Arquivo do mês: julho 2012

Pinheirinho, um ano depois

Como já tive oportunidade de dizer aqui, faço parte da equipe de produção de um projeto de documentário que irá tratar o tema da habitação/moradia no Brasil através da história de algumas famílias que foram violentamente retiradas de suas casas após a malfadada operação de reintegração de posse da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos.

O objetivo deste post é divulgar o lançamento do blog do projeto onde o visitante encontrará informações sobre o que é o projeto, quais são seus objetivos e metas, além de como a equipe de produção pretende levantar os fundos para a execução do projeto.

Desde já, é importante destacar que precisaremos muito da colaboração dos amigos da Internet e das Redes Sociais, já que a estratégia que adotamos para financiar o documentário é através de uma plataforma de Crowd Funding conhecida como Catarse.

Abaixo destacamos alguns detalhes que extraímos da página SOBRE do blog do projeto. Dê uma conferida e saiba como você poderá colaborar com este documentário.


Pinheirinho, um ano depois é um projeto de documentário que tem o objetivo de registrar como vivem as famílias que moravam na antiga comunidade do Pinheirinho um ano após a violenta reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo, em 22 de janeiro de 2012.

Através desse registro documental, queremos dar voz  às pessoas que viveram o trauma da desocupação para que contem suas histórias e relembrem à sociedade que elas seguem vivendo sob o risco de retornarem à condição de desabrigadas com o fim do aluguel-social, além de permanecerem sem nenhuma perspectiva de solução definitiva para o seu problema de habitação.

O filme tem como foco central os ex-moradores da comunidade do Pinheirinho e seus depoimentos de como tem vivido desde que foram retirados de suas casas. Contudo, para darmos uma ideia mais aprofundada sobre o que ocorreu logo após a desocupação e as oportunidades de resolução definitiva do acesso à moradia adequada, o projeto também pretende dar voz a outros atores que participaram ativamente de todo o processo de desocupação, como os políticos envolvidos nas negociações que antecederam a reintegração de posse, os intelectuais e estudiosos da questão da habitação e moradia no Brasil, representantes de órgãos de proteção aos Direitos Humanos, líderes comunitários, advogados, juízes, defensoria pública, promotores de justiça, representantes da Procuradoria Geral do Estado, representantes das três esferas de poder envolvidas na questão (municipal, estadual e federal), além do proprietário do terreno em questão ou seus representantes.

Para custear as despesas mínimas de execução desse projeto, adotamos a ideia do sistema de financiamento colaborativo, também conhecido como crowd funding. No Brasil, o site Catarse tem se destacado no financiamento de projetos colaborativos de cinema e vídeo e, justamente por isso, optamos por este sistema. Tal estratégia nos possibilitará que a distribuição do documentário se dê livremente, em plataforma Creative Commons, pela Internet.

METAS DA CAMPANHA DE FINANCIAMENTO COLABORATIVO

O custo mínimo orçado para o projeto é de R$ 10.000,00, que inclui as viagens a São José dos Campos nos próximos seis meses, estadias, recompensas oferecidas como contrapartida, taxas cobradas pelo Catarse e pelos meios de pagamento .

Este é o valor mínimo e caso não seja atingido esse montante ao final do período da campanha de arrecadação no Catarse, não receberemos nada, o dinheiro de todos os que colaboraram será devolvido em forma de crédito e não poderemos realizar as gravações e produção do documentário.

Contudo, se conseguirmos atingir não só o mínimo de 10.000,00, mas ultrapassarmos este valor, temos objetivos extras a realizar que agregariam ainda mais valor ao documentário. Para mais informações sobre esse assunto, veja os nossos “Objetivos Extras”.

RECOMPENSAS AOS COLABORADORES

Sabemos que o maior prêmio aos colaboradores é participar de uma ação que ajude a dar visibilidade a pessoas de uma comunidade que luta por seu direito à moradia digna depois de um violento processo de desocupação. Certamente, ajudar a contar a história destas pessoas a partir da perspectiva delas é algo que não tem preço e, aos que ajudarem a realizar esse projeto, agradecemos imensamente.

Contudo, pensamos que além do agradecimento, poderíamos oferecer uma lembrança especial do apoio a esse projeto. Assim, abaixo segue uma lista de recompensas aos colaboradores desse projeto:

  • Para contribuições de R$ 10,00, seu nome estará entre os apoiadores do projeto em nosso site e nas redes sociais.
  • Para contribuições de R$ 25,00, além de aparecer no site e nas redes sociais, seu nome também estará entre os apoiadores do projeto nos créditos de agradecimento do documentário.
  • Para contribuições de R$ 50,00, além das recompensas anteriores, você também receberá uma camiseta exclusiva do filme “Pinheirinho, um ano depois”.
  • Para contribuições de R$ 75,00, além de todas as recompensas anteriores, você também receberá um DVD exclusivo do documentário, contendo uma versão estendida e videos extras, antes mesmo da data de lançamento do documentário.
  • Para contribuições de R$ 150,00 ou mais, além de todas as recompensas anteriores, você também receberá um convite para a pré-estréia do filme a ser realizada no dia do lançamento.

Contamos com sua colaboração, ajude a dar visibilidade à luta e resistência dos ex-moradores do Pinheirinho por seu direito à moradia adequada.

OUTRAS MÍDIAS

Para entrar em contato, saber mais ou acompanhar o projeto, seguem abaixo os nossos contatos.

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Em busca do ouro negro: uma aventura luso-brasileira de reconquista de Angola

Este texto tem como objetivo contar um pouco a história de uma expedição militar transatlântica movida por um Império com o objetivo de invadir e ocupar uma cidade em outro continente em busca do tão cobiçado ouro negro, muito abundante naquela região.

Não, não se trata de mais uma invasão estadunidense a algum país cheio de petróleo no Oriente Médio, mas de uma força expedicionária luso-brasileira composta, em sua maioria, por voluntários do Rio de Janeiro que decidiram, em 1648, partir em uma viagem de reconquista de Angola, principal centro de tráfico de escravos e fonte de mão-de-obra para os engenhos de açúcar brasileiros, que havia sido tomada pelos holandeses anos antes.

Antes de iniciarmos o texto, vale explicar que o mesmo foi escrito quando ainda cursava o primeiro semestre da faculdade de História, para a disciplina de História Ibérica e acabou sendo, naquele mesmo ano (02/05/2006), publicado no site Duplipensar. Por ter sido divulgando na Internet para um público não especializado em História, fui solicitado a retirar as notas de rodapé presentes no texto originalmente escrito. Contudo, solicitei que ao menos fossem publicadas as referências bibliográficas ao final do artigo. Espero que o texto possa interessar aos leitores do blog, mesmo tendo sido escrito ainda em um momento em que principiava meu caminho na pesquisa em História e os trabalhos ainda eram produzidos sem o uso de fontes primárias.

GRANDE AVANÇO HOLANDÊS NO SÉCULO XVII

Para entendermos um pouco melhor esta história, será necessário viajarmos quase seis séculos no tempo e recordar que foi ainda no século XV que Portugal iniciou sua expansão marítima pela África conquistando Ceuta, no ano de 1415. Nos anos seguintes, foram estabelecendo diversas feitorias ao longo da costa ocidental africana, cujos principais objetivos eram explorar comercialmente as riquezas locais e formar monopólios comerciais controlados pela coroa, sendo o ouro, o marfim e os escravos os principais monopólios portugueses na África.

