Aprendendo História com Jorge Ben Jor

Não é nenhuma novidade que muitas canções populares vem sendo utilizadas por professores como uma ferramenta extra na hora de preparar suas aulas nas mais diferentes disciplinas. Seja porque muda o esquema de aula giz/quadro-negro, ou porque os alunos gostam das músicas escolhidas, a verdade é que quando professores levam aparelhos de som para a sala de aula, é sempre aquele rebuliço. Quase sempre, os alunos ficam animados, ajudam a preparar a sala e ficam ansiosos para ver o que o professor preparou para eles.

Durante minha formação na licenciatura em História, e também nos estágios que realizei na rede pública, testemunhei algumas experiências levadas adiante por professores que, quase sempre, obtiveram mais êxito ao ensinar o conteúdo utilizando músicas do que recorrendo ao material didático tradicional. Inspirado por essas experiências, eu também planejava preparar um material que pudesse utilizar, mas ainda não tinha o principal: a música que iria explorar. Claro que no cancioneiro brasileiro há várias músicas que podem ser utilizadas, mas até um tempo atrás nenhuma canção em especial tinha me motivado a preparar algum material tomando-a como base, até que ouvi pela primeira vez Zumbi, de Jorge Ben Jor.

Como o nome indica, Zumbi fala sobre este famoso líder negro do Quilombo dos Palmares, que durante anos resistiu à frente de sua comunidade contra a autoridade portuguesa. Lançada em 1974, no álbum A Tábua de Esmeralda,  Zumbi é a oitava faixa deste disco que ficou conhecido por abrir o que o próprio Jorge Ben denominava de uma “fase alquímica”. Várias canções de sucesso fazem parte deste álbum, como Os Alquimistas Estão Chegando, Menina Mulher da Pele Preta e Hermes Trimegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda.

É importante que, antes de qualquer coisa, o professor que vá utilizar alguma música para dar aulas, também faça uma pesquisa preliminar sobre a história daquela música em si. Faz bastante diferença saber, por exemplo, não só que Jorge Ben Jor é negro, claro, mas que justamente a década de 1970, quando o disco foi lançado, há um crescimento de organizações que lutam por melhores condições de vida para a população negra brasileira, vítima de todo tipo de discriminação.

Certamente, dentre outras influências e inspirações, as organizações brasileiras também foram influenciadas por grupos e movimentos que surgiram com bastante força nos Estados Unidos, na década de 1950, na luta dos afrodescendentes em garantir igualdade de direitos civis e contra a segregação racial vigente naquele país. As ações afirmativas levadas adiante por estes grupos, repercutiram na sociedade e ganharam visibilidade de diferentes formas: no comportamento, jovens passam a se vestir com roupas que entendiam afirmar uma identidade negra, da qual se orgulhavam, assim como utilizar penteados e cortes de cabelo que valorizavam as características físicas dos negros, como o cabelo Black Power.

No campo da música, TV ou cinema, muitos artistas passaram a utilizar as roupas e cortes de cabelos valorizados por estes movimentos, criando uma tendência a ser seguida pelos fãs e multiplicada nas ruas. No Brasil, Wilson Simonal, Jorge Ben Jor, Jair Rodrigues e Tim Maia são apenas alguns exemplos que inspiravam os jovens dos anos 70. É claro que toda essa problemática vivenciada pela sociedade da época, apareceria nas letras das músicas produzidas então. Nada mais significativo do que Zumbi, um líder negro que lutava contra as injustiças perpetradas por uma sociedade escravocrata em prejuízo dos negros, ser justamente o tema central de uma canção composta por Jorge Ben Jor exatamente nesta época. Afinal de contas, Zumbi é um exemplo de luta, um exemplo de resistência a ser seguido.

A letra da música é bastante visual e, a cada estrofe cantada por Ben Jor, é natural que se imagine a cena que está sendo descrita. Aliás esta é a primeira atividade planejada para os alunos executarem, isto é, escutar a música atentamente e, somente com o auxílio da letra, descrever as imagens que a canção traz à cabeça.

