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Black Bode Expiatório: 10 fatos sobre o caso do cinegrafista da Band

por Samuel Braun | publicado originalmente em seu perfil pessoal no Facebook

Fabio_Caio

Fábio Raposo e Caio Silva de Souza

1 – Fabio se entrega voluntariamente à polícia, acompanhado de um advogado particular.
1.A – Nenhum manifestante (ou PM) se entregou até hoje, em nenhuma manifestação.
1.B – Fabio não estava foragido, nem procurado, ele resolveu se apresentar ‘voluntariamente’.

2 – Seu advogado é o mesmo que fez a defesa de ex-vereador miliciano preso em penitenciaria federal.
2.A – O miliciano preso é irmão de outro miliciano preso, Jerominho, do mesmo partido (PMDB) do governador e do prefeito, alvos dos protestos.
2.B – Quando defendia o miliciano, responsável pela morte de diversas pessoas em chacinas, este advogado não entregou seu cliente em nenhuma delegacia.

3 – Advogado denuncia, através de seu assistente, o deputado Freixo como ligado aos atos criminosos em apuração.
3.A – Após fazer questão de comunicar esta versão ao delegado e registrá-la, voltou atrás. Não antes de toda míidia dar ampla divulgação.
3.B – Freixo concorreu contra Eduardo Paes e se constituiu como único candidato forte de oposição ao atual governo.

4 – Fabio alega que apenas entregou o artefato, que outra pessoa o detonou, mas não sabe quem foi.
4.A – Fabio repentinamente conhece alguem, que conhece alguém que sabe nome, apelido e CPF deste que teria acendido o artefato.
4.B – O tal denunciante não é revelado, e o advogado é que assume a responsabilidade pela denúncia.

5 – O advogado Jonas denuncia à polícia quem teria sido o detonador do artefato. A estratégia da defesa de Fabio é responsabilizar Caio, negro de cabelo curto e duro.
5.A – As imagens apontam um rapaz claro, cabelos lisos e volumosos.
5.B – Polícia vai a caça de Caio na casa de sua família. Jonas, o advogado denunciante vai junto.

6 – Partem num avião um delegado do Rio, o advogado denunciante e a imprensa para prenderem Caio na Bahia, após sua família ser pressionada a entregá-lo.
6.A – Caio é preso pelo delegado e pelo advogado denunciante. Um trunfo para a defesa de Fabio.
6.B – Inexplicavelmente, o advogado de Fabio, denunciante e auxiliar na captura, vira defensor TAMBÉM de Caio.

7 – Jonas, que não entregou Natalino, mas entregou Fabio, acusou e prendeu Caio agora defende Caio contra Fabio e Fabio contra Caio.
7.A – a polícia aceita que um advogado da parte ré participe de uma operação policial.
7.B – Autoridade policial aceita, sem estranhamento, que advogado de um réu que denunciou outro e auxiliou na prisão deste siga como defensor deste.

8 – Jonas, o advogado que faz prisões, e a Globo, que teve permissão pra cobrir com exclusividade a operação (porque, porque?) dizem que Caio afirmou que “políticos aliciam para manifestações”.
8.A – Caio não assinou nenhuma declaração nesse sentido. Um vídeo mostra que ele disse claramente que pessoas são convocadas (não aliciadas) e que é papel da polícia investigar quem convoca (portanto, não acusou ninguém, muito menos políticos).

9- Senadores do PT, PRB e PP (aliança dos governos municipal e estadual, foco dos protestos) apresenta projeto que tipifica manifestação e greve como terrorismo. Outro senador do mesmo partido sobe na tribuna exigindo urgência na aprovação.
9.A – Secretário de Segurança do Rio apresenta projeto para Congresso (!!!) para tipificar tambem crime de desordem e incitação a desordem pública.
9.B – Imprensa, liderada pela Globo, exige maior repressão policial e jurídica ao que chama de atentado à liberdade de imprensa.

10 – Instituições democráticas, partidos de esquerda, militantes e personalidades ligada aos governos apoiam a cruzada acima.
10.A – Em se aprovando os projetos, todas as atividades dos sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais serão considerados terrorismo e desordem pública.
10.B – Santiago foi a 10ª pessoa morta em decorrência das manifestações, a primeira por conta de manifestantes. Das outras 9, nem o nome se sabe direito.

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Empresário canadense aplaude notícia de que 3,5 bilhões de pessoas vivem na pobreza

Dono de uma fortuna estimada em US$ 300 milhões, o empresário canadense Kevin O’Leary afirmou que a notícia de que 3,5 bilhões de pessoas vivem na pobreza trata-se de uma notícia fantástica que deve ser aplaudida, pois tal realidade serve de inspiração aos mais pobres para que se esforcem e queiram prosperar para fazer parte da turma do 1%.

Publicada originalmente no Blog do Nassif na última quinta-feira (23), a notícia reforça um dos corolários da classe média e dos ricos em todo o mundo, o discurso ideológico da meritocracia. Os pobres, só são miseráveis, porque não se esforçaram para prosperarem e serem ricos. Se atualmente existem 3,5 bilhões de pobres sem condições, praticamente, de se alimentar no mundo, a culpa é única e exclusivamente deles, que devem se inspirar no exemplo dos mais ricos para ingressarem no clube dos bilionários.

Notícia hedionda e nauseante, só me faz lamentar pela humanidade e aumentar meu pessimismo no futuro de nossa espécie. Como se questionou Leonardo Boff ao analisar as mensagens enviadas pelos “rolezinhos”: “Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie?” E ele mesmo responde: “esta última lhe convém mais”. Em outras palavras, essas tiradas de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad: “The horror, the horror”.

Abaixo, a íntegra da notícia tal como publicada no Blog do Nassif, com o vídeo disponibilizado no YouTube do programa onde o empresário celebrou a notícia.

EMPRESÁRIO CANADENSE COMEMORA NOTÍCIA DE QUE 3,5 BI DE PESSOAS VIVEM NA POBREZA
por Stanilaw Calandreli para o blog do Nassif

No programa “The Lang and O’Leary Exchange“ da TV CBC canadense, de 20 de janeiro, ao ser discutido o relatório da ONG britânica Oxfam onde diz que o patrimônio das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale às posses de metade da população mundial (Ver aqui na BBC Brasil), o coapresentador, Kevin O’Leary, um globalista declarado e empresário bem sucedido, respondeu à apresentadora Amanda Lang: “É uma grande coisa, porque isso inspira todo mundo. Faz com que as pessoas olhem para o 1% e diga – quero fazer parte dessa turma – e passe a trabalhar duro para chegar ao topo. É uma notícia fantástica, é claro que eu aplaudo… o que poderia estar errado com isso?”

A apresentadora respondeu com um momento de silêncio e perguntou: “Verdade?”. E continuou: “Então, uma pessoa que vive na África com 1 dolar por dia, ao acordar de manhã, deva ela pensar “eu serei Bill Gates”?

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CLUBE Militar faz crítica dura às organizações Globo por terem afirmado que apoio ao Golpe de 64 foi um equívoco

O blog de Lino Bocchini, da Carta Capital, traz post interessante sobre a reação do Clube Militar ao recente editoral de O Globo, publicado neste último sábado (31), no qual considera o apoio dado pelas organizações do Sr. Roberto Marinho ao Golpe de 64 um equívoco. Para entidade que reúne oficiais da ativa e ex-militares e promove comemorações da chamada “Revolução” todo dia 31 de março, “Declarar agora que se tratou de um ‘equívoco’ é mentira deslavada”.

