação somente a partir da década de 80, apenas em 1996 foi aceita a promoção de oficiais mulheres, através de lutas feministas.

3) Precisou também de cotas. Ela foi, durante anos, beneficiária do Bolsa Atleta, programa do Ministério do Esporte que atende jovens promissores. O valor da bolsa, além do rendimento esportivo potencial do atleta, depende também de sua condição financeira, fornecendo valores maiores para aqueles promissores de baixa renda. Além disso, sua entrada na Marinha não se deu por meio tradicional e sim através de vagas fruto de uma parceria entre os Ministérios da Defesa e do Esporte. Ou seja, cotas.

4) Mas é claro que ela conquistou por mérito próprio. O fato de ela ter recebido bolsa, além dos benefícios históricos do feminismo, só ajudou para que ela pudesse estar em uma condição mais justa (ainda que esteja longe, muito longe do ideal) de competir com quem não enfrenta problemas de misoginia, pobreza e racismo. Mérito maior é ter vencido ainda em um patamar social muito inferior à maioria de suas concorrentes. Não há problema em você falar de meritocracia esportiva, desde que você entenda antes que ela só funciona isoladamente quando houver isonomia. De resto, ou você cita exceções como se fossem regras ou você solta chorumes como esse.

5) Enquanto você resolve soltar esse meme falando pela Rafaela, com esse tom conservador, é bom lembrar que a atleta é declaradamente de esquerda. Isso não faz dela melhor ou pior, mas significa que você, sem dúvida, está utilizando a imagem da atleta para propagar uma posição política contrária a dela, o que denota uma grande desonestidade intelectual.

É triste saber que, mesmo diante do choro de desabafo pelos atos racistas que ela sofreu, alguém ainda prefira ignorar isso e tirar um discurso conservador de onde não existe. É chorume… E todo chorume fede.

 


Hugo Fernandes-Ferreira é doutorando em zoologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).


Para finalizar o post, gostaria apenas de chamar atenção que a compreensão do texto (e o principal argumento do autor) passa apenas pela necessidade do leitor estar familiarizado com a noção de OPORTUNIDADE.

O feminismo, bem como os diferentes programas sociais (como o bolsa atleta recebido por Rafaela), buscam garantir OPORTUNIDADES a indivíduos que, na sociedade em que vivemos, são alijados de participarem ou ocuparem plenamente espaços por conta de seu gênero, da cor de sua pele ou em razão de pertencerem a uma classe social considerada inadequada a um espaço específico. Assim, numa sociedade como a nossa, algumas pessoas pertencem a alguns lugares, enquanto outras não. É justamente por vivermos em uma sociedade tão desigual que concordo plenamente com Fernandes-Ferreira ao afirmar que pessoas como Rafaela Silva precisam, sim, do feminismo, das cotas (sociais e raciais) e de programas sociais, pois sem eles, elas jamais teriam as oportunidades de ocupar determinados espaços (como uma academia de judô ou ser uma oficial da marinha, por exemplo) e mostrarem todo o seu talento e brilhantismo.

Portanto, ao contrário do que aqueles que fizeram o meme pensam, o feminismo, as cotas e os programas sociais não tiram o mérito das pessoas que fazem uso de suas conquistas, pelo contrário, concedem uma rara janela de oportunidade para que essas pessoas possam mostrar seu mérito e talento em um mundo injusto e desigual que, de antemão, lhe negam essa oportunidade. Repito: o fato de Rafaela Silva ter usado conquistas do feminismo e ser beneficiária de programas sociais não desmerece, em nada, sua conquista nos tatames. O que fazem, na verdade, é explicitar a necessidade de aumentarmos, cada vez mais, as oportunidades a grupos que vivem à margem da sociedade. Por todo o talento que Rafaela Silva demonstrou ter, não só no judô, mas na vida, ao aproveitar tão bem as oportunidades que lhe foram garantidas, vejo razões mais do que suficientes para termos AINDA MAIS ORGULHO dessa mulher, e não o contrário, como pretendem os autores do meme e seus apoiadores!!!! Por isso, não me canso de parabenizar a Rafaela Silva!!! Que ela possa aproveitar muito esse momento de glória, que é todo dela!!!

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O GLOBO pede fim do ensino superior gratuito

Em editorial publicado neste domingo (24), O Globo pede o fim do ensino superior gratuito no Brasil. Embora não seja surpresa que tal instituição defenda a privatização das universidades públicas, uma vez que ela já demonstrou, em diversas oportunidades, estar sempre na contramão do interesse público, do acesso democrático às instituições e da democracia, em si, como já tivemos oportunidade de escrever neste blog (O Globo saúda Golpe Militar; Globofilmes destrói cinema nacional; Globo manipula dados na cobertura das eleições venezuelanas), o destaque é a maneira cruel e covarde como ela argumenta pela extinção do ensino superior gratuito.

Segundo o texto, o que justificaria o fim do ensino superior gratuito é a sua “injustiça” e o gatilho que está dando oportunidade ao governo golpista de Michel “Fora” Temer privatizá-lo é a crise, como indica o título do editorial. O argumento principal do editorialista é que a maior parte das vagas das universidades públicas é, atualmente, ocupada pelos alunos de renda mais alta, enquanto aos pobres restam apenas pagar pelas universidades privadas. A crueldade e a covardia do editorial está justamente no fato de O Globo usar uma injustiça cometida contra as camadas mais pobres da sociedade, alijadas desde sempre do ensino superior brasileiro, não para reparar a injustiça, mas para mantê-la e fazer retroceder as recentes conquistas que pobres, pretos e índios tiveram dentro do espaço universitário, antes restrito apenas a um grupo social (com raríssimas exceções).

