Rodas e a USP dos nossos piores pesadelos

Cartoon de Carlos Latuff sobre a autonomia universitária na USP

Estas férias de 2011/2012 entrarão na história da USP como aquelas em que os movimentos e organizações estudantis foram mais atacados por um único reitor depois do período da ditadura. Apenas para se ter uma ideia, no intervalo de apenas uma semana, vimos o reitor pedindo ação dos governos de São Paulo para reurbanizar áreas vizinhas ao Campus da USP, o que indica que uma higienização nas comunidades de São Remo e Carmine Lourenço, entre outras, está a caminho, conforme comentamos no post de 09/02/2012.

Em seguida, fomos pegos de surpresa ao sermos informados de que a partir do próximo dia 27 de fevereiro, quando as aulas recomeçam, os alunos, professores e funcionários receberão um bilhete único exclusivo para ser usado nas duas linhas de ônibus circular do local, que passarão a ser gerenciadas pela São Paulo Transporte (SPTrans), da Prefeitura.
Oras, se a Universidade e a
Reitoria querem, de fato, integrar a USP com as comunidades vizinhas, então porque cria este Bilhete Único da USP??? É óbvio que essa história de USP de portões abertos para a comunidade não passa de balela e que, para a reitoria da Universidade, lugar de pobre é fora da USP. Agora até mesmo quem não for estudante, se não tiver carro e quiser circular dentro do campus, terá que pagar. Pobre não tem vez!!! Visitante bom são os riquinhos de academia tipo Run & Fun e Runner que vão fazer seus treinos com vans personalizadas, personal trainners e isotônicos lá dentro do campus, isso sem falar naqueles ciclistas com suas roupas cheias de anúncios, como lembrou a amiga Juliana. Para estes, o magnífico Reitor até aumenta o policiamento para garantir a segurança deles. Portanto, a ação de criar um bilhete único da USP, visa claramente diminuir o número de pessoas não ligadas a Universidade utilizando os circulares. UM ABSURDO!!!!


E hoje, novamente, por volta das 5h da manhã o Reitor Rodas chamou a Polícia Militar para acabar com a ocupação da moradia Retomada. Na operação de hoje, doze estudantes foram presos, apesar de não terem resistido. A advolgada Ana Lúcia Marchiori disse que o mandado de reintegração de posse foi expedido no dia 17, sexta-feira. “Foi feito de propósito para que a ação fosse feita no fim de semana e evitar a repercussão”. Os alunos detidos, exceto uma adolescente de 17 anos que também havia sido detida, responderão por desobediência e danos ao patrimônio. “Só que não havia perito para atestar os danos ao patrimônio e não houve resistência”, defende a advogada. Ou seja, uma vez mais, nossos colegas serão criminalizados por fazerem uma manifestação legítima e política dentro do ambiente universitário.

Para recuperar o histórico desta ocupação, em março 2010, diante da triste situação da assistência e permanência estudantil na USP, quando mais de 100 calouros que tiveram o alojamento emergencial negado pela Coordenadoria de Assistência Social, estudantes retomaram um espaço no Conjunto residencial da USP (CRUSP) que havia sido tomada pela Divisão de Promoção Social da COSEAS e pelo banco Santander, inviabilizando a utilização do espaço como moradia estudantil. A então Moradia retomada foi uma forma de viabilizar moradia a estudantes que não conseguiam passar pelo “pente fino” da Reitoria para garantir o que deveria ser um direito: a moradia estudantil assegurada pela Universidade.

Abaixo, um vídeo gravado em 30/01/2012, portanto, 20 dias antes da ação de reintegração realizada pela PM, onde professores e membros do SINTUSP dão seu depoimento sobre o estado de conservação das moradias retomadas e declaram seu apoio total ao movimento.

E, em seguida, um vídeo realizado por testemunhas que registraram a invasão da tropa de choque no CRUSP ocorrida neste último domingo de carnaval, dia 19 de fevereiro de 2012.

No dia 20 de janeiro de 2012, a Rádio Brasil Atual recebeu em seus estúdios os estudantes Augusto Saraiva e Rosi Santos, que foram presos na operação policial, e a aluna Laura Lima, moradora de outro bloco do Crusp, que presenciou a ação da PM. Em entrevista à repórter Lúcia Rodrigues, eles descrevem o que ocorreu na reintegração da área. Escute a entrevista na Rádio Rede Brasil.

Durante a entrevista, uma DENÚNCIA muito grave foi realizada por uma das estudantes presas, que informou que O médicO que realizou o exame de corpo de delito no IML obrigou as estudantes presas a “baixarem suas calcinhas” e ficarem COMPLETAMENTE NUAS diante DELE.

Conforme destacado por uma das alunas durante a entrevista, uma das estudantes presas estava grávida e foi arrastada pela Polícia Militar da moradia ocupada até o ônibus da polícia que a levaria até o D.P. Um vídeo contendo estas imagens foi gravado por moradores do CRUSP. Percebam que os policiais tem o cuidado de colocar um cobertor sobre a barriga da grávida para esconder a vergonhosa maneira como a estavam tratando. A estudante retira o cobertor, mas um policial rapidamente recoloca o cobertor no local.

Como destacou um professor da História nas redes sociais, “Em pleno Carnaval…semanas antes de começarem as aulas…
Não são os alunos “radicais”, os funcionários “malucos” ou os professores “esquerdistas” que não querem a volta à “normalidade” na USP. É o Reitor. Na verdade, o “normal” na USP é isso mesmo.”

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Massa falida da Selecta ignora ordem para retirar entulho do Pinheirinho

Matéria publicada pelo jornal O Vale, de São José dos Campos, em 18 de Fevereiro de 2012, por Beatriz Rosa e divulgada no blog PIG -Partido da Imprensa Golpista.