Abaixo, o texto do post do Blog de Lino Bocchini.

CLUBE MILITAR CRITICA EDITORIAL “MEA CULPA” DE O GLOBO.
por Lino Bocchini – publicado originalmente 04/09/2013 | Blog do Lino

O Clube Militar, entidade que reúne oficiais da ativa da marinha, do exército e da polícia (e também ex-militares), soltou nestaquarta-feira 4 de setembro uma nota oficial ” Nossa Opinião – Equívoco, uma ova!”, condenando o editorial “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”, divulgado pelo jornal O Globo no último dia 31 de agosto. O texto do veículo da família Marinho afirmava que “as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio [ao golpe militar] foi um erro”.

O Clube Militar reagiu com firmeza:

“o apoio ao Movimento de 64 ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango; em segundo lugar, não se trata de posição equivocada “da redação”, mas de posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário, diretor e redator chefe, Roberto Marinho, como comprovam as edições da época”.

E foi além:

“não foi, também, como fica insinuado, uma posição passageira revista depois de curto período de engano, pois dez anos depois da revolução, na edição de 31 de março de 1974, em editorial de primeira página, o jornal publica derramados elogios ao Movimento; e em 7 de abril de 1984*, vinte anos passados, Roberto Marinho publicou editorial assinado, na primeira página, intitulado “Julgamento da Revolução”, cuja leitura não deixa dúvida sobre a adesão e firme participação do jornal nos acontecimentos de 1964 e nas décadas seguintes.”

* Na verdade o editorial foi publicado em 7 de outubro de 1984, e não em 7 de abril como afirmou o Círculo Militar. Nota de Hum Historiador.

Abaixo, repercutimos a íntegra da nota do Clube Militar, disponível da página da Instituição:

Nossa Opinião – Equívoco, uma ova!

Logotipo do Clube Militar

Logotipo do Clube Militar

Numa mudança de posição drástica, o jornal O Globo acaba de denunciar seu apoio histórico à Revolução de 1964. Alega, como justificativa para renegar sua posição de décadas, que se tratou de um “equívoco redacional”.

Dos grandes jornais existentes à época, o único sobrevivente carioca como mídia diária impressa é O Globo. Depositário de artigos que relatam a história da cidade, do país e do mundo por mais de oitenta anos, acaba de lançar um portal na Internet com todas as edições digitalizadas, o que facilita sobremaneira a pesquisa de sua visão da história.

Pouca gente tinha paciência e tempo para buscar nas coleções das bibliotecas, muitas vezes incompletas, os artigos do passado. Agora, porém, com a facilidade de poder pesquisar em casa ou no trabalho, por meio do portal eletrônico, muitos puderam ler o que foi publicado na década de 60 pelo jornalão, e por certo ficaram surpresos pelo apoio irrestrito e entusiasta que o mesmo prestou à derrubada do governo Goulart e aos governos dos militares. Nisso, aliás, era acompanhado pela grande maioria da população e dos órgãos de imprensa.

Pressionado pelo poder político e econômico do governo, sob a constante ameaça do “controle social da mídia” – no jargão politicamente correto que encobre as diversas tentativas petistas de censurar a imprensa – o periódico sucumbiu e renega, hoje, o que defendeu ardorosamente ontem.

Alega, assim, que sua posição naqueles dias difíceis foi resultado de um equívoco da redação, talvez desorientada pela rapidez dos acontecimentos e pela variedade de versões que corriam sobre a situação do país.

Dupla mentira: em primeiro lugar, o apoio ao Movimento de 64 ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango; em segundo lugar, não se trata de posição equivocada “da redação”, mas de posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário, diretor e redator chefe, Roberto Marinho, como comprovam as edições da época; não foi, também, como fica insinuado, uma posição passageira revista depois de curto período de engano, pois dez anos depois da revolução, na edição de 31 de março de 1974, em editorial de primeira página, o jornal publica derramados elogios ao Movimento; e em 7 de abril de 1984, vinte anos passados, Roberto Marinho publicou editorial assinado, na primeira página, intitulado “Julgamento da Revolução”, cuja leitura não deixa dúvida sobre a adesão e firme participação do jornal nos acontecimentos de 1964 e nas décadas seguintes.

Declarar agora que se tratou de um “equívoco da redação” é mentira deslavada.

Equívoco, uma ova! Trata-se de revisionismo, adesismo e covardia do último grande jornal carioca.

Nossos pêsames aos leitores.

Para melhor compreensão do assunto que está sendo abordado, abaixo disponibilizamos a Capa de O Globo com o editorial dando vivas ao movimento dos militares, e o texto na íntegra do editorial de 1964 (Fonte: Pragmatismo Político).

Editorial de O Globo, um dia após o Golpe Militar de 1964.

Editorial de O Globo de 02 de abril de 1964, um dia após o Golpe Militar.

“Ressurge a Democracia”

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”

Por fim, o Hum Historiador também gostaria de adicionar ao post, o referido editorial de 07 de outubro de 1984, assinado pelo Sr. Roberto Marinho, e que foi referido pelo Clube Militar em sua resposta a O Globo para destacar a defesa que o proprietário das Organizações Globo fazia do “movimento revolucionário” mesmo 20 anos após o Golpe ter sido perpetrado.

Abaixo a transcrição na íntegra do editorial de Roberto Marinho, publicado na edição de 7 de outubro de 1984 de O Globo.

Detalhe da capa de O Globo, de 7 de Outubro de 1984. Fonte: O Globo.

Detalhe da capa de O Globo, de 7 de Outubro de 1984. Fonte: O Globo.

JULGAMENTO DA REVOLUÇÃO
Roberto Marinho

PARTICIPAMOS da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada. Quando a nossa redação foi invadida por tropas anti-revolucionárias, mantivemo-nos firmes em nossa posição. Prosseguimos apoiando o movimento vitorioso desde os primeiros momentos de correção de rumos até o atual processo de abertura que deverá consolidar-se com a posse do futuro presidente.

TEMOS permanecido fiéis aos seus objetivos, embora conflitando em várias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir a autoria do processo revolucionário, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o Marechal Costa e Silva, “por exigência inelutável do povo brasileiro”. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um “pronunciamento” ou “golpe” com o qual não estaríamos solidário.

O GLOBO, desse a Aliança Liberal, quando lutou contra os vícios políticos da Primeira República, vem pugnando por uma autêntica democracia e progresso econômico e social do País. Em 1964, teria de unir-se aos companheiros de jornadas anteriores, aos “tenentes e bacharéis” que se mantinham coerentes com as tradições e os ideais de 1930m aos expedicionários da FEB que ocupavam a Chefia das Forças Armadas, os quais se congregaram sob a pressão das grandes marchas populares, mudando o curso da nossa história.

