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A extrema direita estadunidense se desespera com o êxito do futebol no país

RACISTA E XENÓFOBA, PARA ANN COULTER, O AUMENTO NO INTERESSE DOS ESTADUNIDENSES PELO FUTEBOL É UM SINAL DA DECADÊNCIA MORAL DA NAÇÃO.

Um texto do portal Pragmatismo Político chamou minha atenção hoje. Trata-se de post que destaca um artigo produzido por uma celebridade estadunidense da extrema direita que conseguiu a proeza de escrever o artigo mais estúpido sobre a Copa do Mundo e o futebol, como acertadamente o classificou o pessoal do Pragmatismo Político.

Ann Coulter (reprodução)

Ann Coulter, advogada, colunista, escritora, apresentadora de TV, incomodada com o sucesso que a Copa do Mundo está fazendo nos Estados Unidos, forçou a mão ao falar sobre o assunto e fez uma caricatura grotesca sobre o esporte, seus praticantes e admiradores, além de demonstrar toda sua ignorância, preconceito e racismo, características tão comuns em membros da extrema direita estadunidense (e de qualquer outro país).

Como destacou o pessoal do Pragmatismo Político, não é novidade que os conservadores estadunidenses odeiam o futebol e o considerem algo fora do universo deles: “uma aberração no chamado ‘excepcionalismo’ dos EUA, coisa de imigrantes, pobres, liberais, etc.”. No entanto, Coulter pega todo o desespero que sente ao ver os estadunidenses gostando e se divertindo com o futebol, e despeja toda sua angústia partindo para o ataque através de um artigo racista e xenofóbico, para dizer o mínimo.

Abaixo, destaco alguns dos trechos do artigo original de Coulter (alguns já traduzidos pelo texto do Pragmatismo Político (PP), outros traduzidos livremente por mim (RB)), que foi publicado originalmente no The Clarion-Ledger em 26.jun.2014.

Começando pelo título do artigo:

  • Qualquer aumento de interesse no futebol é sinal da decadência moral da nação (trad. RB).

O destaque do artigo dizia o seguinte:

  • Se mais “americanos”* estão assistindo futebol hoje, é só por causa do intercâmbio demográfico que se tornou efetivo após a lei de imigração de Teddy Kennedy, em 1965. Eu lhe garanto: nenhum americano cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Só podemos esperar que, além de aprenderem inglês, esses novos americanos deixem seu fetiche pelo futebol com o tempo (trad. RB).

* Cabe destacar que a palavra americanos, grafada com aspas, foi um recurso utilizado pela autora do artigo para colocar em dúvida se devem ser considerados estadunidenses aqueles que tem interesse por futebol. Também chamo atenção para o fato de toda vez que surgir a palavra “americano” em referência a nacionalidade do indivíduo com cidadania estadunidense, esta terá sido escrita pela autora do artigo, e não por mim.

  • A realização individual não é um grande fator no futebol (trad. PP).
  • No futebol, a culpa é dispersa e quase ninguém pontua. Não há heróis, não há perdedores, não há responsabilidade e não se machuca a frágil autoestima de nenhuma criança (trad. PP).
  • Existe uma razão por trás do fato das mães eternamente preocupadas serem chamadas de “soccer moms” e não “football moms” (trad. RB).
  • Mães liberais gostam do futebol porque ele é um esporte no qual o talento atlético tem tão pouca expressão que garotas podem jogar juntas com os garotos. Nenhum esporte sério permite tal prática, mesmo no nível do jardim da infância (trad. RB).
  • A perspectiva de humilhação pessoal ou uma lesão séria é necessária para que um esporte seja considerado como tal (trad. RB).
  • O beisebol e o basquete apresentam uma ameaça constante de desgraça pessoal. No hóquei, há três ou quatro brigas por jogo. Depois de um jogo de futebol americano, as ambulâncias carregam os feridos. Após uma partida de futebol, cada jogador recebe uma fitinha e uma caixinha de suco (trad. RB e PP).
  • Você não pode usar as mãos no futebol. (…) O que diferencia o homem dos animais menores, além de uma alma, é que temos polegares opositores. Nossas mãos podem segurar as coisas. Aqui está uma ótima ideia: vamos criar um jogo em que você não tem permissão para usá-las! (trad. PP).

Depois dessa imensa demonstração de ignorância, preconceito e especismo, faço uma pausa para destacar um texto que escrevi em 2007 (quando ainda era aluno de graduação do curso de História), intitulado Brasil: uma nação podólatra. O texto trata justamente sobre essa questão dos esportes praticados com as mãos e com os pés, com especial atenção para o fato de o futebol ter se tornado extremamente popular e identitário no Brasil.

  • O futebol é como o sistema métrico, que os liberais também adoram porque é europeu. Naturalmente, o sistema métrico surgiu a partir da Revolução Francesa, durante os breves intervalos quando não estavam cometendo assassinatos em massa na guilhotina (trad. PP).
  • Liberais ficam furiosos e nos dizem que o sistema métrico é mais “racional” do que as medidas que todos compreendem. Isso é ridículo. Uma polegada tem o tamanho do polegar de um homem, um pé é a medida do tamanho do pé de um homem, uma jarda é o tamanho de seu cinto. Isso é fácil de se visualizar. Como é que você visualiza 147,2 centímetros? (trad. RB).

A conclusão do artigo é, justamente, o destaque que foi utilizado como chamariz para a matéria na Home do portal, e que já foi destacada anteriormente.

  • Se mais “americanos”* estão assistindo futebol hoje, é só por causa do intercâmbio demográfico que se tornou efetivo após a lei de imigração de Teddy Kennedy, em 1965. Eu lhe garanto: nenhum americano cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Só podemos esperar que, além de aprenderem inglês, esses novos americanos deixem seu fetiche pelo futebol com o tempo (trad. RB).