Bandeira da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) com representação de soldado dos Países Baixos

A situação que era muito favorável a Portugal nos séculos XV e XVI, se transformou completamente com a entrada da Holanda na disputa pelo monopólio do comércio de produtos coloniais já no princípio do século XVII. Depois de ter tomado posse de quase todos os domínios portugueses nas Índias Orientais na disputa pelo mercado de especiarias, os holandeses invadem também o Recife e tomam das mãos dos portugueses o lucrativo mercado açucareiro, em 1630. Com Recife nas mãos, não tarda para que os holandeses percebem a forte relação que havia entre o açúcar brasileiro e o tráfico de escravos na África. Em uma de suas cartas, o Padre Antônio Vieira chegou a dizer que sem negros não havia Pernambuco, e sem Angola não havia negros.

Assim, uma vez que consolidaram definitivamente sua posição em Pernambuco, os holandeses começaram a montar novas armadas para também tomar os portos africanos que abasteciam os engenhos brasileiros de escravos. Em 1637, iniciam a conquista de praças portuguesas pela tomada do forte de São Jorge da Mina, na Guiné.

Em pouco tempo, os holandeses perceberam que São Jorge da Mina não era capaz de, sozinho, suprir as necessidades de mão-de-obra dos engenhos pernambucanos. Seja porque “Os negros de Guiné são mais difíceis de reduzir à escravidão do que os Bantos de Congo e Angola.”, como diz o historiador Pedro Puntoni em seu trabalho sobre a escravidão africana no Brasil holandês, seja porque a capacidade de oferta deste centro negreiro simplesmente não atendia à demanda brasileira. O fato é que, rapidamente, ficou claro aos holandeses que seria necessário tomar também outros centros mais importantes como a Ilha de São Tomé e Angola. Desta forma, em maio de 1641, quatro anos após a tomada de São Jorge da Mina, os holandeses enviam direto do Recife, uma frota composta por vinte e um navios e três mil homens, sob o comando de Cornelis Jol, com o objetivo de tomar dos portugueses a cidade de São Paulo de Luanda, em Angola.

Após levar dez semanas em uma travessia complicada do Atlântico, os holandeses atingiram a costa africana e procuravam a entrada da baía de Luanda. Foi somente neste momento que o comandante Jol descobriu que ninguém, em toda sua frota, conhecia a localização exata da entrada desta baía. Depois de algum tempo de indecisão vagueando pela costa africana, Jol se alegrou ao ver que dois de seus navios haviam apreendido o Jesus Maria José, navio mercante que vinha abastecer Luanda com 160 pipas de vinho . A grande sorte de Jol foi que, o capitão desta embarcação, um espanhol, não só lhe indicou a localização exata da entrada da baía de Luanda, mas também o ponto ideal em que os holandeses deveriam desembarcar, numa praia localizada à meia distância de dois fortes onde os canhões não poderiam atingi-los, segundo informa Charles Boxer em seu clássico Salvador Correia de Sá e a luta pelo Brasil e Angola.

Ao verem os holandeses desembarcando em seu ponto mais vulnerável, os portugueses pouco puderam resistir e, na manhã do dia 26 de agosto de 1641, tendo encontrado a cidade praticamente abandonada, os holandeses tomaram Luanda tendo perdido apenas três homens.

Assim que a notícia da tomada de Luanda se espalhou, Portugal, Espanha e os grandes senhores de engenho no Brasil entraram em desespero. Tendo em suas mãos Pernambuco, principal centro produtor do açúcar brasileiro, e Angola, fonte quase exclusiva da mão-de-obra dos engenhos no Brasil, os holandeses se transformaram nos senhores da situação, tal como afirma Jorge Caldeira: “os donos de engenho que quisessem continuar produzindo, agora dependiam dos holandeses”.

Mapa da cidade de São Paulo de Luanda, Angola, conquistada em 26 de agosto de 1641, por uma esquadra holandesa partida do Recife e publicada no livro de Gaspar Barleus. Autor desconhecido, s. d.

PORTUGAL RESPONDE COM PADRE ANTÔNIO VIEIRA 

Padre Antônio Vieira

Tendo perdido para os holandeses muitas de suas fontes de rendas ultramarinas, estando em constante ameaça de guerra com a coroa espanhola, da qual havia acabado de se tornar independente, e envolvidos até o pescoço em uma guerra não declarada contra os holandeses, Portugal se encontrava em uma situação bastante desconfortável. Economicamente arruinados, não tinham navios de guerra em número suficiente para montar uma frota, não tinham, sequer, pilotos experientes e gente especializada para seguir nesta expedição. Ao falar da armada que a coroa portuguesa estava preparando para defender a Bahia, Boxer ilustra bem a situação em que se encontrava Portugal: “a intenção era mandar mais de trinta navios, dos maiores, mas não foi possível encontrar para isso quantidade suficiente de homens e dinheiro, verificando-se que só se poderia dispor da metade do referido número”. É neste cenário desfavorável que entra em cena a figura do Padre Antônio Vieira, que desempenhou importante papel não só na diplomacia, ao tentar acordos de paz entre Portugal e Holanda, mas também atuando no campo estratégico da defesa de Brasil e Angola.

Um fato curioso envolvendo o Padre Antônio Vieira no caso da reconquista de Angola foi que, apesar dele ser favorável à celebração de um acordo amigável com os holandeses, onde estes entregariam as praças do Brasil e de Angola em troca de uma vultosa soma em dinheiro, foi ele quem levantou a soma de 300.000 cruzados para preparar a armada que partiria em defesa da Bahia. Em uma de suas cartas, chegou mesmo a dizer que iria buscar com sua roupeta remendada o que não conseguiam os ministros de Portugal. Para tanto, recorreu a mercadores criptojudeus (cristãos-novos) dizendo-lhes que “el rei carecia de um empréstimo daquela quantia a serem reembolsados por uma taxa sobre o açúcar”. Em dois dias recebeu resposta positiva de tais mercadores que, curiosamente, alguns anos depois, foram perseguidos pelos tribunais do Santo Ofício.

DUAS ARMADAS RUMO AO BRASIL 

Salvador Correia de Sá e Benevides, também conhecido como o restaurador de Angola

Em 1647, após ser nomeado capitão-geral e governador de Angola, Salvador Correia de Sá e Benavides, fidalgo português e também governador da capitania do Rio de Janeiro, começa a preparar uma frota às margens do Tejo, com o objetivo oficial de atingir um ponto na costa de Angola e montar uma fortaleza, de onde se tentaria contato com uma força portuguesa que resistia bravamente aos holandeses em Massangano desde a invasão em 1641. Todavia, secretamente, a missão de Salvador de Sá era expulsar os holandeses definitivamente de Angola, restaurando às mãos de Portugal o tráfico de escravos no Atlântico Sul.

Ao mesmo tempo em que Salvador de Sá preparava sua armada em Lisboa, os holandeses também preparavam uma frota muito poderosa em seus territórios. Composta por cinqüenta e três navios e 6000 homens, sob a liderança do experiente almirante de guerra Witte With, o objetivo dos holandeses era conquistar de vez o Brasil e manter o domínio sobre Angola, afastando qualquer pretensão portuguesa de retomar esta colônia de suas mãos. Com tamanha força, se a frota de With chegasse ao Brasil antes das frotas portuguesas que ainda estavam se preparando em Lisboa, tanto Brasil quanto Angola estariam irremediavelmente perdidos para os holandeses. A sorte dessas colônias seria decidida, então, em favor da frota que atingisse primeiro as costas de Brasil e Angola.

