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Sobre o vereador eleito Fernando Holyday (DEM) e os capitães do mato

Repercutindo texto do cantor e compositor Nêggo Tom, publicado no portal Brasil 247 nessa última sexta (4).

O CAPITÃO DO MATO DO NEOLIBERALISMO GOLPISTA
por Nêggo Tom | publicado originalmente em Brasil 247 | 04.nov.2016

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A figura do capitão do mato surgiu na sociedade brasileira por volta de 1694, após a destruição do Quilombo dos Palmares, com o intuito de impedir a fuga de escravos e resgatar escravos fugidos. E ganhavam bem para isso. O pagamento poderia ser em dinheiro ou até mesmo algum pedaço de terra. Os senhores de engenho e outras autoridades da corte portuguesa, estavam preocupados com o número cada vez mais crescente de seres humanos escravizados querendo se libertar e resolveram criar uma espécie de política de segurança pública da época. Tanto é que não seria nenhuma bobagem afirmar que a figura do capitão do mato deu origem a policia militar, também criada ainda no período do Império, em 1809.

O capitão do mato, em sua maioria, eram escravos libertos, o que lhes dava uma falsa impressão de melhor posicionamento social e superioridade pessoal sobre os demais. Claro que a escolha de escravos libertos para policiar escravos não libertos foi proposital. É claro, também, que esses escravos “promovidos” a capitães do mato fizeram por merecer tal recompensa. Entregar a cabeça de seus pares, por exemplo. Pura meritocracia. Trazendo para os dias de hoje, é como aquele seu colega de trabalho que puxa o saco do chefe e cagueta a turma toda para subir na empresa. Digamos ainda que para chegar a capitão do mato, o indivíduo tinha que ter um perfil evolutivo.

O neo liberalismo vive tentando produzir remakes dessa personagem de nossa história. Pelé, mesmo não oficialmente, foi empossado no cargo e como se comporta bem do jeitinho que a casa grande gosta, nunca perderá sua Majestade. Tanto que ganhou o título de rei. O ministro Joaquim Barbosa foi “sondado” para ocupar essa função, mas graças a Deus e a sua inteligência acima da média, percebeu que estava sendo usado e declinou a tempo do convite. Tudo parecia ir bem, mas quando ele declarou apoiar a política de cotas, reconheceu resultados nas políticas afirmativas criadas pelo governo do PT e se posicionou publicamente contra o impeachment de Dilma, a decepção foi geral no reino de Dom João. Esse não serve mais! Precisamos de alguém com menos personalidade, com mais necessidade de ascensão, sem muita estima as suas origens e sem nenhum sentimento pelo sofrimento de seus antepassados.

Assim nasce Fernando Holiday. O capitão do mato do neo liberalismo. A escolha do rótulo do produto é sensacional. Negro, pobre e gay. Um legítimo representante das minorias exaltado pela direita conservadora, sempre acusada de preconceito e de elitismo. Como somos injustos com eles. Só que não! Não precisa raciocinar muito para perceber o que o jovem, coordenador nacional do movimento Brasil livre, tem por missão.Enquanto acusa a esquerda de promover uma divisão na sociedade, promovendo uma guerra entre classes, raças e gêneros, a direita promove a divisão entre os próprios membros das classes, das raças e dos gêneros. E eles são bons nisso.

Fernando Holiday publica vídeos cheios de atitude na internet, grita, sapateia, esperneia, põe o dedo em riste para a câmera. Seu discurso tem uma estrutura tucana, verbetes bolsonaristas e muitos malafaiagismos. Já rasgou o hino à negritude em plena tribuna da câmara dos deputados, já tentou desmoralizar Eduardo Suplicy, já se declarou contrário às cotas raciais, já disse que Zumbi era um assassino e que preto gosta de se fazer de vítima. Só faltou dizer que é branco. Talvez ele até acredite que seja, pelo fato de ser o capitão do mato do momento, movido pela vaidade e financiado por algum senhor de engenho preocupado com a perda de seus escravos e empenhado em captura-los ou recuperar alguns, através da lei da oferta e da procura.

Quando Holiday diz que os negros não precisam de favores ou de cotas e devem conquistar os seus objetivos apenas por mérito, ele não está querendo dizer que você pode e basta lutar. Na verdade ele apenas reproduz o discurso dos racistas, que de maneira inteligente, usam um negro para conter os outros descontentes, fazendo-os crer que toda luta por igualdade e respeito não passa de uma bobagem, afinal, somos todos iguais, as oportunidades são iguais e racismo é coisa da cabeça de gente complexada e incapaz. Ao mesmo tempo em que é “vendido” como o preto exemplar ou negro de alma branca, Fernando Holiday se submete ao que há de mais deprimente para a honra de um homem.

A sua eleição para a câmara dos vereadores de São Paulo, foi um prêmio à sua fidelidade canina a agenda golpista e uma tapa na cara dos movimentos esquerdistas. Uma forma de a direita conservadora dizer, falsamente, vinde a mim todos os pretos, pobres e outras minorias, e eu vos elegerei. Não temos nada contra vocês! Desde que estejam ao nosso lado. Desde que adotem o nosso discurso. Jesus Cristo também fora tentado de forma semelhante quando o diabo o levou ao topo de uma montanha e de lá, apresentando as belezas do seu reino, o propôs abandonar os seus e a sua missão, em troca de toda a riqueza e status que ele poderia lhe oferecer. Vai ficar nessa de lutar pelos pobres, pelas minorias e de ficar pregando justiça e igualdade social? Os ricos vão te odiar e os poderosos vão pedir a sua cabeça. Sai dessa! Eu tenho coisa melhor pra você. Como Jesus não era golpista e muito menos se esquecia de suas origens, seguiu em frente. Sai diabo!

A direita sempre contra ataca, e na maioria das vezes, o intuito é retroceder. Trazer o país que eles acham que é só deles, de volta. Quando os mais pobres começam a ter acesso à educação superior, eles cortam os investimentos. Quando as mulheres conquistam independência, eles dizem que elas devem ser belas, recatadas e do lar. Quando os negros e pobres decidem lutar por igualdade e respeito, sem hipocrisia e falsa meritocracia, eles apresentam Fernando Holiday. Essa postagem em sua página do Facebook, talvez diga alguma coisa:

“Como Vereador, lutarei para:

– Combater o vitimismo:

Todos, independente de cor de pele, podem alcançar o sucesso sem precisar de migalhas do Estado para isso.

– Acabar com as cotas raciais em concursos públicos municipais:

Chega de segregacionismo institucionalizado. Todos somos iguais!

– A revogação do dia da consciência negra em São Paulo:

É um absurdo que exista uma data como esta, e que acima de tudo, homenageie um homem assassino escravagista.”

É a personificação do padrão meritocrata dos golpistas. Ou seja, só está lá porque pensa como eles, age como eles, se sente como eles e gostaria de ter nascido como eles. Mas sabe que nunca será de fato, como eles. Será sempre visto como um agregado social, que deve favores aos seus senhores e mentores. Exagero? Ele que ouse a contrariá-los.

Até lá, ele seguirá como paradigma da elite para ilustrar como deve ser e se comportar, os pobres e os negros desse país, para serem bem aceitos pela casa grande. Ele é realmente um fenômeno. É negro e não sofre racismo. É pobre e é bem vindo à alta roda. É gay e agrada aos radicais conservadores da direita. Já prevejo um globo repórter especial com a tradicional chamada de Sergio Chapelin dizendo: quem é, onde vive, do que se alimenta e qual é o segredo de Fernando Holiday? Que não é feijão, mas se tornou o preto mais querido de alguns brasileiros.

Dez entre dez golpistas o preferem. Feijão, quer dizer, Fernando Holiday, tem gosto de festa, é melhor e mal não faz aos interesses dos senhores de engenho da nova era. E ainda combate o vitimismo. Oi?

Que não sirva de exemplo a resistência.

“Libertei mil escravos. Podia ter libertado mais mil, se eles soubessem que eram escravos.” Harriet Tubman


Nêggo TomNêggo Tom, é Cantor e compositor. É pobre, detesta doença e mais ainda camarão

 


Nota do Hum Historiador: Após ler esse texto, difícil não associar Fernando Holiday ao personagem Stephen, do filme Django Livre, de Quentinn Tarantino. Deixo a imagem do personagem para que reflitam no papel que esse indivíduo irá desempenhar na Câmara de Vereadores de São Paulo.