Além de profundamente desrespeitoso e ofensivo, o artigo de Ann Coulter é ainda mais triste, pois sabemos que representa exatamente o que milhões de estadunidenses pensam sobre si mesmos, e sobre o resto do mundo. Seria cômico, se não fosse trágico, pois todo esse preconceito e racismo não fica restrito ao mundo do futebol, mas é externalizado no tratamento diário que esses indivíduos dão às comunidades de imigrantes que lhes prestam serviços cotidianamente. Em contrapartida, e saindo um pouco do desespero de quem está vendo seu mundo ser transformado, é bastante animador ver que há estadunidenses se deixando empolgar pelo futebol e que, diferentemente do que fala Coulter, não se tratam apenas de imigrantes latinos e italianos. Sinal dos tempos, sim, mas não da decadência de uma nação, mas de um momento histórico em que ela começa a se abrir para o resto do mundo. Oxalá.

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Clóvis Rossi: exemplo do jornalismo mau intencionado

Clóvis Rossi, jornalista da Folha.

Nesse domingo, o jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo, escreveu um artigo exemplar de toda sua má intenção ao cobrir a participação do Brasil na Copa do Mundo: Brasil vai indo, medíocre até nos pênaltis.

O título do artigo, repleto de sentidos, já indica que embora se trate de um texto sobre o jogo mais recente do Brasil na Copa do Mundo, também contará com algumas pitadas sobre como o país vem sendo conduzido politicamente (que, pelo que indica o título, vai indo mediocremente).

Uma rápida olhada no texto bastaria para perceber a mediocridade (não do Brasil, mas de Clóvis Rossi) e a má intenção do articulista ao falar do tema que se propõe, a Copa do Mundo:

“[o Brasil foi] Tão mal que não conseguiu vencer o Chile, derrotado com folga em três Copas anteriores”.

Como se o Chile que entrou no gramado do Mineirão ontem fosse o mesmo que atuou em três edições de Copas anteriores e que, coincidentemente, o Brasil derrotou. Para quem não vem acompanhando as notícias da Copa, a imprensa especializada vem justamente destacando de como esta seleção do Chile é a melhor de todos os tempos. Então, como Rossi pode vir a público e escrever parvoices como essa? Desconhecimento ou má-intenção? Ah, sim! Deve-se levar em conta que o que fez Rossi acima, é uma prática normal da Folha e de muito de seus jornalistas. Vê-se, frequentemente, textos de jornalistas que buscam tirar a complexidade dos eventos passados, tornando-os como se fossem algo homogêneo e previsíveis, que podem ser trazidos para o presente ao bel prazer de qualquer um, para justificar uma impressão ou opinião do presente. Segundo essa operação, se o Chile perdeu em algumas oportunidades jogos contra o Brasil na Copa do Mundo, logo ele está fadado a perder eternamente para a Seleção Canarinho e, se algum dia o Chile ousar a ganhar, não será por mérito próprio, mas por um vexame do Brasil.

Não satisfeito com as primeiras tolices que disse, Rossi complementa os absurdos de seu texto afirmando que:

“[a partida] teve que ir aos pênaltis e, ainda assim, esgotar toda a série de cinco”.

Como se os jogadores brasileiros fossem obrigados a converterem seus pênaltis, independente das condições e do contexto (tal como a forte pressão sobre os jogadores de ter que ganhar uma Copa realizada no Brasil) e, pior ainda, por considerar que seja mais do que natural que alguns jogadores do Chile tenham que perder seus pênaltis (já que segundo a interpretação de Rossi, o certo seria sequer precisar dos cinco pênaltis).

A conclusão do artigo consegue ser ainda pior do que todo o resto, especialmente quando Rossi diz que:

“(…) o futebol do Brasil, até agora, dá para eliminar os sul-americanos (nem que seja nos pênaltis), mas parece pouco para enfrentar Alemanha ou França, um dos prováveis rivais na semi-final”.

Como se o futebol praticado por europeus fosse de um nível muito superior àquele jogado pelos sul-americanos. Parece que o articulista não tem acompanhado a Copa e não viu que velhos campeões europeus como Itália, Espanha e Inglaterra já voltaram para suas respectivas casas, eliminados da Copa do Mundo justamente por sul-americanos como Costa Rica, Uruguai e Chile. Revelando um já vencido “complexo de vira-latas”, na expressão de Nelson Rodrigues, no qual o futebol sul americano é menosprezado diante do futebol europeu, quando o desenrolar da Copa das Copas tem mostrado justamente o reverso dessa moeda.

Brasil vence Chile

Brasileiros comemoram classificação após vitória nos pênaltis contra o Chile. 28.jun.2014. Foto: Flávio Florido (UOL)

Para concluir, me parece evidente que Clóvis Rossi está escrevendo sobre o jogo de ontem, com olho na vida política do Brasil. Especialmente meses antes das eleições presidenciais. Como já mencionado, ao falar que o Brasil “vai indo, mediocremente”, ele parece referir-se não apenas à Seleção Canarinho, mas também ao país. Sabe-se que o resultado dessa Copa do Mundo terá, inevitavelmente, alguma influência nas urnas. Muitas pessoas que se opõem ao governo de Dilma Rousseff acreditam que uma eliminação precoce do Brasil poderia diminuir a popularidade da presidenta a ponto de colocar em risco sua reeleição. Eu, particularmente, não acredito nisso. No entanto, jornalistas e veículos que fazem oposição sistemática ao governo (como Rossi e a Folha), exploram qualquer possibilidade que possa tirar alguns votos de Dilma, mesmo que seja através de um artigo mal escrito, buscando associar uma alegada mediocridade da apresentação da Seleção Brasileira, com a mediocridade da condução política brasileira, na opinião do jornalista. Vergonhoso!