Como é de se supor, foram os portugueses com o conde de Villa-Pouca e Salvador de Sá que conseguiram mobilizar primeiro suas armadas e deixar a Europa antes do inverno de 1647. Tendo se atrasado na mobilização dos armamentos, os holandeses permitiram a chegada do inverno, o que impediu a saída da frota de With até fins de dezembro. A urgência de enviar tropas ao Brasil e Angola era tão premente que, mesmo com o rigoroso inverno, os holandeses acabaram se lançando ao mar no dia 26 de dezembro, o que acabou resultou em uma verdadeira catástrofe para eles. Durante a viagem, muitos homens morreram em razão das violentas tormentas. Um dos principais navios de guerra da frota perdeu-se juntamente com toda sua tripulação. Os navios que não naufragaram ou desapareceram no mar, refugiaram-se nos portos europeus antes de seguir viagem ao Brasil, o que acabou causando a morte de muitos outros homens pelo frio, umidade e falta de provisões. Foi somente no final de março de 1648 que começaram a chegar ao Brasil os navios remanescentes da tropa de With, tendo os últimos chegado somente em junho.

SALVADOR DE SÁ CHEGA AO RIO DE JANEIRO

Do lado português, em janeiro de 1648, assim que Salvador de Sá chegou ao Rio de Janeiro, cinco galeões da armada real que haviam servido na proteção da Bahia já o esperavam no porto. Junto com os navios, havia também uma carta do governador geral do Brasil, reforçando a necessidade urgente da partida da frota de Salvador à Angola antes que os holandeses soubessem dessa expedição e enviassem uma esquadra desde Pernambuco para impedi-la. Mesmo com as notícias vindas da Bahia, Salvador demoraria ainda quatro meses para que pudesse angariar todas as provisões, recrutar os homens necessários e levantar os fundos que custeariam a expedição de reconquista de Angola.

Tendo partido de Lisboa já com “800 infantes espalhados em sete navios”, Salvador iniciou a recrutar mais homens para sua esquadra. Obteve melhor êxito no Rio de Janeiro e região, talvez por estas regiões estarem com maior carência de mão-de-obra escrava do que em São Paulo. Os paulistas pouco se interessaram pela expedição de Salvador de Sá, o que lhe causou um grande desapontamento, uma vez que Antônio Vieira havia recomendado “os paulistas como os melhores combatentes existentes no Brasil àquela época”.

Salvador também recorreu ao povo do Rio de Janeiro para angariar os fundos de sua expedição. “O povo do Rio de Janeiro (…) recebeu bem a proposta e logo levantou-se um donativo de 55.000 cruzados”. Com esse dinheiro, Salvador fretou mais seis navios e comprou, às suas próprias custas, outros quatro, compondo finalmente a esquadra com quinze navios e 1400 homens.

Por sua vez, os holandeses já tinham a informação de que Salvador de Sá estava preparando uma armada para enviar a Angola, tanto que, em fevereiro de 1648, despacharam um navio com provisões e reforço de 135 homens para proteger Luanda. Além disso, em maio daquele ano, o comandante holandês Witte With, que àquela altura já havia chegado a Pernambuco, soubera por intermédio de prisioneiros que a esquadra de Salvador já estava a caminho de Angola. Ao receber esta notícia, With avisou imediatamente ao conselho administrativo no Recife, sugerindo que o enviassem em perseguição a Salvador. Temendo deixar Recife desguarnecido à frota do conde de Villa-Pouca ancorada na Bahia, o conselho decide não enviá-lo, acreditando que Salvador de Sá não seria capaz de mover um ataque organizado a Luanda por ele não ser um soldado, mas sim, um fidalgo.

Preparada a frota e com provisões para seis meses, Salvador de Sá se lança ao mar em 12 de maio de 1648, atingindo a costa africana no dia 12 de julho com apenas onze dos quinze navios que haviam partido do Rio de Janeiro.

Às vésperas do desembarque em Luanda, os portugueses ainda sofreriam um grande revés em sua expedição. Ao entardecer do dia 1º de agosto eles fizeram uma breve parada em Quicombo para se abastecerem de água e lenha. No momento em que baixavam as âncoras, foram surpreendidos por um “violento maremoto” que impingiu duras perdas aos portugueses como o “naufrágio do navio Almiranta (galeão São Luís) e a morte de mais de trezentos homens, dentre eles o almirante da armada”. Por muito pouco as ondas não põem toda a expedição à perder ao quase causar o naufrágio da nau capitânia, onde se encontrava Salvador de Sá. Robert Southey, historiador inglês do século XIX, descreve a tragédia de Quicombo de tal modo, que seu relato se assemelha muito aos dos sobreviventes das Tsunamis que afligiram o sudeste asiático em dezembro de 2004.

A RECONQUISTA DAS PRAÇAS DE LUANDA E SÃO TOMÉ 

Apesar dessa terrível tragédia, Salvador de Sá decide continuar a expedição de reconquista e parte definitivamente para a tomada de Luanda, chegando à baía da cidade aos 12 de agosto de 1648. No porto, dois navios faziam a guarda da cidade. Tendo os navios holandeses avistado a chegada da frota de Salvador de Sá, partiram em direção desta para lhes reconhecerem a nacionalidade e, ao descobrir se tratar de frota armada portuguesa, bateram em retirada deixando a defesa de Luanda desfalcada em 50 soldados.

Rainha Ginga, Nzinga Mbandi Ngola (1587-1663)

Da mesma forma como os holandeses haviam contado com a providência ao tomar Luanda em 1641, Salvador de Sá também foi agraciado pela sorte ao aprisionar dois pescadores negros que lhe daria todas as notícias do que se passava em terra. Soube por eles que a defesa de Luanda contava apenas com 250 homens naquele momento e que todos estavam encerrados nos fortes do Morro e da Guia. Soube também que o sargento-mor, Symon Pieterszoon, responsável pela guarda de Luanda, estava no interior combatendo os resistentes de Massangano com uma força de 225 holandeses e milhares de nativos da tribo dos Jagas, da Rainha N’Zinga, e que tão logo soubessem da chegada de Salvador em Luanda , estes viriam atacar os portugueses por terra.

Tendo recebido todas essas informações, Salvador de Sá percebeu que teria que agir rapidamente e, no dia seguinte, atracou no porto de Luanda, enviando três emissários incumbidos de conseguir uma rendição pacífica daquela praça. Os holandeses, desprotegidos, pediram oito dias para tomarem uma decisão, mas os portugueses ofereceram somente dois. Passado o prazo, nem esperaram resposta dos holandeses, no dia 15 de agosto desembarcaram no mesmo ponto onde os holandeses haviam aportado sete anos atrás e, com uma força de 1000 homens, Salvador ordenou que sua tropa marchasse à cidade que, estando praticamente desguarnecida, pouco resistiu. A verdadeira luta por Luanda estaria reservada aos fortes do Morro e da Guia, onde os holandeses haviam se encerrado e se preparado para a batalha naqueles dois dias que Salvador ofereceu de prazo para sua rendição.

Na madrugada de 17 para 18 de agosto, com três colunas de soldados, os portugueses iniciaram o ataque aos holandeses encerrados nos fortes de Luanda. Até o raiar do dia avançaram sobre os fortes, perdendo muitos homens na batalha. Ao perceber a ineficácia do combate, Salvador fez a chamada geral para a retirada. Tendo perdido quase cento e cinqüenta homens, dos quatrocentos alocados para a batalha, sua situação começa a se complicar em relação ao número de efetivos para a batalha. Por sua vez, as baixas holandesas foram insignificantes, totalizando três mortos e alguns poucos feridos. As piores perdas para os holandeses foram, talvez, os vários canhões que os portugueses haviam logrado explodir durante o combate . Para espanto geral, poucas horas após o malogrado ataque do morro, Salvador de Sá e sua tropa vêem uma bandeira branca ser hasteada pelos holandeses no alto do morro. Estes enviam seus mensageiros para anunciar sua disposição de entregar os fortes de Luanda e mais as posições avançadas de Kwanza e Benguela, desde que fossem permitido fazê-lo em condições favoráveis. Nem é preciso dizer que Salvador de Sá não só aceitou a proposta na hora, mas ainda permitiu que os holandeses estipulassem todas as condições da rendição.