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Brasil, um país sabotado: a moral, o resto e o patriarcalismo

por Lucas Freitas

Compreender a sociedade e a política brasileira é algo extremamente complexo, existem diversos fatores envolvidos, 200 milhões de pessoas e realidades regionais tão diferentes que seria mais fácil falar em um multiplicidade do que em uma unidade chamada Brasil. Porém, há elementos comuns. Estes são mais evidentes no seleto grupo que fica no topo da pirâmide, sua conduta funciona dentro de uma lógica de manutenção e acumulação de privilégios. Dentro deste jogo não existe a constituição, as regras sociais ou qualquer tipo de ética, tudo é valido desde que um certo verniz de legitimidade seja mantido. O problema seria como definir e explicar o comportamento do resto da população?

Um dos elementos mais básicos de nossa sociedade é o patriarcalismo, característica que data de nossa colonização e se faz presente em nossos meios mais conservadores. O patriarcalismo estabelece uma estrutura verticalizada e hierarquizada de sociedade, nesta há um núcleo no qual está o patriarca e, a partir deste, formasse uma rede de contatos que se espalha pela sociedade se relacionando com outras redes patriarcais (1). Quanto mais próximo do centro, maior será o acesso do indivíduo a recursos e a privilégios. Esta estrutura depende da obediência ao núcleo que controla e distribui os recursos para os participantes da rede.

Vamos tomar como exemplo as ocupações de escolas públicas de São Paulo. Tal iniciativa seria uma afronta a estrutura patriarcal pois, primeiro, quebra com a regra da obediência ao ousar questionar uma ordem dada (2). Segundo, estabelece uma forma de organização e atuação totalmente independente do centro, o que coloca em xeque a exclusividade do patriarca em distribuir os recursos e privilégios (3). Terceiro, expõe a distribuição de recursos enquanto injusta, o que ataca diretamente a legitimidade do núcleo patriarcal (4). E, quarto, inverte a ordem estabelecida ao demonstrar que os participantes da rede tem poder de negociação (5). A verticalização e hierarquização da qual depende o patriarcalismo, portanto, inverteria-se no momento em que o resto exige mais direitos do centro (6). Algo que jamais pode ser tolerado.

A primeira resposta do patriarcalismo ao ser contestado é sempre a violência (7), atos de intimidação – física e moral – feitos para tornar o rebelde em um exemplo daquilo que vai acontecer com todo aquele que seguir o mesmo caminho. Porém, o terrorismo patriarcal mal começou. É exatamente quando a a violência e o medo não surtem efeito desejado que os pit bulls são soltos. Os alunos, pais e professores envolvidos nas ocupações passarão a ser alvos de toda a perversidade que o patriarcalismo é capaz. Todo verniz é descartado e todas as armas poderão e serão utilizadas.

Tradicionalmente, três elementos são usados simultaneamente. O primeiro deles é o sistema judiciário, este atua para garantir os privilégios de nossa elite patriarcal, na manutenção da ordem estabelecida em sua verticalidade e hierarquia, e, por fim, na perseguição jurídica dos rebeldes (8). Para legitimar as ações do judiciário, os meios de comunicação de massa (Tvs, rádios e jornais) são utilizados para destruir a imagem e o apoio que as ocupações tem junto a população. Notícias de vandalismo serão inventadas (9) e os erros serão maximizados, pouco a pouco, o movimento será transformado de pacifico legítimo e justo em algo violento (10) e criminoso (11). Com base na ação do judiciário e da mídia, uma nova rodada de violência e intimidação é feita através da PM, estabelecendo um ciclo que será mantido até que o movimento e todos os seus participantes estejam completamente destruídos, submissos, mais uma vez, a ordem patriarcal.

Em meio a este ciclo atua o mais importante elemento patriarcal: o escravo da casa grande. Oliveira Viana demonstra que para o patriarca todo o resto são escravos, porém há os escravos da senzala e os da casa grande. A chave da manutenção da ordem está no escravo da casa grande que, convencido de que não é escravo, atua contra seus próprios interesses e defende a estrutura social. Para isso, vai denunciar o escravo rebelde, intimidá-lo e aterrorizá-lo, esperado que, pelo seu bom comportamento, seja recompensado pelo seu senhor. Ele é um escravo como qualquer outro, mas atua como um capitão do mato combatendo qualquer possibilidade de mudança, tornando impossível a liberdade para os escravos e para ele mesmo.

Para os movimentos sociais como as ocupações, consequentemente, sobram duas possibilidades: ou os mecanismos patriarcais esmagam o movimento; ou os alunos, pais e professores conseguem desgastar a legitimidade do patriarca o suficiente para obrigá-lo a um recuo momentâneo. O que determinará qual das duas possibilidade se tornarão realidade é a capacidade do movimento em manter o apoio da sociedade e desgastar a legitimidade do Patriarca – no caso, Geraldo Alckimim.

 

Ver outros posts de Lucas Freitas:

 

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CHOMSKY: O que o Tio Sam realmente quer? [certamente não é provar a nossa batucada!]

Post publicado originalmente no portal OUTRAS PALAVRAS.

Noam Chomsky

Abaixo, um trecho do livro ‘O que Tio Sam Realmente Quer’, do escritor americano Noam Chomsky. Ele mergulha, nesta passagem, na política externa dos Estados Unidos, e dedica várias linhas ao Brasil.

Vamos focalizar a América Latina, e começar olhando para os direitos humanos. Um estudo feito por Lars Schoultz, um destacado acadêmico especialista em direitos humanos da América Latina, mostra que “a ajuda norte-americana tende a ser desproporcionalmente distribuída para os governos “latino-americanos que torturam seus cidadãos”.

Não tem nada a ver com quanto o país precisa de ajuda, somente com sua disposição em servir à riqueza e ao privilégio.

Estudos mais profundos, feitos pelo economista Edward Herman, revelam uma estreita correlação em todo o mundo entre a tortura e a ajuda norte-americana e fornecem uma explicação: ambas se correlacionam com a melhoria das condições de operações das empresas. Em comparação com este guia de princípios morais, assuntos tais como tortura e carnificina caem na insignificância.

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O que o Tio Sam realmente quer. Livro de Noam Chomsky de onde foi tirado o texto deste post.

E a elevação do padrão de vida? Isso foi supostamente tratado na Aliança para o Progresso pelo presidente Kennedy, mas o tipo de desenvolvimento imposto foi direcionado, em sua maior parte, para as necessidades dos investidores norte-americanos. A Aliança fortificou e ampliou o sistema vigente, pelo qual os latino-americanos produzem colheitas para exportação e reduzem as colheitas de subsistência, como milho e feijão, cultivadas para o consumo local. Com o programa da Aliança, por exemplo, a produção de carne aumentou, enquanto o consumo interno de carne diminuiu.

Esse modelo agroexportativo de desenvolvimento, em geral, produz um “milagre econômico” em que o PNB – Produto Nacional Bruto – sobe, enquanto a maioria da população morre de fome. Quando se segue tal orientação política, a oposição popular aumenta, o que, então, se reprime com terror e tortura.

(O uso do terror é profundamente arraigado em nosso caráter. Nos idos de 1818, John Quincy Adams elogiou a “eficácia salutar” do terror em se tratando das “hordas misturadas de índios e negros sem lei”. Ele escreveu isso para justificar a violência de Andrew Jackson, na Flórida, que praticamente exterminou a população nativa e deixou a província espanhola sob o controle americano, impressionando muito Thomas Jefferson e outros mais com sua sabedoria.)

O primeiro passo é o uso da polícia; ela é decisiva porque sabe detectar logo o descontentamento e eliminá-lo antes da “grande cirurgia” (como é chamada nos documentos de planejamento) ser necessária. Se a “grande cirurgia” for necessária, nós contamos com o Exército. Quando não conseguimos mais controlar o Exército dos países da América Latina – particularmente a região do Caribe e da América Central – é tempo de derrubar o governo.

Os países que tentaram inverter as regras, como a Guatemala, sob os governos capitalistas democráticos de Arévalo e Arbenz, ou a República Dominicana, sob o regime capitalista democrático de Bosch, tornaram-se alvo da hostilidade e da violência dos Estados Unidos.

Em 1954, os americanos derrubaram o presidente da Guatemala e puseram em seus lugar militares, para proteger os interesses de suas empresas

O segundo passo é utilizar os militares. Os EUA sempre tentaram estabelecer relações estreitas com os militares de países estrangeiros, porque essa é uma das maneiras de derrubar um governo que saiu fora do controle. Assim foram assentadas as bases para os golpes militares no Chile, em 1973, e na Indonésia, em 1965.