Funcionários da prefeitura já recolheram na área mais de oito toneladas de materiais para eliminar criadouros de dengue

Beatriz Rosa
São José dos Campos

A massa falida da empresa Selecta, proprietária do terreno do Pinheirinho, na zona sul de São José dos Campos, ignorou a determinação da prefeitura para fazer até ontem a limpeza da área de 1,3 milhão de metros quadrados.

Após a desocupação do terreno no dia 22 de janeiro pela Polícia Militar e a demolição de cerca de 1.700 moradias, a área se transformou em um depósito de entulho com alto risco de proliferação do mosquito transmissor da dengue.
A limpeza do terreno foi determinada pela prefeitura no último dia 2, mas a massa falida não retirou os entulhos até às 18h de ontem.

Nenhum representante da Selecta foi localizado para falar sobre o assunto.
Segundo a prefeitura, a massa falida será autuada na próxima quarta-feira e terá prazo de dez dias úteis para realizar o serviço ou apresentar um recurso justificando o descumprimento da ordem.

O novo prazo se esgota no dia seis de março. Após esse prazo, e persistindo a situação irregular, a empresa poderá ser multada em R$ 11 mil. Com a reincidência do problema, o valor da multa poderá dobrar.

Dengue.

O alto risco do local, levou equipes do Centro de Controle de Zoonoses a realizar vistorias diárias no local.
Por seis dias, cerca de 40 agentes recolheram mais de oito toneladas de entulhos considerados potenciais criadouros do mosquito entre os escombros do Pinheirinho.

Segundo o coordenador do departamento de políticas da Saúde, Marcelo da Silva Gasch, a ação foi necessária para eliminar possíveis criadouros.

“Foi uma primeira ação para retirar materiais de maior risco como caixas de água, vasos sanitários, pneus, latas e recipientes plásticos”, disse.

Um caminhão deve retornar ao terreno hoje para recolher mais materiais no terreno.

Etapas.

Segundo Gasch, a próxima etapa será a aplicação de larvicidas em potenciais criadouros espalhados pelo terreno, seguido da nebulização da área (agentes com jatos de inseticida) e do fumacê, em parceria com a Secretaria de Serviços Municipais.

Segundo ele, o larvicida combate a larva do mosquito, já a nebulização e o fumacê serão usados no combate ao mosquito.
A ação deve ser iniciada após o Carnaval e ser concluída em uma semana.

Durante a ação no terreno, os agentes recolheram 68 amostras de larvas nos criadouros, 19 delas eram do mosquito Aedes Aegypti.
Após a constatação dos focos de dengue, a área do Pinheirinho foi incluída entre os pontos estratégicos de risco para o controle do mosquito. Vistorias semanais devem ser realizadas no local.

“O local já está bem mais seguro com a retirada dos criadouros potenciais e está tudo dentro da normalidade. Mas os trabalhos irão continuar”, disse Gash.

São José registrou nove casos de dengue nesse ano –cinco importados e quatro contraídas no município.
Em 2011, o número chegou a 2.000 casos, a maioria deles nas regiões sul e leste.

Prefeitura desativa mais um abrigo na zona sul
São José dos Campos

A Prefeitura de São José dos Campos fechou ontem o abrigo do ginásio de esportes Ubiratan, no Dom Pedro 2º. Das 35 famílias que estavam alojadas no local, cinco foram transferidas para o Centro Esportivo Vale do Sol e outras 30 se mudaram para casas alugadas ou de amigos e parentes.

Foi o segundo abrigo fechado pela prefeitura. O primeiro deles, a escola Dom Pedro de Alcantara, conhecida como Caic Dom Pedro, foi desativada no dia 10. As 43 famílias que estavam no local foram direcionadas para outros abrigos.

A prefeitura mantém agora dois abrigos em funcionamento no Morumbi e Vale do Sol, com cerca de 70 famílias.
O governo afirma que as famílias irão continuar recebendo apoio do governo pelo tempo que for necessário.

Funcionários da Prefeitura continuam ajudando as famílias, com orientação e transporte, na busca de imóveis para aluguel em todas as regiões da cidade.

O advogado dos sem-teto, Antonio Donizete Ferreira, o Toninho, visitou ontem os abrigos e reclamou das condições dos locais.
Segundo ele, as famílias reclamam da falta de leite.

“Eles estão forçando as famílias a deixarem os abrigos. Os sindicatos estão doando materiais de limpeza e higiene para as famílias”, disse.

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Roger Waters, Maggie e as Malvinas

Hospedado na casa de amigos aqui no extremo sul do Brasil, a apenas dois quilômetros da fronteira com a Argentina, percebo que as notícias sobre as Malvinas repercutem com um pouco mais de força do que em São Paulo.

Embora este post não seja exatamente sobre a Guerra das Malvinas, mas sim sobre o comentário de Roger Waters sobre ela em músicas que foram gravadas no disco The Final Cut (1982), sugiro aos amigos que não se lembram muito bem do assunto, que leiam um pouco sobre esta guerra, apenas para poder entender sobre o que e quem as letras  abaixo estão falando. Pode ser o verbete da wikipedia mesmo.  

Quanto ao álbum The Final Cut, do Pink Floyd, ele foi gravado entre julho e dezembro de 1982, sob o forte impacto da participação britânica na Guerra das Malvinas, ocorrida entre os meses de abril e junho daquele mesmo ano. Por isso as letras fazem muitas referências diretas a personagens centrais do Conflito, como Margaret Tatcher (Maggie) e Leopoldo Fortunado Galtieri (Galtieri).