O argumento, evidentemente, não é novo. Frequentemente o vejo na boca da classe média para justificar a privatização e, com isso, o fim das cotas sociais e raciais. Mais e pior que isso, o tenho visto cotidianamente em minha vida institucional universitária dentro da Universidade de São Paulo (que caminha a largos passos para a privatização daquele espaço público de excelência) e, também, na imprensa paulista, sobretudo na Folha de S. Paulo, que dia sim, outro também, publica uma notícia enviesada no intuito de justificar a privatização das universidades públicas.

Não raro, Folha de S. Paulo, Globo, Band e outros veículos de mídia, juntamente com o poder estadual (que há mais de 20 anos tenta encampar a privatização), criaram a imagem de uma universidade pública sucateada que não serve para mais nada além de gastar dinheiro público. Evidentemente, trata-se de uma grande mentira. A verdade é que, apesar dos constantes ataques da mídia e do Estado, que tem, sim, buscado sucatear a universidade pública, justamente para se livrar dela e dos hospitais universitários, tais instituições tem mantido seu padrão de excelência graças aos esforços sobre-humanos de muitos de seus funcionários, professores e alunos. Se hoje, universidades como USP, Unicamp, Unesp, UFF, UFMG, UFOP, UFRGS, UnB e tantas outras conseguem se manter como referências mundiais, nacionais e regionais em diferentes áreas do conhecimento, é por conta dessas pessoas.

Como bem disse o professor Renato Janine Ribeiro, ao comentar o malfadado editorial em sua página de uma rede social:

A USP recebe o mesmo porcentual do ICMS paulista desde a década de 1980, e neste tempo criou novos campi, novas faculdades, aumentou muito o número de alunos, deu saltos de qualidade científica e tudo o mais. Sua pior gestão foi a de um reitor nomeado pelo governador José Serra, contra a vontade da maioria dos votantes na universidade. Não representava as forças vivas da USP.

Em suma, o que O Globo reproduz aqui é justamente o que temos visto em São Paulo há muitos anos. Se no princípio usa a crise como justificativa para agora se realizar o antigo projeto de privatizar o ensino superior, logo abaixo afirma que, mesmo se a economia vier a se recuperar, seria necessário “reformar o Estado” para não recorrer a aumento de impostos (não deixa de ser cômico, se não fosse trágico, a grande sonegadora Globo falando de não querer mais pagar impostos). E é assim, pateticamente reclamando contra o pagamento dos impostos que ela costuma não pagar, que as Organizações Globo introduz seu argumento sem nenhum pudor: “[…] para combater uma crise nunca vista (?) necessita-se de ideias nunca aplicadas. Nesse sentido, porque não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito”.

Quem lê o editorial percebe claramente que a discussão não passa pelo acesso das camadas populares ao ensino de qualidade (seja o superior ou o fundamental e médio, que é justamente onde está o problema), mas sim pela questão fiscal. Desta forma, a injustiça social é mera desculpa à qual a O Globo recorre em seu editorial, a fim de pretensamente colocar-se em defesa dos interesses da população, quando na verdade encampa uma luta contra o uso dos impostos para financiar o acesso das camadas populares à universidade superior de qualidade. A estes, se tiverem interesse, que vão pedir bolsas nas universidades privadas, pois segundo O Globo, trata-se de um sistema que funciona bem ao redor do mundo (sobre o assunto, ver o que o documentário Torre de Marfim, do cineasta estadunidense Andrew Rossi, tem a dizer sobre o sistema educacional dos Estados Unidos da América, epítome de um modelo que os plutocratas brasileiros querem adotar e, segundo o editorialista de O Globo, funciona muito bem).

Novamente lembramos a postagem do professor Janine Ribeiro, para quem:

Cobrar anuidade dos alunos com mais dinheiro parece justo, mas penso que seria bem melhor aumentar o imposto de renda das pessoas que ganham mais dinheiro. Assim, façam ou não (eles e seus filhos) a universidade, pagarão mais. E serão então estimulados a cursar o ensino superior, o que só lhes fará bem, pessoal e profissionalmente. Deve-se tributar a renda, é melhor do que cobrar pela educação (não se cobra aquilo que você quer incentivar!)

Abaixo reproduzimos a postagem que nos chamou atenção a mais esse ataque ao ensino e ao povo brasileiro, perpetrado por defensores de oligopólio, bem como à manutenção da profunda desigualdade social que cliva o Brasil desde seu nascimento até os dias que correm, por uma elite que pouco mudou nas últimas décadas, como bem apontou a historiadora Maria Aparecida de Aquino.

EDITORIAL DO GLOBO PEDE FIM DO ENSINO SUPERIOR GRATUITO NO BRASIL

publicado originalmente na Revista Forum em 24 de julho de 2016

jornal-o-globo

Por Redação (da Revista Fórum)

Em editorial publicado neste domingo (24), o jornal O Globo defende o fim do ensino superior gratuito no Brasil como uma forma de equilibrar as contas públicas.