Antes desses golpes, éramos bastante hostis aos governos do Chile e da Indonésia, mas continuávamos enviando armas. Mantenha boas relações com os oficiais certos e eles derrubarão o governo para você. O mesmo raciocínio motivou o fluxo de armas dos Estados Unidos para o Irã via Israel, desde o início de 1980. De acordo com altos oficiais israelenses envolvidos, esses fatos eram conhecidos já em 1982, muito antes de haver reféns.

Durante o governo Kennedy, a missão dos militares latino-americanos, dominados pelos EUA mudou de “defesa hemisférica” para “segurança interna” (que basicamente significa guerra contra a própria população). Essa decisão fatídica implicou a “direta cumplicidade [dos Estados Unidos]” com “os métodos dos esquadrões de extermínio de Heinrich Himler”, no julgamento retrospectivo de Charles Maechling, que foi encarregado do planejamento de contra-insurgência, de 1961 a 1966.

O governo Kennedy preparou o caminho para o golpe militar no Brasil em 1964, ajudando a derrubar a democracia brasileira, que se estava tornando independente demais. Enquanto os Estados Unidos davam entusiasmado apoio ao golpe, os chefes militares instituíam um estado de segurança nacional de estilo neonazista, com repressão, tortura, etc. Isso provocou uma explosão de acontecimentos semelhantes na Argentina, no Chile e em todo o hemisfério, desde os meados de 1960 até 1980 – um período extremamente sangrento.

(Eu penso, falando do ponto de vista legal, que há um motivo bem sólido para acusar todos os presidentes norte-americanos desde a Segunda Guerra Mundial. Eles todos têm sido verdadeiros criminosos de guerra ou estiveram envolvidos em crimes de guerra.)

Os militares agem de maneira típica para criar um desastre econômico, seguindo frequentemente receita de conselheiros norte-americanos, e depois decidem entregar os problemas para os civis administrarem. Um controle militar aberto não é mais necessário, pois já existem novas técnicas disponíveis, por exemplo, o controle exercido pelo Fundo Monetário Internacional (o qual, assim como o Banco Mundial, empresta fundos às nações do Terceiro Mundo, a maior parte fornecida em larga escala pelas potências industriais).

Em retribuição aos seus empréstimos, o FMI impõe a “liberalização”: uma economia aberta à penetração e ao controle estrangeiros, além de profundos cortes nos serviços públicos em geral para a maior parte da população, etc. Essas medidas colocam o poder decididamente nas mãos das classes dominantes e de investidores estrangeiros (“estabilidade”), além de reforçar as duas clássicas camadas sociais do Terceiro Mundo – a dos super-ricos (mais a classe dos profissionais bem sucedidos que a serve) e a da enorme massa de miseráveis e sofredores.

Pinochet foi fruto dos Estados Unidos

Augusto Pinochet, ditador chileno.

A dívida e o caos econômico deixados pelos militares garantem, de forma geral, que as regras do FMI serão obedecidas – a menos que as forças populares queiram entrar na arena política. Neste caso, os militares talvez tenham de reinstalar a “estabilidade”.

O Brasil é um exemplo esclarecedor desse caso. Sendo um país muito bem dotado de recursos naturais, além de ter um alto desenvolvimento industrial, deveria ser uma das nações mais ricas do mundo. Mas graças, em grande parte, ao golpe de 1964 e ao tão aclamado “milagre econômico” que se seguiu ao golpe (sem falar nas torturas, assassinatos e outros instrumentos de “controle da população”), a situação de muitos brasileiros foi, durante muitos anos, provavelmente parecida com a da Etiópia – e bem pior que a da Europa Oriental, por exemplo.

Em 1993, três décadas depois do golpe militar, o Brasil tinha uma taxa de mortalidade infantil maior que a do Sri Lanka. Um terço da população vivia abaixo da linha da miséria e, nas palavras de uma revista dedicada aos países pobres, “sete milhões de crianças abandonadas pediam esmola, roubavam e cheiravam cola nas ruas. E para milhares delas a casa era um barraco na favela… ou cada vez mais um pedaço de terra embaixo da ponte”.

Isso é o Brasil, um dos países de natureza mais rica do planeta. A situação era semelhante em toda a América Latina. Apenas na América Central o número de pessoas assassinadas pelas forças apoiadas pelos EUA, desde o final de 1970 até meados dos anos 1990, girava em torno de duzentos mil, ao mesmo tempo que os movimentos populares, que visavam obter a democracia e a reforma social, foram dizimados.

Essas façanhas qualificam os Estados Unidos como fonte de “inspiração para o triunfo da democracia em nosso tempo”, nas admiráveis palavras da revista liberal New Republic. Tom Wolfe conta-nos que a década de 1980 foi “um dos grandes momentos de ouro da  humanidade”. Como diria Stalin: “Estamos deslumbrados com tanto sucesso.”

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Luciana Genro rebate Eduardo Cunha sobre aborto no Brasil

Publicado originalmente no portal Pragmatismo Político | 10. Fev. 2015

LUCIANA GENRO SOBRE ABORTO: Eduardo Cunha não se incomoda em passar por cima dos cadáveres de milhares de mulheres.

Luciana Genro (PSOL-RS)

por Luciana Genro

“Aborto só será votado passando por cima do meu cadáver”, afirmou Eduardo Cunha. Ao que parece, o presidente da câmara não se incomoda em passar por cima do cadáver de milhares de mulheres. A cada dois dias, uma mulher morre em decorrência de abortos clandestinos feitos em condições desumanas.

Mais da metade das mulheres vítimas de procedimentos inseguros é negra e pobre. Segundo dados da Organização Mundial de saúde, o risco de morte para mulheres pobres, que fazem abortos em clínicas clandestinas inseguras, é multiplicado por mil.

São 850 mil abortos realizados por ano no Brasil. Não adianta ignorar os números. Na prática, a proibição não evita o aborto, mas arrisca a vida de mulheres que não podem pagar por um procedimento seguro. E reacende uma discussão muito relevante para o feminismo: pode o Estado legislar sobre o corpo das mulheres?

É preciso fazer este debate partindo de algumas premissas objetivas: (1) o número de abortos realizados por ano no Brasil (2) o número de mortes em decorrência de abortos inseguros. Essas premissas garantem que a discussão seja feita no campo político e não no campo moral ou religioso. Vale lembrar que o fundamento religioso para redução do direito de escolhas compromete o Estado Laico e a cidadania das mulheres.

Não é possível ser “pró-vida” e cruzar os braços diante de um número alarmante de mortes. Ou será que essas mortes incomodam menos por um perverso esquema de valoração da vida, que reduz a importância da morte de mulheres negras e pobres?

Esse debate, feito no campo político, será o requisito para que todas as mulheres tenham igualdades de condições para decidir livremente sobre seus corpos.

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Batalha se aproximando na Europa

Pedro o Eremita em Cruzada

Iluminura francesa, ca. 1120. O monge Pedro, o Eremita, em cruzada montado em um burro.Imagem: Wikicommons.

O texto a seguir é de autoria de John Feffer e foi publicado originalmente nesta última quarta-feira (14), no portal Foreign Policy in Focus. A missão deste site é divulgar e conectar os textos e ações de mais de 600 acadêmicos e ativistas espalhados pelo mundo. Na sexta-feira (16), Vinicius Gomes traduziu e a Revista Fórum publicou a versão em português que o Hum Historiador repercute aqui, na íntegra, para seus leitores.

UMA NOVA CRUZADA NA EUROPA?
Por John Feffer, em Foreign Policy in Focus | Tradução: Vinicius Gomes

Uma batalha se aproxima pela alma da Europa e a extrema-direita está marchando como se estivesse em 1099. Por isso é necessário resistir chamar de “combatentes” os assassinos de Paris e de “defensores da civilização ocidental” os cartunistas da Charlie Hebdo.

Na primeira Cruzada, a caminho da luta contra os infiéis muçulmanos em Jerusalém, os peregrinos armados fizeram entre si uma pergunta provocativa: por que devemos rumar tão longe para matar pessoas que mal conhecemos, quando nós podemos simplesmente massacrar infiéis mais próximos de casa.

E assim os cruzados do século XI entraram em alguns dos primeiros pogroms na Europa contra os judeus. Esses ataques de fúria antisemitas no coração do continente contavam com a vantagem de ajudar no financiamento da primeira Cruzada, uma vez que os peregrinos se apropriavam da riqueza dos judeus que eles matavam.

Imagem elaborada para representar a Primeira Cruzada.