Como já mencionei anteriormente, acho uma oportunidade excelente quando artistas abordam temas históricos ou políticos em suas obras, pois elas também passam a ser ótimos registros da perspectiva desses artistas sobre a Guerra no momento em que ela ocorria, neste caso específico. Apenas para ilustrar o que falei, abaixo destaco as letras de duas músicas deste disco que tocam diretamente no assunto da Guerra das Malvinas:

GET YOUR FILTHY HANDS OFF MY DESERT
por Roger Waters 

Brezhnev took Afghanistan. 
Begin took Beirut. 
Galtieri took the Union Jack. 
And Maggie, over lunch one day, 
Took a cruiser with all hands. 
Apparently, to make him give it back

The Post War Dream
por Roger Waters 

Tell me true tell me why was Jesus crucified
is it for this that daddy died?
Was it for you? was it me?
Did i watch too much t.v.?
Is that a hint of accusation in your eyes?
If it wasn’t for the nips
being so good at building ships
the yards would still be open on the clyde
and it can’t be much fun for them
beneath the rising sun
with all their kids committing suicide
What have we done maggie what have we done?
What have we done to england?
Should we shout should we scream
“what happened to the post war dream?”
oh maggie, maggie what have we done?

Se considerarmos apenas estas duas letras, já é possível percebermos que o autor tem uma postura totalmente crítica em relação à participação da Grã Bretanha na Guerra das Malvinas, chegando mesmo a se perguntar o que havia acontecido com o sonho britânico do pós-guerra. Essas perguntas se justificam justamente porque naquele momento, em 1982, além da Guerra das Malvinas simbolizar um duro retorno dos ingleses a  campos de batalhas, o que não ocorria desde a II Guerra Mundial, havia também a política econômica que estava sendo tocada por Margaret Tatcher, que desregulamentava o setor financeiro, flexibilizava o mercado de trabalho e privatizava as estatais, fazendo com que os trabalhadores vissem as duras conquistas que garantiram o bem-estar social dos ingleses após a II Guerra Mundial serem limitados.  Por isso as pergunta angustiada de Waters:

“What Happened to the post war dream? Oh Maggie, Maggie what have we done?” 

Enfim, vendo novamente as notícias sobre toda essas movimentações de ingleses e argentinos em relação a soberania das Ilhas Malvinas, não pude pensar em fazer um post melhor aqui de onde estou, a apenas dois quilômetros de Paso de los Libres. Espero que tenham gostado.

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Higienização pode estar em andamento na comunidade São Remo

João Grandino Rodas

Reitor da USP, João Grandino Rodas, em cartoon de Carlos Latuff

Uma notícia bastante preocupante foi publicada hoje no caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo sob a manchete USP QUER QUE GOVERNOS REURBANIZEM FAVELAS VIZINHAS A SEU CAMPUS.

Na curta reportagem de FÁBIO TAKAHASHI e JULIANNA GRANJEIA, somos informados de que o reitor João Grandino Rodas, solicitou ao Estado e à prefeitura a reurbanização de favelas no entorno da USP, pois avalia que a instituição tenha que dar atenção às mais de 3.000 famílias que vivem nas favelas São Remo e Carmine Lourenço. Para isso, o reitor teria afirmado que a universidade daria todo o apoio técnico a iniciativa.

Conhecendo o magnífico reitor como só os alunos da USP o conhecem, toda essa boa vontade está cheirando muito mal. Some-se a isso as recentes atuações dos governos municipal e estadual na “reurbanização” de algumas áreas da cidade, e logo justifica-se um forte receio da possível retirada de famílias de uma região TÃO VALORIZADA como a do Butantã. Especialmente após a chegada da linha amarela do metrô ao bairro.

Segundo a reportagem, um protocolo de cooperação já foi assinado em dezembro por USP, governo estadual e prefeitura, sendo o objetivo inicial deixar pronto até março de 2012 o levantamento parcial patrimonial e o potencial de ocupação.

Questionado por Takahashi e Granjeia, o coordenador da associação de moradores da comunidade São Remo, Givanildo Santos, demonstrou toda sua preocupação ao deixar para os leitores a seguinte pergunta: “Será que eles não querem tirar as pessoas de um terreno valorizado?”.

Cartoon de Frank ironiza o alvo preferido dos executores da justiça em São Paulo.

Embora João Grandino Rodas negue, é melhor deixarmos nossas barbas de molho, pois Alckmin e Kassab tem dado mostras recorrentes de que estão à serviço da especulação imobiliária em São Paulo. Além disso sabemos que se tiverem uma só oportunidade de retirar essa “gente diferenciada” de bairros valorizados para ganhar muito dinheiro, não hesitarão sequer um minuto.

Portanto, embora São Remo e Carmine Lourenço possam parecer comunidades difíceis de serem expulsas da região onde se encontram, as notícias nos dão indícios claros de que estamos no caminho de mais uma “higienização” em São Paulo.

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Aprendendo História com Jorge Ben Jor

Não é nenhuma novidade que muitas canções populares vem sendo utilizadas por professores como uma ferramenta extra na hora de preparar suas aulas nas mais diferentes disciplinas. Seja porque muda o esquema de aula giz/quadro-negro, ou porque os alunos gostam das músicas escolhidas, a verdade é que quando professores levam aparelhos de som para a sala de aula, é sempre aquele rebuliço. Quase sempre, os alunos ficam animados, ajudam a preparar a sala e ficam ansiosos para ver o que o professor preparou para eles.

Durante minha formação na licenciatura em História, e também nos estágios que realizei na rede pública, testemunhei algumas experiências levadas adiante por professores que, quase sempre, obtiveram mais êxito ao ensinar o conteúdo utilizando músicas do que recorrendo ao material didático tradicional. Inspirado por essas experiências, eu também planejava preparar um material que pudesse utilizar, mas ainda não tinha o principal: a música que iria explorar. Claro que no cancioneiro brasileiro há várias músicas que podem ser utilizadas, mas até um tempo atrás nenhuma canção em especial tinha me motivado a preparar algum material tomando-a como base, até que ouvi pela primeira vez Zumbi, de Jorge Ben Jor.