Assim, no dia 21 de agosto foram assinadas por ambos os lados as condições de entrega que davam as seguintes garantias, conforme descrito por Charles Boxer:

“os holandeses evacuariam toda a colônia, levando consigo os seus pertences, obrigando-se os portugueses a fornecer navios apropriados para a viagem. (…) Os holandeses retirar-se-iam com honras militares, ao toque de tambores e com as bandeiras desfraldadas, sendo concedidos cinco dias para fazerem a completa evacuação e esperar a coluna de Pieterszoon, que vinha por terra. Durante todo esse tempo, Salvador devia evitar que fossem alvo de insultos ou ofensas da parte dos vencedores. (…) Concedeu-se ao sargento-mor (Pieterszoon) a alternativa de aceitar ou não as condições da rendição; mas tanto Ouman como Lens (comandantes holandeses que assinaram a rendição) se comprometeram a não ajudá-lo contra os portugueses. Aos soldados católico-romanos, na sua maioria franceses e alemães, e mais ou menos em número de cem, que estavam a serviço dos holandeses, deu-se a permissão de, se assim preferissem, passarem a servir aos portugueses”.

Todas as condições estipuladas na rendição foram cumpridas à risca e os holandeses saíram de Luanda no dia 24 de agosto de 1648, exatamente sete anos após o desembarque dos holandeses naquela mesma cidade. Ao receberem as notícias da capitulação de Luanda, os holandeses de Benguela e da Ilha de São Tomé também abandonaram estas praças por não se julgarem em segurança de manter suas posições. Assim que soube da ausência dos holandeses nessas praças, Salvador de Sá ordenou a preparação de uma Nau com soldados e munições para ocupá-las de tal forma que, após estas ocupações, a situação de Portugal na África voltava a ser a mesma que existia antes das invasões holandesas em 1641.

Após reconquistar Luanda, Salvador de Sá permaneceu ainda por três anos e quatro meses como governador de Angola e “pôs ordem nessas terras rehavidas em tão admiráveis circunstâncias”. A reconquista de Luanda deu muito prestígio a Salvador de Sá tanto em Portugal quanto no Brasil, pois mais do que simplesmente reconquistar uma feitoria perdida, ele havia reaberto a rota do tráfico negreiro do Atlântico Sul, que abastecia os engenhos brasileiros com a mão-de-obra escrava proveniente de Angola, o verdadeiro ouro negro do século XVII.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A reconquista de Luanda significou algo muito além das pretensões portuguesas. Em primeiro lugar, deu ânimo, forças, fundos e argumentos políticos para que os portugueses movessem outras batalhas contra os holandeses, como foi o caso da reconquista de Pernambuco, em 1654. Posteriormente, a reconquista garantiu a permanência de Brasil e Angola sob domínio português. Como viemos destacando, sem o acesso aos escravos de Angola, Portugal veria o negócio do açúcar inviabilizado no Brasil e, sem o dinheiro do açúcar e dos escravos, os portugueses não conseguiriam defender nenhuma de suas colônias da cobiça das outras potências europeias. Quiçá, sem estes lucros, os portugueses não conseguiram defender sequer seu próprio território destas mesmas potências, especialmente da Espanha. Teria sido impossível comprar os serviços de “proteção” prestados pelos ingleses, que não só garantiu as fronteiras de Portugal na Europa, mas também de suas colônias no Ultramar.

Assim, entendemos que a reconquista de Angola pela frota luso-brasileira comandada por Salvador Correia de Sá, teve uma importância vital para a própria existência de Portugal não só como metrópole, mas também como reino independente no cenário europeu do século XVII. Embora não cabe ao historiador julgar o que teria ocorrido se a história não tivesse se dado de uma maneira, mas de outra, é certo que sem Angola, tal como dizia o Padre Antônio Vieira, não haveria Brasil e, não havendo Brasil, a situação de Portugal ficava bastante enfraquecida diante de Espanha, França, Inglaterra e dos próprios holandeses.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOXER, Charles R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686. São Paulo: Editora Nacional, Editora da Universidade de São Paulo, 1973.

BARLAEUS, Gaspar. Historia dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980.

CALDEIRA, Jorge. Viagem pela História do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

CARDONEGA, Antonio de Oliveira. História geral das guerras angolanas vol.2; Lisboa: Ed. Agência Geral das Colônias, [s.d.]

NORTON, Luís. A dinastia dos Sás no Brasil (1558-1652). Lisboa: Ed. Agência Geral das Colônias, 1943.

PUNTONI, Pedro. A mísera sorte: escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do tráfico no Atlântico Sul. São Paulo: Ed. Hucitec, 1999.

SOUTHEY, Robert. História do Brasil Vol.2. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.

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Desembarque no porto do Inferno

Já ouviu falar de Lúcifer? Que veio do inferno, com moral, um dia!
No Carandiru, não, ele é só mais um, comendo rango azedo com pneumonia!

Racionais MC’s em Diário de um Detento

Não, amigos, não é necessário que se assustem, este foi apenas o título que dei a um texto despretensioso, em forma de conto, que preparei quando soube do falecimento do Coronel Ubiratan Guimarães, aos 09 de setembro de 2006.

Para aqueles que não se recordam, o Coronel Ubiratan foi o responsável pela invasão da Polícia Militar do Estado de São Paulo ao antigo Complexo Penitenciário do Carandiru, em 1992, na qual, segundo os números oficiais, 111 presidiários foram executados covardemente pela Polícia. Acusado de homicídio, foi julgado e condenado a 632 anos de prisão, em 2001, mas no ano seguinte os paulistanos demonstraram sua tradição histórica de heroicizar facínoras e o elegeram Deputado Estadual, o que acabou sendo fundamental para que Bira acabasse sendo absolvido em foro especial, em 2006.

Não durou muito. Por volta das 22h30 do dia 10 de setembro de 2006, foi encontrado morto por um assessor parlamentar, com um tiro, dentro de seu apartamento nos Jardins.


À GUISA DE EXPLICAÇÃO

Aos que me conhecem, é desnecessário dizer que não acredito no inferno ou no Diabo, portanto não acredito que os 111 detentos mortos foram condenados ao Inferno (mesmo porque o inferno era o Carandiru). A ideia do conto abaixo foi muito mais um desabafo e o desejo de que, ao menos em outro mundo imaginado, esse crápula filho da puta fosse punido e atormentado eternamente por ter comandado uma execução em massa, que o conservadorismo paulistano insiste em louvar, transformando vilões em heróis. Estão aí Anhangüera, Fernão Dias, Raposo Tavares, Borba Gato e Castello Branco que não me deixam mentir. Não me surpreenderia nada se alguém me dissesse que o nome desse psicopata já está batizando uma estrada, rua, praça, viaduto ou ponte nessa cidade.


DESEMBARQUE NO PORTO DO INFERNO
(Rogério Beier – Setembro/2006)

Ao desembarcar de sua barca no inferno, Bira percebeu que o Diabo tinha preparado uma baita recepção para ele: um belo tapete vermelho, as chamas eternas ao fundo emoldurando o momento e uma audiência composta de 111 almas perdidas que, de pé, organizadas em uma espécie de fila, apenas aguardavam com sorrisos maldosos nos cantos dos lábios, qualquer sinal de Lu pela oportunidade da tardia vingança que tanto ansiavam.

Bira caminhou vacilante em direção ao Diabo e, reconhecendo alguns dos rostos que lhe encaravam com os olhos fixos e brilhantes, finalmente entendeu o que estava prestes a lhe acontecer, já temendo por seu destino final.