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Como é ser menina no país do futebol

por Liana Machado especialmente para o Hum Historiador

Brasileiras comemoram gol contra o Chile no Torneio Internacional de Futebol Feminino. Foto: André Borges/Com Copa

Ontem zapeando a TV descobri que o time brasileiro de futebol feminino realizava um jogo contra o Chile. O jogo faz parte do Torneio Internacional de Futebol, no qual o Brasil tentará o tetracampeonato. O jogo aconteceu em Brasília diante de arquibancadas praticamente vazias e uns poucos torcedores apáticos. Não vi o jogo, mas vi o primeiro gol de Marta. Eu não entendo de futebol, mas a calma com que ela planejou o ataque demonstra além de talento, muita experiência. Em uma pesquisa rápida na internet, descobri que a Copa do Mundo feminino é realizada desde 1991, e que apesar de nunca ter ganhado o título a Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo por cinco vezes consecutivas. Nenhum homem conseguiu a mesma proeza. Será que um dia vai?

Mas no Brasil não existe machismo!

Iniciemos pelo início. Sabe o que Pelé disse sobre a atuação de Marta no Pan de 2007? “Ela é o Pelé de saias”, ou seja, ela é um homem, ou tem atitude de homem, ou é tão bom quanto um homem, só que ela não tem pênis. Ótimo! Então, podemos dizer que Neymar é uma Marta de calças? Claro que não. A referência é o homem, a mulher é o outro. Mas continuemos com a Copa.

Quanto alarde fazemos com a Copa do Mundo, heim? Fosse aqui ou não. Copa essa, aliás, que nem precisa dizer que é masculina. Mas a Copa é aqui. Quanta preocupação com os estádios! Vão ficar prontos, ou não vão? Precisamos cobrar as autoridades, gastar dinheiro, desapropriar barracos (não, nem vou entrar no mérito de como eu acho que a Copa do Mundo é um evento elitista para o qual não fui convidada, o assunto é outro). Milhares de turistas virão para ver os homens jogando. Paga-se caro por passagens aéreas, hospedagens, alimentação. O evento é grande e reúne muita gente.

E na semana passada a TV transmitiu o sorteio das chaves (acho que é assim que chamam). E ficou-se uma hora dizendo coisas do tipo E2, B4, C1. Importante, né? Depois do sorteio, enquanto eu jogava paciência no PC a Rede Globo ficou fazendo milhões de prognósticos: quem vai pra final com quem, quem vai para as oitavas, quem joga com o Brasil nas quartas de final. Uma hora da programação da maior rede de transmissão brasileira para pura futorologia. Incrível. O mundo realmente dá muita atenção a esse torneio. O masculino, claro.

O feminino não merece a mesma atenção, o mesmo respeito, o mesmo incentivo. Não provoca a mesma alegria. Ninguém falta às aulas para assistir a copa do mundo feminino (com letra minúscula mesmo). Ninguém sai do trabalho. Ninguém vai para o bar ver o jogo com a galera, ninguém compra fogos de artifício. A coca-cola não envia 100 amigos para ver o jogo, o cabelo de Formiga (jogadora da seleção, caso você não saiba) não faz a cabeça de ninguém. O número 10 de Marta não faz o mesmo sucesso. Não! Mulheres e homens vão torcer pelos homens. Não pelas mulheres. Que ridículo seria um estádio como o Maracanã lotado de gente, as ruas vazias, todo o Brasil na frente da TV para ver Marta jogando!  Você leitor, se imagina viajando ao Canadá em 2015 para ver a copa do mundo?

Mas aqui não existe machismo.

Só pra terminar, o narrador do jogo de ontem fez muito elogios às jogadoras brasileiras. Elogios do tipo “como ela é bonita”, “mas que sorriso lindo ela tem”. Elogios certos para as mulheres. Porque mulher que é mulher prefere ser apreciada pelos seus atributos físicos. Mesmo que ela seja a melhor jogadora de futebol do mundo.

Abaixo, os dois gols da seleção no jogo contra o Chile.


Liana Machado é historiadora e está concluindo seu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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O futebol é do povo?

INGRESSOS CARÍSSIMOS E UMA EVIDENTE EXPULSÃO DOS POBRES DOS ESTÁDIOS, VAMOS DEIXAR BARATO?
por Carlos Carlos | para o blog Bola e Arte

Os preços exorbitantes para a final da Copa do Brasil entre Flamengo x Atlético-PR, suscitaram discussões e suspiros de preocupação em muitos torcedores. O que complica mais um pouco, é quando constatamos que isso não é novidade. Ingressos com inflação galopante em jogos decisivos não são de hoje e não vêm de um time só. Como muitos sabem, sou santista, e isso já aconteceu com o meu time em várias ocasiões, quando o ingresso na bilheteria vende-se a preço de ingresso de cambista, e sei que vários outros torcedores de diversos times já passaram por isso.

Mas vamos aos fatos reais: isso tudo não é de hoje e tem a ver com o evidente processo de elitização dos estádios brasileiros, que vê a Copa do Mundo como o grande trunfo pra embarcar de vez nessa barca furada.

No Brasil, o futebol só cresceu por causa do povo e sem o povo nada haveria, tanto torcendo, como jogando. E contraditoriamente aos fatos da história, o capital e seus agentes de expansão promovem o processo de expulsão dos pobres dos estádios, que acontece a todo vapor, desumanamente e burramente varrendo o povo brasileiro, esse que sempre habitou a “Geral” do Maracanã, essa que foi extinta e era como um símbolo de resistência popular nos estádios. Afinal, hoje não é mais simplesmente “Maracanã”, e sim “Complexo Maracanã Entretenimento”.