A Europa está mais uma vez testemunhando o efeito colateral dos conflitos no Oriente Médio. Extremistas que estão envolvidos em modernas cruzadas na região – ou se frustraram em fazer a jornada ao Iraque e à Síria – fizeram a si mesmos uma pergunta muito similar àquela de suas contrapartes do século XI: por que não matar infiéis que estão logo ali do que um infiel tão distante?

A questão é tão horrenda hoje quanto foi mais de 900 anos atrás – assim como o é sua resposta, como o mundo testemunhou semana passada na redação da revista Charlie Hebdo e do mercado kosher em Paris.

Em ambos os casos, os cruzados acreditam que suas ações eram de importância mundial e histórica. No século XI, foi o papa Urbano II que fez o chamado às armas, transformando sedentários cristãos em predadores globais. Hoje, são tipos como Estado Islâmico e al-Qaeda que estão pedindo que seus seguidores matem os hereges. Mas, assim como os pogroms iniciais, assim como o massacre de 2011 por Anders Breivik na Noruega ou os assassinatos étnicos em série de turcos na Alemanha, por neonazistas entre 2000 e 2007, as recentes atrocidades na França não são nada além de atos criminosos.

Isso não é, em outras palavras, um duelo entre as forças da iluminação e as forças da barbárie. Precisa-se resistir à tentação de conferir o status de combatentes aos assassinos, assim como o status de defensores da civilização ao Charlie Hebdo.

A verdadeira batalha

Essas matanças podem não constituir uma guerra, mas elas apontam um profundo conflito dentro da Europa. Esse conflito não é sobre qual religião é a única e verdadeira religião. É sobre a própria identidade do continente.

No século XI, o que animou os cruzados não foi apenas o status de Jerusálem, mas também o temor de que o islã desembarcasse nas praias da Europa – na realidade, os muçulmanos já tinham um pé firme na península ibérica. Hoje, um medo semelhante anima os islamofóbicos e os detratores da imigração na Europa. Eles temem que sua velha visão de uma Europa cristã predominantemente branca – com fronteiras claras definindo quem é francês, quem é alemão e que não pertence à aconchegante cultura da “civilização ocidental” – esteja rapidamente desaparecendo. Eles desaprovam tanto a eliminação das fronteiras internas para maior integração europeia, assim como as transformações demográficas por conta da imigração. Eles lutam desesperadamente para preservar a herança cristã do continente.

Mas a Europa de seus sonhos, considerando que ela alguma vez sequer existiu de verdade, já virou passado. A imigração na Europa não é nada novo, claro, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial. As conexões coloniais diversificaram o continente com indonésios indo para a Holanda, argelinos para a França e caribenhos para o Reino Unido. Durante a falta de mão-de-obra nas décadas de 1960 e 70, trabalhadores de fora vindo dos Bálcãs, Turquia e Norte da África choviam em países como Alemanha e Suíça, que possuíam pouca ou nenhuma conexão colonial. Muitos desses trabalhadores voltaram para seus países, mas alguns ficaram, começaram famílias e criaram um multiculturalismo ao pé da letra.

Essas mudanças deram ignição à primeira onda do sentimento anti-imigração. Em 1968, Enoch Powell realizou seu discurso infame sobre “rios de sangue” aos conservadores britânicos, onde ele previu um futuro de violência por conta do fluxo de imigrantes vindos das antigas colônias. A Frente Nacional começou a mobilizar esse sentimento na França no começo da década de 1970, assim como o xenofóbico Partido Republicano na Alemanha, em 1983. Apesar de os “rios de sangue” de Powell não terem vingado, a semente de anti-imigração na política europeia foi crescendo cada vez mais virulenta e a Europa continuou a mudar. As guerras na era pós-Guerra Fria – na Bósnia, Kosovo, Norte da África e no Oriente Médio – levaram para dentro do continente refugiados e migrantes, assim como as perspectivas de uma Europa unificada atraíram pessoas do mundo inteiro.

As mudanças demográficas na Europa na última década têm sido dramáticas: de acordo com o censo populacional da ONU, entre 2005 e 2013, a população imigrante na Suíça saltou de 22,9% para 28,9%; na Espanha foi de 10,7% para 13,8%; na Itália, 4,2% para 9,8%; na Suécia, 12,3% para 15,9%; na Dinamarca, 7,2% para 9,9%; na Finlândia, 2,9% para 5,4%; e no Reino Unido, de 8,9% para 12,4%.

Tais aumentos tão rápidos e em tão curtos períodos de tempo criaram uma ansiedade em populações que não consideram que seus países sejam “sociedades imigrantes”, como Estados Unidos ou Austrália.

Uma islamofobia de conveniência

No interior da Alemanha, a organização Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente (Pediga, sigla em alemão) provou-se ser enormemente popular e um constrangimento para os políticos alemães no alto escalão.

Essa semana, os organizadores do Pegida realizaram uma marcha em Dresden, na esteira das mortes em Paris, e atraíram 25 mil pessoas apesar dos pedidos da chanceler alemã Angela Merkel e outras figuras políticas para que as pessoas ficassem em casa. Apesar de uma contra-demonstração contra o Pegida, também em Dresden, ter atraído 35 mil pessoas, a organização xenofóbica está ganhando força com mais marchas planejadas em outras cidades da Alemanha e até mesmo em outros países.

Sem surpresa alguma, dada sua mensagem anti-imigração e anti-muçulmana, o grupo atraiu um grupo hardcore de extremistas associados a clubes de futebol e gangues de motoqueiros, mas não se engane: o sentimento anti-imigração e islamofóbico é muito popular até mesmo entre os elementos pretensamente respeitáveis na Alemanha.

Na Inglaterra, enquanto isso, o fervor anti-imigração catapultou o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip, sigla em inglês) para o terceiro lugar nas últimas eleições. Na esteira das tragédias na França, o líder da sigla, Nigel Farage, falou de uma “quinta coluna” dentro dos países europeus “que tem nossos passaportes, [mas] nos odeiam” – um sentimento que aumentou e muito sua popularidade. Obviamente, Farage é sempre justo em sua xenofobia: no ano passado, quando novas regulações trabalhistas foram aprovadas, dando o direito aos cidadãos da Romênia de trabalhar em qualquer lugar na União Europeia, ele disse que “qualquer pessoa normal e razoável teria perfeitamente o direito de ficar preocupado se um grupo de romenos se mudar para a casa ao lado”.

Mas a organização que melhor se posicionou para surfar na onda islamofóbica que está engolindo a França é a Frente Nacional.

Antes dos recentes assassinatos em Paris, Marine Le Pen já liderava algumas pesquisas para as eleições presidenciais em 2017, e seu partido estava no topo das intenções de votos para eleições locais, agora em março. Le Pen clamou por uma reinstituição de controle de fronteiras e da pena de morte, o que faria a França destoar do resto da Europa. Ela é o rosto do novo extremismo: suficientemente liberal em alguns tópicos (divorciada, pró-aborto), mas tão agressivamente intolerante quanto seus predecessores, como método para encantar sua base.

A islamofobia desses movimentos de extrema-direita é, por muitos motivos, acidental. Eles trafegam em um sentimento anti-islâmico porque é popular e mais palatável do que, por exemplo, o racismo e a xenofobia. É temporada de caça e intolerância aos muçulmanos, porém, essa islamofobia é apenas a ponta da lança – o verdadeiro desejo da extrema-direita é manter fora da Europa todo e qualquer tipo de imigrante.

Evitando os rios de sangue

A primeira Cruzada “libertou” Jerusalém em 1099 em um grande banho de sangue, com os cruzados trucidando tanto muçulmanos quanto judeus, na cidade sagrada. Foi a primeira de meia dúzia de cruzadas que atravessou a Europa e os próximos dois séculos. As vítimas dos últimos cruzados incluíram pagãos, cristãos ortodoxos, hereges albigenses e, até mesmo, durante a quarta Cruzada, a população católica de Zara, onde hoje é a Croácia.

O ciclo de violência iniciada pelo chamado religioso às armas do papa Urbano II ceifou vidas de todos os credos e produziu também grande parte da violência de europeus contra europeus. Extremistas de todos os lados adorariam ver o retorno das Cruzadas. O Estado Islâmico e fragmentos da al-Qaeda gostariam de ver rios de sangue nas ruas da Europa, e a extrema-direita acredita que uma guerra ampla e sem fim contra um inimigo como esse é um caminho para o poder político – uma vez no poder, eles irão ter o seu próprio 11 de Setembro para assim acabar com a integração europeia, levantar um enorme muro ao redor do continente e começar as deportações.