Lúcifer, velho conhecedor da alma humana, foi buscar Bira todo satisfeito. Passando-lhe a mão pelos ombros, trouxe-o mais para perto de si e disse-lhe num sussurro tenebroso:

– Venha Ubiratan! Não há como fugir daqui, se é nisso que você está pensando agora. Sua chance de se arrepender expirou no momento de sua morte e agora você é meu convidado de honra nesse dia tão especial. Sua presença aqui é mais do que ansiada e, se lhe fiz esta recepção especial, foi por que cada minuto em que esteve na Terra desde que me mandou estes 111, era uma tortura infernal para eles, que tanto esperavam por este reencontro. No fim, sinto uma certa tristeza por sua morte, já que terei que encontrar outras formas de torturá-los daqui por diante, mas antes…

– Enquanto Lúcifer falava, Bira percebeu os olhares maliciosos daqueles que aguardavam um mínimo sinal do Diabo, que por sua vez, se deliciava com aquela situação.

Naquele mesmo instante, um dos 111 danados se aproximou de Bira e Lúcifer, interrompendo-os:

– E aí mano Lú, a bandidage ali tá querendo saber se nóis já pode começar os tormento do coronel. Você prometeu! Você prometeu! Tamo só pela ordem, mano.

Lúcifer olhou para Bira, um tanto chateado por ter sido interrompido, mas já satisfeito com o que estava por vir e acabou respondendo a pergunta do ex-detento, dando sua gargalhada aterrorizante:

– Pois é, Bira. Você conseguiu se livrar de sua pena na Terra, mas aqui quem manda sou eu. Nada de advogados corruptos, nada de juízes comprados, apenas eu e seus 111 colegas por toda a eternidade. Hahahahahahahaha.


Pra finalizar com chave de ouro, segue o clipe de DIÁRIO DE UM DETENTO, dos Racionais MC’s, inspirado no livro homônimo, de Jocenir, que conta como sobreviveu à mais uma chacina executada pelo Estado.

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PINHEIRINHO: seis meses depois…

Mal bem o dia amanhecia e lá estava eu, enfrentando o frio de uma manhã de inverno para voltar a colocar os pés na estrada rumo a São José dos Campos, onde iria rever o povo lutador do Pinheirinho. Reencontro que, só de imaginar como seria, fez com que eu perdesse a noite de sono. Era impossível dormir com as lembranças dos dias em que fui voluntário no mutirão do CONDEPE para colher as inúmeras denúncias de violações de Direitos Humanos sofridos por estes homens e mulheres na violenta operação de reintegração de posse executada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, sob comando do governador Geraldo Alckmin.

A primeira parada seria no centro velho de São Paulo, onde encontraria o amigo Lucas, companheiro de uma viagem que, além de servir para dar nosso total apoio ao pessoal do Pinheirinho, também serviu para marcar o princípio de um projeto bastante audacioso do qual tomamos parte e tocaremos de modo independente. Foi justamente por isso que, depois de um breve café da manhã, partimos bastante ansiosos a São José dos Campos.

Ainda na estrada que liga São Paulo a São José, entre um e outro dos três pedágios tucanos em trecho de 90km, fizemos um breve vídeo amador para falar dos objetivos do dia e dar a notícia do projeto que apenas começávamos a trabalhar e já queríamos ver pronto o mais rápido possível.

Como disse no vídeo, a ideia é fazer um documentário de 25 a 30 minutos contando a história da reintegração de posse do Pinheirinho, mas sobretudo, destacando o que ocorreu um ano depois de toda a truculência policial que vitimou crianças, mulheres, idosos e homens pobres que simplesmente defendiam seu direito à moradia.

Para realização do projeto, a ajuda de todos os amigos e pessoal da Internet será fundamental. Trabalharemos com muito esforço e dedicação, colaborando voluntariamente e colocando dinheiro de nossos próprios bolsos para ver esse projeto frutificar, mas por enquanto ainda não posso falar muito. Em breve maiores detalhes, aguardem!!!

A ATO DE APOIO DOS SEIS MESES DEPOIS DA DESOCUPAÇÃO DO PINHEIRINHO

Quando chegamos à Câmara Municipal de São José dos Campos o ato já havia começado e o companheiro Marrom, líder comunitário, falava sobre as inúmeras dificuldades que eles estão enfrentando para encontrar uma nova localidade para realojar o pessoal do Pinheirinho. Todos temem o prazo final do benefício do Aluguel Social, que termina em dezembro. A grande maioria dos moradores não tem condições de pagar aluguel sem este benefício e, desta maneira, voltariam a ficar na rua, vivendo com seus filhos em condições precárias.

Logo depois, a palavra foi dada a Renato Simões, do CONDEPE, que deu notícias sobre o relatório final do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos a respeito das inúmeras violações ocorridas na reintegração de posse. Informou que o relatório foi concluído e que, nos próximos 15 dias, deverão ser amplamente divulgados, contendo a tipificação e o detalhe dos crimes cometidos pela Polícia, sendo considerados culpados o governador Geraldo Alckmin, o prefeito de São José dos Campos Eduardo Cury, o comandante da Polícia Militar responsável pela operação, a juíza Márcia Faria Mathey Loreiro, dentre outros.

Na sequência, depoimentos de moradores falando das dificuldades de adaptação às novas casas, os traumas deixados pela operação de reintegração nas crianças, as perdas dos móveis, eletrodomésticos e materiais de construção e o mais doloroso, a perda de objetos com valores sentimentais. A mãe de um jovem fez um depoimento emocionado de que não teve tempo para salvar o único DVD que lhe restava do filho que havia morrido antes da desocupação da comunidade. Aquela era a única lembrança que restava de seu filho morto e agora está perdido para sempre. Que preço se pode estipular para uma perda como essa?

Elisângela, outra moradora que fez uso da palavra, lembrou da importância das mulheres se manterem unidas e seguirem na luta. Deu notícia da criação de um grupo denominado MÃES DO PINHEIRINHO, que passará a fazer reuniões regulares daqui por diante. O objetivo do grupo é organizar a resistência pela luta do direito à moradia de todos, mas em especial das mulheres que, em grande parte são mães e cuidam de seus filhos e filhas com muita batalha, em boa parte das vezes, sozinhas. Por isso conclamou a todas a não sumirem das reuniões de bairro e assembleias, comparecerem e permanecerem unidas.

Muitos outros depoimentos de moradores e falas de autoridades seguiram no plenário da Câmara e, novamente, o coração foi ficando pesado de tantas e tantas violações aos direitos humanos mais básicos e dificuldades pelas quais estão passando essas pessoas. Depois de mais alguns minutos, o ato foi dado como encerrado e passamos então a fazer o contato com as pessoas que poderão nos ajudar nos próximos meses na realização de nossos objetivos com o documentário. Tivemos grande êxito e todos nos felicitaram pela iniciativa e se propuseram a ajudar com o que puderem. Em pouco tempo concluímos nossas atividades e nos despedimos de todos. Por volta das 15h deixamos a Câmara em busca do merecido almoço.

Contudo, antes de sairmos do prédio, fomos procurados por uma moradora que, que ao saber do blog e do projeto do documentário, quis dar seu depoimento pessoal e, dessa maneira, acabou por se transformar em nossa primeira entrevistada do projeto de documentário. Carmem de Jesus, 55 anos, moradora do Pinheirinho praticamente desde o princípio, em 2005, falou das agressões que sofreu, das dificuldades de agendar tratamento médico e dos mal tratos vividos nos quase 20 dias em que passou no abrigo da prefeitura com seu neto até que conseguisse alugar uma casa com o dinheiro do aluguel social. Lembrou que a dificuldade em encontrar a casa se deu porque assim que houve a desocupação do Pinheirinho, os valores dos aluguéis em São José tiveram um aumento, uma vez que os moradores passariam a contar com o dinheiro do aluguel social e mais dinheiro estaria circulando na cidade. Além disso, havia um enorme preconceito por parte de quem iria alugar que, se desconfiasse que os futuros inquilinos fossem ex-moradores do Pinheirinho, simplesmente desistiam do contrato de aluguel.