Isso tudo nos faz lembrar de fatos recentes, quando mobilizações populares em torno da resistência do povo no futebol andaram aparecendo, como é o caso da ANT – Associação Nacional de Torcedores, que já foi extinta. O povo e os movimentos sociais organizados tem que se unir contra esse processo escroto que está em curso, onde juntos poderemos gritar forte o “Não vai ter Copa” e ir pra cima contra o processo de elitização nos estádios.

Uma iniciativa existente e que precisa da força de adeptos combatentes é o Arquibancada Em Resistência (cliquem e confiram).

Não há tempo para esperarmos mais, a hora é agora e a Copa da FIFA fascista, dinheirista e separatista taí! Vamos pra cima mostrar que é o povo quem manda!

E pra finalizar esse post, disponibilizo um relato do face do Pedro Rios, flamenguista, desabafando quanto aos ingressos caríssimos e ao fato do povo ser expulso dos estádios! E a linda foto a seguir, que mostra os verdadeiros donos do futebol brasileiro

Eu torço pro Flamengo. Muito. Todo mundo sabe disso. 
Mas torço muito mais para a torcida do flamengo.
Esse título, ganho dentro de uma cena de crime, ganho dentro de um dos maiores ASSALTOS ao patrimônio público, o ex-maracanã, vale bem menos que o esporte. E vale bem menos que a mulambada que não consegue ir ao estádio.

Eu amo o flamengo porque amo a torcida do flamengo. Não foi outro motivo que me prendeu ao time.

O título e a festa na favela valem.

Mas eu torço para que esse povo encontre a felicidade da emancipação. A verdadeira festa na favela.

E espero poder ver um flamengo popular, em um brasil popular, voltar a comemorar seus títulos com negros, desdentados, com o suburbio, com o morro, e com a malandragem do asfalto, todo mundo junto, dentro do estádio.

Pedro Rios.

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“Menos democracia é melhor para organizar uma Copa”

Para secretário-geral da FIFA, o francês Jérôme Valcke, a democracia brasileira pode ser um problema para a organização da Copa de 2014 e prevê menos dificuldade para organizar o torneio de 2018, a ser realizado na Rússia.

“Eu vou dizer uma coisa que é maluca, mas menos democracia, às vezes, é melhor para organizar uma Copa. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, como talvez Vladimir Putin na Rússia em 2018, é mais fácil para nós, organizadores, do que em um país como a Alemanha, onde você tem que negociar em várias esferas. A principal dificuldade que temos é quando entramos em um país com estrutura política dividida, como é no Brasil, com três níveis, federal, estadual e municipal – disse o francês. (…) Há pessoas diferentes, movimentos diferentes, interesses diferentes e é um pouco difícil organizar a Copa do Mundo nestas condições.”

Foto: Agência EFE

Notabilizado por haver dito que o Brasil precisava receber um chute na bunda, por conta dos atrasos nas obras dos estádios, Valcke e a FIFA penaram para conseguirem aprovar a venda de bebidas alcoólicas nos estádios brasileiros durante o torneio de futebol.

A notícia ganha ainda mais peso uma vez que nesta quarta-feira, Joseph Blatter, o presidente da FIFA, também comentou sobre democracia e lembrou a Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina durante período de ditadura no país. Segundo reportagem publicada no portal do Globo Esporte, Blatter afirmou ter ficado feliz com a vitória da seleção da casa.

É um tipo de reconciliação do público, do povo da Argentina, com o sistema político, militar na época. Eu não sei o que poderia ter acontecido se eles tivessem perdido a final para a Holanda. O jogo e o mundo mudaram, este era o meu sentimento na época.

Como desgraça pouca é bobagem, o suíço descreveu a Fifa como sendo uma instituição conservadora, liberal e socialista, tudo ao mesmo tempo.

Joseph Blatter, presidente da FIFA.

“Somos conservadores, como os católicos, quando se trata das regras do jogo e arbitragem. E somos liberais quando vamos ao mercado”, disse ele, referindo-se às relações comerciais da entidade que controla o futebol mundial.

Somos Marx e Engels quando se trata da distribuição do dinheiro, 70 por cento de toda a renda é distribuída para as associações nacionais para programas de desenvolvimento.”

Durma-se com um barulho desses!

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A crise, a direita, o futebol e o racismo

O Hum Historiador abre espaço para a colaboração de mais um amigo que gentilmente enviou seu texto para ser publicado no blog. Desta vez é o historiador, músico e compositor Daniel Eduardo Mafra, parceiro dos tempos da graduação desde 2006.

No texto a seguir, após ser provocado por uma entrevista concedida pelo professor Osvaldo Coggiola a revista Carta Capital, Mafra faz uma análise sobre o “retorno” da extrema direita no cenário mundial percebido, de maneira geral, através dos inúmeros casos explícitos de racismo e xenofobia que diariamente são noticiados pelo mundo e já não são mais capazes de causar espanto ou reação em cada um de nós. De maneira mais específica, Mafra se concentra nos ataques racistas feito contra jogadores de futebol durante a Eurocopa 2012, nomeadamente, ao jogador italiano Mario Balottelli.

Mais do que simplesmente fazer uma breve análise do caso mais recente, Mafra aponta para nossa culpa, enquanto cidadãos, do atual estado que o racismo atingiu em nossas sociedades e da posição e poder que essa direita ultraconservadora passou ter em muitos países ocidentais.

Divirtam-se!


A crise, a direita, o futebol e o racismo
por Daniel Eduardo Mafra

Se a História se repete, sendo a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, aproximamo-nos, pois, de um destes pontos de inflexão do eflúvio histórico: a volta da extrema direita (cabe aqui o pleonasmo “A volta dos que não foram”) aos holofotes do cenário político mundial, através dos apelos racistas das classes mais abastadas da sociedade europeia – esta sempre tida como a vanguarda do pensamento ocidental – das políticas xenófobas de certos partidos políticos ascendentes no cenário europeu, e que ecoam pelo mundo afora, como vemos nas políticas higienistas do Governo do Estado de São Paulo, árvore mais que enraizada no solo da Revolução Burguesa no Brasil, por exemplo.