Como o nome indica, Zumbi fala sobre este famoso líder negro do Quilombo dos Palmares, que durante anos resistiu à frente de sua comunidade contra a autoridade portuguesa. Lançada em 1974, no álbum A Tábua de Esmeralda,  Zumbi é a oitava faixa deste disco que ficou conhecido por abrir o que o próprio Jorge Ben denominava de uma “fase alquímica”. Várias canções de sucesso fazem parte deste álbum, como Os Alquimistas Estão Chegando, Menina Mulher da Pele Preta e Hermes Trimegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda.

É importante que, antes de qualquer coisa, o professor que vá utilizar alguma música para dar aulas, também faça uma pesquisa preliminar sobre a história daquela música em si. Faz bastante diferença saber, por exemplo, não só que Jorge Ben Jor é negro, claro, mas que justamente a década de 1970, quando o disco foi lançado, há um crescimento de organizações que lutam por melhores condições de vida para a população negra brasileira, vítima de todo tipo de discriminação.

Certamente, dentre outras influências e inspirações, as organizações brasileiras também foram influenciadas por grupos e movimentos que surgiram com bastante força nos Estados Unidos, na década de 1950, na luta dos afrodescendentes em garantir igualdade de direitos civis e contra a segregação racial vigente naquele país. As ações afirmativas levadas adiante por estes grupos, repercutiram na sociedade e ganharam visibilidade de diferentes formas: no comportamento, jovens passam a se vestir com roupas que entendiam afirmar uma identidade negra, da qual se orgulhavam, assim como utilizar penteados e cortes de cabelo que valorizavam as características físicas dos negros, como o cabelo Black Power.

No campo da música, TV ou cinema, muitos artistas passaram a utilizar as roupas e cortes de cabelos valorizados por estes movimentos, criando uma tendência a ser seguida pelos fãs e multiplicada nas ruas. No Brasil, Wilson Simonal, Jorge Ben Jor, Jair Rodrigues e Tim Maia são apenas alguns exemplos que inspiravam os jovens dos anos 70. É claro que toda essa problemática vivenciada pela sociedade da época, apareceria nas letras das músicas produzidas então. Nada mais significativo do que Zumbi, um líder negro que lutava contra as injustiças perpetradas por uma sociedade escravocrata em prejuízo dos negros, ser justamente o tema central de uma canção composta por Jorge Ben Jor exatamente nesta época. Afinal de contas, Zumbi é um exemplo de luta, um exemplo de resistência a ser seguido.

A letra da música é bastante visual e, a cada estrofe cantada por Ben Jor, é natural que se imagine a cena que está sendo descrita. Aliás esta é a primeira atividade planejada para os alunos executarem, isto é, escutar a música atentamente e, somente com o auxílio da letra, descrever as imagens que a canção traz à cabeça.

Passada esta etapa, é chegado o momento de levantarmos o que os alunos já sabem, antes mesmo da exposição do conteúdo, sobre o tema da escravidão no Brasil. Aqui a ideia é estimular com perguntas bastante específicas, como por exemplo: porque a canção se chama Zumbi? O que vocês sabem sobre Zumbi dos Palmares? Como os negros eram trazidos da África para o Brasil? Com quais objetivos? Na canção ele menciona uma princesa negra, o que isso faz pensar? Porque o compositor menciona justamente plantações de cana-de-açúcar e café? O que vocês acham que são os nomes Angola, Congo, Benguela, Monjolo, Cabinda, Mina, Quiloa e Rebolo, que ele repete em toda a canção? Havia formas de resistência à escravidão que era imposta aos negros? Que tipo de herança deixou ao Brasil e aos brasileiros a presença de africanos por tantos séculos no Brasil? Podemos falar de heranças culturais e de uma participação marcante na elaboração de uma identidade brasileira? Enfim, todo tipo de pergunta que a canção pode suscitar e o professor queira explorar na aula expositiva.

Feito o debate inicial, sugere-se a apresentação do videoclipe que contém imagens com um posicionamento bastante claro sobre o tema. O objetivo é, sob um determinado ponto de vista, tentar endereçar as questões feitas antes da exibição do vídeo para, após a conclusão desta etapa, promover novo debate sobre o que acham após terem visto as imagens apresentadas. Por fim, tendo realizado todas as etapas e desenvolvido junto com os alunos um conteúdo inicial, o professor utiliza todo este material para fazer sua exposição de conteúdo, sem se esquecer de utilizar os pontos trazidos pelos alunos e adotar uma postura crítica em relação à própria letra da música, seu compositor e o momento em que fez a canção, além do videoclipe em si, as imagens que foram selecionadas para compô-lo e as diferentes perspectivas que podem ser observadas ao abordar este tema.

Ufa… eis aí, à grosso modo, alguns passos para a preparação de uma aula de história.


LETRA
Zumbi – Jorge Ben Jor

Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há
Um princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Dum lado cana de açúcar
Do outro lado o cafezal
Ao centro senhores sentados
Vendo a colheita do algodão tão branco
Sendo colhidos por mãos negras
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
È senhor das demandas
Quando Zumbi chega e Zumbi
É quem manda
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver

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Denúncias de arapongagem na USP

A edição de janeiro da revista Fórum trouxe matéria especial revelando um esquema de espionagem de alunos e funcionários que teria sido tocado pela reitoria da USP. A revista informa que obteve um documento que relata atividades de estudantes, professores e trabalhadores da universidade, monitoradas durante 28 dias nos quais se discutia um movimento de greve. Os espiões contratados pela reitoria, identificados como “sala de crise da USP”, conseguiram acesso a informações que, de acordo com sindicalistas, teriam circulado somente em reuniões muito restritas, o que sugere a utilização de métodos pouco “ortodoxos” de investigação.