Carmem vive sozinha, não tem marido. Também não tem um emprego formal e ganhava a vida vendendo as coisas que plantava em seu quintal, quando morava no Pinheirinho. Se desespera com a ideia de que o benefício será cortado em dezembro, pois não tem condições de pagar aluguel na cidade de São José dos Campos nos atuais preços. Lembra que mesmo com o benefício do aluguel social, ainda precisa complementar com dinheiro do próprio bolso para manter as contas da casa em dia. Fala que o neto pergunta todos os dias quando voltarão para Pinheirinho, e que ainda treme de medo quando escuta um helicóptero ou vê um policial.

Foram dez minutos de conversa, mas o suficiente para sair da Câmara com o coração apertado e novamente confuso e sem entender por que um governo decide se voltar contra seus próprios cidadãos. Por que atacar de maneira tão impiedosa crianças, idosos, mulheres, jovens e homens que estavam ali reivindicando o seu direito de moradia. Por quê?

Essas são as primeiras fotos que envio ainda de São José dos Campos. No domingo retornamos a São Paulo já com muitos contatos, informações, fotos e precioso depoimento de Carmem. Daremos início formal a nosso projeto e teremos muitas atividades para concretizá-lo até o fim deste ano. Espero mesmo poder contar com a ajuda de todos e que, por volta do Natal, nosso presente seja o trabalho final para o lançamento do documentário. Até lá, vocês vão ouvir falar muito de Pinheirinho por aqui, pois EU NÃO VOU ESQUECER!!!

Gostaria de concluir o post, com a video montagem que preparei duas semanas após a reintegração de posse e logo depois que voltei do meu trabalho como voluntário no CONDEPE, em fevereiro de 2012, quando tomei contato com os moradores do Pinheirinho pela primeira vez. Assim que o relógio der meia noite hoje, haverão se completado seis meses da barbárie ocorrida no Pinheirinho, e muito pouco foi feito para ressarcir essas pessoas, vítimas de um Estado violento e opressor. Não nos calaremos até que os culpados sejam punidos e os moradores sejam devidamente ressarcidos e indenizados por seus prejuízos morais e materiais. SOMOS TODOS PINHEIRINHO!!!

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Caninos pra que te quero: uma celebração a estupidez humana.

“Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações.
O meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões”.

Legião Urbana, em Perfeição

Não poderia haver melhor forma de começar este post do que celebrando a estupidez humana, responsável pela criação de mais uma imagem destinada unicamente a agredir e atacar gratuitamente aos vegetarianos (e eu não sou vegetariano).

Esta imagem, que está circulando amplamente nas redes sociais, dentre outros absurdos, insinua claramente que aqueles que adotaram a dieta vegetariana são pessoas estúpidas, pois estas não conseguiriam explicar a razão dos humanos possuírem dentes caninos. Para os criadores desta imagem, bem como seus divulgadores (mesmo que inconscientemente), os homens sempre foram dotados de dentes caninos e, justamente por essa razão, é que se alimentam de carne. Consideram, portanto, que a alimentação dos humanos é algo determinado pela biologia/natureza, não pela cultura. É justamente sobre isso que gostaria de me deter um pouco mais.

Como mencionado anteriormente, a imagem tenta “biologizar/naturalizar” uma questão eminentemente cultural. Há até mesmo quem, ao ver esta imagem, cite Charles Darwin e sua teoria descrita em “A Origem das Espécies” para justificar por que o vegetarianismo é anti-natural. Oras, sabemos que em em um dado momento da escala evolutiva, alguns dos hominídeos que habitavam o planeta, ancestrais do Homo Sapiens Sapiens, não comiam carne, alimentando-se quase que exclusivamente de frutas, raízes e vegetais. Também sabemos que, em algum momento ainda perdido no tempo, por diversas razões, alguns desses nossos ancestrais acabaram mudando seu HÁBITO ALIMENTAR e passaram, cada vez mais, a ingerir carne em sua dieta. Como não poderia deixar de ser, tal mudança de hábito alimentar, em função de diversos fatores como o grande aumento na ingestão de proteínas, por exemplo, com o passar de muitos anos acabou refletindo em mudanças na estrutura do corpo dos descendentes desses hominídeos. Há pesquisas que relacionam diretamente o aumento do cérebro humano justamente com o grande acréscimo de ingestão de proteínas após o momento em que os ancestrais do Homo Sapiens passaram a comer carne.

Pois bem, a partir do que conheço sobre a teoria de Darwin, entendo que com o passar do tempo, dentre o total da população dos hominídeos que passaram a se alimentar de carne, havia alguns que apresentavam dentes caninos e foram justamente esses que tiveram mais êxito em se reproduzir e passar adiante essa característica. Tais indivíduos, melhores adaptados às condições do ambiente em que viviam (em conjunto com outras características além da arcada dentária), acabaram tendo um índice maior de sobrevivência que outras espécies e, dessa forma, transmitiram suas características genéticas para novas gerações, garantindo que tal forma dos dentes passassem de geração a geração até chegar aos Homo Sapiens Sapiens. Resumindo, os indivíduos que possuíam caninos foram naturalmente selecionados até que, muitas gerações depois, não houvesse mais indivíduos no grupo desprovidos dessa característica.

Fica claro, portanto, que a existência de dentes caninos nos homens está relacionada a uma mudança de HÁBITO ALIMENTAR em seus ancestrais e a um longo processo de seleção natural que privilegiou essa característica. Não é um indicativo de que os seres humanos nasceram para comer carne, mas sim, de que estão muito bem adaptados para comer carne. O que a teoria de Darwin ajuda a explicar é que, os dentes caninos, em um dado momento, representou uma vantagem evolutiva a um grupo de indivíduos, possibilitando a esses ancestrais do Homo Sapiens Sapiens sobreviverem em um determinado ambiente e ter bom êxito na transmissão de seus genes. Em uma sentença: humanos não foram feitos para comer carne por que possuem dentes caninos, mas possuem dentes caninos como parte de um processo de seleção natural que favoreceu essa característica dentre um grupo de ancestrais que tinham o hábito de, entre outros alimentos, ingerir carne.

Aos colegas que fizeram a imagem, cabe lembrar que esses caninos não são adaptados a uma dieta exclusivamente carnívora, mas sim, a uma dieta onívora. O conjunto dos dentes dos seres humanos é perfeitamente adaptado para a ingestão, não apenas de carnes, mas também de vegetais, nozes, raízes e frutas, dentre outros tipos de alimentos. Também nunca é demais lembrar que, da mesma forma como passamos a comer carne, seja pelo motivo que for, podemos simplesmente parar de ingerir este tipo de alimento. Se antes o que pode ter levado os ancestrais do Homo Sapiens Sapiens a ingerir carne foi uma contingência imposta pelo ambiente em que vivia, agora o que pode nos fazer parar de comer carne pode ser uma decisão pensada e refletida sobre as consequências éticas que tal consumo traz consigo, seja no trato que damos aos animais, ou ainda, ao meio ambiente e, consequentemente, ao próprio ser humano.

Se avançarmos na linha do custo ambiental da produção de carne no planeta, veremos que recentemente a UNESCO publicou um estudo cujo objetivo era medir o custo hídrico para se produzir diversos tipos de alimentos. Apenas a título de exemplo, o custo em litros de água para produzirmos um quilo de carne é de 15.500 litros. Já o porquinho da imagem ao lado, tem custo de 1.440 litros de água por CADA bife de 300g, enquanto uma unidade de hamburguer custa 2.400 litros de água, ou seja, uma caixa com doze hamburgueres, como as vendidas no supermercado, gastou 28.800 litros de água para ser produzida. O portal meu mundo sustentável traz post com uma tabela mais completa para consulta.