E pelo discurso daqueles que interpretam o atual momento político-social de nosso mundo do avesso, nada mais sugestivo que ressuscitar o bom e velho Marx pra dizer que a História parece se repetir agora como farsa. Ou uma piada de mau gosto, para ainda permanecermos polidos. Ainda…

Todos os historiadores (inclusive eu) bradam em alto e bom som que a História não se repete, que os anacronismos são demasiado significantes para analogias quanto aos acontecimentos de outrora para com o presente ou o porvir histórico. Não obstante, o que passamos a identificar cada vez mais e, sobretudo, desde que a atual crise europeia colocou em xeque os alicerces da falácia da Comunidade Europeia e da Social Democracia, é uma volta ao reacionarismo, ao racismo, à xenofobia.

Tal qual o processo histórico que se desenvolveu no início do século passado, quando o laissez faire escancarou as portas da primeira crise capitalista global, afundando as economias liberais, e acelerando a ascensão de grupos de extrema direita ao poder, sendo o nazismo e o fascismo somente dois dos tantos que se espalharam pelo globo, semelhante processo se nos apresenta agora. Tal qual uma piada de mau gosto, basta uma crise, cousa tão evidente e previsível dentro da estrutura sócio metabólica do capital, para que os grupelhos de extrema direita, xenófobos e racistas, ganhem força nos ecos dos discursos do passado, em defesa da família, dos bons costumes, da nação, de Deus, e do Diabo, se for preciso.

E há aqui um importante fato a ser considerado: a direita não mais precisa estar no poder, basta fazer-se presente sob a égide do mal para fazer o bem (conforme suas vicissitudes, naturalmente), ou vice-versa, não importa. Seu discurso ultranacionalista encontra morada na ineficiência das propostas frente à crise. É palha na fogueira.

E eis que este fogaréu, que de nada tem a ver com o nosso São João, deu as caras no evento mais pomposo do futebol internacional: a Eurocopa, que ocorre na Polônia e Ucrânia, países do leste europeu “onde há movimentos neonazistas de grande envergadura”, conforme disse Osvaldo Coggiola, professor de História Contemporânea da USP, em entrevista à Carta Maior.

Discordâncias à parte, não há como não refletir sobre o processo de transformação do “progresso cultural da sociedade burguesa em regressão cultural”, visto que boa parte dos integrantes destes novos partidos de extrema-direita é formada por pessoas com alto grau de instrução. E que futebol e política tem a ver um com o outro? Tudo, visto que “tudo se mistura com política, e… por que tudo se faz para que ela se misture. Por exemplo: a execução dos hinos nacionais antes dos jogos”.

Dentro desta arena transcendental e de movimento pendular, ora no esporte, ora na política, os holofotes deste espetáculo da barbárie apontam para os jogadores negros das diversas seleções, alvo da intolerância e da gratuita estupidez humana, tendo como pano de fundo a conivência das autoridades, ora políticas, ora esportivas, e seus slogans superficiais e politicamente corretos. Faz-se com que capitães das respectivas seleções leiam um texto raso sobre o papel do esporte quanto à união dos povos, o ‘diga não ao racismo’ e mais uma meia dúzia de blábláblás e pronto! Papel cumprido! O juiz apita e tem-se início a partida. Minutos depois, a mágica da tolerância se desfaz pela contemplação do voo solo de uma banana em direção a um jogador negro… Nada se faz, pois o papel da autoridade era tal qual o de perfumar estrume diante da gravidade dos acontecimentos. Há um abismo de distância entre um discurso político e um ato de represália aos ofensores. É uma forma de se institucionalizar, mesmo que de forma latente, o racismo no futebol.

Reprodução de charge do jornal Gazzetta dello Sport que compara Balottelli, jogador da seleção italiana, ao King Kong.

Aliás, cabe aqui importante reflexão: recentemente um importante estudo, publicado na Associated Press no último dia 24/06, revelou que o foco dos cientistas que estudam comportamento e, sobretudo, pensamento animal, está em QUÊ eles pensam e não SE eles pensam. “Babuínos podem distinguir entre palavras escritas e meros rabiscos. Macacos parecem ser capazes de multiplicar e podem compreender instantaneamente uma gratificação, muito mais do que uma criança humana pode. Planejam. Fazem guerra e paz. Mostram empatia. Compartilham“. Ou seja, é bastante provável que se um macaco estivesse entre os torcedores que arremessaram a dita banana ao atleta em campo, ele a comeria, ao invés de desperdiçá-la com um ato tão intragável. É bastante provável que um babuíno seja tão inteligente (ou mais) do que aquele sujeito supostamente superior, em seu ato impensado (ou pensado), mecânico, boçal.

Diferentemente de Coggiola, que atribui tais atos exclusivamente ao conflito de classes, ou a derivações do conflito de classes, penso que o racismo é causa e consequência, ao mesmo tempo. Não há como negar o conflito de classes e a exclusão das populações negras, no Brasil, por exemplo. É um racismo consequente da luta de classes. Mas há ainda algo mais. A ortodoxia marxista esbarra nas causas ideológicas e eugênicas do século XIX que persistem no imaginário coletivo das elites dominantes, detentoras do monopólio da informação, produtoras daquilo que se convencionou chamar ‘opinião pública’ (como se o termo presumisse a indelével afirmação de que tal opinião emana do povo).