“Por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social? Pagará quem puder, receberá bolsa quem não tiver condições para tal. Funciona assim, e bem, no ensino privado. E em países avançados, com muito mais centros de excelência universitária que o Brasil”, diz o texto.

“O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares”, continua.

“Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos”, conclui.

Para ler o editorial na íntegra, clique aqui.

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Suzette Bloch, neta de Marc Bloch, responde a editorial do Estadão

O Hum Historiador abre espaço para repercutir a carta aberta de Suzette Bloch, neta do historiador Marc Bloch, em resposta ao editorial do jornal O Estado de S. Paulo, de 14 de Junho de 2016, intitulado O lugar de Dilma na história.

CARTA ABERTA AO JORNAL ESTADÃO, EM RESPOSTA AO EDITORIAL DE 14 DE JUNHO DE 2016*

Meu nome é Suzette Bloch. Sou jornalista e, além disso, neta e detentora dos direitos autorais do historiador e resistente Marc Bloch.

Eu li seu editorial do dia 14 de junho sobre o manifesto dos Historiadores pela democracia. Ele me deixou estupefata e indignada. Seu jornal utiliza o nome de meu avô para justificar um engajamento ideológico totalmente oposto ao que ele foi, um erudito que revolucionou a ciência histórica e um cidadão a tal ponto engajado na defesa das liberdades e da democracia que perdeu a vida, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.

O jornal recorre ao nome de Marc Bloch para responder aos historiadores brasileiros que se posicionaram contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. “Pensamento único, historiadores muito bem posicionados na academia, a serviço de partidos, bajuladores do poder etc.”; seu editorial não argumenta, apenas denigre. Eis porque tiveram necessidade de se valer de uma obra de alcance universal e da vida irretocável do meu avô para tonar virtuoso seu apoio ao golpe de Estado.

Condeno toda instrumentalização política de Marc Bloch. Para além do homem público, ele é o avô que eu não conheci, mas que nos deixou como herança a memória de uma família para a qual a liberdade representa a essência de toda humanidade. Em todo lugar, a cada instante, no Brasil inclusive. Vocês omitiram aos seus leitores o fato de que o filho mais velho de Marc Bloch, meu tio Étienne, que libertou Paris junto com a 2ª. Divisão Blindada do General Leclerc, foi o presidente do comitê de solidariedade França-Brasil nos anos 1970. Este comitê auxiliou as vítimas do regime civil-militar iniciado com o golpe de 1964 e manteve-se na luta pelo retorno da democracia brasileira. Poderiam ainda ter explicado aos seus leitores que a neta de Marc Bloch se casou com um brasileiro, Hamilton Lopes dos Santos, refugiado político do Brasil e depois do Chile, tendo chegado na França em 1973 em razão do golpe de Pinochet. Poderiam, enfim, ter anunciado que dois dos bisnetos de Marc Bloch, Iara e Marc-Louis, são franco-brasileiros.

Conseguem imaginar a reação de meu avô diante do espetáculo dos deputados que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff em nome de suas esposas, de seus filhos, de Deus ou de um torturador? Imaginem ainda sua reação diante de um presidente interino que formou um governo exclusivamente de homens e cuja primeira medida foi suprimir o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, suspendendo e reduzindo diversos programas sociais, como o Minha casa, minha vida. Ministros empossados são investigados por corrupção e alguns foram exonerados após a divulgação de conversas nas quais admitiam que o afastamento de Dilma não tinha senão um objetivo: parar as investigações contra a corrupção. Imaginem a reação de meu avô!

O presidente francês, François Hollande, foi eleito com 51,9% dos votos em 2012 e sua popularidade não passava de 16% em maio. No entanto, seus adversários políticos sequer sonharam em contestar sua legitimidade conquistada nas urnas, apenas estão se preparando para as próximas eleições, como em toda democracia digna deste nome. Não pode haver democracia sem o respeito às eleições. Contudo, um grande jornal como este aplaude o confisco do voto popular.

Mas deixo a palavra ao historiador Fernando Nicolazzi, integrante do grupo de Historiadores pela democracia, para quem solicitei escrever este direito de resposta com outras vozes.

O convite feito por Suzette Bloch para juntar minhas palavras às suas, no ato solidário e indispensável de combater a impostura de um jornal comprometido, em cada linha de seus editoriais, com a defesa de um golpe de Estado em curso, não poderia ser recusado. Este mesmo jornal, que há alguns meses disse um “basta!” à democracia, ecoando o gesto autoritário cometido pelo Correio da Manhã em 1964, agora direciona seus impropérios ao grupo de historiadores e historiadoras que atuam em defesa dos princípios democráticos de nossa sociedade. Faço parte deste grupo e estive na audiência realizada com a presidenta eleita Dilma Rousseff no último dia 7 de junho.

O editorial de 14 de junho, que pretende definir o “lugar de Dilma na história”, faz menção a palavras escritas por Marc Bloch, desvinculando-as irresponsavelmente daquele que as escreveu. Nesse sentido, instrumentaliza politicamente o nome do historiador francês, autor de uma apologia da história elaborada no momento mesmo em que atuava na resistência contra o fascismo e em defesa das liberdades democráticas. Suzette Bloch, em justificável indignação, já apontou acima o desrespeito ético e a desonestidade intelectual que caracterizam este texto. Quanto a isso não cabem aqui outras palavras.