A reportagem relembra que no final de outubro, logo após a Polìcia Militar ter efetuado a prisão de alguns alunos por posse de maconha dentro do campus universitário, foi iniciada uma grande polêmica que desencadeou na ocupação do prédio administrativo da FFLCH e, em seguida, da própria reitoria da USP. Discutia-se a revogação do convênio entre a PM e a universidade, o fim dos processos administrativos contra alunos, professores e funcionários e um novo regimento geral para a USP. Tais pontos estão diretamente relacionados com com a necessária independência do campus, como bem lembra a reportagem que nos pergunta: Que outra universidade de país democrático tem polícia armada no seu campus?

Infelizmente, além da presença de polícia armada no campus,  a USP parece também ser uma das poucas que, em um país democrático, mantém um esquema de arapongagem de alunos, professores e lideranças de trabalhadores. A denúncia é baseada em um relatório da greve de abril de 2010 produzido pela dita “sala de crise da USP” e enviado ao responsável pela segurança no Campus, Ronaldo Pena, diretor  da divisão técnica de operações e vigilância da Coordenadoria do Campus (Cocesp). Segundo a matéria, este relatório mantém o padrão daqueles produzidos por agentes do Serviço Nacional de Informação à época da Ditadura Militar.

Em notícia divulgada no site SpressoSP, o professor aposentado do Departamento de Filosofia, Paulo Arantes, avalia o caso e revela: “É curioso, mas totalmente coerente com as medidas até agora implantadas pelo reitor João Grandino Rodas. A reitoria da universidade hoje, toda ela, não só o Rodas, é uma organização criminosa. Tem muito mais coisa a se averiguar”.

O professor Arantes ainda sugere que uma investigação detalhada seja feita e, obrigatoriamente, passe pela questão de como está sendo investido o dinheiro da Universidade. “O grande problema hoje é saber o que acontece com o orçamento da USP, o que a reitoria faz com ele. A maior universidade do país nada em dinheiro, mas não contrata, não faz nada a não ser serviços de zeladoria dentro do campus. Por que isso? O esquema da arapongagem é mais um elemento na luta contra a reitoria, pois evidencia mais uma de suas ferramentas, mas gostaria de ver uma investigação sobre o dinheiro”.

Para quem é aluno da USP e participa da militância política, não surpreendem as denúncias levantadas pela revista Fórum. Eu mesmo fui testemunha de alunos sendo fotografados durante suas participações em assembléias e, pior ainda, vi uma colega que participou ativamente na negociação para a desocupação da reitoria neste último episódio de novembro, ser perseguida pela Polícia durante a truculenta reintegração de posse levada á cabo pelo Choque. Ela nem estava na ocupação no dia da reintegração e, mesmo assim, acabou sendo presa durante a operação, quando foi levada à delegacia para ser criminalizada por suas ações políticas.

Para o filósofo também não é novidade que alunos e funcionários sejam fotografados durante assembleias, até porque, pelo número de pessoas presentes, fica difícil o controle. O problema é quando as reuniões são menores, pois “Há grampos, e com isso tem que se tomar cuidado.” O professor Paulo Arantes ainda lembra algo que era defendido por Milton Santos, que dizia que os dirigentes só se preocupam com a ordem patrimonial, ou econômica. “Quando dizem que estão perturbando a ordem, se referem apenas a ordem patrimonial”. E conclui: “Quem me dera fazer parte de um partido que realmente ameaçasse o capitalismo como alegam. Quanto a isso, nós estamos comendo poeira ainda”.

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Video homenagem ao povo do Pinheirinho

Amanhã estarei novamente em mutirão com o pessoal do CONDEPE lá em São José dos Campos colhendo depoimentos dos moradores do Pinheirinho para registrar denúncias de violações dos Direitos Humanos que eles sofreram. Estava pensando em um novo post, mas a única coisa que consegui fazer foi preparar um vídeo bastante amador, feito com o moviemaker, reunindo as muitas fotos pessoais e da Internet, que flagraram essa barbárie ocorrida num domingo, 22 de janeiro de 2012.

O vídeo se chama Domingo Sangrento no Pinheirinho e além de uma homenagem, contém meu mais profundo sentimento de solidariedade com o pessoal do Pinheirinho. Simultaneamente, ele também serve como denúncia das violações de Direitos Humanos que eles sofreram, já que há muitas fotos ali em que é possível visualizar ainda as marcas das agressões sofridas. Há também fotos que mostram claramente as pessoas que foram vitimadas pela covarde polícia do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Eduardo Kury, que não poupou nem crianças, mulheres ou idosos. Todos foram atacados com igual violência.

Enfim, chega de falar, deixo o vídeo com vocês.

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A tragédia dos campos de São José: um depoimento emocionado

O TRABALHO

Como havia informado em meu último post, ontem, juntamente com mais de setenta voluntários, passei o dia todo trabalhando junto ao pessoal do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), colhendo denúncias sobre a violência praticada pelas polícias (PM, Choque, Guarda Metropolitana) contra as famílias do Pinheirinho durante o procedimento de reintegração de posse daquela área. O objetivo é o de, com essas denúncias, formalizar as violações que ocorreram no Pinheirinho a órgãos nacionais e internacionais de defesa dos Direitos Humanos, tais como a Defensoria Pública, o Ministério Público Federal e a Junta Interamericana de Direitos Humanos.

Mais além dos registros de violência, em nosso trabalho também buscamos coletar todas informações que fossem possíveis sobre o valor da perda material que estas famílias tiveram com a reintegração de posse, uma vez que muitas das casas foram simplesmente destruídas com tudo dentro: móveis, roupas, documentos, aparelhos eletrônicos, ferramentas, materiais de construção, etc. Com estas informações, nosso principal objetivo é entrar com uma ação contra o Estado solicitando que os valores sejam ressarcidos às famílias que, não só levantaram as casas às suas próprias custas, mas também, na maioria das vezes, ainda estavam pagando prestações dos móveis, aparelhos eletrônicos e materiais de construção que foram destruídos e roubados.