Esqueça essa falsa propaganda de Ocidente versus Islamismo. Isso é historicamente e conceitualmente incorreto. Os dois estão basicamente do mesmo lado contra os crimes do radicalismo. A verdadeira batalha é pela alma da Europa e a extrema-direita está marchando como se estivesse em 1099.


John Feffer é co-diretor do Foreign Policy In Focus no Instituto de Estudos Políticos. Autor de vários livros e numerosos artigos. Já há algum tempo é Writing Fellow na Biblioteca Provisions em Washington, DC e também PanTech fellow em Estudos Coreanos na Universidade de Stanford. Também foi editor associado do World Policy Journal e vem trabalhando como representante de assuntos internacionais na Europa Oriental e Ásia Oriental para o American Friends Service Committee.

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Ser ou não ser Charlie

Por Osvaldo Coggiola para o Blog da Raquel Varela | 11. jan. 2015

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Em 1998, Zinedine Zidane conduzia a seleção francesa de futebol à sua primeira conquista da Copa do Mundo, em Paris. O craque francês de origem argelina integrava um time histórico (também venceu a Eurocopa de 2000) com Didier Deschamps, Emmanuel Petit (nomes mais franceses, impossível), o ghanês Odenkey Addy Abbey (mais conhecido como Marcel Desailly), Lilian Thuram, também de origem africana subsaariana, Robert Pirès (que, se tivesse nascido no país que seus pais abandonaram a procura de trabalho, teria se chamado simplesmente Roberto Pires, e envergado a casaca cor de vinho também usada por Cristiano Ronaldo). A França e o mundo celebraram, na maior conquista esportiva de sua história, a vitória definitiva, no país do hexágono, de uma sociedade multiétnica e multicultural reconciliada consigo própria. O estraga-prazeres que ousou apontar que o time galo mais parecia um catálogo futebolístico do antigo império colonial francês recebeu, discretamente, não uma taça, mas uma garrafada de champanhe na cabeça.

Menos de sete anos depois, em 27 de outubro de 2005, após a perseguição pela polícia, seguida de morte, dos jovens franceses descendentes de africanos Bouna Traoré e Zyed Benna, que fugiam de uma das habituais blitz policiais contra jovens não brancos das banlieues, entraram em um terreno fechado, pertencente à EDF (companhia de eletricidade), refugiando-se dentro de uma edificação onde havia instalações elétricas, onde morreram eletrocutados (um terceiro, Muhittin Altun, sofreu queimaduras graves). Pouco depois, começaram os confrontos em Chêne-Pointu, entre grupos de jovens e a polícia. A revolta se espalhou rapidamente pela periferia de Paris e de outras cidades da França, instaurando-se o estado de emergência em 25 departamentos, a partir de 8 de novembro de 2005 até 4 de janeiro de 2006. Os distúrbios duraram dezenove noites consecutivas, até o dia 16 de novembro. Jovens indignados queimaram 8.970 carros e entraram em confrontos com a polícia francesa, foram presos 2.888 jovens e houve mais um morto. Em 17 de novembro a polícia declarou que a situação tinha sido “normalizada”. Certo Chérif Kouachi, rapper amador, foi posto na prisão.

Em 2011, os escritórios do semanário humorístico Charlie Hebdo, que tinha reproduzido as charges ofensivas sobre o profeta Maomé publicadas há pouco tempo no jornal dinamarquês Jyllands Posten (provocando manifestações de rua em repúdio em países árabes e/ou islâmicos) foram vítimas de um atentado a bomba, que provocou danos materiais, mas não vítimas. E, em novembro de 2013, a coluna sonora do filme francês “La Marche” dava a conhecer ao mundo um rap, “livremente” composto e cantado por vários conhecidos rappers franceses (Akhenaton, Disiz, Kool Shen e Nekfeu), em que o refrão solicitava, com alguma insistência, “um Auto da Fé contra esses cachorros de Charlie Hebdo”. Pouco tempo antes, Al Qaeda divulgara uma lista de condenados à morte (Fatwa), entre os que se encontrava o editor do semanário, Stéphane Charbonnier (ou “Charb”). Et que vive la liberte d’expression!

A 7 de janeiro de 2015, dois jovens (irmãos) franceses de origem árabe (e de declarada profissão de fé islâmica) decidiram invadir a sede de Charlie Hebdo, e realizar o pedido dos rappers, com meios mais modernos do que os outrora utilizados pelo frade Torquemada. Apresentados depois como profissionais altamente treinados em bases terroristas iemenitas e outros centros de treinamento do Oriente Médio, inicialmente erraram o endereço do jornal, que lhes foi revelado por acaso por uma das jornalistas do semanário que, nesse momento, se apresentava ao trabalho. Graças a isso, entraram e mataram quase todos os presentes na redação (onze pessoas), numa ação realizada com armas “sofisticadas” (como as que circulam em qualquer favela do Rio) e com “grande profissionalismo”, segundo jornais e comentaristas. Tão grande, que um dos jornalistas presentes salvou-se ao esconder-se… em baixo de uma mesa. Uma jornalista presente teve a vida perdoada “por ser mulher” (foi aconselhada a ler o Corão pelos assaltantes/assassinos), mas outra (Elsa Cayat, psicanalista) tinha sido previamente massacrada apesar de possuir evidentemente a mesma condição.

O corretor de provas de Charlie Hebdo, Mustapha Ourrad, não teve a vida perdoada em que pese sua óbvia e visível origem (étnica) semelhante à dos assassinos. Na saída, os irmãos Chérif e Saïd Kouachi proclamaram aos passantes sua filiação a Al Qaeda (sua filial iemenita) e arremataram (desnecessariamente, de qualquer ponto de vista “militar” ou propagandístico) o já previamente ferido policial Ahmed Merabet, francês de óbvia e evidente origem árabe, demonstrando, se diz, se não seu aguçado faro político ou humanitário, pelo menos seu excelente “treino militar”, pois usaram um só disparo (contra um alvo imóvel, que pedia clemência no chão, situado a menos de um metro de distância…).

Pouco depois, outro “terrorista”, Amedy Coulibaly, acompanhado de sua namorada (ou ex) Hayat Boumeddiene, assassinou primeiro um agente policial na periferia parisiense (Montrouge) para depois invadir, supostamente “sincronizado” militarmente com os Kouachi, um comércio judeu (Hyper Casher), em uma ação de características claramente suicidas, durante a qual foi abandonado pela sua “profissional” cúmplice, que já estaria na Síria. Depois de conceder entrevistas telefônicas em que proclamou sua filiação ao ISIS (Estado Islâmico, EI) foi atacado por forças policiais, que o abateram, não sem lhe deixar tempo suficiente para assassinar quatro pessoas presentes, que não faziam obviamente parte de lista nenhuma de grupo nenhum. O ISIS (EI) reivindicou sua ação, tanto quanto saudou o massacre do Charlie Hebdo.

Os “sincronizados” militarmente irmãos Kouachi, ao contrário, não pretendiam se suicidar, nem ser mortos. Fugiram, demonstrando o sofisticado esquema militar que os rodeava, depois de roubar uma potente Renault Clio 1.0 de um aposentado, ao qual mostraram seus rostos (cobertos durante o massacre) e deixaram recuperar seu cachorro do banco traseiro (“le réflexe d’ouvrir la porte arrière et de dire : ‘Je récupère mon chien.’ J’ai donc récupéré mon chien”), depois de lhe informar, novamente, sua filiação a Al Qaeda de Iêmen (a concorrência dentro da franquia criada há três décadas pelo saudita Osama Bin Laden deve estar forte).

Com enorme profissionalismo e demonstração de recursos secretos em rede, assaltaram no caminho uma loja de mantimentos para ter do que comer, o que foi um dos elementos que denunciou sua localização. Previamente, os Kouachi tinham sido abandonados pelo treinadíssimo profissional terrorista francês Mourad Hamyd, de 18 anos, que dirigira o carro que os levou até a sede do jornal humorístico, que se entregou à polícia logo que as redes sociais vincularam seu nome com o massacre parisiense. Os Kouachi foram dados inicialmente como próximos à fronteira com a Bélgica, mas foram finalmente cercados em Dammartin-em-Goële, não longe de Paris, por uma parte (GIGN) dos 90 mil (!) policiais lançados em seu encalço, e foram mortos.