Porém, é preciso fazer frente também à outra dimensão contida naquele editorial: sua falaciosa representação dos historiadores e historiadoras que assinaram o manifesto, definidos ali como intelectuais “a serviço de partidos políticos”, comprometidos com a elaboração de um “pensamento único”, “bajuladores do poder”. O editorial traz ainda as marcas da sua baixeza moral ao sugerir, sem qualquer respaldo aceitável, que muitos dos participantes do encontro com a presidenta a “detestam”. Nada mais desonesto, nada mais mentiroso! Mas também nada mais compreensível!

Afinal, não é difícil compreender que, para setores da sociedade comprometidos com a manutenção da exclusão em suas diferentes formas, a defesa da democracia e da inclusão social cause incômodo e provoque atitudes como esta que, faltando com a verdade, apenas encontra amparo na ofensa e na intolerância. Além disso, é fácil compreender que essa seja a única forma de linguagem política assumida pelo jornal, que já definiu os opositores ao golpe de “matilha de petistas e agregados”: a propagação do seu ódio na busca de cumplicidade, como se ele fosse compartilhado por todas as pessoas. Basta acompanhar as inúmeras e diversas intervenções dos Historiadores pela democracia para constatar quão caluniador e distante dos fatos é o editorial.

O golpe parlamentar, jurídico e midiático em curso ataca direitos sociais, políticos e civis que são fundamentais para a existência da democracia. Tais direito foram conquistas feitas pela sociedade e não simples concessões governamentais. Lutar contra este golpe não significa defender um governo ou um partido político, mas sim defender a vigência de princípios básicos de cidadania, considerando que a justiça social deve ser um valor preponderante em nossa sociedade. Foram estas razões que me fazem participar do grupo, além da convicção íntima, enquanto historiador e enquanto cidadão, de que posicionar-se pela democracia se coloca hoje como um imperativo incontornável na nossa vida pública.

Em um texto que pretende dizer o que deve ser o exercício da historiografia, lemos apenas o uso inconsequente da história e a utilização deturpada da obra de um historiador que soube como poucos escrever sobre o próprio métier. Apesar da indignação causada, o editorial cumpriu seu papel esperado, sem nenhuma surpresa. E ao menos algo positivo ficará dessa situação: não será preciso aguardar historiadores futuros para colocar o Estadão em seu devido lugar na história, ou seja, ao lado dos golpistas do passado, os mesmos que em 2 de abril de 1964 comemoraram a vitória do “movimento democrático” que hoje conhecemos como ditadura civil-militar e que, além de vitimar milhares de pessoas, ampliou a desigualdade social no Brasil. Seus editorialistas continuam realizando com esmero essa função no presente.

*O texto foi enviado para o portal Estadão, como resposta ao editorial publicado em 14/06/2016. Não houve resposta por parte dos editores.

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O NÓ: ato humano deliberado

Documentário por Dilson Araújo
70 minutos – 2012

A introdução criminosa da doença vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau do sul da Bahia e o fracasso da intervenção do Governo brasileiro através do Programa de Recuperação da Lavoura ocasionaram um desastre socioeconômico e ecológico sem precedentes, que inviabilizou mais de seiscentos mil hectares da cultura, destruindo as vidas e os sonhos de milhares de famílias de trabalhadores rurais, cacauicultores e comerciantes. O evento extinguiu 250.000 postos de trabalho, provocou o êxodo de aproximadamente 800.000 homens, mulheres e crianças que moravam nas fazendas e ainda quebrou a economia de quase cem municípios. As conseqüências da catástrofe continuam repercutindo desde 1989 e afetam uma importante zona biogeográfica, onde vivem quase três milhões de pessoas. Esse filmem de Dilson Araújo, aborda o fato a partir das evidências e dos argumentos contidos nos relatos dos depoentes e em documentos oficiais.

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Hebe Mattos convida Demétrio Magnoli a dançar a quadrilha da democracia

Repercutimos neste espaço a resposta que a historiadora Hebe Mattos deu a texto do geógrafo Demétrio Magnoli, publicado no último dia 25 pela Folha de S.Paulo, no qual este acusa Mattos e outros proeminentes historiadores brasileiros, integrantes do movimento Historiadores pela Democracia, de formarem quadrilha, de terem vocação totalitária e de quererem escrever uma versão da história útil para o Partido.

Sem mais delongas, segue a íntegra do texto da professora Hebe Mattos.

CONVIDAMOS MAGNOLI A VIR DANÇAR A QUADRILHA DA DEMOCRACIA
por Hebe Mattos | Publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 27 jun. 2016

Hebe Mattos é professora titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense

Em tempos de festa junina, Demétrio Magnoli acusa o movimento Historiadores Pela Democracia de “formação de quadrilha”, em texto publicado na Folha em 25/6.

O artigo começa com o meu nome, honrando-me com a companhia de renomadíssimos colegas de ofício que, estando no exterior, só puderam participar da iniciativa com depoimentos em vídeo ou por escrito.

Esses e outros depoimentos e vídeos podem ser consultados no tumblr “Historiadores pela Democracia”. Convido todos a fazerem isso.