Uma ideia geral do trabalho que foi realizado no Pinheirinho pelos voluntários do CONDEPE pode ser obtida através da cobertura feita pela TVT, que acompanhou nosso grupo desde o momento em que deixamos São Paulo, passando por nossa chegada a São José dos Campos e indo até aos abrigos (que eu prefiro chamar de campos de refugiados) para acompanhar como coletamos as denúncias.

OS DEPOIMENTOS

Como ilustra a boa cobertura da TVT, ao chegarmos em São José dos Campos reunimos todos os grupos de voluntários na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde recebemos algumas instruções sobre como colher as denúncias para, logo em seguida, sermos divididos em grupos para atender os quatro diferentes campos espalhados pela cidade de São José. Meu grupo ficou com o campo de refugiados do Jardim Morumbi.

No Morumbi, muitos depoimentos foram tocantes e era impossível conter as lágrimas enquanto conversávamos com as vítimas. Mães contavam que suas crianças, além de toda a violência direta que sofreram com as bombas de efeito moral caindo em seus quintais e todo o spray de pimenta dispersado nas ruas, também testemunharam a polícia matando seus animais de estimação. Uma contou que seu cachorro, assustado com os ruídos das bombas, se escondeu em algum canto da casa e não queria sair. O policial, com muita pressa e sem nenhuma consideração, simplesmente mandou passar o trator na casa, matando o cachorro. Outros cachorros simplesmente foram alvejados a tiros pelos policiais, sob o olhar incrédulo das crianças.

Além dessas barbaridades, todas as denúncias diziam que os helicópteros despejavam bombas por todos os lados. Algumas caíam dentro dos quintais. Spray de pimenta era livremente jogado nas ruas por todos os lados. Tiros com balas de borracha, tiros com bala de verdade, pessoas desaparecidas, denúncias de estupros, enfim, todo tipo de violência que você possa imaginar foi denunciado a todos nós. Talvez o que mais tenha me marcado foi o de uma senhora diabética, que tinha as duas pernas amputadas. Sua filha me contou como foi a operação da Polícia no caso delas. As bombas de efeito moral e gás lacrimogênio caíram no seu quintal. Os spray de pimenta também. A senhora, já idosa, passou mal e desmaiou algumas vezes. Sua diabetes totalmente descontrolada. O problema era que, embora a filha morasse perto, a polícia não deixava ninguém entrar ou sair de casa. A senhora amputada passou muito tempo de agonia até que sua filha enfrentasse os policiais e conseguisse passar na raça aquele bloqueio para poder ajudar a sua mãe a sair da casa e ficar em um local menos nocivo… Enquanto se recordava das cenas, chorava. Contou-me que não tinha mais nada. Sua casa fora destruída com quase todos os móveis dentro, elas não tinham mais para onde ir e agora estava jogadas naquele campo de refugiados, sem água, com um único chuveiro para centenas de pessoas e estabelecimentos com poucas condições de higiene. A senhora idosa, portadora de necessidades especiais por ser amputada, não recebia auxílio médico. Sua filha me dizia da falta de perspectivas que a vida apresentou a elas naquele momento. Totalmente sem rumo, não sabem quando vão sair do campo de refugiados, quando poderão começar nova vida, enfim: já não sabem mais de nada.

Ouvi denúncias de que quatro mulheres foram estupradas na operação da polícia, embora em função do grande medo que tem das forças policiais, nenhuma delas queiram sequer denunciar. A razão para isto é que, os formulários com os quais estamos trabalhando, possuem toda a identificação do denunciante e o temor de serem novamente atacadas se fizerem a denúncia, as impedem de tomar qualquer atitude. Há também relatos de desaparecidos e de pelo menos seis mortos, embora não exista nenhuma evidência que nos permita formalizar uma denúncia.

Um video que está sendo divulgado pela TVLD, ilustra bem o trabalho realizado pelos voluntários na coleta dos depoimentos e a tristeza que se abateu sobre todos nós conforme íamos colhendo-os. Eduardo Guimarães, do blog da cidadania, assim como cada um de nós, não consegue se conter ao relatar as inúmeras violações sofridas pelo povo do Pinheirinho.

A AUDIÊNCIA PÚBLICA

Por fim, após colhermos denúncias sobre a violência praticada pelas polícias e informações dos prejuízos sofridos com a reintegração de posse, havia sido marcado para as 19h uma audiência pública na Câmara Municipal de São José dos Campos, onde o CONDEPE já apresentaria um breve panorama dos resultados do trabalho que havíamos feito, juntamente com depoimentos emblemáticos dos moradores à respeito da violência que sofreram e exposições de políticos parlamentares que acompanharam o caso desde antes da operação de reintegração de posse (Paulo Maldos, Eduardo Suplicy)

Como breve panorama dos resultados do dia, em apenas algumas horas de trabalho conseguimos coletar 507 depoimentos e preencher requisição de mais de 20 exames de corpo de delito, uma vez que ainda havia pessoas com ferimentos e marcas no corpo em decorrência da ação policial, mesmo oito dias após a ação da Polícia. Foi comunicado que no próximo sábado, dia 04/02 haverá outro mutirão para obter mais denúncias como as de David Washington, baleado nas costas pela Guarda Municipal de São José dos Campos (áudio do depoimento de David), ou o desta moradora, que recebeu um tiro de bala de borracha no rosto durante a operação, e teve a palavra na audiência pública.