A indignação e o repúdio contra o massacre de Charlie Hebdo cobriram rapidamente a França e o mundo inteiro. Um desfile pela avenida Champs Elysées com participação de todos os chefes de estado da Europa foi realizado domingo 11 de janeiro, com presença de um milhão de pessoas. Antes disso, e também paralelamente, manifestações enormes foram realizadas em todas as grandes cidades francesas, convocadas por todos os partidos políticos, centrais sindicais e movimentos. As entidades islâmicas (ou árabes) francesas manifestaram também seu repúdio ao massacre, enfatizando sua incompatibilidade com o “verdadeiro” Islã.

Je Suis Charlie invadiu jornais, sites e redes sociais de todas as cores políticas e ideológicas. Outra unanimidade foi definir o massacre como um “atentado à liberdade de expressão”, uma coisa à qual França est très attachée desde os tempos da Grande Revolução (1789), como lembrou Barack Obama e seu enviado John Kerry, este em francês (merci, Johnny), e como sabem todos seus habitantes não brancos submetidos a cotidianos controles policiais (e expulsões do território) no país que inventou os direitos humanos, no melhor estilo de Ferguson (EUA). Sem falar dos que lembram o sequestro das bancas da edição de Charlie Hebdo quando este anunciou escrachadamente a morte do General de Gaulle (Bal Tragique à Colombey: un Mort).

A defesa da liberdade de expressão é um princípio, mas não abstrato e intemporal. Ela foi defendida na Revolução Francesa (e antes dela) contra o Antigo Regime e seu sistema de privilégios de classe. Na França de hoje (à diferença dos EUA) queimar a bandeira nacional em manifestação pública (contra a intervenção militar francesa em Mali, por exemplo) é um delito que dá cadeia. No mesmo país, essa liberdade deve ser defendida contra as sistemáticas tentativas do clero católico de introduzir no código penal o delito de “blasfêmia” (falando em Maomé, isso lembra alguma coisa?) para não falar do apoio dado ministro “socialista” Manuel Valls àqueles que propõem equiparar o antissionismo (oposição ao Estado de Israel, isto é, ao genocídio palestino) ao antissemitismo, responsável pelo Holocausto judeu.

A “união nacional” xenófoba (europeia inclusive) tentada pelos governos, aproveitando o infame massacre múltiplo, começou a fracassar logo de cara: em Lyon, na manifestação popular reunida em frente à prefeitura, a multidão respondeu com um poderoso coro “Charlie, Charlie” à tentativa das autoridades de puxar o canto de La Marseillaise (os mais velhos talvez lembrassem os quebra-quebras promovidos pelos veteranos paraquedistas franceses quando o francês-judeu Serge Gainsbourg pretendia cantar em público sua versão rap do hino nacional francês, Aux Armes, etcetéra; eram só duas “liberdades de expressão” em confronto, foi dito então – uma armada, a outra não). A manifestação era por Charlie Hebdo, não pela “França eterna”.

O por vezes lucrativo mercado das interpretações estapafúrdias e conspiracionistas foi, como não podia deixar de ser, acionado de imediato. Um inefável “pesquisador” belga, que já montara une petite affaire baseada na afirmação de que os atentados às Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001 foram obra da CIA e do Mossad (os árabes, como se sabe, seriam totalmente incapazes de uma empresa como essa, sobretudo contra os eficientíssimos serviços secretos ocidentais) já soltou a bomba (de crema) de que os irmãos Kouachi seriam agentes dos serviços secretos franceses (estes, certamente, já fizeram várias e boas, como a explosão de um barco do Greenpeace). Os herdeiros de Fouché e Talleyrand andariam, ao que parece, recrutando franco-árabes pobres e suicidas, se possível com um passado na prisão. Uma célebre pesquisadora argentina descobriu, desde Buenos Aires! (a distância dos acontecimentos às vezes ajuda) o braço longo da OTAN atrás dos dedos que puxaram os gatilhos na rua Nicolas Appert. A feira só acabou de abrir, outros produtos mais sofisticados logo virão.

Os produtos mais perigosos nessa seara, no entanto, são os vendidos na feira montada do outro lado da calçada. Os “grandes” jornais franceses (se é que algum deles merece ainda esse qualificativo) já lançaram a espécie de que a “sincronização” (provavelmente só imaginária, ou desejada) entre os Kouachi e Coulibaly anuncia (ou evidencia) uma junção entre Al Qaeda e Estado Islâmico, ou seja, uma nova etapa do “guerra terrorista internacional”, em que o inimigo estaria agora dotado de um exército regular (EI) e de um braço terrorista (Al Qaeda). Que obrigaria a um Patriotic Act internacional, uma contradição em seus termos.

A francesa Marine Le Pen, provável beneficiária eleitoral dos acontecimentos com sua xenófoba Frente Nacional, já lançou sua proposta de reintrodução da pena de morte (abolida, na França… em 1981), criticando o governo Hollande por não “dar nome aos bois” da ameaça antifrancesa (o islamismo radical), mas excluindo de seu alvo os “bons islâmicos franceses”. A senhora pretende mesmo vencer as eleições (seu papai, Jean-Marie Le Pen, fundador da FN, só chegou a um segundo turno presidencial) e demonstra que até os fascistas aprendem, quando necessário: “Papai Jean-Marie” havia criticado, em meados dos anos 1990, a presença de negros e árabes na seleção francesa de futebol, responsável segundo ele pelo seu baixo desempenho (os “bleus” não classificaram para a Copa de 1994, sendo derrotados na eliminatória, em casa, por… Israel); pouco tempo depois, Zidane e amigos lhe fizeram enfiar suas palavras numa parte de seu corpo frequentemente retratada por Charlie Hebdo.

Do outro lado dos Alpes, onde as autoridades costumam ser mais papistas que o Papa (o que não é surpreendente, num país que abriga o Vaticano), uma circular das autoridades educacionais do Veneto (de 8 de janeiro!) recomendou que se exigisse dos pais de alunos de origem árabe que se pronunciassem condenando os atentados da França, e que a questão do “terrorismo islâmico” (sic) seja abordada em sala de aula, pondo em guarda os alunos e famílias contra uma “cultura che predica l’odio contro la nostra cultura”. Ou seja, que se trata de cultura mesmo, não de armas ou de atentados.

A temida frente Al-Qaeda/EI, destinada a cobrir com uma onda de terror o planeta inteiro, se acontecer, terá por raízes não conspirações urdidas em cantos escuros de mesquitas orientais, mas negócios urdidos em corredores com os paladinos da “guerra contra o terror”. EI é, ao que parece, uma cisão de Al-Qaeda, depois que esta se mostrou cada vez menos operacional. Um oficial arrependido (há vários) da inteligência norte-americana denunciou que o “monstro” EI foi parido pelos serviços (mais ou menos) secretos ianques, diretamente ou através da intermediação de seus aliados da Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos. Os Estados Unidos se recusaram a ajudar o governo da Síria a combater grupos como Al-Qaeda e o então chamado ISIS (Exército Islâmico do Iraque e da Síria, que mudou de nome para “Estado Islâmico”). Além disso, segundo revelações feitas pelo site Wikileaks, o governo norte-americano armou grupos, como o ISIS e outros, para derrubar o governo sírio.

Quase três mil documentos sobre essa questão foram vazados pelo site de Julian Assange em agosto de 2014. Que também revelaram que isso aconteceu depois de Bashar al-Assad, o repressor presidente sírio, mostrar empenho “no combate ao terrorismo e aos grupos radicais islâmicos no Oriente Médio”, ou seja, declarar sua intenção de colaborar com os EUA na região. Para enviar as armas para o ISIS, o governo Obama usou bases clandestinas na Jordânia e na Turquia. Aliados dos EUA na região, como Arábia Saudita e Catar, também forneceram ajuda financeira e militar. Agora, o demônio parece ter-lhes fugido do controle, como já acontecera com Al-Qaeda.

Buscar as origens de toda essa porcaria, e dessa crise da política externa do imperialismo norte-americano, no “islamismo político” (Irmandade Muçulmana) fundado por Hassan por Al-Banna no Egito dos anos 1920 é um belo exercício de erudição inútil. O islamismo (institucional ou não) foi um fator de moderação, com políticas assistencialistas e prédica religiosa, e até de combate do nacionalismo e do anti-imperialismo árabe (ou iraniano) nas décadas sucessivas, quando este se aproximou mais da URSS, do maoismo e até do marxismo revolucionário. A “guerra fria” aguçou essas características. A passagem para o “islamismo com metralhadora” foi auspiciada pelos EUA em resposta a, e graças à, invasão soviética do Afeganistão (vinculada ao desenvolvimento da revolução contra o Xã Reza Pahlavi e seu governo de charmosos assassinos no Irã).