Como não é historiador, Demétrio Magnoli não consultou tais documentos. Se o fez, omite isso, mas ainda assim afirma que nossa iniciativa “viola os princípios que regem o ofício do historiador”, que temos “vocação totalitária” e que queremos escrever versão da história útil para o “Partido”, com P maiúsculo.

Como já tive oportunidade de escrever no blog “Conversa de historiadoras”, sobre editorial de teor semelhante publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, a utilização desse tipo de lógica maniqueísta por órgãos de imprensa é surpreendente e muito preocupante.

Os depoimentos individuais foram feitos por alguns dos mais importantes historiadores do país, mas também por jovens profissionais e estudantes de história, englobando uma enorme diversidade de orientações políticas, bem como de escolas historiográficas e teóricas.

Juntos, formam uma narrativa polifônica e plural, que vem se somar ao alentado movimento da sociedade civil em defesa da Constituição de 1988 e de resistência ao governo interino, ao programa que tem desenvolvido sem o amparo das urnas e à forma como chegou ao poder.

Em comum, têm a preocupação com os sentidos republicanos e democráticos da ordem política brasileira, ameaçados desde a votação da Câmara dos Deputados de 17 de abril, de triste memória.

“A Força do Passado” é o título do arquivo de textos do tumblr, com exercícios de história imediata publicados ao longo dos últimos meses, que servirão de base para a organização de um livro.

A tese de que há um golpe branco em andamento, como reação conservadora às mudanças da sociedade brasileira produzidas desde a adoção da Constituição de 1988, é hipótese que defendo, junto a outros colegas e, por enquanto, inspirou o título da coletânea.

Para os que discordam que um golpe branco à democracia brasileira está em curso, basta escolher dialogar com alguns dos muitos e diferenciados argumentos dos depoimentos e textos arquivados no tumblr “Historiadores pela Democracia”. As autorias individuais estão bem assinaladas e os autores têm tradição democrática.

Por fim, para não parecer que só tenho discordância com o artigo de Magnoli, gostaria de me solidarizar com a sua defesa dos cinco jornalistas da “Gazeta do Povo” processados por juízes paranaenses.

Quanto ao título do seu artigo, não pretendemos processá-lo, e aqui falo pelos colegas citados. Temos certeza de que eram as festas juninas que Magnoli tinha em mente quando falou em formação de quadrilha.

Nós o convidamos a deixar de lado o maniqueísmo e o discurso de intolerância e a vir dançar conosco a quadrilha da democracia.


Textos de outros historiadores em resposta a Demétrio Magnoli:

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Eu, mulher, feminista, sua mãe, sua filha, já fui estuprada

Por Flávia Cláudia, historiadora.
Publicado originalmente no Palavra Dita | 27.mai.2016

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil e, diferente de pegar catapora, ter sido estuprada uma vez não faz de ninguém imune à possibilidade de ser estuprada novamente. Essa semana no mesmo dia em que um estuprador confesso foi recebido pelo Ministério da Educação com a proposta de combater a chamada ideologia de gênero nas escolas viralizou na internet o vídeo de uma garota de 17 anos sendo estuprada por vários homens, mais de trinta, em meio a risos, piadas e toda sorte de crueldades. Desacordada, machucada, humilhada, levada a categoria de uma coisa, um trapo humano.

Pessoalmente não tenho palavras que possam expressar o que sinto pelo fato de que, dos 30 homens, nenhum tenha posto a mão na consciência e dado um fim àquela monstruosidade, de que dos 30 nenhum tenha nem mesmo se recusado a participar da violência. Não é novidade que o estupro, que nós feministas não nos cansamos de afirmar que não é sobre sexo, é sobre poder, sobre opressão, está entranhado no nosso cotidiano na cultura do estupro, ainda posta em dúvida e negada. No entanto, cada vez que um caso com tamanha brutalidade ganha repercussão, o debate retorna aos mesmos pontos, a culpabilização da vítima, a suposição de que não tenha havido estupro e a espantosa subnotificação, hoje avaliada por meio de estatísticas como algo em torno de 10% dos casos. Também enquanto militante, já tive muitas discussões no interior do movimento devido ao discurso de que “denunciar não dá em nada” que penso, desestimula as mulheres a denunciarem seus estupradores e procurarem ajuda, o que pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Por mais que doa (e sempre dói) me expor publicamente e falar sobre o estupro como algo que aconteceu comigo, penso hoje que o primeiro movimento para romper a barreira da baixíssima taxa de denúncias desse crime desumanizante seja acabar com o silêncio. Não vejo outra saída senão toda e cada mulher que já passou por isso expor o seu caso. Toda vez que o assunto do estupro vem à tona, alguém traz o comentário de que “e se fosse com a sua irmã, a sua filha…”. Colocar as coisas nesses termos está errado, porque desconhece a mulher como um ser humano que merece empatia por si só. No entanto, esse é o único modo de sensibilizar algumas pessoas para o fato de que aconteceu com uma pessoa e pouco importa se é um dos seus entes queridos ou não. De qualquer modo o caso é que é sim, com as mulheres que estão à sua volta, sua tia, sua irmã, sua prima, só que você não sabe porque ela não contou para ninguém.