ACOMPANHAMOS esse esforço de renovação em todas as suas fases. No período de ordenação da economia que se encerrou em 1967. Nos meses dramáticos de 1968 em que a intensificação dos atos de terrorismo provocou a implantação do AI-5. Na expansão econômica de 1969 a 1972, quando o produto nacional cresceu à taxa média anual de 10%. Assinale-se que, naquele primeiro decênio revolucionário, a inflação decrescera de 96% para 12,6% ao ano, elevando-se as exportações anuais de 1 bilhão e 300 mil dólares para mais de 12 bilhões de dólares. Na era do Impacto da crise mundial do petróleo desencadeada em 1973 e repetida em 1979, a que se seguiram aumentos vertiginosos nas taxas de juros, impondo-nos uma sucessão de sacrifícios para superar nossa dependência externa de energia a deterioração dos preços dos nossos produtos de exportação e a desorganização do sistema financeiro internacional. Essa conjugação de fatores que violentaram a administração de nossas contas externas obrigou-nos a desvalorizações cambiais de emergência que teriam fatalmente de resultar na exacerbação do processo inflacionário. Nas respostas que a sociedade e o governo brasileiros deram a esses desafios, conseguindo no segundo decênio revolucionário que agora se completa, apesar de todas as dificuldades, reduzir de 80% pra menos de 40% a dependência externa na importação de energia, elevando a produção de petróleo de 175 mil para 500 mil barris diários e a de álcool, de 680 milhões para 8 bilhões de litros; e simultaneamente aumentar a fabricação industrial em 85%, expandir a área plantada para produção de alimentos com 20 milhões de hectares a mais, criar 13 milhões de novos empregos, assegurar a presença de mais de 10 milhões de estudantes nos bancos escolares, ampliar a população economicamente ativa de 29 milhões e 500 mil para 45 milhões 797 mil, elevando as exportações anuais de 12 bilhões para 22 bilhões de dólares.

VOLVENDO os olhos para as realizações nacionais dos últimos vinte anos, há que se reconhecer um avanço impressionante: em 1964, éramos a quadragésima nona economia mundial, com uma população de 80 milhões de pessoas e uma renda per capita de 900 dólares; somos hoje a oitava, com uma população de 130 milhões de pessoas, e uma renda média per capita de 2.500 dólares. 

* * *

O PRESIDENTE Castello Branco, em seu discurso de posse, anunciou que a Revolução visava “a arrancada para o desenvolvimento econômico, pela elevação moral e política”. Dessa maneira, acima do progresso material, delineava-se o objetivo supremo da preservação dos princípios éticos e do restabelecimento do estado de direito. Em 24 de junho de 1978, o Presidente Geisel anunciou o fim dos atos de exceção, abrangendo o AI-5, o Decreto-Lei 477 e demais Atos Institucionais. Com isso, restauravam-se as garantias da magistratura e o instituto do habeas-corpus. Cessava a competência do Presidente para decretar o fechamento do Congresso e a intervenção nos Estados, fora das determinações constitucionais. Perdia o Executivo as atribuições de suspender direitos políticos, cassar mandatos, demitir funcionários civis e reformar militares. Extinguiam-se as atividades da G.G.I. e o confisco sumário de bens. Desapareciam da legislação o banimento, a pena de morte, a prisão perpétua e a inelegibilidade perene dos cassados. Findava-se o período discricionário, significando que os anseios de liberalização que Castello Branco e Costa e Silva manifestaram e diversas ocasiões e que Médici vislumbrou em seu primeiro pronunciamento finalmente se concretizavam.

ENQUANTO vários líderes oposicionistas pretenderam considerar aquelas medidas fundamentais como “meros paliativos”, o então Deputado Tancredo Neves, Líder do MDB na Câmara Federal, reconheceu que a determinação governamental “foi além do esperado”.

AO ASSUMIR o Governo, o Presidente Figueiredo jurou dar continuidade ao processo de democratização. A concessão da anistia ampla e irrestrita, as eleições diretas para os Governos dos Estados, a posse dos eleitos, a colaboração federal com os novos Governos oposicionistas na defesa dos interesses maiores da coletividade são demonstrações de que o Presidente não falou em vão.

NÃO HÁ memória de que haja ocorrido aqui, ou em qualquer outro país, que um regime de força, consolidado há mais de dez anos, se tenha utilizado do seu próprio arbítrio para se auto-limitar, extinguindo os poderes de exceção, anistiando adversários, ensejando novos quadros partidários, em plena liberdade de imprensa. É esse indubitavelmente, o maior feito da Revolução de 1964. 

* * *

NESTE momento em que se desenvolve o processo da sucessão presidencial, exige-se coerência de todos os que têm a missão de preservar as conquistas econômicas e políticas dos últimos decênios.

O CAMINHO para o aperfeiçoamento das Instituições é reto. Não admite desvios céticos, nem a afastamentos do povo.

ADOTAR outros rumos ou retroceder para atender a meras conveniências de facções ou assegurar a manutenção de privilégios seria trair a Revolução no seu ato final.

Abaixo, link para página do Globo contendo a íntegra do recente editorial considerando um equívoco o apoio editorial ao Golpe.

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Para professora da USP, a Bolívia é “insignificante” em todas as perspectivas.

Nessa última quinta-feira (29), a professora de direito internacional da USP, Maristela Basso, ao comentar notícia sobre o episódio da fuga do senador boliviano, Roger Pinto Molina, para a embaixada do Brasil em La Paz, criando uma crise diplomática nas relações entre Brasil e Bolívia, afirmou que:

“(…) a Bolívia é insignificante em todas as perspectivas, é um país, sim, que tem uma fronteira enorme com o Brasil, dos nossos vizinhos o que tem a maior fronteira terrestre, mas nós não temos nenhuma relação estratégica com a Bolívia, nós não temos nenhum interesse comercial com a Bolívia, os brasileiros não querem ir para a Bolívia, os bolivianos que vêm de lá, vêm tentar uma vida melhor aqui, não contribuem com o desenvolvimento tecnológico, cultural, social e desenvolvimentista do Brasil. Então, a Bolívia é um assunto menor! (…)”

Abaixo segue trecho do Jornal da Cultura no qual a professora Maristela Basso faz o comentário.

Depois de certa incredulidade ao ser informado de que a professora teria proferido tal comentário em rede nacional, fui verificar a edição do telejornal e, ainda embasbacado, não pude deixar de questionar como poderia ser que, uma pessoa na posição de Maristela Basso, tenha um pensamento tão equivocado em relação a um país extremamente estratégico para o Brasil no cenário regional – quer no presente, quer projetando para o futuro – como a Bolívia. Foi inevitável não indagar-me sobre como uma pessoa com pensamento tão medíocre poderia estar ocupando a cadeira de Direito Internacional de uma das mais renomadas universidades do país, a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e da manutenção de tal pessoa no cargo após tamanho disparate.

Embora a professora não tenha levado em consideração, atualmente a Bolívia é um dos principais fornecedores de gás natural para o Brasil, segundo uma apuração simples que pode ser feito na própria Internet, verifica-se que aproximadamente três quartos de todo o gás natural consumido pelas indústrias de São Paulo são provenientes da Bolívia. Na relação comercial estabelecida entre os países – que inclusive gerou uma polêmica quando Lula sentou com Evo Morales para rever os valores dos contratos – o gás chega ao Brasil através de um gasoduto de mais de 3000 quilômetros interligando a Bolívia (Rio Grande) ao Brasil, entrando no país através de Corumbá, passando por cidades como Campo Grande (MS), Três Lagoas (MS), Campinas (SP), São Paulo (SP), Curitiba (PR), Florianópolis (SC)  até chegar ao seu destino final, Porto Alegre (RS), sendo fundamental para todo o parque industrial da região sul-sudeste do país.

Abaixo segue mapa com o gasoduto Bolívia Brasil.