Especificamente, direcionando a pauta para a realidade brasileira, faz-se evidente que o racismo é institucionalizado de forma velada. Seja pelo monopólio da violência exercido pelo estado contra as populações negras, seja pelas burlescas anedotas, supostamente despretensiosas, proferidas num botequim qualquer. Ainda em tempo, as medidas pontuais tomadas pelo governo federal, desde a ascensão do PT ao poder, é uma correção para a distorção do curso histórico de nosso país. Ainda assim, tal fato trouxe à tona uma série de ‘pensadores‘ contrários à medida e ao recente parecer do STF quanto à matéria.

Mais do que tudo, o racismo está presente no silêncio de cada um de nós, ao não nos chocarmos com os fatos escancarados, que nos esbofeteiam com os chicotes dos açoites de outrora. Ao não nos posicionarmos contra, necessariamente estamos nos posicionando a favor. Não há meio termo. Não há como ficar em cima do muro. Não vejo outra forma de terminar este devaneio senão citando o Cássio, no Júlio César, de Shakespeare: “Há momentos em que os homens são donos de seu fado. Não é dos astros, caro Brutus, a culpa, mas de nós mesmos, se nos rebaixamos ao papel de instrumentos“.

Prólogo

Ainda em tempo, e para meu deleite, na tarde de ontem a seleção da Itália venceu a seleção alemã por 2×1. Não que eu esteja torcendo por uma ou outra, mas o destaque da partida foi o italiano Mario Barwuah Balotelli, de origem ganesa. Um dos alvos frequentes de torcedores racistas, Balotelli rompeu as fronteiras do futebol. Arrancou intrépido com a bola e, em direção ao gol, chutou-a forte, tal qual um Zumbi contemporâneo-metafórico-esportivo, balançando as redes da opressão. Parou e tirou a camisa, num ato colérico e contido, paradoxalmente. Depois, cerrou o punho e elevou-o até o alto, e trouxe a nós, por efêmero momento, uma carta de alforria.


Daniel Mafra é músico, compositor, falso poeta e proto-escritor. Graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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BRASIL: uma nação podólatra

Garrincha em partida amistosa da seleção brasileira contra o País de Gales, 1958.

Inspiradas pela experiência republicana francesa, as inúmeras bandeiras municipais confeccionadas no Brasil após a proclamação da República, traziam barretes frígios para representar a liberdade recém conquistada pelos cidadãos. No Brasil de 1889, apenas um ano após a abolição da escravatura, certamente  sapatos seriam ícones muito mais apropriados para representar a ideia de liberdade do que os tais barretes frígios importados da França.

Rogério Beier

ESCLARECIMENTOS INICIAIS

Esse texto nasceu imediatamente após uma provocação muito sadia feita pelo professor Nicolau Sevcenko durante uma de suas aulas de História Contemporânea na FFLCH-USP. Durante sua exposição, o professor pedia a seus alunos que parassem alguns instantes para refletir como os pés e seus produtos culturais são relegados, em nossa sociedade, a uma posição de inferioridade absoluta quando comparados ao cérebro, as mãos e os respectivos produtos atribuídos a estes órgãos. Mais do que isso, o professor nos lembrou que os pés são, invariavelmente, associados a ideias negativas como as de inferioridade, insuficiência, azar, morte ou, até mesmo, pejorativas, como revelam as expressões pé-rapado, pé-de-barro, pé-duro, pé-rachado e muitas outras.

O objetivo deste texto não é outro senão o de responder à provocação do professor de uma maneira bastante simples e despretensiosa. O método adotado para a produção deste pequeno ensaio foi o registro puro e simples das considerações e reflexões estimuladas durante a própria aula expositiva e que, posteriormente, foram melhor elaboradas em forma dissertativa durante a semana que separou a primeira da segunda aula. Portanto, pela própria característica que originou este texto e pela ausência de pretensão acadêmica, o mesmo segue livre de notas de rodapé e referências bibliográficas, já que o material consultado para produzir o texto, foi apenas de referência enciclopédica.

A ORIGEM DO FUTEBOL NA INGLATERRA

Apesar de não haver consenso entre os historiadores de quando e onde surgiu o futebol, muito significativo para este texto é uma das alegadas origens que, segundo alguns, teria se dado na Inglaterra. De acordo com algumas enciclopédias esportivas, historiadores apontam o documento Descriptio Nobilissimae Civitatis Londinae, escrito em 1175 por William Fitzstephen, como o mais antigo relacionado ao esporte. Este documento descreve um jogo que se disputava durante uma festa medieval, a Shrovetide (uma espécie de terça-feira de carnaval), quando ingleses chutavam pelas ruas da cidade uma bola feita de couro a fim de comemorar a expulsão dos dinamarqueses no período de dominação anglo-saxônica. Acredita-se que essa bola que era chutada pelas ruas simbolizava a cabeça de um oficial do exército invasor.

Muitos séculos depois, o costume de se chutar bolas de couro pelas ruas continuava a ser praticado no Reino Unido e, o que era um esporte violento durante a Idade Média, com o passar dos séculos, foi se tornando cada vez mais tranqüilo, até que escolas, clubes e universidades passaram a adotá-lo como prática desportiva no século XIX.

Um grande problema a se resolver nesta época era que cada escola, clube ou universidade utilizava uma regra diferente da adotada por outra. Em umas o uso das mãos era permitido, enquanto em outras, não. Tal indefinição provocava reações até mesmo de praticantes de outro esporte, o rugby, que pediam por uma definição urgente das regras do futebol que, até aquele momento, era muito semelhante ao que se praticava no rugby. Assim, em 1863, uma reunião entre dirigentes de escolas, universidades e clubes praticantes do football foi realizada para estabelecer e unificar as regras do jogo e, em dezembro daquele mesmo ano, fundou-se na Inglaterra a primeira associação de futebol (Football Assossiation) que teria a responsabilidade de definir as regras do esporte que, no século seguinte, acabaria se tornando o mais popular do planeta.

FUTEBOL: PRODUTO CULTURAL DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?