No dia do meu aniversário de 29 anos comecei a viver o que seria sem dúvida o pior ano da minha vida, passei meses vivendo no inferno, um ano em que por diversos momentos pensei que não sairia viva, naquele dia fui estuprada e agredida por um homem enquanto a mulher dele me xingava e filmava com o celular, o medo de tudo aquilo ir parar na internet, a minha mãe saber, a imagem dele me segurando pelos cabelos, todas essas imagens e outras piores ficarão escarificadas na minha memória até o fim dos meus dias, um homem. E penso, TRINTA HOMENS, trinta… E uma garota de 17 anos.

Eu já havia passado por abuso sexual na infância, mas era uma lembrança longínqua, do passado, agora eu era uma mulher feita, militante e sabia dentro de mim o que devia ser feito, denunciar. Assim que estive de volta em posse do meu celular (que ele obviamente havia me tomado) liguei para a polícia e todo o processo de denúncia começou. E é sobre isso que eu pretendo falar, sobre a denúncia, porque como sempre digo, a minha militância é sobre as minas, com as minas e para as minas. Esse texto pode e deve ser lido por toda e qualquer pessoa, mas é principalmente para quem já passou ou pode ainda passar por isso e para aquelas pessoas que ainda acham que o estupro é um crime abstrato, que acontece em uma realidade distante, com mulheres que não sabemos quem são. É com as mulheres que vocês e lidam todos os dias, vocês talvez só não saibam. Não raramente nem elas mesmas sabem que aquele dia, aquela vez, aquele cara, aquele “não” que ele fingiu que não ouviu, aquele sexo dormindo que ela pensou que era melhor deixar, aquela “tentativa”, aquilo foi um estupro. Em caso de dúvida, existem centenas de relatos em muitos blogs feministas onde as mulheres escrevem contando de suas experiências, ler sobre ajuda a não se sentir tão sozinha, porque você não é a única. Pessoalmente eu sempre indico o Blog da Lola.

Chamei a polícia pelo 190, como acredito que qualquer um teria feito. A viatura veio depois de uns minutos. Mesmo eu estando na portaria do prédio onde tudo aconteceu, os policiais me disseram que não poderiam subir pois a situação não configurava um flagrante e que eu deveria ir a pé à delegacia mais próxima. Óbvio que eles não subiriam em um prédio de classe média, em um bairro de classe média para fazer fazer uma ocorrência de estupro assim, não é mesmo? Fui a pé até a primeira delegacia que por um acaso eu sabia onde ficava, lá não havia um delegado de plantão, pois era um domingo de manhã, me indicaram onde era a delegacia com delegado plantonista e me disseram que fosse sozinha. Infelizmente as delegacias da mulher não funcionam aos finais de semana. Pois bem, no meio do caminho consegui uma carona em uma viatura, caridade, informal, me deixou na esquina da DP, não poderia me deixar na porta porque não era uma ocorrência dele, foi assim, uma cortesia para me ajudar. Desde o primeiro instante, o trâmite é feito de maneira que a vítima desista, desista por todos os motivos, por que está cansada, porque quer ir para casa esquecer o que aconteceu, porque sente medo de “o que será que vai acontecer agora”, porque não sabe, dependendo de onde o crime aconteceu, ir até a delegacia sozinha, porque não conhece a região ou porque está confusa ou porque precisa de apoio. Mas não desista, não vá para casa. 

Uma das coisas que me deram mais força para seguir adiante foi o fato de que se daquela vez havia sido comigo, sabe deus com quantas outras mulheres ele já tinha feito aquilo e com quantas outras ainda faria, não era só sobre mim, é sobre todas as mulheres que cruzarem o caminho dele também. Na delegacia prestei o meu depoimento no saguão, sem sala privativa, sem um copo de água, em pé, falando em voz alta por quais orifícios do meu corpo tinha sido invadida e se havia bebido ou não, se trabalhava ou não, em que era formada, o que eu tinha ido fazer ali, o de sempre, enquanto pessoas entravam e saiam, passando por mim e ouvindo detalhes sórdidos de algo que eu mesma ainda estava tentando entender, enquanto reconstituía os detalhes que o escrivão digitava. É horrível. Sim, é horrível. O tratamento dado está errado? Completamente errado, o tratamento adequado é que seja dado à vítima privacidade, respeito, confiança.

Ainda assim, quanto mais eu via que todo o processo estava sendo feito completamente errado mais forças eu tirava para levar adiante aquela denúncia. Discuti com o policial, perguntei se beber era ilegal, se não estar trabalhando era ilegal, ou se isso desqualificava a minha denúncia, ele bufou e retomou o seu trabalho. Mesmo que ele repetisse para mim mais de uma vez “Tem certeza que você vai fazer isso? Essa é uma denúncia muito séria…”. Prossegui, uma assistente social veio me levar ao hospital, para fazer o corpo de delito e tomar a medicação. Sim, a sensação é de que está todo mundo olhando para você, provavelmente algumas daquelas pessoas até ouviram mesmo parte do que você falou. Se você passar por isso, prossiga, não se importe com os olhares, você está fazendo a coisa certa. Ele fez a errada. Estatísticas apontam que, com muita frequência, os estupros são cometidos por pessoas do convívio da vítima, o que obviamente torna todo o processo da denúncia ainda mais complicado e inseguro. Da minha parte, cabe a nós militantes tornar o ambiente seguro para que as vítimas possam denunciar.