Passada esta etapa, é chegado o momento de levantarmos o que os alunos já sabem, antes mesmo da exposição do conteúdo, sobre o tema da escravidão no Brasil. Aqui a ideia é estimular com perguntas bastante específicas, como por exemplo: porque a canção se chama Zumbi? O que vocês sabem sobre Zumbi dos Palmares? Como os negros eram trazidos da África para o Brasil? Com quais objetivos? Na canção ele menciona uma princesa negra, o que isso faz pensar? Porque o compositor menciona justamente plantações de cana-de-açúcar e café? O que vocês acham que são os nomes Angola, Congo, Benguela, Monjolo, Cabinda, Mina, Quiloa e Rebolo, que ele repete em toda a canção? Havia formas de resistência à escravidão que era imposta aos negros? Que tipo de herança deixou ao Brasil e aos brasileiros a presença de africanos por tantos séculos no Brasil? Podemos falar de heranças culturais e de uma participação marcante na elaboração de uma identidade brasileira? Enfim, todo tipo de pergunta que a canção pode suscitar e o professor queira explorar na aula expositiva.

Feito o debate inicial, sugere-se a apresentação do videoclipe que contém imagens com um posicionamento bastante claro sobre o tema. O objetivo é, sob um determinado ponto de vista, tentar endereçar as questões feitas antes da exibição do vídeo para, após a conclusão desta etapa, promover novo debate sobre o que acham após terem visto as imagens apresentadas. Por fim, tendo realizado todas as etapas e desenvolvido junto com os alunos um conteúdo inicial, o professor utiliza todo este material para fazer sua exposição de conteúdo, sem se esquecer de utilizar os pontos trazidos pelos alunos e adotar uma postura crítica em relação à própria letra da música, seu compositor e o momento em que fez a canção, além do videoclipe em si, as imagens que foram selecionadas para compô-lo e as diferentes perspectivas que podem ser observadas ao abordar este tema.

Ufa… eis aí, à grosso modo, alguns passos para a preparação de uma aula de história.


LETRA
Zumbi – Jorge Ben Jor

Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há
Um princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Dum lado cana de açúcar
Do outro lado o cafezal
Ao centro senhores sentados
Vendo a colheita do algodão tão branco
Sendo colhidos por mãos negras
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
È senhor das demandas
Quando Zumbi chega e Zumbi
É quem manda
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver

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20 Comentários

Arquivado em Ensino, Música, Videos

20 Respostas para “Aprendendo História com Jorge Ben Jor

  1. Liana

    Essa semana usarei Saudosa Maloca para complementar a discussão que fizemos sobre Pinheirinhos

  2. Liana

    Tá lindo. muito legal mesmo. vc precisa me dar umas aulinhas de como montar vídeos

  3. Valeu Li…. é só arranjarmos um tempinho. É bem fácil!

  4. Célia Regina

    “Durante minha formação na licenciatura em História, e também nos estágios que realizei na rede pública, testemunhei algumas experiências levadas adiante por professores que, quase sempre, obtiveram mais êxito ao ensinar o conteúdo utilizando músicas do que recorrendo ao material didático tradicional.”
    Li atentamente tudo o que você escreveu Rogério. Entretanto, Este trecho que transcrevi aqui, me chamou atenção porque tenho um certo receio quanto ao uso deste tipo de material ANTES da aplicação do conteúdo tradicional. Já tentei dos dois modos e por experiência própria tendo a acreditar que antes da utilização deste tipo de recurso INDEPENDENTE DA SÉRIE COM A QUAL ESTAMOS TRABALHANDO, para que haja um retorno satisfatório, no que tange ao aprendizado de história, é necessário “muni-los” de um aparato conceitual mínimo.
    Eu não ousaria falar em escravidão moderna sem elucidar o estatuto do trabalho no decorrer do devir histórico. Digo isso porque recentemente uma amiga, que também é historiadora e cuja filha está cursando o sexto ano do FUND, teve uma surpresa imensa ao ser chamada na escola para ler uma resposta que a filha havia dado em uma avaliação. A questão se referia ao tratamento que os escravos recebiam no Brasil dos setecentos. A resposta da menina foi que eles ” eram muito bem tratados, pois segundo ela eles trabalhavam muito e todos aqueles que trabalham muito são respeitados e possuem muitas regalias, adquiridas a partir do ato de realizar trabalho”( eu detalhei melhor a resposta dela, mas na essência foi isso). Além de consolar minha amiga que estava em vias de cometer um infanticídio, Não pude deixar de dar razão a menina, pois a ela, ao que parece, não foi dada um noção conceitual e histórica clara a respeito de trabalho.
    Na minha opinião este é um problema que preponderante no que tange a aprendizagem de história e de muitas outras disciplinas em sala de aula. E ouso dizer, sob pena de ser odiada para sempre pela minha classe, (professores de história) que este problema tem uma causa que atende pelo nome de CONSTRUTIVISMO.
    Achei seu material de primeira, um vídeo de arrepiar que certamente contribuirá sobremaneira para o aprendizado do assunto Escravidão na América Portuguesa. O que me faz discordar de você( pra variar, pois isto é o assunto mais inóspito entre os historiadores) é o método. Creio que a utilização do seu material (que reitero mais uma vez é ótimo), deve ser a parte conclusiva da aula e não o seu início.
    Ah.. espero que você não passe a me odiar de agora em diante.. pois como eu sempre digo a rejeição é uma coisa difícil pra mim.. mesmo sendo intratável eu sou sensível… Um abraço cheio de admiração e sinceridade…
    Célia.