Se juntarmos os números acima com a informação de que, segundo a ONU, mais de 3.000 pessoas morrem diariamente por falta de acesso a água potável, será que tais dados já não seriam suficientes para mobilizar algumas pessoas a mudarem seus hábitos alimentares?  Isto é, diante de tais dados, seria tão estranho que vários grupos de pessoas reflitam se é mesmo necessário comer carne diariamente?

Como lembra bem o site:

“é importante ressaltar que a agricultura é responsável pela maior parte da água consumida no mundo, superando em 10 vezes o consumo da indústria. Daí a importância de escolhas conscientes não só apenas de produtos industrializados, mas principalmente dos alimentos que consumimos.”

Vale ressalvar que, na afirmação de que a agricultura consome 10x mais água que a indústria, devemos considerar que nessa conta também entra o volume de água gasto para produzir enormes quantidades de alimentos destinado às criações de gado, porco, frango e peixe (uma vez que até mesmo salmões, que são carnívoros, tem sido alimentado com rações a base de milho). Isso para não entrar no campo da devastação de florestas para criação de pastos e culturas de soja e milho para alimentar gado, aves e peixes em cativeiro.

Quanto a constatação que fiz no início deste post de que a alimentação é cultural, basta levarmos em conta que a ingestão de certos tipos específicos de alimentos pode ser proibido em determinadas sociedades, mas incentivado em outras. É comum encontrar sociedades que consideram um determinado tipo de animal sagrado e se abster de comê-lo (vaca na Índia), enquanto outras sociedades onde o consumo é industrial. Há ainda alimentos que são evitados por serem associados a alguma entidade maléfica sobrenatural, ou mesmo interditados por políticas de Estado por alterarem o nível de consciência de quem o consome. Enfim, com base nessas observações, qualquer um pode concluir facilmente que a alimentação é uma atividade humana eminentemente cultural.

Não entendam mal, alimentar-se é uma necessidade orgânica e fisiológica para a sobrevivência do corpo, porém, a escolha do quê se alimentar é um processo marcadamente cultural. Como vimos, preferências, proibições ou incentivos, sacralizações ou demonizações e tantas outras relações que os humanos tem com seus alimentos são frutos de um processo cultural desenvolvido pela humanidade desde o momento em que passou a viver em sociedade. Isso para não mencionar na grande disponibilidade de alimentos que soubemos identificar na natureza graças à inteligência que desenvolvemos neste processo e soubemos transmitir às próximas gerações. Como lembra Michael Pollan em seu famoso O Dilema do Onívoro, quantos homens morreram para que fosse necessário dominar o conhecimento de quais cogumelos poderiam ser comidos e quais eram venenosos?

Portanto, optar por uma ou outra fonte de alimento não é uma coisa que tenha uma origem biológica ou genética, mas é uma decisão relacionada com a cultura de dada sociedade. Ninguém nasceu para comer carne, ou ninguém nasceu para comer vegetais. Os humanos primam por serem onívoros!!!! A questão de sermos ou não vegetariano é uma decisão pessoal motivada por questões outras que não passam pelo fato de termos dentes caninos, como o imbecil que criou a imagem que originou este post pretende fazer supor. É justamente por isso que celebro a estupidez humana e dedico a este infeliz este clipe da Legião Urbana.

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a tarde nem ardia

Após a publicação do post sobre o covarde bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, ordenado pelo então presidente dos Estados Unidos da América, Harry Truman, a colega Renata Requião (que já havia colaborado com Balada triste para violoncelo e câmara escura, sobre o suicídio de Dimitris Christoulas) enviou novo poema para complementar brilhantemente o post sobre o maior crime de guerra contra a humanidade.

Como falei para ela, é um enorme prazer poder abrir o blog para colaborações tão relevantes e bonitas, além de poder servir como canal de divulgação de poemas inéditos.

Espero que gostem tanto ou mais do que eu.


a tarde nem ardia

A tarde nem ardia
(já sabíamos: a temperatura cairia dez graus).

No céu o que se via, num horizonte ainda alto,
eram três sóis.
E um arco-íris em círculo.

Tal fenômeno, informava a meteorologia
– a mineralogia das pedras mais secretas, ínfimas por líquidas –,
ocorre devido aos cirrus:
nuvem
formada por cristais de gelo.

As nuvens tipo cirrus assim refratam
e refletem a luz
em halos,
espécie de arco-íris
helicoidais.

Imagens que em

vértice
vórtice
voragem
vertigem

nos romantizam e nos levam
com little boy
o Japão da bomba atômica
a hiroshima mon amour
sem que nenhum homem – a truman – enfim informe a verdade.

Fácil de esquecer, impossível entender.

Renata Requião

Laranjal, Pelotas, julho de 2012

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Hiroshima e Nagasaki: o maior crime de guerra contra a humanidade segue impune

Em agosto o mundo relembra com muito pesar os 67 anos do maior crime de guerra já desferido contra a humanidade: o holocausto nuclear contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Crime do qual seus culpados jamais foram sequer acusados, muito pelo contrário, foram saudados como heróis por terem vencido e acabado com a guerra. Mais do que isso, graças a uma eficiente campanha de propaganda, tiveram êxito em fazer com que muitos não vissem os ataques nucleares como crimes de guerra e, por incrível que possa parecer, desconsiderassem o fato de que, em toda a história da humanidade, eles foram a única nação a despejar bombas atômicas em civis. Estamos falando, é claro, dos Estados Unidos da América.

Este post vai tratar brevemente do assunto e utilizará como referência O livro negro dos Estados Unidos, de Peter Scowen, que pesquisou sobre os crimes perpetrados contra Hiroshima e Nagasaki em documentos públicos estadunidenses considerados ultra-secretos e que foram há alguns anos foram abertos à população.

150 mil civis inocentes são condenados à morte por Harry Truman. 

Em Agosto de 1945 os Estados Unidos da América entraram para a história mundial por ser a primeira e única nação a despejar o terror atômico sobre enormes populações de civis. Com a II guerra mundial praticamente acabada e sem ter podido justificar o gasto de 2.6 bilhões de dólares no Projeto Manhattan (projeto de construção da bomba atômica), Harry Truman busca oportunidades para jogar uma, ou quem sabe até mais, de suas bombas envenenadas sobre cidades inimigas e demonstrar ao mundo o tamanho do poder que os Estados Unidos detinham na mão.

Capa de O Livro Negro dos EUA, de Peter Scowen

O povo estadunidense já estava sendo “envenenado” há muito tempo por sua mídia tendenciosa que os fazia crer que a bomba atômica daria fim a uma guerra e salvaria vidas, já que seus filhos retornariam ao seus lares. De acordo com Peter Scowen:

“(…)para os estadunidenses, a detonação das bombas em Hiroshima e Nagasaki foram ações militares realizadas contra uma nação despótica que só podia culpar a si mesmo pelo sofrimento de seu povo. (…) Havia até um fervor religioso no desempenho estadunidense, pelo menos na cabeça de Truman: “… Agradecemos a Deus por [a bomba] ter vindo a nós ao invés de nossos inimigos; e oramos para que Ele nos guie para usa-la a Sua maneira e com Seus propósitos…” .