No hospital a vítima, no caso eu, é encaminhada para o exame de corpo de delito. Atenção: você não é legalmente obrigada a fazer o exame de corpo de delito em nenhuma hipótese. No meu caso, achei por bem fazer porque senti que precisava de todas as provas que eu conseguisse de que aquilo realmente havia acontecido, de que eu não era uma bêbada maluca que inventou uma história absurda para manchar a imagem de um homem de respeito e de sua esposa. Foi deprimente sim, foi doloroso inclusive, e muito, mas muito constrangedor. São tiradas fotografias e é coletado material da região genital. Acho importante, o estupro é um crime dificílimo de ser comprovado, é a sua palavra contra a palavra do agressor. Resista, erga a cabeça, e tenha certeza de que, de todas as dores que você já passou, as que envolvem a denúncia e o tratamento preventivo são as únicas necessárias.

No calvário das dores ainda haverá injeções de antibióticos, pílula do dia seguinte e medicação preventiva para HIV. Esse é o momento em que a você vai se proteger de consequências ainda piores, cuidar de você. Tome. Os dias seguintes dessa medicação serão horríveis, mas você vai ser assistida com todos os remédios que precisar para passar por isso da melhor forma possível. Em São Paulo o hospital que cuida dessa parte é o hospital Pérola Byington, que é um hospital especializado em saúde da mulher e esse tipo de violência. O atendimento existe e funciona, custeado pelo SUS, há ginecologistas que farão uma bateria de exames, todos, assistentes sociais que ouvirão o seu caso e psicólogos que poderão atendê-la caso você ache necessário.

Não é preciso fazer o boletim de ocorrência para ser atendida no hospital, as assistentes sociais estão orientadas a oferecer tratamento e acompanhamento mesmo nos casos em que não há BO. Há profissionais preparadas para atender as vítimas de violência sexual. Tanto pelos médicos, quanto pelas assistentes sociais e psicólogos, em todo momento fui tratada com respeito, paciência e discrição. O atendimento é rápido, o agendamento de consultas relativamente ao tempo geral que se leva para atendimento no SUS é rápido também.

Além do acompanhamento psicológico que fiz no AVS, o núcleo de atenção à mulher em situação de violência sexual do Pérola também fiz acompanhamento psiquiátrico no Programa para vítimas de violência do departamento de psiquiatria da Unifesp.

Tenho duas amigas que após terem sido estupradas tentaram suicídio e ficaram internadas por meses em hospitais psiquiátricos, estupro é coisa séria, não tenha medo de pedir ajuda, caso ache que precisa, você passou por uma situação horrível e que pode ter consequências devastadoras, não deixe que uma monstruosidade acabe com a sua vida ou com a sua sanidade. Você pode e você terá a sua vida de volta. Esses dois programas eu mesma usei e posso garantir que funcionam, com suas dificuldades, mas funcionam. Se você foi vítima de violência, os procure. Não acredite em quem disser que a denúncia não vai dar em nada, que não existe atendimento para a vítima de violência sexual, que a única coisa que você vai conseguir é ser julgada e condenada por todo mundo. vai ser difícil, vai ser horrível, mas tem muita gente que está disposta a ajudar. Não se esconda, não deixe que a violência prossiga ou acabe com a sua vida.

Há muitos coletivos feministas que podem amparar e orientar você nesse momento. Pessoas a quem você poderá contar e que irão ampará-la. Conte a quem ache que deve contar e não conte para quem possa humilhá-la ou tentar fazê-la desistir de ir a diante com a queixa. também sofri pressão para retirar a queixa e não retirei. Repeti para mim mesma que, independentemente do quanto fosse doloroso ou complicado eu não deixaria que ele seguisse pensando que o que ele fez foi certo.

Pessoalmente acho que perdemos tempo demais convencendo homens de que o estupro existe e pessoas de que é errado (Convenhamos, se tem uma coisa que os conservadores sabem fazer é se apropriar do discurso de combate ao estupro quando lhes convém falar em redução da maioridade penal, castração química ou a liberação do porte de armas) e a maior parte do tempo esquecemos que há vítimas que precisam de ajuda, mulheres que não têm a menor ideia de por onde começar. Perdemos um tempo crucial repetindo que denunciar estupros não dá em nada, perdemos tempo compartilhando vídeos de violência sexual, até ingenuamente em vez de simplesmente denunciar o conteúdo e acolher a vítima.

Da minha parte já se passaram dois anos, o processo segue em segredo de justiça, mas o Ministério Público avaliou que há indícios e materialidade de provas, acolheu a denúncia.

Minha vida seguiu.

Por fim, seguem links de denúncia para conteúdo criminoso na internet, não compartilhem, denunciem e só.

Link 1

Link 2

Link 3

Para todos os outros mimimis compartilho a sequência de links que recebi no Facebook, reflitam:

“Se ela estivesse estudando isso não aconteceria!”
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores

“Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada dentro de secretaria de igreja em Brasília

“Se ela estivesse em casa isso não aconteceria!”
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte

“Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria!”
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho

“Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria!”
“Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia”

“Se ela fosse mais família isso não aconteceria!”
Adolescente com deficiência física é estuprada pelo tio em RR

“Se ela fosse menos ‘puta’ isso não aconteceria!”
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada

“Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria!”
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo

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Realizações após dois dias de governo golpista

Repercutindo aqui o post de um amigo, Lucas Freitas, em uma rede social.