Um caso curioso, se não fosse trágico, foi apresentado pelo Secretário da Presidência da República, Paulo Maldos. Em seu depoimento ele relembrou que acompanhou de perto todo o procedimento de reintegração de posse e que ele também acabou sendo mais uma das vítimas da polícia paulista ao ser atingido por uma das balas de borracha disparadas naquele dia. Pior ainda foi quando tentava entrar no perímetro que era protegido pela polícia. Ao se deparar com um oficial da polícia, Maldos identificou-se como Secretário da Presidenta, apresentando seu cartão com o brasão da república  e dizendo que iria entrar. O oficial simplesmente respondeu que ele não ia entrar e, se acaso ele não estivesse satisfeito, que mandasse a presidenta ir falar pessoalmente com ele.

Maldos conclui seu depoimento lembrando que, ao testemunhar nove horas a maneira como a polícia executou a operação de reintegração de posse, ele pode dizer que as polícias estavam ali com ordens muito claras em relação a população do Pinheirinho: cercar e aniquilar. Disse que as ondas de ataques à população durante todo o período em que ele testemunhou, foram muito violentas e não importava se as vítimas fossem crianças, mulheres, idosos e deficientes. Com tudo o que viu, não lhe restaram dúvidas quanto as intenções das polícias no Pinheirinho. O banho de sangue só foi evitado graças à inteligência da liderança dos moradores do Pinheirinho que, uma vez que tinham sido surpreendidos, ponderaram que o melhor naquele momento não seria optar pelo enfrentamento, mas sim pedir a todos que não reagissem e que ficassem dentro de suas casas.

Disponibilizo aqui a transcrição da fala de Paulo Maldos na audiência pública realizada pelo CONDEPE e publicada no blog do Partido da Imprensa Golpista.

Por fim, mas não menos importante, o Senador Eduardo Suplicy (PT) também esteve presente na audiência pública e acompanhou cuidadosamente aquilo que havíamos produzido quanto às denúncias dos moradores de Pinheirinho para que ele pudesse levá-las ao Senado Federal e cobrar posicionamento de seus pares. Melhor disponibilizar o vídeo com a fala dele, do que tentar descrevê-la:

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O atual governo de São Paulo e o Golpe Militar de 1964

Os recentes e lamentáveis episódios de violência da Polícia Militar contra os cidadãos do Estado de São Paulo (USP, Cracolândia e Pinheirinho), tem explicitado de maneira exemplar como esta instituição ainda é regida pelos mesmos princípios de uma época em que os militares detinham o poder em todo o país: ordens superiores para usar a violência à vontade com a certeza da impunidade.

Essa atitude da Polícia Militar não está desconectada do pensamento reacionário que norteia a presente administração estadual em São Paulo. Prova disto é que nesta semana circulou nas redes sociais a informação de que o site da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo tratava o Golpe de Estado que depôs o governo legítimo de João Goulart, em 1964, como se este tivesse sido uma Revolução, na qual a Força Pública e Guarda Civil paulista se puseram solidárias as autoridades e ao povo, como demonstra a imagem abaixo.

Site da Secretaria de Segurança Pública

Imagem retirada do site da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Depois da informação ter sido amplamente divulgada, a Secretaria retirou a informação referente ao ano de 1964 de seu site.

O caso é ainda mais preocupante do que as demonstrações de violência da polícia, pois no site é  a administração pública que, ao louvar uma época onde direitos civis e liberdades individuais eram completamente ignorados, dá mostras de que está alinhada com o total desrespeito aos valores democráticos vividos naquela época. Portanto, a maneira como a Polícia Militar vem atuando recentemente, é apenas reflexo de como os governantes de nosso Estado pensam a Segurança Pública.

Não estou querendo dizer com isso que não houve avanços desde a consolidação de um regime democrático no Brasil a partir de 1985. Nada disso. É claro que o Brasil de 2012 está bem distante do Brasil de 1964 e 1968. Contudo, a Polícia Militar, especialmente quando administradas por governos coniventes com o uso da violência, como os de Luiz Antônio Fleury Filho (Carandiru), Paulo Salim Maluf (“A Rota na rua”, “Bandido bom é bandido morto”, “estupra, mas não mata”) ou Geraldo Alckmin (grupos de extermínio), não temem em exibir à sociedade seu desprezo pelos mínimos direitos civis e liberdades individuais que foram duramente conquistados com a Constituição de 1988.

Não podemos ficar apenas assistindo as constantes violações de nossos direitos e liberdades por governantes que, ao desrespeitá-los, não nos representam. Passou o momento de agirmos e, o mínimo que podemos fazer, é denunciar a todos os órgãos de proteção dos direitos humanos, sejam eles nacionais ou internacionais, as frequentes violações que estamos sofrendo.

Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa HumanaAmanhã, junto com um grupo de voluntários do CONDEPE, estarei em São José dos Campos colhendo depoimentos de tudo o que ocorreu com os moradores que sofreram a reintegração de posse no Pinheirinho. O objetivo é reunir e organizar relatos  das violações de Direitos Humanos e denunciá-los junto a instâncias nacionais e internacionais de proteção desses direitos, tais como a Defensoria Pública, o Ministério Público e a Junta Interamericana de Direitos Humanos, por exemplo.

Pode ser pouco, mas é um dos instrumentos que temos à mão para cobrar satisfações, apurar responsabilidades e punir essas autoridades que só tem nos desrespeitado. Espero não sofrer nenhuma violência junto com os colegas e, se tudo der certo como planejamos, depois de amanhã terei novidades de nossa atuação em São José. Desejem-nos sorte!!!

VIDEOS INTERESSANTES SOBRE O GOLPE DE 1964:

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O legado da Copa e das Olimpíadas ao Brasil: sem-tetos

Certamente o maior legado que a Copa do Mundo e as Olimpíadas deixarão para o Brasil será o número exorbitante de famílias sem teto. Como temos acompanhado recentemente, as desapropriações já começaram e o rastro de violência, destruição e morte já se faz perceber. Segundo o Portal Popular da Copa e das Olimpíadas, duas mil pessoas já foram despejadas e estima-se que, até o final do processo, 170 mil pessoas tenham seu direito a moradia atingido.