Gasoduto Bolivia Brasil

Gasoduto Bolívia-Brasil. Fonte: Maria de Fátima Salles Abreu Passos para a Revista Economia e Energia. Ano II, n. 10, 1998.

Ora, se eliminássemos o teor xenofóbico das declarações de Basso, o simples fato dela ter desconsiderado que atualmente a Bolívia é um parceiro comercial mais do que estratégico no fornecimento energético do Brasil, já seria uma declaração polêmica por revelar uma ignorância incompatível com a posição ocupada pela professora de Direito Internacional.

Se considerarmos a relação Brasil-Bolívia em uma projeção futura, a mesma segue sendo de fundamental importância estratégica na área do fornecimento energético, pela simples fato de a Bolívia ser a detentora da maior reserva mundial de Lítio, tal como já observado em post publicado neste blog: O lítio na América do Sul e o eixo da geopolítica energética mundial.

Reservas de lítio no mundo e a posição estratégica da Bolívia no setor.

Depois de ter passado muitos anos “amargando” com baixa demanda mundial, a situação do lítio mudou completamente quando cientistas descobriram sua enorme capacidade de armazenar energia elétrica. Logo passou a ser utilizado como matéria prima na produção de baterias de longa duração em aparelhos eletrônicos como celulares e notebooks e, posteriormente, verificou-se que sua capacidade de armazenamento era tão grande que o lítio acabou transformando os automóveis movidos à baterias elétricas na grande opção ecológica e sustentável em substituição aos veículos movidos à base de petróleo.

O fato do lítio ser um mineral que se concentra em região de salares, faz com que países como Bolívia (Uyuni), Chile (Atacama) e Argentina (Hombre Muerto) estejam situados entre os maiores detentores mundiais de reservas deste recurso. Se considerarmos somente a Bolívia, onde está localizado o Salar de Uyuni, veremos que aproximadamente 29% de toda a reserva mundial de lítio está concentrado nesta região, segundo tabela da United States Geological SurveySaindo da escala nacional para olhar os números continentais, as reservas sul americanas são mais expressivas e atingem um montante de 20,6 milhões de toneladas, ou 62,6% do total. Tais dados revelam, diferentemente do asseverado pela professora Basso, que a Bolívia se trata de um país com o qual o Brasil deve manter uma relação estreita nas próximas décadas, em função de uma estratégia da nova geopolítica energética que se formula com a substituição do petróleo por novas fontes de energia.

Aos que ficaram interessados em obter maiores informações sobre o papel do lítio na geopolítica energética mundial, recomendo a leitura do post em que trato sobre o assunto.

Por fim, há ainda o teor racista e xenofóbico empregado pela professora Maristela Bassos em sua declaração. A comunidade boliviana residente em São Paulo reagiu imediatamente às declarações divulgadas no Jornal da Cultura e, segundo matéria do portal R7, a comunidade “recebeu de forma indignada as declarações de Maristela Basso. Carmelo Muñoz Cardoso, presidente da ADRB (Associação de Residentes Bolivianos), que existe desde 1969, encaminhou pedido de direito de resposta à TV Cultura”.

Segundo a declaração de Carmelo Muñoz Cardoso:

“As declarações proferidas têm um alto grau ofensivo a toda comunidade boliviana. A afirmação de que a Bolívia é insignificante demonstra notório racismo, total xenofobia, absoluto preconceito e desrespeito pelo nosso país. Além das medidas legais, requeremos à TV Cultura o direito de resposta”.

Ao ver as declarações da professora, não há como negar o teor xenofóbico embutido no infeliz comentário. Ao proferi-lo, Basso parecia reproduzir comentários de alguns setores nacionalistas europeus ao se posicionarem a respeito dos imigrantes africanos em seus países. A relação de seu comentário com a posição de uma direita nacionalista racista e xenófoba é quase inescapável, ainda mais em um momento quando também circula imagens e campanhas em outros cantos do mundo como a reproduzida abaixo, feita pelo Partido do Povo da Suíça (SVP), à respeito dos imigrantes que vivem naquele país.

Fotos utilizadas pela campanha do partido SVP (Suíça) tentando mostrar um contraste entre “duas Suíças”. Fonte: Opera Mundi

Concluo o post, uma vez mais, estarrecido com a ignorância, o racismo e a xenofobia demonstrado pela professora em seu comentário. Incompatíveis com a posição da professora na cadeira de Direito Internacional da Faculdade de Direito da USP, entendo que os mesmos mereciam até um comunicado formal da Faculdade pedindo esclarecimentos da professora.

Declaro meu total repúdio às declarações de Maristela Basso e faço coro à comunidade boliviana que exige direito de resposta da TV Cultura e, mais do que isso, um pedido formal de desculpas da professora pelo comentário infeliz proferido nesta última quinta-feira.

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O documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS acaba de ser lançado na íntegra no YouTube

É com grande prazer que o Hum Historiador anuncia o lançamento da íntegra do documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS no YouTube para todos que quiserem acompanhar o trabalho que o Lucas Lespier, eu e uma equipe de grandes amigos realizamos para dar voz aos moradores da antiga comunidade do Pinheirinho, de São José dos Campos, que foi massacrada pela Polícia Militar de São Paulo à mando do governador Geraldo Alckmin.

O filme é de livre divulgação e gostaríamos muito que cada um pudesse ajudar a espalhá-lo para tornar a história das pessoas que foram desalojadas do Pinheirinho ainda mais conhecida.

SOBRE O FILME

Pinheirinho – um ano depois é um documentário que tem o objetivo de registrar como vivem as famílias que moravam na antiga comunidade do Pinheirinho um ano após a violenta reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo, em 22 de janeiro de 2012.

Através desse registro documental, queremos dar voz  às pessoas que viveram o trauma da desocupação para que contem suas histórias e relembrem à sociedade que elas seguem vivendo sob o risco de retornarem à condição de desabrigadas, além de permanecerem sem nenhuma perspectiva de solução definitiva para o seu problema de habitação após a desocupação.

Ilustração final do Pinheirinho um ano depois

Arte: Juliana Amoasei Reis

O filme tem como foco central os ex-moradores da comunidade do Pinheirinho e seus depoimentos de como tem sobrevivido desde que foram retirados de suas casas. No entanto, para darmos uma ideia mais aprofundada sobre o que ocorreu logo após a desocupação e quais as reais oportunidades de resolução definitiva do acesso à moradia adequada, também demos voz a outros atores que participaram ativamente de todo o processo de desocupação, como os políticos envolvidos nas negociações que antecederam a reintegração de posse, intelectuais e estudiosos da questão da habitação e moradia no Brasil, jornalistas que cobriram o caso, representantes de órgãos de proteção aos Direitos Humanos, líderes comunitários, advogados, juízes, defensoria pública, promotores de justiça.

BREVE HISTÓRICO DO DOCUMENTÁRIO PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS

Num domingo, às 6 horas da manhã, Alckmin manda a PM desocupar violentamente a comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos. Era o dia 22 de janeiro. Acompanhei as notícias estarrecido pela Internet, jornal e televisão. No mesmo dia estava na Avenida Paulista me manifestando contra esse ato criminoso realizado contra cidadãos que lutam pelo direito de uma moradia adequada.