Sábado, segundo dia do governo mais corrupto desde a ditadura militar. Três dias sem democracia.

Ontem ficamos sabendo:
1) A corrupção acabou:
Tiveram seus processos extintos ou arquivados apesar das inúmeras provas e testemunhos contrários.
– Aécio Neves: http://www.brasilpost.com.br/…/gilmar-mendes-aecio_n_993969…
– Blairo Maggi: http://www1.folha.uol.com.br/…/1769975-stf-resolve-arquivar…
– Marcelo Odebrecht: http://noticias.uol.com.br/…/moro-rejeita-denuncia-contra-m…
– Eduardo Paes e Aécio Neves: http://oglobo.globo.com/…/teori-tira-da-lava-jato-indicios-…

2) A corrupção acabou (2): como primeira medida de governo, os golpistas extinguiram o órgão de fiscalização e combate a corrupção, o CGU.
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10206201246614368&set=a.1092136067870.2014300.1360585032&type=3&theater

3) A corrupção acabou (3): o governo golpistas nomeou e deu foro privilegiado para 7 investigados, criminosos e corruptos que agora são ministros.
http://politica.estadao.com.br/…/temer-nomeia-alvos-da-lav…/
http://www.bbc.com/…/…/2016/05/160509_ministros_temer_if_rm…

4) A carga tributária vai aumentar: Henrique Meirelles, ministro a fazenda do governo golpista, declarou quer baixar os impostos, mas vai aumentá-los para baixá-los.
http://economia.uol.com.br/…/meta-e-diminuir-imposto-mas-ag…

5) A carga tributária vai aumentar (2): Henrique Meirelles, ministro a fazenda do governo golpista, declarou que vai voltar a CPMF.
http://plantaobrasil.net/news.asp?nID=94310&p=3

6) Perda de direitos: Henrique Meirelles, ministro a fazenda do governo golpista, declarou que a aposentadoria não é um direito adquirido. Portanto, pode deixar de existir.
http://economia.uol.com.br/…/meirelles-diz-que-direito-adqu…

7) Perda de direitos (2): Henrique Meirelles, ministro a fazenda do governo golpista, declara que deve aumentar a idade mínima da aposentadoria.
http://istoe.com.br/meirelles-defende-idade-minima-para-ap…/

8) Ministério da Saúde do governo golpista declara que irá extinguir o SAMU e a Farmácia Popular. A partir de a agosto, a população mais pobre nem terá atendimento médico de emergência nem terá remédios para tratamento. Pessoas vão morrer, mas são pobres.
http://www.diariodosertao.com.br/…/ministro-da-saude-declar…

9) O governo golpista dá sinais que vai cortar e depois extinguir o programa bolsa família. Responsável direto por, hoje no Brasil, não haver mais casos de morte por fome. A população pobre voltará a passar e a morrer de fome.
http://brasil.elpais.com/…/22/polit…/1445532039_667700.html…

10) Crise ambiental: em um retrocesso histórico de décadas, o governo golpista retira a necessidade de licença ambiental para obras.
https://www.facebook.com/arvoresertecnologico/photos/a.501991869943424.1073741828.501466783329266/733843523424923/?type=3&theater

11) Crise na educação: o governo golpista entrega a pasta de educação para o DEMo, partido mais corrupto do Brasil. Historicamente contrário PROUNI, FIES e qualquer forma de financiamento obrigatório para educação. A educação deixa de ser um direito universal no Brasil.
https://www.facebook.com/DilmaBolada/photos/a.107280846077248.9647.106696649469001/846301422175183/?type=3&theater

12) Crise habitacional: o governo golpista declara aumento de 237% nas prestações do Minha casa, Minha Vida. Retirando o caráter popular do programa e acesso da população mais pobre. Pobre não tem mais o direito de ter casa própria.
http://oglobo.globo.com/…/prestacoes-do-minha-casa-minha-vi…

13) Crise das minorias: o governo golpista extinguiu os ministérios de luta pela defesa e igualdade de mulheres, negros e LGBT. Covardes, machistas e racistas comeram.
http://agenciapatriciagalvao.org.br/…/temer-vai-extinguir-…/

14) Crise na Cultura: o governo golpista extinguiu os ministérios da Cultura. A partir de hoje não existe mais um órgão para preservar e incentivar a cultura no Brasil.
http://zh.clicrbs.com.br/…/ministerio-da-cultura-e-outras-p…

15) Crise de representatividade: o governo golpista empossa o primeiro ministério, desde a ditadura, sem nenhuma mulher ou negro. Somente homens, ricos, brancos e heterossexuais.
http://m.folha.uol.com.br/…/1770420-ministeriado-de-temer-d…

16) Criminalização dos movimentos sociais: a partir de ontem, manifestações e movimentos sociais que critiquem ou protestem contra o governo golpista serão casos de polícia. Considerados criminosos. Estamos em estado de exceção, os direitos constitucionais continuam suspensos.
http://www.plantaobrasil.net/news.asp?nID=94291

Parabéns aos envolvidos!!!!

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