Osama Bin Laden (entre outros) contou com importantes meios financeiros e militares fornecidos pelos EUA (além dos próprios, que já eram importantes, como filho de uma das mais ricas famílias sauditas) para provocar o desejado “Vietnã da URSS”, cinco anos depois do Vietnã americano. Tornou-se carta fora do baralho (americano) com a retirada soviética do Afeganistão e o consecutivo início da contagem regressiva da URSS. Mas era uma carta armada até os dentes e com contas bancárias de muitos dígitos espalhadas pelo mundo. O feitiço virou-se contra o feiticeiro e o restante, do atentado de Nairobi até o World Trade Center em 2001, é história hoje conhecida. Seu declínio e sua morte num vilarejo perdido do Paquistão, sem custódia e com 300 euros no bolso, não deram, porém, fim à história do pântano da política imperialista (norte-americana e europeia) no Oriente Médio e na Ásia Central. Os EUA se retiraram do Afeganistão e do Iraque invadidos, deixando atrás de si o caos político mais completo, devido a pressões internas e internacionais (e à sua própria crise econômica galopante), que os obrigaram também a retirar da Casa Branca o clã Bush e seus alucinados planejadores da “guerra infinita” (Donald Rumsfeld, Blackwater and Co.).

E tiveram de voltar logo depois, agora com “drones”, “tropas preventivas” e, sobretudo, agentes interpostos (enviar tropas próprias seria extremamente impopular, nos EUA), que deram nova vigência à Al-Qaeda e seus filhotes (desejados ou não). Estes já aprenderam (Osama Bin Laden sacrificou sua vida no aprendizado) que é possível ter seu próprio jogo nesse xadrez de morte. E começaram a recrutar na Europa, na Rússia, na China e nos próprios EUA, para ações onde for preciso, ou simplesmente possível. Mas só se recruta onde há bases para esse recrutamento; França é um território privilegiado. Como afirmou um panfleto (de L’Insurgé) lançado em Paris logo depois dos assassinatos no Charlie Hebdo: “Comment ne pas comprendre que ces groupes, jouant sur la xénophobie et la misère dont sont victimes, en Europe, nombre d’enfants d’immigrés, puissent à leur tour embrigader quelques dizaines de paumés? Et en usant pour cela de la religion comme d’une drogue?”.

8,4% da população francesa está composta por imigrantes; seus filhos, por sua vez, perfazem 11% da mesma população. Ao todo, quase 20% da população, sendo os árabes (ou de origem árabe) o contingente mais numeroso. A maioria dos imigrantes chegou nas décadas entre 1950 e 1970, quando as portas da França (e de outros países europeus) se abriram, em meio ao boom econômico, para trabalhadores em setores de mão de obra escassa, ou em serviços (limpeza, colheitas, serviços domésticos) que os franceses se recusavam doravante, por variados motivos (salariais, em primeiro lugar) a executar.

Os primeiros (os imigrantes) carecem de direitos políticos; os segundos os possuem, mas são objeto de discriminações cotidianas. A integração dos “OS” – peões de chão de fábrica – imigrantes na vida sindical, primeiro passo para sua integração na luta de classes e na vida social do país, foi limitada. As políticas das direções “socialistas” e “comunistas”, que só os aceitaram como enfeite, e das burocracias sindicais, foram as principais responsáveis por isso. Empilhados em alojamentos precários (os foyers Sonacotra), vítimas de mil entraves burocráticos para reunir suas famílias no novo lar, inclusive depois de décadas de trabalho. Discriminados nas escolas, discriminados até nos bares, nos lugares de lazer, confinados em guetos. Os importadores de mão de obra barata, que acelerou a acumulação de capital e os lucros do capitalismo francês nos “trinta anos gloriosos”, “esqueceram” (propositalmente, claro) que não estavam importando apenas trabalho, mas pessoas, com cultura, desejos e aspirações próprias. Atender essas necessidades não dava lucro, apenas gastos.

Pais árabes sem religião (ou não praticantes) passaram não raro a ter filhos islâmicos praticantes. O responsável da mesquita frequentada pelos irmãos Kouachi se lembrou deles (em entrevista à TV) como discretos e calados, usando roupas “ocidentais”, mas que se exaltaram (contra) quando na mesquita foi feito um chamado a participar da vida política do país, nas eleições francesas. Estrangeiros no país em que nasceram e se criaram. Essa informação vale mais que todas as descobertas de “pesquisadores” sensacionalistas à cata de negócios editoriais.

Fracasso da badalada “sociedade multicultural”, da “tolerância entre culturas”? Mas a própria noção de “tolerância” não implica que haja “tolerantes” e “tolerados”, isto é, opressores e oprimidos? Quem é que quer ser apenas “tolerado” durante toda uma vida? Alguns setores da vida do país se abriram para os árabe-franceses, em especial na cultura; alguns franceses passaram a apreciar a música árabe. O rap franco-árabe conquistou algum lugar nas paradas. Mas foi pouco, foi lento, e a máquina trituradora da sociedade de classes continuou a funcionar com muito maior rapidez e eficiência.

A crise econômica e o “desemprego estrutural”, a partir de meados da década de 1970, completaram a catástrofe. “Les Français d’abord” não foi só um slogan de partidos de extrema-direita (depois, apenas de direita), mas também uma frase que se ouvia com demasiada frequência nas filas das agências oficiais de emprego. E a esmola oferecida aos desempregados crônicos passou a ser chamada, quando concedida a trabalhadores estrangeiros, de aproveitamento parasita por parte destes dos impostos pagos pelos “honestos franceses”. A extrema direita xenófoba (no início, explicitamente antissemita) pulou gradativamente de menos de 1% para mais de 20% dos votos, obtidos inclusive entre os setores mais pobres dos antigos eleitorados socialista e comunista.

Fracasso do sistema educacional francês em integrar comunidades de origem alógena aos valores e tradições republicanas da França, inclusive quando já se encontram na sua terceira geração de árabes nascidos no país? Valores que integram, por exemplo, a invasão napoleônica do Egito, em 1798 (as peças arqueológicas e obras de arte roubadas na empreitada enfeitam até hoje o Museu do Louvre e o Museu Britânico, em que pesem as reclamações dos governos egípcios). A colonização da África do Norte pelos franceses, a partir de 1830. As aventuras coloniais africanas de Napoleão III. A corrida às colônias de franceses (e outros europeus) na África e na Ásia, na passagem do século XIX para o século XX.

E, no século XX, os acordos Sykes-Picot que dividiram Oriente Médio ao sabor dos interesses das potências colonialistas europeias. A repressão sangrenta da revolta encabeçada por Abdelkrim (Abd el-Krim El Khattabi) no Marrocos (Riff) franco-espanhol, na década de 1920, realizada pelo marechal Pétain, o mesmo que entregou depois a França aos nazistas. O uso das “tropas coloniais” para as tarefas mais sujas, podres e perigosas, como a ocupação do Rühr alemão (1923), ou na Segunda Guerra Mundial. A “guerra suja” (foi aí que o termo foi cunhado) de França contra a luta pela independência da Argélia, modelo das ditaduras latino-americanas. O bombardeio massacrador de Sétif e Guelma, com 50 mil mortos. O massacre de manifestantes pela independência argelina no metro Charonne, em 1962, com dezenas de mortos e feridos, ordenado pelo prefeito parisiense Maurice Papon (depois julgado por crimes de guerra e colaboracionismo com os nazistas). E, como dizem os franceses, j’en passe (os massacres no Chade e em Ruanda, a intervenção na Líbia, a atual intervenção “anti-islâmica” no Mali)… Como “integrar” as vítimas às tradições e valores de seus açougues?

Por que estava “Charb” na lista de alvos de Al-Qaeda, ao lado de Shalman Rushdie e outros? Existe uma explicação mais óbvia do que a óbvia, citada inicialmente: porque essa lista existe. Se não existisse, Al-Qaeda, grupo (ou melhor, franquia) terrorista, perderia uma de suas razões de ser. O terrorismo existe em razão de seu alvo, real ou imaginário, justificado ou inventado.