Os dias foram se passando e eu ia registrando no blog todas as atividades que participei no decorrer daquele mês logo após a desocupação do Pinheirinho (ver histórico abaixo). O amigo Lucas Lespier já tinha uma ideia de fazer um documentário, ao ver meus relatos no blog, me chamou para conversarmos e ver se eu topava fazer parte de um projeto para documentar a história daquelas pessoas. Daí por diante, foram várias reuniões para decidirmos qual linha seguiria o filme e como o realizaríamos. A ideia principal era que o filme não seria sobre o que ocorreu no Pinheirinho, mas sobre as pessoas que foram desocupadas e ainda sofriam, por tempo indeterminado, a violência da desocupação iniciada na truculenta ação da Polícia Militar de São Paulo à mando do governador do estado.

Em julho de 2012, ocorreu uma ato na Câmara Municipal de São José dos Campos, sobre os seis meses da desocupação do Pinheirinho. Foi a oportunidade que imaginamos de fazer contatos com as lideranças da comunidade e tentar ajeitar as primeiras entrevistas com moradores e alguns outros envolvidos, como defensor público, advogado da comunidade e ex-procurador do estado de São Paulo. Foi assim que eu e Lucas partimos pela primeira vez a São José dos Campos, como mostra o pequeno vídeo amador que eu fiz abaixo, em um caminho que ainda seria trilhado tantas outras vezes pela equipe.

Feitos os contatos iniciais, precisávamos levantar a grana para a realização do documentário. Dentre as opções possíveis, decidimos pelo financiamento coletivo através do sistema de crowdfunding, no Brasil muito conhecido através da plataforma Catarse. Através desse sistema, cadastramos um projeto no site da plataforma por um tempo determinado e, todos aqueles que se interessarem, podem colaborar com qualquer quantia para a realização do projeto. Nossa meta era a captação de R$ 10.000,00 para realizarmos o filme praticamente inteiro com trabalho voluntário dos envolvidos. Abaixo segue o vídeo que fizemos para chamar colaboradores que se interessassem em contribuir com projeto.

Enquanto a grana não saía, começamos a realizar as primeiras entrevistas no final de julho de 2012 em São Paulo mesmo, para evitar grandes despesas. Começamos com a relatora da ONU para a moradia adequada e professora da FAU-USP, Raquel Rolnik. Foi uma ótima entrevista e, com base nela, começamos oficialmente nosso projeto.

Entrevistando o Suplicy

Foto: Jean Gold

Em agosto de 2012 já estávamos entrevistando algumas das personalidades que apareceram no filme, como o Senador Eduardo Suplicy.

Quando o projeto conseguiu atingir sua meta no Catarse, ficamos aliviados. Com o dinheiro foi possível comprar alguns equipamentos para poder fazer melhores entrevistas na realização do filme. Além disso, também seria possível pagar um lanche para a equipe que se deslocasse até São José dos Campos para as filmagens que duravam um dia inteiro.

Muitas entrevistas se sucederam até 22 de janeiro de 2013, data que marcaria o primeiro ano após a desocupação dos moradores do Pinheirinho e quando pretendíamos fazer as últimas gravações do documentário. Um ato foi marcado para ser realizado neste dia e lá estava nossa equipe fazendo as filmagens em diferentes locações e aproveitando para fazer mais contatos para garantir o lançamento do filme alguns meses depois em São José dos Campos e São Paulo.

Terminadas as filmagens, o filme entrou em período de edição, onde Lucas trabalhou muito para conseguir finalizar o filme com a qualidade que vocês podem verificar agora. O filme teve algumas exibições em pré-lançamento para verificarmos o resultado de como ficou a produção na tela-grande.

Assim, em homenagem aos moradores do Pinheirinho, a primeira projeção foi feita ao ar livre em São José dos Campos no Campão, local histórico de reunião dos moradores do Pinheirinho que fica no bairro do Campo dos Alemães, ao lado de onde era a comunidade que foi desocupada. Depois disso, tivemos uma pré-estréia no baixo-centro, também ao ar livre em São Paulo, e no Museu da Imagem e do Som, no MIS.

Agora o documentário está disponível na íntegra no YouTube para que todos possam acompanhar essa produção que começou há mais de um ano, que valeu muito esforço pessoal de cada um dos envolvidos, mas que nos enche de orgulho de ter participado.

Meu abraço carinhoso e sincero agradecimento à todos que participaram, em especial aos amigo Lucas Lespier, Felipe Gil, Patrícia Brandão e Juliana Lima.

Abaixo a foto do último dia de gravação que participei do filme, feita no começo de 2013, no escritório da revista Caros Amigos, quando entrevistávamos uma das jornalistas que cobriram o caso Pinheirinho para a revista.

Roger na CarosAmigos para PinheirinhoUmAnoDepois

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O DOCUMENTÁRIO

Aqui segue uma relação de quatro posts que foram publicados no Hum Historiador referentes aos diferentes momentos em que estávamos produzindo o documentário.

Gostaria de lembrar que o projeto já foi concluído e, portanto, não há mais como colaborar com o mesmo. A relação dos posts abaixo é só para registrar o histórico do desenvolvimento do projeto.

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O PINHEIRINHO

Abaixo segue uma relação de quinze posts publicados no Hum Historiador que tiveram como tema o Pinheirinho (em ordem decrescente de data de publicação). Os posts de janeiro e fevereiro de 2012 foram escritos no calor do momento e registram minha participação nos protestos e atividades de solidariedade aos antigos moradores do Pinheirinho. A partir de julho de 2012, nasce a ideia de fazer o documentário e há inclusive um post trazendo o primeiro vídeo amador que fizemos de nossa primeira ida a São José dos Campos para estabelecer os primeiros contatos.

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Alckmin encerra integração na Zona Sul e custo de passagem sobe 2.200%

Direto do portal da Rede Brasil Atual, notícia da TVT dá conta de que o governador Geraldo Alckmin encerrou a integração no Terminal Sacomã entre o Bilhete Único e os ônibus de transporte intermunicipal para a região do ABC.

São Paulo – Começou a valer a partir de domingo (2), sem prévio aviso, nova regra para a integração intermunicipal no terminal da estação Sacomã de metrô. Ontem (4), os passageiros se mostravam confusos e revoltados com os novos preços e a dinâmica para fazerem a integração. Antes, apenas com o Bilhete Único era possível fazer a integração com os ônibus intermunicipais. Agora, é necessário que o usuário do transporte público tenha também o cartão Bom, o Bilhete de Ônibus Metropolitano, que opera nas linhas de transporte coletivo dos 39 municípios da região metropolitana de São Paulo.

Até domingo, o usuário que chegasse de metrô ao Sacomã e quisesse pegar um ônibus intermunicipal só pagavam a diferença das tarifas, que variavam entre R$ 0,15 e R$1,60, dependendo do destino. Agora a passagem do ônibus tem de ser paga integralmente, um valor que varia de R$ 3,40 e R$ 5, diferença que alcança até 2.200%.

“É um absurdo, agora tenho que pagar duas conduções, é cruel”, disse Neusa Maria de Souza Felício, auxiliar de serviço, à TVT. A EMTU informou que o desconto na integração era indevido, e que foi realizada uma campanha de ampla divulgação para que os usuários soubessem das mudanças previamente.

Assista aqui à reportagem da TVT.

Alckmin mostra uma vez mais a que veio, depois de ter (à contragosto), revogado o aumento das tarifas de ônibus, dá um duro golpe na parcela mais massacrada da população. Não faz questão de esconder seu ódio contra os pobres.

Não podemos deixar passar!!! Continuaremos na luta junto com o Movimento Passe Livre contra mais essa crueldade Alckmista.