  5. Olá Célia,

    Que odiar nada, por isso eu queria sua opinião. Seu comentário foi excelente. Eu estava pensando justamente em outras formas de utilizar o material. e uma das opções era, justamente, deixar pra passar o video como conclusão da aula depois que eles já tivessem recebido todo o conteúdo… A razão é justamente aquela que você apontou, quer dizer, a base inicial construída junto com os alunos para a exibição do vídeo, tem deixado bastante a desejar. O detalhe é que eles não conseguem perceber o que tem por trás de cada uma das imagens selecionadas. Na verdade, em muitos dos casos, eles não conseguem fazer nenhuma relação sem que você aponte o caminho, isto é, se você não perguntar porque na música o Jorge Ben falou sobre canavial e cafezal, eles não associam que os escravos eram violentamente capturados na África e trazidos ao Brasil justamente para trabalhar nestas plantações manter de pé toda a engrenagem do sistema colonial.

    A questão da filha de sua amiga é bastante interessante, porque eu tive uma experiência semelhante em sala de aula sobre este mesmo assunto. Crianças do sétimo ano (sexta série) apenas identificam a escravidão com a violência, porque é isso que eles viram na televisão. Muitos pensam que a relação de trabalho era assalariada e outros não vêem diferença entre receber salário em espécie ou em casa e comida (considerando que viver na senzala seja igual a receber casa e comida como pagamento). Neste caso, alguns consideravam que ser escravo devia ser um bom negócio, pois a experiência pessoal deles mostra que o trabalho de seus pais podem não garantir sequer casa e comida (vide exemplo Pinheirinho).

    Um super beijo e muito obrigado por compartilhar suas considerações. Isso é o mais legal de ter um blog com um público leitor bastante capacitado.

  6. muinto legal ele e meu idolo fãzaso dele

  7. A final, alguém sabe o que ele quis dizer, quando menciona a princesa?

    • Rogerio Beier

      Olá Bruno,

      Ele menciona a princesa ao falar que nos antigos leilões de escravos realizados no Brasil, até mesmo princesas africanas que haviam sido capturadas durante uma guerra, eram vendidas junto com seus súditos.

  8. pedro

    alguem pode me explicar o o que a música passa para as pessoa =p

  9. Cristina

    muito bom mesmo, mas eu ainda não entendi o que quer dizer Angola Congo Benguela
    Monjolo Cabinda Mina
    Quiloa Rebolo

  10. Grasielle

    Olá Rogério! Parabéns pelo texto, pela metodologia adotada! Parabéns também por sua dedicação e disposição em fazer algo diferente, algo que realmente chegue aos alunos, que os faça sentir a História da qual inevitavelmente são parte.

  11. o que quer dizer Angola Congo Benguela
    Monjolo Cabinda Mina
    Quiloa Rebolo

  12. Mara Cristina

    Excelente sua idéia Rogério. E há uma infinidade de letras que falam sobre a influência afro no Brasil, como também mostram a trajetória dos afrodescendentes em outros momentos de nossa história: Jorge aragão, Olodum… Foquei fascinada! Abraço.

  13. Beatriz

    Parabéns pela sua iniciativa de ensinar de forma mais lúdica, acredito que se torne mais atrativo para os alunos e seja melhor assimilado, além de fazê-los ter contato com influências musicais como Jorge Ben Jor, que é tão importante na música brasileira…Se outros professores tivessem esse interesse em ensinar talvez a educação no Brasil fosse mais respeitada..

  14. Pingback: Dia da Consciência Negra | Aqui se fala português

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