E porque Charlie Hebdo? Vamos deixar de lado a explicação sem pé nem cabeça de que se trata de uma publicação de extrema esquerda, portanto ateia, marxista-anarquista ou coisa que o valha. As críticas de Charlie Hebdo à corrupção estatal e ao capitalismo predador a situam (sem grande destaque) dentro de uma constelação de publicações francesas semelhantes (sendo a mais célebre Le Canard Enchaîné). Charlie Hebdo não tem vínculos políticos explícitos, a não ser a colaboração de seu mais célebre cartunista, mundialmente reconhecido e assassinado a 7 de janeiro, Georges Wolinski, e do próprio “Charb”, com as publicações do Partido Comunista (PCF).

O específico de Charlie Hebdo não é isso, mas seu humor escrachado, multidirecional e sem limites (morais, políticos, ou seja lá o que for) de qualquer espécie. De valor desigual, e convenhamos em que produzir semanalmente cinquenta páginas de humor gráfico ou escrito escrachado em extremo não é tarefa para qualquer um. Perto de Charlie Hebdo, o CQC (brasileiro ou argentino) ou o extinto Cassetta & Planeta de Bussunda e amigos parecem programas infantis com roteiro redigido por freiras. Algumas de suas capas (sobre a morte de de Gaulle; sobre a exposição do cadáver de Paulo VI durante uma semana no Vaticano, ilustrada por um queijo camembert em decomposição; sobre a fracassada e carbonizada expedição americana para resgatar os reféns de Teerã – Carter offre un méchoui aux iraniens – e outras) se tornaram históricas.

Sustentou-se que se trata de uma tradição especificamente francesa, do “país da liberdade”, que remonta à própria Grande Revolução do século XVIII. Uma verdade parcial (ou, como dizia Sarmiento, a pior das mentiras): o humor bombástico dos panfletistas e desenhistas revolucionários tinha, naquele tempo, alvos bem específicos (a família real, a nobreza, o sistema autocrático, etc.). Charlie Hebdo tem (tinha?) todos os alvos, franceses, europeus, internacionais. Ninguém estava a salvo. Aventuraria dizer que Charlie Hebdo era (junto com seus antecedentes, Hara-Kiri e publicações assemelhadas) o último e impenitente sobrevivente de Maio 1968, do escrache total com vistas à “revolução total”. Por ser francês (e muito) – foi imitado por outras publicações europeias, que não conseguiram chegar nem perto – padeceu também de taras e preconceitos tipicamente franceses: a capa com Maomé de quatro, com uma estrela no lugar do ânus (Une étoile est née) era bem menos “irreverente” do que totalmente carente de graça ou comicidade, o tipo de baixaria que nem sequer faz sorrir. Com certeza, o editor David Brook, no New York Times, fez bem em lembrar que, nos Estados Unidos, a publicação de Charlie Hebdo não seria permitida…

E com certeza, “Cabu”, “Charb”, “Honoré”, “Tignous”, Wolinski, “Oncle Bernard”, Elsa Cayat, Mustapha Ourrad, Michel Renaud, Frédéric Boisseau, Franck Brinsolaro, nem suspeitavam que seriam um dia celebrados como símbolos da “liberdade francesa” (um conceito que os fazia ou faria rir às gargalhadas) por governos de corruptos e açougueiros, políticos de direita, e ícones do conformismo artístico e cultural. Os que foram às ruas foram por eles, os iconoclastas sem limites assassinados sob as ordens de fascistas de periferia, não por Hollande, Sarkozy ou Le Pen (ou por Merkel, Rajoy ou Renzi). Mas, por enquanto, não têm alternativa política a eles, e tiveram de aceitá-los, bon gré, mal gré, à cabeça das passeatas.

Mas são muitos os que sabem que, por trás desse “fantasma da liberdade” (diante do qual os “bons islâmicos” da Europa deveriam se ajoelhar e aprender, como se fossem crianças ignorantes, mas perigosas) se desenha um Estado policial “antiterrorista” e, no bojo deste, um fascismo new age e um aprofundamento das políticas e dos massacres colonialistas e imperialistas, em primeiro lugar no Oriente Médio, na Ásia central e na África. O terrorismo indiscriminado que usa Maomé como pretexto para defender os interesses de burguesias periféricas, e também de um clero reacionário e parasita, existirá enquanto as massas árabes não tenham uma alternativa política independente. O proletariado e as massas exploradas na Europa podem lhes pavimentar o caminho lutando contra o capitalismo e o imperialismo em seu próprio país e continente. Por uma sociedade em que as culturas de todo o mundo possam se desenvolver livremente como expressões de um único gênero humano, sem necessidade de gurus “multiculturais” nem de policiais “civilizados” autorizados a impor a “civilização” com bombas, massacres e saques impostos aos “incivilizados”. A religião (todas), nesse processo, trouvera son compte.


Oswaldo Coggiola é historiador e professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo.

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Breves notas sobre execução de jornalistas, fundamentalismos e indignação na imprensa

por Flávia Cláudia, especialmente para o Hum Historiador.

Charlie Hebdo 001

Uma das capas da revista Charlie Hebdo que motivou dois homens a realizarem um ataque terrorista à redação da revista.

A população de Paris foi pra rua protestar pela morte dos jornalistas, aparentemente 15 mil manifestantes, assim, instantânea e espontaneamente, no mesmo dia dos eventos, todos nós sabemos (a direita brasileira na sofrência) o quanto é difícil colocar mil pessoas na rua. Ok.

Bom, vamos lá, a população geralmente vai às ruas protestar exigindo posicionamento do poder público (há exceções, já falo delas) nesse sentido há duas coisas que se poderiam estar em pauta na manifestação, o terrorismo e a liberdade de imprensa, não conheço tanto da França, mas que me conste já há leis que dão conta das duas coisas.

No caso, a manifestação é organizada pela esquerda francesa, não pela direita xenofóbica que aumenta a quantidade de votos por lá ano a ano, uma espécie de Bolsonarismo francês, só que mais grave uma vez que na França há leis de um grau de xenofobia de cair o cu da bunda, especialmente nesses tempos de crise econômica na Europa, que a gente sabe que sempre pode acabar muito mal. De qualquer modo, aparentemente se menciona, liberdade de imprensa, repito lá eu avaliaria que a imprensa é bem livre e se fala da segregação, por outro lado também dizem que o que aconteceu é resultado da segregação e criticam a sociedade francesa e a falta de integração na sociedade francesa que é excludente. Aí sim eu já vejo alguma chance do diálogo avançar.

Em miúdos, estamos falando de charges políticas cujos episódios mais polêmicos ridicularizam o profeta da religião, não os dirigentes nacionais em si… Se pode? Não sei, mas ontem mesmo ridicularizamos a Lógica Didi Mocó do “Por Que Esses Grupos Oprimidos Não Se Ofendiam Antes?” E por mais que estejamos falando de fundamentalistas que controlam Estados, exércitos e imprensa, a população islamizada na França é altamente perseguida e eu tomaria sim, muito mais cuidado com o tom da minha sátira.

As mortes foram horríveis e é óbvio que não acho nem de perto aceitável esse tipo de resposta, então vou poupa-los de detalhar o que acho que está com cheiro de Indignação Seletiva da Morte de Jornalistas/Cartunistas Ícone Hipster. Sim, lamento muito a morte deles, como de qualquer pessoa, mas acho tudo muito dentro do que seria de se esperar.

A repercussão das mortes já estamos começando a ver, essa manifestação que não tem muito o quê pedir para o poder público (a não ser leis mais rígidas de combate ao terrorismo – ou seja, mais islamofobia), mas podem pressionar a opinião pública a acirrar ainda mais na direção da xenofobia já que por um instante aproximou esquerda e direita em uma “revolta” que nem por um instante pode ser comparada com a causada pelas mortes hoje mesmo no Iêmem (29 mortos que pouco importam), muito diferentes mortes como as dos jornalistas e sua repercussão mundial sobre a liberdade e o terrorismo anteriormente já provaram ser o combustível que alimenta o fogo de um outro fundamentalismo, me desculpem os pesarosos com as mortes, mas tenho mais medo desse.

Por fim, tenho que reconhecer que no meio disso tudo, o que realmente me deixa intrigada é que esses dois homens armados tenham feito esse estrago todo, terem saído do prédio sem a menor ideia de pra onde poderiam ter ido. Sério mesmo que dois homens mascarados, armados com fuzis e um lança-foguetes, mataram 12 pessoas (incluindo dois policiais) e feriram mais dez NA FRANÇA e ninguém viu pra que lado foram?

PS: Se começar polêmica eu juro que deleto porque já me bastam as polêmicas da passagem que estão por vir.


Flávia Cláudia é bacharel em História pela Universidade de São Paulo.

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