No caso de Pinheirinho, não é de surpreender que São José dos Campos esteja justamente como uma das paradas obrigatórias na rota prevista para o Trem de Alta Velocidade (TAV), que ligará Campinas e São Paulo ao Rio de Janeiro. Não restam dúvidas de que o projeto do TAV (estimado em R$ 33 bilhões) contribuiu para colocar ainda mais pressão ao supervalorizar um terreno com mais de um milhão de metros quadrados em São José dos Campos.

São José dos Campos, uma das paradas na rota proposta para o TAV que liga Campinas ao RJ

Embora o projeto não deva ser concluído a tempo para as Olimpíadas no Rio de Janeiro, já que teve sua licitação adiada para abril de 2012, todo ele foi proposto, justificado à opinião pública e vendido às autoridades esportivas como um grande esforço do Brasil para melhorar a infraestrutura de transporte para os jogos olímpicos, o que faz com que Pinheirinho seja incluído nessa conta dos 170 mil despejados levantados pelo dossiê nacional de violações dos direitos humanos.

A notícia sobre os despejos já realizados no Brasil chamou atenção para o fato de que para os movimentos populares, a maior ameaça de violação do direito de moradia viria em decorrência de grandes projetos urbanos com impactos econômicos, fundiários, urbanísticos, ambientais e sociais. “Além das obras públicas em si, é esperada a proliferação de condomínios de luxo e centros empresariais”. Não por acaso,  o destino que se pretende dar ao terreno desocupado do Pinheirinho é justamente a criação de uma extensão de um centro empresarial que já existe na região. Como bem apontada a reportagem: “as empresas do setor imobiliário atuam para retirar ou isolar populações pobres na região, ou podem até “atropelar” comunidades para se expandir.”

O crescimento econômico brasileiro, no qual a construção civil e propriedade privada desempenham um papel cada vez maior, está por trás de todo esse caso do Pinheirinho, como aponta Rodrigo Nunes em seu artigo para a versão online do jornal britânico The Guardian.  A escolha do Brasil como sede para a Copa do Mundo e Olimpíadas somente acelerou este processo sendo que o Estado brasileiro vem atuando neste processo repassando áreas públicas – inclusive aquelas ocupadas pelos pobres – à iniciativa privada e também concedendo isenções de impostos para financiar boa parte das obras. O estádio do Corinthians, em Itaquera, é só mais um exemplo.

O direito à moradia adequada é sistematicamente violado quando os países se preparam para sediar grandes eventos como Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos. Já havia sido assim em Beijing e também na África do Sul, portanto não seria diferente no Brasil, como reportou às Nações Unidas a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e também relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik. Para ela, na história dos megaeventos esportivos, o propalado legado urbanístico e socioeconômico é a exceção, não a regra. Muito mais frequentes são os casos em que as populações desassistidas se transformam em vítimas de um processo atropelado de remoção e as contas das cidades mergulham no vermelho.

Como relatora da ONU, Rolnik denunciou a violação de direitos humanos ocorrida na reintegração de posse do Pinheirinho e também lançou um “apelo urgente” para que as autoridades interrompam a atuação em São José dos Campos. A relatoria pedirá explicações sobre as ocorrências na região e alertará para violação de direitos humanos ao se usar polícia e confronto na reintegração.

Com a transformação do Brasil em um imenso canteiro de obras, o fato de existirem pessoas vivendo onde se deseja construir acaba se tornando um grande problema, como lembra um post no Blog do Sakamoto. Dessa forma, o autor pondera que para não interromper o caminho do crescimento brasileiro, remove-se, expulsa-se, retira-se sem se importar onde estas pessoas passarão a viver, sendo que a única coisa realmente importante é que elas não atrapalhem a marcha de crescimento do Brasil, seja na construção de casas, escritórios, estradas, hidrelétricas ou estádios de futebol.

Sakamoto lembra bem ao falar que a política higienista no governo de São Paulo, seja na instância municipal ou estadual, não é novidade. Sabemos que empreiteiras e especuladores imobiliários há tempos doam recursos para as campanhas dos políticos, emprestam parentes para cargos públicos, influenciam o cumprimento ou  não de regras como no caso do plano diretor da cidade de São Paulo. Concordo totalmente com ele que a conclusão que podemos chegar a partir disso é que neste país, infelizmente, a Constituição Federal é letra morta, especialmente se levarmos em consideração que a função social da propriedade, conforme descrito na Constituição, não é levada em conta nas decisões judiciais e justamente por isso os direitos das comunidades não são preservados.

O pessoal do Pinheirinho ousou resistir, mesmo sabendo que seriam massacrados, como realmente o foram. O exemplo desta comunidade é paradigmático ao ilustrar muito bem como o Estado vai reagir se alguém se interpor no caminho do Brasil que vai pra frente. Tendo isso em mente, enquanto vejo a apoplexia da maior parte da população brasileira, só posso formular uma pergunta que me deixa extremamente angustiado: quantos Pinheirinhos mais teremos que testemunhar daqui até 2014 e 2016?

Infelizmente, não há como saber quantos haverão, mas sei que muitas desapropriações repletas de violência e morte são certas. Aguardem porque notícias sobre desocupações violentas no Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Natal, Salvador e Manaus são só questão de tempo e quando 2014 chegar, haverão aqueles que ao ouvir o Galvão Bueno se ufanando sobre as qualidades do Brasil e do seu povo, vão estufar o peito e sentir orgulho de ser brasileiro, preferindo ignorar que o verdadeiro legado que estes megaeventos nos deixarão será um número exorbitante de famílias sem-teto e, consequentemente, um enorme rastro de violência, destruição e morte, até mesmo em locais por onde eles não vão passar, como em São José dos Campos.

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