Pior que isso, só mesmo uma reveladora pesquisa que mostra o desejo dos estadunidenses em substituir um genocídio por outro. Ainda de acordo com Scowen, “…Uma pesquisa do Gallup feita em dezembro de 1944 revelou que 13% dos estadunidenses eram a favor da eliminação do povo japonês por meio do genocídio…” (Fonte: LIFTON, Robert Jay; MITCHEL, Greg. Hiroshima in America: Fifty years of denial. Nova York: HarperCollins, 1996, p. 133)

Infelizmente para os planos de Truman, a Alemanha havia assinado rendição incondicional em Maio de 1945 logo após o suicídio de Adolf Hitler. A Itália já havia se rendido anteriormente quando da prisão e assassinato de Mussolini. Naquele momento só restara o Japão. Ao ver-se sem muitas alternativas para concretizar seus planos, Truman se apega na última oportunidade que lhe apareceu ao alegar a não rendição incondicional do Japão, que insistia em manter seu reverenciado imperador. Grandes estrategistas de guerra desaconselharam o presidente a utilizar as armas atômicas, propondo como alternativa um grande bloqueio marítimo, aliado à entrada da Rússia na frente do Pacífico e mais os bombardeios focados em alvos militares.

De acordo com esses especialistas, essas manobras seriam suficientes para acabar com a guerra até Julho de 1945. Mesmo assim, Truman simplesmente ignorou-os e, utilizando o mote da não rendição incondicional, decidiu o destino de duas cidades e centenas de milhares de vidas humanas.

Alvos escolhidos: Hiroshima e Nagasaki

O plano original previa ataques com bombas atômicas a quatro cidades japonesas. O comitê de alvos do projeto Manhattan decidira atacar Hiroshima, pois segundo as minutas das reuniões desse comitê, em razão de seu tamanho e planta, “… grande parte da cidade seria extensamente danificada…”, Nagasaki e Kyoto, pois, ainda de acordo com essas minutas, Kyoto “…era um centro intelectual do Japão e seu povo é mais capaz de avaliar o significado de uma arma assim…” 1

Foi assim que, no fatídico dia 06 de Agosto de 1945, movidos além de tudo por um sentimento indissimulável de vingança pelo ataque japonês à base militar de Pearl Harbor, aviões estadunidenses se aproximaram do primeiro alvo a sofrer os horrores das armas nucleares. Hiroshima, a então sétima maior cidade japonesa, com 350 mil habitantes, foi atacada por Little Boy, que até o fim do ano de 1945, decretou a morte de aproximadamente 150 mil japoneses, dos quais apenas 20 mil eram militares.

Little Boy, bomba que caiu sobre a cidade de Hiroshima e decretou a morte de 150 mil japoneses

Não satisfeitos com tamanha atrocidade e apenas três dias depois do primeiro ataque, como se fosse possível preparar uma declaração total de rendição incondicional em três dias, os estadunidenses atacaram a segunda cidade-alvo no dia 09 de agosto. Nagasaki e seus 175 mil habitantes foram a vítima de Fat Man, segunda e mais poderosa bomba, que vitimou aproximadamente 70 mil seres humanos na contabilidade macabra feita em dezembro de 1945.

Em uma comparação meramente ilustrativa, é como se nos ataques de 11 de Setembro, ao invés de terem morrido três mil pessoas, aproximadamente quatro milhões de nova-iorquinos tivessem perdido sua vida no World Trade Center. E isso não é tudo, pois os efeitos da bomba não são apenas a morte e a destruição imediatas. Até hoje continuam morrendo pessoas vítimas de câncer herdado geneticamente de seus pais e avós, além de ser possível encontrarmos ainda hoje, milhares de pessoas com deformações físicas, câncer congênito, problemas de esterilidade e outras doenças decorrentes da liberação radioativa sobre essas cidades em 1945.

De acordo com estudos realizados nos escombros das cidades, praticamente todas as pessoas que estavam até 1 km do centro da explosão foram mortas instantaneamente (86%). As bombas explodiram nos centros das cidades e pulverizaram escolas, escritórios, prisões, lares, igrejas e hospitais. No centro do ataque, tudo virou pó, não havia cadáveres. Mais longe do ponto zero havia corpos espalhados por toda parte, inclusive de bebês e crianças.

Peter Scowen, conta em seu livro que o exército japonês enviou Yosuke Yamahata para fotografar Nagasaki no dia seguinte ao bombardeio.

“Suas fotos mostram uma cidade completamente aplainada, homogeneamente alisada. (…) Ele tirou fotos de uma mãe morrendo de envenenamento radioativo e amamentando seu bebê, também à morte; fotos de fileiras de cadáveres, pais tentando, inutilmente, cuidar das queimaduras no corpinho de seus filhos. Yamahata morreu de câncer em 1966, com 48 anos”.

Foto flagra a agonia do garoto que frequentava a escola quando foi carbonizado pelos raios de calor da bomba atômica

Foto tirada sete anos após o bombardeio em Saka, localidade de onde 252 restos mortais foram escavados em cinco diferentes lugares.

As vítimas da radiação apresentam febre e hemorragias arroxeadas na pele, depois surge a gangrena e o cabelo cai. Esta morte dolorosa, tão parecida com o envenenamento por gás mostarda na tortura lenta que provoca, não era coisa na qual os estadunidenses desejariam que o público se concentrasse após o lançamento das bombas, afinal, os Estados Unidos da América haviam assinado tratados em 1889 e 1907 que baniam o uso de “armas envenenadas” na guerra. Pior que isso, os Estados Unidos haviam concordado com uma resolução de 1938 da Liga das Nações que tornava ilegal o bombardeio intencional a civis. Ou seja, com os ataques de Hiroshima e Nagasaki, os Estados Unidos simplesmente ignorou todos os tratados que haviam assinado até então.

Queimaduras provadas pela radiação liberada pela bomba.

Os motivos por trás do bombardeio

Os objetivos por trás dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki ficaram obscuros durante muito tempo. Na época foi alegada a resistência dos japoneses em aceitar rendição incondicional, já que os Estados Unidos exigia a deposição do imperador japonês e eles não aceitavam essa condição. Dwight Eisenhower, general americano que futuramente se tornaria presidente, disse que “O Japão estava buscando alguma forma de render-se com uma perda mínima de aparência (…) não era necessário golpeá-lo com aquela coisa” 2.

Com a recente liberação de documentos e diários antes considerados ultra-secretos, hoje já se pode concluir documentalmente que o principal objetivo por trás dos ataques a Hiroshima e Nagasaki foi a necessidade de enviar uma mensagem clara à União Soviética, que vinha se expandindo pelo leste europeu (Polônia, Romênia, Hungria), de que os Estados Unidos tinham em mãos uma arma poderosa e que não hesitariam em utilizá-la caso fosse necessário. Ainda de acordo com Peter Scowen, “… já em 1944 os americanos haviam considerado a arma um trunfo em suas relações com Stalin e Truman acreditava que uma exibição pública da capacidade da bomba iria tornar a URSS mais manejável na Europa…”.

Quanto a motivação do ataque, o próprio governo estadunidense acaba por se contradizer na hipótese de que teria sido a não rendição incondicional do Japão. No dia 10 de agosto, apenas um dia após a explosão de Nagasaki, o Japão entrega sua rendição assinada e os Estados Unidos abandonam a idéia da rendição incondicional alegando que se o imperador continuasse no poder isso permitiria uma ocupação mais ordeira pelas tropas estadunidenses.

Ironicamente, ao contrário do que desejavam os estadunidenses liderados por Harry Truman, a demonstração pública do poder da bomba atômica fez os líderes de todas as nações tremerem, mas, ao invés de ficarem sentados esperando que os Estados Unidos deixasse seu poder nuclear nas mãos da ONU, todos queriam ter tal poder nas mãos, especialmente a União Soviética que, liderada por Josef Stálin, deu início a Guerra Fria e a corrida armamentista nuclear, que só iria arrefecer praticamente 45 anos após os bombardeios, com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas sob a liderança de Mikail Gorbatchev.

Notas:
1 – Citado por Peter Scowen em O Livro Negro dos Estados Unidos, p. 49
2 – Citado por Peter Scowen em O Livro Negro dos Estados Unidos, p. 51

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