No mesmo local do globo e período da história a que nos referimos anteriormente, a Inglaterra estava passando por um estágio avançado de sua Revolução Industrial. Por volta de 1870, Londres contava com aproximadamente cinco milhões de habitantes e suas manufaturas produziam bens de consumo a todo vapor, utilizando-se da mão-de-obra de operários que cumpriam, àquela época, uma jornada de dez a doze horas diárias.

Como fizemos questão de destacar acima, as próprias expressões utilizadas para se referir às fábricas e aos trabalhadores não escondem quais partes do corpo eram privilegiadas nesses novos locais de trabalho que se espalharam por todo o Reino Unido. Assim, como não poderia deixar de ser, praticamente todo o trabalho realizado em uma manufatura era feito pelas hábeis mãos dos operários. Além disso, outra característica marcante do trabalho realizado nas manufaturas, era a fixação do operário em um único lugar durante as doze horas de sua jornada. Tal característica apresenta um diferencial com as formas anteriores de trabalho, uma vez que, durante o período feudal, além do trabalhador se deslocar pela terra em que produzia, ele ainda tinha contato com a terra e com a natureza. O trabalho nas fábricas não só é marcado pela fixação do trabalhador a um espaço ainda mais reduzido, mas também por ser afastado dos campos, da terra e do contato com a natureza. Desta forma, não é estranho ouvir que as associações de trabalhadores da época, com o passar dos anos, reivindicavam mais tempo livre para que os trabalhadores desfrutassem de momentos em contato com a natureza, seja nas florestas ou nas montanhas.

Também não nos causa estranheza alguma o fato de que a criação deste esporte, isto é, a organização de suas regras e seu controle através de um órgão associativo, tenha se dado justamente como produto cultural deste local específico do globo e deste período de tempo. Afinal, mesmo que sua criação tenha partido das elites, e não do povo, acreditamos não ser bastante equivocado imaginar o futebol como contrapartida dessa nova vida levada nas cidades. Talvez resida justamente aí a razão da imensa e rápida popularidade deste esporte que, com a implantação da regra onde se proibia o uso das mãos, transformava o jogo justamente em uma oposição ao modo de vida nas fábricas, não apenas por se privilegiar o uso dos pés em detrimento das mãos, mas também por conferir maior dinamicidade à vida de seu praticante.

Outra regra também bastante significativa neste sentido foi a determinação de um campo aberto como local de disputa dos jogos. De uma maneira ou de outra, ela também se contrapõe à nova maneira de viver das grandes cidades justamente por ser um momento onde o praticante teria um contato maior com a terra onde passaria a desempenhar uma atividade extremamente dinâmica, bem longe daquilo que representavam as fábricas e bem perto daquele anseio, que havíamos destacado anteriormente, pelo qual algumas associações de trabalhadores já lutavam.

GOLEIROS: OS INIMIGOS A SEREM BATIDOS

Goleiro, figura tão maldita que onde pisa, não nasce grama.

Frase atribuída a Neném Prancha, botafoguense.

Antes de passarmos ao tema deste texto, isto é, o Brasil e suas relações com os pés, não poderíamos deixar de destacar um jogador específico neste esporte que é o símbolo de tudo o que viemos destacando até o momento: o goleiro.

De acordo com as regras do futebol, os goleiros são os únicos permitidos a tocarem a bola com as mãos durante o jogo. Chama atenção o fato de o objetivo final deste jogador ser justamente evitar aquele que é o objetivo do jogo, isto é, o gol. Assim, o goleiro se torna, na verdade, o grande adversário a ser batido durante jogo. Os demais jogadores são meros obstáculos, há mesmo é que se bater o goleiro, o estraga-prazeres.

Aqui percebemos claramente a presença de uma disputa entre pés e mãos. Uma tensão que precisa ser resolvida e que foi criada em função da introdução, dentro do próprio jogo, de um elemento com valores opostos e objetivos distintos aos de todos os demais e ao do próprio jogo em si. A presença desse jogador transforma-o, é claro, no vilão do jogo, no inimigo a ser batido.

Analisando outros esportes coletivos, vemos que em poucos há a presença de um elemento causador de tamanha tensão inseridos no próprio jogo. No basquete, por exemplo, o objetivo é atirar a bola ao cesto e, ao fim, disputar, uns contra os outros, quem converte mais cestas. Não há a presença de um jogador postado frente às cestas com o objetivo de evitar, com os pés, a conversão dos arremessos. Podemos dizer o mesmo do voleibol, do beisebol ou do futebol americano, por exemplo.

Assim, acreditamos que essa tensão gerada pela presença do goleiro, traz para o jogo a mesma tensão vivida na própria sociedade que criou o esporte. Como viemos expondo até o momento, no futebol os pés ganham sentido de liberdade, mobilidade e contato com a terra, enquanto as mãos representam as fábricas, a rigidez e a vida urbana, caótica e sem perspectiva das grandes cidades. Talvez a grande popularidade conquistada muito rapidamente por esse esporte se justifique exatamente por isso, por dar a seu praticante este sentido de liberdade, mesmo que temporária, de uma sociedade que o cativa, que o impede de se expressar. Ao menos ali, durante o jogo, ele poderá bater o goleiro. Ao menos ali, ele poderá se vingar, aos pontapés, das mãos que o aprisiona.

Não poderíamos deixar de mencionar aqui o fato de, atualmente, alguns goleiros estarem ganhando extrema popularidade e respeito por demonstrarem também possuir habilidades com os pés. No Brasil, grande popularidade ganhou o goleiro do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni, por ser um jogador que apesar de atuar como goleiro, apresenta enorme facilidade em jogar com os pés fazendo, inclusive, inúmeros gols em cobranças de faltas e penalidades máximas.