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RODA VIVA entrevista ativistas do Movimento Passe Livre

Foto: Passe Livre

SE A TARIFA NÃO BAIXAR, A CIDADE VAI PARAR

No dia 17/06, mesmo dia da 5a. grande manifestação contra o aumento da tarifa do transporte público, o programa Roda-Viva da TV Cultura entrevistou dois ativistas do Movimento Passe Livre, Nina Cappello e Lucas Monteiro de Oliveira.

Para quem estava na manifestação e não teve a oportunidade de assistir, abaixo segue o vídeo com a íntegra do programa.

Nina afirma que o MPL tem um objetivo claro: a luta contra o aumento das passagens. Ela revela que Fernando Haddad convocou os militantes para participarem da reunião do Conselho da cidade, que acontece nesta terça-feira, 18. Mas Nina diz que ainda seria necessária uma reunião na quarta-feira, 19, com o prefeito. Durante os protestos desta segunda, Geraldo Alckmin anunciou à imprensa que estaria aberto a diálogos sobre tarifas. Enquanto não há de fato um acordo, a militante diz que as manifestações continuarão: “Se o governo não baixar a tarifa, vamos continuar nas ruas”.

Lucas também defende que o objetivo do MPL é a redução da passagem, mas diz que é a favor da taxa zero: “É uma decisão política o aumento, assim com é uma decisão política a existência da tarifa. Há cidades no Brasil, como outros países, em que existe a tarifa zero”.

Ele critica as empresas de ônibus, que têm lucro garantido, no entanto falham com a prestação de serviço. Segundo Lucas, o governo poderia renegociar esses valores, porém as autoridades não demostram interesse. De acordo com o militante, as empresas estariam lucrando cerca de R$ 15 mil por veículo.

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Rachel Sheherazade: o eco reacionário e fundamentalista na TV

William De Lucca

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O jornalismo é um retrato da sociedade, e indubitavelmente é palco de disputas ideológicas entre correntes políticas e filosóficas, entranhadas sob a máscara da ‘imparcialidade’. Neste palco, uma personagem vem ganhando destaque como representante de vozes reacionárias, conservadoras e fundamentalistas religiosas: a jornalista Rachel Sheherezade, âncora do telejornal SBT Brasil.

Ela tornou-se célebre nacionalmente por um comentário onde criticava o carnaval da Paraíba, estado onde nasceu e iniciou sua carreira como jornalista. Aos 39 anos, deixou seu estado natal para assumir a bancada do principal telejornal do SBT e lá, continuou a se posicionar de forma dura sobre diversos pontos, sempre deixando claro suas visões de mundo conservadoras, usadas ad nauseam por reacionários por todo o Brasil.

Num estado democrático de direito, não há problema nenhum que Rachel expresse seus pontos de vista, por mais infelizes que a maioria deles seja. O problema é que a jornalista utiliza a…

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Jornal da Globo e o violento ataque ao recém falecido Hugo Chávez

Repercutindo o post publicado no Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães, sobre a violência com a qual o Jornal da Globo atacou ontem [05/03], o recém falecido presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

MORTO, CHÁVEZ É MAIS ATACADO DO QUE QUANDO ESTAVA VIVO
publicado originalmente no BLOG DA CIDADANIA por Eduardo Guimarães

William Waack, na redação do Jornal da Globo

Não se pode dizer que seja exatamente uma surpresa o fenômeno que passou a ser visto após o anúncio da morte de Hugo Chávez. Logo após esse anúncio, o título do texto aqui publicado já dizia que o venezuelano não morrera, mas que, antes, acabara de nascer – ou renascer –, agora como mito.

O fenômeno em tela é o de o ex-presidente, depois de morto, estar sofrendo um nível de ataques na mídia americanizada do Brasil – e nas de tantos outros países latino-americanos – que poucas vezes se viu quando estava vivo.

Foi surpreendente, porém, a virulência com que a edição do Jornal da Globo que foi ao ar entre a noite da última terça-feira e o começo da madrugada de quarta tratou o presidente recém-falecido.

O Jornal Nacional, poucas horas antes, fugiu de mostrar os avanços sociais na Venezuela durante a era Chávez, mas não enveredou pela hidrofobia sem limites que se viu no Jornal da Globo – telejornal destinado ao público que dorme e acorda mais tarde e que tem maior poder aquisitivo.

Abaixo, o texto hidrófobo lido pelo âncora do Jornal da Globo Willian Waack sobre um ser humano que acabara de perder a vida. Um texto desrespeitoso à Venezuela e à parcela esmagadora de seu povo que apoiou o ex-presidente até seu último suspiro e que continua apoiando, agora na figura de Nicolás Maduro, provável herdeiro político de Chávez.

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JORNAL DA GLOBO

http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2013/03/hugo-chavez-morre-aos-58-anos.html

Willian Waack

5 de março de 2013

Hugo Chávez nunca reclamou quando o chamaram de caudilho, embora preferisse o título de comandante revolucionário. Como todo caudilho sul-americano, a revolução era ele.

O dono de um tal de socialismo bolivariano, que ninguém, nem mesmo Chávez, foi jamais capaz de explicar. Começou a carreira como muitos militares do continente, dando um golpe, descontente com políticos e elites tradicionais, que jamais, no caso da Venezuela, foram capazes de distribuir a grande riqueza do país: petróleo e energia.

Chávez fracassou na primeira tentativa de chegar ao poder, em 1992, mas não desistiu. Escolheu a marcha através das instituições formais da democracia como maneira de atacar a própria democracia, que, no entendimento dele, o caudilho bolivariano, só servia apenas aos interesses de quem ele declarava seus inimigos.

Em 1999, eleito presidente, Chávez não perdeu tempo. Convocou uma Assembleia Nacional Constituinte com a qual forjou as ferramentas que o manteriam no poder até o fim da vida.

Um de seus principais alvos era a imprensa independente: Hugo Chávez ganhou um lugar na já repleta história de caudilhos sul-americanos incapazes de conviver com o contraditório e a liberdade de imprensa.

Para ele, pouco importava: admirador dos irmãos Castro e do experimento ditatorial de Cuba, Chávez achava que a revolução social que tinha como propósito justificaria o emprego de qualquer meio. Foi beneficiado por uma extraordinária conjuntura internacional, que favoreceu a principal — quase única — fonte de renda do país: o petróleo.

Chávez transformou a então bem gerida e produtiva PDVSA, a estatal do petróleo, em um braço político dedicado ao distributivismo típico dos caudilhos preocupados apenas com a própria popularidade.

A indústria venezuelana ficou pelo caminho, a corrupção tornou-se ainda pior do que no regime político anterior, a inflação ficou sendo uma das maiores da América do Sul, mas Chávez continuava repetindo: “adelante siempre”.

Fez escola entre outros países ricos em energia, como Equador e Bolívia, onde conquistou adeptos. Tratou de exportar seu modelo para outro país rico na história em caudilhos, a Argentina.

Declarou os Estados Unidos da América como o pior inimigo da Venezuela. Protagonizou um dos piores momentos da Assembleia Geral das Nações Unidas, ao dizer que onde o então presidente americano George W. Bush havia acabado de discursar ainda prevalecia o cheiro de enxofre, o cheiro do diabo.

Sua maior desmoralização internacional, no entanto, ocorreu nas mãos do rei da Espanha, Juan Carlos, que o mandou se calar. Chávez quase foi derrubado em 2002 por um mal-articulado golpe militar no qual ele identificou a mão do império, a mão dos Estados Unidos.

Rompeu relações diplomáticas com Israel e estreitou laços com o Irã. Tornou-se muito popular em Moscou com as pesadas compras de armas, e um inimigo da vizinha Colômbia, que o acusava de abrigar, armar e ajudar os narcoguerrilheiros das Farc.

Encontrou no governo petista do Brasil um aliado confortável em várias iniciativas no continente, como a expansão do Mercosul, através de um truque diplomático articulado contra o Paraguai.

Faltou, porém, com a palavra dada a um de seus maiores amigos, o ex-presidente Lula, com quem combinou construir uma refinaria em Pernambuco. Até hoje, o aporte financeiro prometido por Chávez não se materializou, obrigando a Petrobras a tocar sozinha o projeto.

Ajudado por uma oposição desarticulada, desmoralizada e vítima também de perseguições, Chávez dominou a Venezuelal, mas não conseguiu realizar o tal do socialismo bolivariano, inspirado na figura de Simon Bolívar, que ele mandou exumar e venerava como um santo.

Como todo caudilho, embevecido de si mesmo, Chávez detinha a última palavra em qualquer assunto. Tinha a certeza de que seu nome, e a inspiração aos camisas vermelhas, seria o suficiente para levar a Venezuela a um grande futuro, pelo qual o país — dividido, traumatizado, empobrecido e violento — continua esperando.

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Um aspecto interessante desse texto lido por Waack no ar é que, a certa altura, parece lamentar o insucesso da tentativa de golpe de Estado contra Chávez em 2002 ao dizer que ele “Quase foi derrubado em 2002 por um mal-articulado golpe militar no qual ele identificou a mão do império, a mão dos Estados Unidos”.

A quantidade de distorções dos fatos contida na cobertura da Globo e do resto da grande mídia sobre o que foi o governo Chávez, é imensurável. Essa afirmação de que foi o venezuelano que “identificou” a interferência dos EUA na tentativa de golpe que sofreu, é hilária.

A tentativa de golpe contra Chávez em 2002 foi publicamente condenada pelas nações latino-americanas (os presidentes do Grupo do Rio se reuniram em San José, Costa Rica, na época, e emitiram um comunicado conjunto de repúdio ao golpe) e pelas organizações internacionais.

Apenas os Estados Unidos e a Espanha rapidamente reconheceram o governo de facto da Venezuela, agora presidido pelo rico empresário Pedro Carmona, presidente da Fiesp venezuelana, a “Fedecámaras”.

Como primeira medida, o “presidente” Carmona fechou o Congresso e a Suprema Corte de Justiça do país e reprimiu, com tropas leais, as manifestações pró-Chávez que tomaram Caracas, com a população descendo dos morros que circundam a cidade para irem protestar diante do Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano.

E para que fique absolutamente claro que a participação dos EUA no golpe não foi uma invenção de Chávez, basta ver notícia que o portal da mesma Globo na internet, o G1, publicou em 2009. Leia, abaixo, trecho da matéria.

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Jimmy Carter diz que EUA sabiam de golpe contra Hugo Chávez em 2002

G1

20 de setembro de 2009

http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1311305-5602,00-JIMMY+CARTER+DIZ+QUE+EUA+SABIAM+DE+GOLPE+CONTRA+HUGO+CHAVEZ+EM.html

Os Estados Unidos estavam sabendo do golpe que quase derrubou o presidente venezuelano Hugo Chávez em 2002, e talvez tenham até apoiado a frustrada tentativa, declarou o ex-presidente americano Jimmy Carter em entrevista publicada neste domingo (20) pelo jornal colombiano “El Tiempo”.

“Acho que não há dúvidas sobre o fato de que em 2002 os Estados Unidos estavam sabendo, ou tiveram participação direta, no golpe de Estado”, disse Carter ao jornal. Assim, as críticas de Chávez contra os Estados Unidos “são legítimas”, destacou o ex-dirigente democrata, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2002.

(…)

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Parece-me material suficiente para que, ao menos, a Globo não atribuísse só a Chávez a acusação de que os Estados Unidos foram parte integrante da tentativa fracassada de golpe em 2002 na Venezuela, certo?

É claro que o que o Jornal da Globo apresentou não foi uma reportagem, mas um editorial capenga, cheio de furos e que, se fosse publicado em uma televisão norte-americana, seria passível de ser contestado no ar por qualquer cidadão que se sentisse prejudicado, como determina o Federal Communications Commision (FCC), órgão regulador das comunicações eletrônicas naquele país.

Mas isso é nos EUA, que, como todos sabem, é um país “marxista”…

Voltando à dura realidade brasileira, no mesmo Jornal da Globo ainda tivemos Arnaldo Jabor com mais opinião e ainda menos fatos, vociferando sem parar contra Chávez, omitindo, distorcendo, inventando etc.

Nos blogs e sites, os antichavistas pareceram ter enlouquecido com a imortalidade recém-adquirida por Chávez. Virulentos, pornográficos, hidrófobos ao impensável, mentecaptos de todas as idades e de todas as regiões do país tentavam se superar em palavrões, insultos e praguejamentos diversos contra um ser humano que acabara de falecer e que, segundo informações minimizadas e distorcidas da Folha de São Paulo do dia seguinte, reduziu a pobreza na Venezuela de 20% para 7%.

Tanto o telejornalismo da Globo quanto os grandes jornais impressos do dia seguinte simplesmente não deram uma linha sobre o fato de que Chávez conseguiu os maiores avanços em termos de redução da pobreza, da miséria e de distribuição de renda na América Latina, sem falar do feito histórico de ter acabado com o analfabetismo em seu país, conforme referendo público da Unesco.

A impressão que o noticiário sobre a morte de Chávez deu a qualquer um que assistiu ou leu – mesmo às pessoas despolitizadas –, foi de surpresa. Muitos não conseguiram entender a razão de tanto ódio contra alguém que acabara de deixar a vida para entrar na história.

A explicação, porém, já foi dada aqui mesmo poucas horas após o falecimento de Hugo Rafael Chávez Frías: morto, está mais poderoso do que nunca. É relativamente simples destruir os vivos – ainda que, às vezes, como no caso de Chávez ou do próprio Lula, nem tanto. Mas é praticamente impossível destruir um mito.

O que se viu e ainda será visto nos próximos dias, semanas e até anos em termos de hidrofobia político-ideológica contra o falecido Chávez, portanto, não passa de um medo absolutamente visceral que a direita sente de um homem que ergueu a América Latina social e economicamente.

Chavez

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Silas Malafaia contra a laicização do Estado brasileiro

Bertone Sousa, professor do curso de História da Universidade Federal do Tocantins, acaba de escrever um texto bastante interessante em seu blog sobre a entrevista de Silas Malafaia ao programa da Marília Gabriela, neste último domingo (03/02).

Em seu texto, Sousa faz inicialmente uma breve diferenciação entre Malafaia e os principais líderes e televangelistas brasileiros (Edir Macedo, R. R. Soares e Valdemiro Santiago), passa em seguida a falar de onde veio Silas Malafaia e para qual público ele fala, menciona suas alianças e estratégias para se diferenciar de outros líderes evangélicos com perfil semelhante ao seu (Estevam Hernandes e R. R. Soares), toca no assunto vital da necessidade dos holofotes estarem sempre voltados para si e, por isso, seu foco no discurso anti-homosexual como forma de ganhar projeção nacional, para finalmente falar de seu principal objetivo, isto é, “alcançar poder para intervir diretamente nas decisões políticas do país”.