BRASIL: CARNAVAL, FUTEBOL E SAMBA

Quem não gosta de samba bom sujeito não é.
É ruim da cabeça ou doente do pé.

Dorival Caymmi em Samba da minha terra.

Ao nos provocar durante a aula, o professor alerta para o fato de que talvez não tivéssemos nos dado conta da mencionada posição de desprezo e submissão dos pés em relação às mãos e ao cérebro e que, até mesmo, nos horrorizaríamos ao constatá-la aqui no Brasil, produto da grande influência cultural e dos valores europeus brutalmente impingidos à nossa sociedade.

De fato, como bem salientou o professor, é inegável que também em nossa sociedade os pés e seus produtos culturais estejam submetidos àquela posição de inferioridade e cheguem, até mesmo, a simbolizar pobreza, miséria ou azar, como já destacamos. Contudo, não podemos deixar de destacar que, diferentemente de outros lugares do globo, o Brasil talvez seja o único país que se identifique e seja identificado intimamente com produtos culturais oriundos dos pés. Afinal de contas, quem nunca ouviu um estrangeiro, ao comentar sobre o Brasil, associá-lo ao carnaval, futebol e samba?

Assim, acreditamos que em nossa sociedade há ainda alguns espaços que resistem a esta imposição cultural das mãos proveniente da Europa. Espaços estes, não por acaso, conquistados pelas camadas mais populares da sociedade, que expressam os produtos desta cultura, de maneira geral, em grupos ou comunidades e nas ruas.

O samba, por exemplo, ganha sua expressão máxima nas ruas. É nas ruas que ele se populariza rapidamente e conquista todo o país, não nos salões e nem nas cortes, como ocorria geralmente com as músicas européias. Através do samba a população deixa a vida particular de lado, suas atribulações cotidianas com o trabalho e sai às ruas para dançar e sociabilizar. Em um dos seus momentos máximos, uma grandiosa festa é organizada e milhões de pessoas em todo o país vão às ruas para dançar o samba, gozar a vida e celebrar intensamente o simples fato de se estar vivo. Eis aí o grande objetivo dessa “ofegante epidemia” que se chama carnaval.

O futebol, por sua vez, ganha no Brasil, e também na África, imensa popularidade. Nessas localidades valoriza-se muito a forma como se joga em contraposição ao objetivo do jogo, ou seja, a vitória. Muitos expectadores destas regiões preferem muito mais assistir a um jogo tecnicamente bem jogado por seus times, do que vê-los vitoriosos jogando um futebol de péssima qualidade. Maior exemplo não pode haver do que os muitos torcedores brasileiros que dizem valorizar mais a seleção brasileira derrotada na Copa do Mundo de 1982 do que a campeã mundial de 1994. Outro exemplo que demonstra essa valorização da técnica é aquele que ouvimos de comentaristas esportivos que insistem em qualificar as seleções africanas de ingênuas, tal como faziam com Garrincha, por estas sobrevalorizarem jogadas bem executadas tecnicamente e com grande efeito plástico em detrimento do gol. Não por acaso Garrincha é reconhecido o ícone máximo do futebol brasileiro. Pelé é “o Rei”, isto é, aquele que praticou o esporte com soberania. Garrincha é, contudo, a “alegria do povo”. Aquele a quem todos gostam de ver jogar. Aquele a quem até mesmo os adversários aplaudem ao vê-lo desferir um drible contra um zagueiro incauto. Sábio é o povo que alcunha seus maiores ídolos distinguindo-os precisamente como o “Rei” e a “alegria do povo”.

Neste sentido, também não deixa de ser curioso e representativo o fato de que, atualmente, a demonstração de extrema habilidade técnica com os pés por parte de um jogador, passe a ser interpretada por seus adversários como um ato de desrespeito e pretensa humilhação destes diante do público em geral. Tal inversão de valores pode demonstrar, mesmo dentro do futebol, como os pés ainda são mal vistos por alguns membros da sociedade, que reprimem a qualidade técnica com violência. Também podemos ver tal fato como uma forma que os menos habilidosos com os pés conseguiram de reverter, através de discursos e práticas, violentas ou não (valorização de jogada aérea), aquilo que inicialmente era valorizado e visto como máxima demonstração de habilidade técnica por parte de um jogador, atuando, desta forma,  como agentes de uma reação da cultura manual dentro do futebol.

No samba, esta reação também pode ser vista com a tentativa de transformação do carnaval em um espetáculo comercial – com local de exibição próprio onde, inclusive, se paga ingresso para participar – que acabaria por restringir a espontaneidade e a liberdade dessa que é, junto com o futebol, uma das expressões mais características de nossa sociedade e que, apesar de não terem sido criados aqui, foram logo acolhidos e ganharam uma expressividade que insiste em resistir bravamente aos influxos culturais cerceadores da liberdade provindos de um velho mundo cada vez mais preso aos grilhões de um sistema individualista e alienante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, gostaríamos de concluir este pequeno ensaio dizendo que concordamos, em parte, com a afirmação de que os pés e seus produtos culturais estão, nas sociedades ocidentais, submetidos a uma condição de inferioridade quando comparados aos produtos culturais das mãos e do cérebro. Dizemos em parte porque, como viemos destacando acima, no Brasil é possível verificar um forte espaço de resistência por parte de produtos culturais característicos dos pés que, apesar de não terem sido criados aqui, ganharam grande popularidade chegando até mesmo a se alçarem como produtos identitários de toda uma nacionalidade. Ainda hoje, apesar de uma reação esboçada por esta sociedade controlada por mãos e cérebro no intuito de modificar a expressão tipicamente popular do Carnaval, Futebol e Samba, estes continuam sendo sinônimos, não só de Brasil e dos brasileiros, mas também da não submissão à um sistema que tolhe as liberdades em busca, cada vez mais, da anulação da humanidade em seu sentido mais profundo.

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