Abaixo segue o texto na íntegra do professor Bertone Sousa:

O QUER QUER SILAS MALAFAIA?
por Bertone Sousa – publicado originalmente em 06/02/2013

Pastor Silas Malafaia concede entrevista ao programa de Marília Gabriela, no último 03/02, no SBT.

Depois da entrevista de Silas Malafaia com Marília Gabriela no último domingo, dia 03, a apresentadora concedeu uma entrevista em que afirma que agora entende porque ele tem tanta audiência entre os evangélicos: é muito enfático, segundo ela. Afirmou ainda que, pela primeira vez, teve de manifestar sua opinião, contrapondo-se a um convidado do programa. O que Marília falou e sentiu é importante porque desvela a estratégia de Malafaia para tornar-se o líder que hoje é.

Dentre os principais televangelistas brasileiros, Silas Malafaia tem alguns diferenciais em relação aos outros. As práticas religiosas de R.R. Soares, Edir Macedo e Valdemiro Santiago nasceram ancoradas na tradição taumatúrgica do pentecostalismo brasileiro. Grosso modo, o que eles acrescentaram aí foi a Teologia da Prosperidade e a exacerbação do discurso maniqueísta da “guerra espiritual”. Ao contrário do pentecostalismo clássico (Assembleia de Deus, Congregação Cristã e outras) as neopentecostais focaram como inimigos as religiões de matriz africana, e não apenas o catolicismo (embora o caso do “chute na santa” por um bispo da IURD em 1995 tenha sido um ponto alto na relação tensa entre a Igreja Católica e o emergente protestantismo neopentecostal brasileiro).

Silas Malafaia emergiu nesse contexto como um desconhecido. Sendo pastor de uma das igrejas mais fundamentalistas do Brasil, a Assembleia de Deus, ele não se destacou por práticas de curandeirismo como os outros nem pela disputa contra as religiões africanas. Ele encontrou em seu estilo polemista e em sua retórica belicosa um caminho para se tornar uma das principais lideranças desse segmento. Paralelamente, ele também abraçou a Teologia da Prosperidade, tendo percebido o quanto isso é oportuno num país de economia emergente e de segmentos sociais cada vez mais numerosos que vem ascendendo à condição de classe média no Brasil desde o início da década passada.

O seu público não é o mesmo de outros televangelistas. O público de Edir Macedo e Valdemiro Santiago vêm especialmente dos extratos mais pobres economicamente, são pessoas que, em sua maioria, estão buscando ascensão social. Já o público de Malafaia é mais escolarizado (e ele gosta muito de enfatizar isso), já está na classe média, é mais exigente. Em uma entrevista recente, após a reportagem da Forbes que o incluiu entre os pastores mais ricos do país, ele afirmou que gasta muito mais pra abrir uma igreja do que o Valdemiro Santiago, porque ele sempre abre uma igreja pronta, com climatização, som da melhor qualidade, entre outras coisas. Além disso, ele valoriza salarialmente seus pastores, pagando escola dos filhos, plano de saúde e, às vezes, até faculdade no exterior. Por outro lado, exige deles boa capacidade de argumentação e resultados em termos de números de fiéis.

O público de Malafaia é o mesmo de Estevam Hernandes e R.R. Soares. Mas para concorrer com eles, aliou-se a outros nomes da Teologia da Prosperidade: Mike Murdok, Morris Cerullo, Renê Terra Nova. Com os dois primeiros, aprendeu a investir na própria imagem, usando estratégias de marketing para projetar a si mesmo e à sua igreja no mercado religioso brasileiro – não uso mercado aqui no sentido pejorativo, mas no sentido sociológico de que há uma pluralidade de tendências religiosas em nossa sociedade e que cada uma delas lança mão de várias estratégias para aglutinar seguidores. No caso do neopentecostalismo, essa concorrência é ainda mais acirrada, pela quantidade de igrejas que surgem anualmente nas várias regiões do país. Além disso, aprendeu com eles a investir em livros e discursos de auto-ajuda e a fazer campanhas financeiras desafiando a fé das pessoas e estimulando-as a doar. Malafaia também fundou uma editora e comprou horários na TV aberta, o elemento mais indispensável para concorrer com outras lideranças religiosas carismáticas que já estão lá.

Para ele, estar na mídia é uma questão de sobrevivência no ramo. Por isso ele precisava de algo que fizesse os holofotes estarem constantemente voltados para ele. E encontrou isso no discurso anti-homossexual. Comprando uma briga com o movimento LGBT (outro segmento que também ascendeu junto com os neopentecostais), Malafaia pretendia não apenas estar na mídia, mas fazer algo que nenhum outro líder protestante ainda conseguiu: unir os evangélicos em torno de um líder. E você apenas pode unir segmentos tão heterogêneos criando um inimigo, uma ameaça comum. Não importa que o inimigo seja imaginário, o importante é que as pessoas comprem a ideia. Nesse sentido, ele segue o exemplo de Pat Robertson nos Estados Unidos que, na década de 1960, criou a Maioria Moral (Moral Majority) para combater o feminismo, o divórcio, o aborto, o homossexualismo, a cultura secular.

Malafaia usa o discurso contra o homossexualismo como plataforma para conseguir essa projeção em nível nacional entre os evangélicos. O objetivo vai além: alcançar poder para intervir diretamente nas decisões políticas do país, criando um grupo forte e coeso para fazer lobby junto ao Congresso, ao Senado e à própria presidência da República. A Igreja Católica sempre fez isso, mas nunca deram muita atenção. Suas idas a Basília para discursar na Câmara ou na Esplanada dos Ministérios tem por objetivo criar essa ponte entre o público evangélico e o poder. Por isso ele tem criticado outros líderes religiosos por não o apoiarem em sua cruzada contra a legalização do casamento homossexual.

Embora tenha conseguido avançar bastante em seus objetivos, Malafaia tem esbarrado na resistência dos evangélicos brasileiros de se unirem em torno de um líder. Por outro lado, à medida que ele e outros líderes protestantes avançam, ocupando vagas na Câmara junto à bancada evangélica e legislando em torno de princípios religiosos, a democracia e a laicidade do Estado tendem a perder com isso. A nova classe média brasileira é predominantemente desescolarizada e conservadora e tem sido interpelada por esses discursos a tornar-se militante de causas antisseculares. Após as eleições de 2010, esses líderes têm percebido a força de sua atuação junto a esses segmentos. A médio e longo prazo, as consequências sociais da ação de Malafaia e de outros líderes pentecostais no Brasil podem ser devastadoras. A junção de religião e política historicamente sempre foi uma ameaça às liberdades individuais e na jovem democracia brasileira é um fantasma que está sempre por perto.

Além do texto de Bertone, gostaria também de repercutir o vídeo-resposta elaborado por Eli Vieira, biólogo, mestre em genética e doutorando nessa mesma matéria pela Universidade de Cambridge, no qual ele contesta as afirmações de Silas Malafaia de que não existem estudos no campo da genética que neguem a homossexualidade como comportamento. Em seu vídeo, dentre outras coisas, Vieira deixa claro não só que existem sim esses estudos, mas afirma, com base nos mesmos, de que existe sim uma contribuição genética na manifestação da orientação sexual.

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